11.4.06

Marítimo I - (Ri)Mar

Quieto,
Mudo
Repousa sobre o mar.
Desconstruído,
Levita,
Flutua
Sem nunca navegar.

7.4.06

Uma pergunta

De que é que vale sentir quando é tudo tão escasso, tão insuficiente, tão efémero, por mais verdadeiro que seja?

Publicidade gratuita


Ao álbum da Joana Machado, CRUde. Que coisa deliciosa, que entra por nós como chocolate derretido. E aqui há links para ouvirem qualquer coisa ( e mais elogios claro).

31.3.06

AVISO

Quem quiser vender o seu bilhete para Kings of Convenience - faz-se bom negócio- pode fazê-lo deixando o seu contacto nos comentários.

Era só isso, visto que hoje fui comprar e a senhora da loja (que ia recebendo um carinhoso aperto no pescoço por me dar tão boa notícia) informou-me que o dito está esgotado há 3 dias. Ou seja, para chatear ainda mais, se eu tivesse comprado no fim de semana como tinha planeado tinha neste momento o bilhete na mão e não me estava aqui a lamuriar.

Julgo ser hora para uma breve reflexão acerca deste problema que tanto aflige portugueses como eu que se preocupam em comprar bilhetes com SÓ um mês de antecedência. Meus amigos, se calhar a Aula Magna é um espaço pequeno para tanta gente que queria ir ver o concerto. Ou, se insistem tanto em fazê-lo na Aula Magna, e insistir dessa maneira é bom, porque de facto é uma sala especial, façam concertos em dois dias, como o dos dEUS em Dezembro de 2005. Há público para isso, caros produtores das coisas. É que está mais que visto que muito boa gente fica sem ver concertos das suas bandas preferidas por não comprar o bilhete mal este é posto à venda.

Obrigada aos senhores produtores das coisas. Por vossa causa vou provavelmente passar o meu dia 29 de Abril a chorar.

A revolta mantém-se mas ao menos agora está registada.

19.3.06

Feliz dia do Pai

Porque o João já tem oito anos e tornou-se um miúdo cheio de pinta e fomos juntos ver o nosso Benfica, e eu comprei-lhe uma camisola que dizia Simão, e o puto todo contente a mostrá-la aos filhos dos outros gajos lá no estádio, sem ligar nenhuma ao jogo, e quando foi golo, eu chamei-o "João, pá, viste o golo?" e ele todo contente "Foi o Simão?".
Porque a Margarida tem 5 anos e ainda anda de chucha na boca, a pediatra diz que não é para se preocupar porque na primária ela vai sentir vergonha e vai acabar por desistir de andar sempre a chuchar borracha, e tem tanta graça porque já usa palavras difíceis, como amizade e igualdade ( palavras difíceis para a idade, pois), só que tem sempre a chucha e as palavras soam cheias de cuspo e de interferências como um rádio distante, mas temos grandes conversas com ela ao meu colo sobre os amigos do infantário. E a miúda é mesmo uma querida, e é igual à mãe com os caracóis louros e os olhos cinzentos, é linda, ela, são lindas, as duas.
E depois há o Henrique a quem me ando a habituar a chamá-lo de filho porque só anteontem veio lá para casa, tem onze anos e um passado de quem tem quarenta anos como eu, uma mãe alcoólica, um pai monstruoso, uns irmãos que em vez de jogarem Playstation, conheceram pistolas e assaltos à mão armada. Mas nós estamos dispostos a velar por ele e a fazer desta casa, o seu lar e desta família, a sua família, e a cada minuto que passa gosto mais dele, de como é calado, obediente e de como nos olha com a mesma gratidão que olhamos para ele, porque ele veio preencher um vazio na nossa vida, um vazio que não sabíamos existir.

Ontem disse excepcionalmente uma frase com três palavrões

Foda-se, as putas têm uma vida de merda.

18.3.06

D2

E se eu tivesse estado sempre debaixo do teu nariz e tu debaixo do meu, e as nossas vidas se tivessem cruzado por alguma razão e nós nunca tivéssemos dado importância. E se eu quisesse, eu quero, e tu também, mas por outra qualquer razão evitássemos falar sobre isso. E se eu te olhar nos olhos por muitas coisas, entre elas gostar de ti. E se eu tivesse vontade de viajar contigo, de acordarmos cedo para irmos palmilhar, hmm, sei lá, Oslo ou Estocolmo e o frio fizesse com que estivéssemos sempre abraçados. E se eu tivesse medo de te dizer estas coisas e por isso tivéssemos a perder uma oportunidade para sermos felizes de outra maneira. E se quando toda a gente estiver a olhar tu sorrires (os olhos fechados, sempre) e eu achar que esse sorriso é meu, só meu.

Nova aquisição



"Once I wanted to be the greatest
No wind of waterfall could stall me
And then came the rush of the flood
Stars of night turned deep to dust

(...)

Once I wanted to be the greatest
Two fists of solid rock
With brains that could explain
Any feeling"

:)

17.3.06

Y tu mamá también

Informo-te por este meio, mamã, que o teu futuro genro, apresentado há dois posts atrás, é o Diego Luna.

Espero que a tua mente esteja aberta a novas experiências.

16.3.06

D1

Estou aqui mas também podia não estar, podia estar ali, acolá, algures, onde me quiseres. Podia ser quem quisesses que eu fosse mas não sou, sou quem sou e estou aqui.

Podia ter tentado qualquer coisa, podia ter sentido tudo mas acabei por apenas sentir qualquer coisa.

E tu muito suavemente empurravas-me para o precípicio onde eu preferia cair e disseste-me "esquece-o" e eu esqueci-o porque tu me pedias, então agarrei com força a tua mão direita e içaste-me para o teu colo e fechaste os olhos enquanto sorrias e eu pensava em qualquer coisa bonita para te dizer mas eu nunca fui boa de palavras, e a minha felicidadae era maior do que eu por isso não disse nada porque não havia mais nada bonito para se dizer do que o teu sorriso de olhos fechados.

Então beijei-te no beijo que sonhava há tanto tempo e tu abriste muito devagar os olhos para prometer que eu nunca, nunca, nunca mais me iria sentir só.

Não, mamã, não vou ficar para tia


Eu e este rapaz vamos juntar os nossos trapinhos.

Under the lights

Deixei-te lá fora depois de fechar a porta como se aqui não pertencesses, ficaste sentado no chão, junto ao tapete de limpar os pés. A luz do corredor apagava-se de 4 em 4 minutos, levantavas-te e acendias, até que um dia desististe e deixaste-te ficar na penumbra, apenas a clarabóia deixava entrar uma claridade muito ténue, tornando a escuridão menos confiante.

20.2.06

Sugestão da semana

Todos os blogs, ou a grande parte deles, tem posts com sugestões de leitura, de audição ou de programação nocturna. Creio que o Desumanos peca por defeito nesse sentido. A sua autora, que é como quem diz eu própria, raramente sugere alguma coisa porque não gosta de se meter na vida dos outros, mas hoje decidiu lembrar aqui a genialidade de um poeta com que tanto se identifica. Mário de Sá-Carneiro. Sei que a maior parte dos que frequentam este blog, se é que se pode chamar frequência às vossas esporádicas visitas, estão familiarizados com a sua obra, mas nunca é demais recordar quem o merece e para aqueles que não conhecem fica aqui uma amostra para despertar a curiosidade.

DISPERSÃO

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.
(...)
Desceu-me n'alma o crespúsculo
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crespúsculo.
(...)
Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hore foge vivida,
Eu sigo-a mas permaneço.

SERRADURA

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.
(...)
Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa. (...)

A QUEDA

E eu que sou o próprio rei de toda esta incoerência,
Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la
E giro até partir... Mas tudo me resvala
Em bruma e sonolência.
(...)
Não me pude vencer mas posso-me esmagar,
- Vencer às vezes é o mesmo que tombar -
E como inda sou luz, num grande retrocesso,
Em raivas ideais, ascendo até ao fim:
Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso...

Tombei...
E fico só esmagado sobre mim!...

Das obras Dispersão e Indícios de Oiro, de Mário de Sá-Carneiro.

Z3

Hoje o vento trouxe-me o aroma dos nossos beijos e eu rendi-me à saudade de te ter.

Curso de Francês I

"Et maintenant, au coeur de la nuit comme un veilleur, il découvre que la nuit montre l'homme: ces appels, ces lumières, cette inquiètude. Cette simple étoile dans l'ombre: l'isolement d'une maison. L'une s'éteint: cette une maison qui se ferme sur son amour."

Antoine de Saint- Exupéry
Vol de Nuit, 1931 (1 ére édition)
Gallimard

19.2.06

Domingo

Rio por dentro, por fora e finalmente lembro-me de mim e reconheço-me, sou aquela que descalça os sapatos e molha os pés nas poças de água, que enfrenta o sol franzindo a testa sem medo de rugas, que canta e desafina porque sim.

Existe algum momento em que mudamos definitivamente porque crescemos ou somos perenes e o nosso crescimento aponta para cima em busca do sol? Hoje dei comigo a fazer perguntas sem procurar respostas imediatas como era meu costume, se calhar o que amadureceu foi a minha capacidade para aguardar por uma resposta, um resultado, um sentimento, um projecto.

Se calhar quando se cresce dentro de nós há origem e não fim.

E de qualquer maneira quando é que se pára de crescer? Nunca? Amanhã? Dentro de três dias e afinal só daqui a um mês? E se alguma vez se parar, para quê crescer? Torna-nos pessoas melhores, ponderadas, verdadeiras, com noção do que é importante e do que é dispensável? Ou em casos particulares, piores, incluindo exacerbação de defeitos antes subtis?

Em todo o caso, melhor ou pior, os meus passos não tocam o chão porque levito sobre mim própria apesar de carregada com o passado. Talvez amadurecer seja isso mesmo: ter um presente indissociável do passado.

Apesar de tudo, continuo sem respostas.

16.2.06

Coimbra tem mais encanto a qualquer hora do dia

E hoje passou a ter ainda mais, porque descobri que os Wraygunn, e portanto o Paulo Furtado, e os Belle Chase Hotel, e portanto o fantástico maravilhoso JP Simões, entre outros, são bandas nascidas em Coimbra.

Gosto de Coimbra, de passear sob o ar compungido dos seus habitantes, de inspirar história e expirar poesia, de ver o rio, a Universidade, os jardins.

Adorava apaixonar-me em Coimbra. É assim, ao lado da Madeira e de Lisboa, o outro sítio onde me sinto bem neste país de ... *Ai que hoje não me apetece ofender-me*... neste país de portugueses.

Uma frase que eu gostava de ter escrito mas não escrevi (é de uma animação portuguesa)

"Era uma vez uma menina cujo coração batia mais depressa do que o das outras pessoas."

Simplicidade.

Quanto mais repito esta frase, mais sentido ela faz

"Eu acho que o facto de homens e mulheres serem mesmo amigos, sem nunca haver atracção sexual ou sentimentos no mínimo unilateralmente, é um fenómeno que contraria a natureza normal da vida e por isso mesmo é uma grande farsa em que todos fingimos acreditar."

Viagens de avião exigem altas pressões que o sistema pode não compensar

Acho indecente a forma como os seres humanos se descartam uns dos outros, como se fôssemos todos papéis de rebuçado.

Aliás a analogia não é aleatória, usamos de cada um aquilo que nos é agradável (chupar o doce do rebuçado) e depois, tal qual o plástico de embrulho (que ainda por cima faz aquele barulhinho irritante), deitamos fora o que não nos interessa.

1.2.06

Parabéns atrasados

Com este 119º post celebra-se o 1º aniversário dos Desumanos.

Longa vida ao meu blog!!!

(Ou não, ou não...)

Sabes que é para ti

Um dia vais reconhecer que tudo isto foi um grande erro e que esta distância que nos impões é um dispêndio da economia humana. Posso parecer muito forte por fora, mas por dentro fico de rastos cada vez que me atiras com aqueles teus olhares frios de quem-não-quer-saber-e-na-verdade-está-se-mesmo-nas-tintas.
Dói pensar que isto foi para ti a gota d'água quando nem deveria ter significado nada para uma amizade que é tão jovem como é honesta.
Pensei que me conhecesses melhor, e eu a mim também, mas quero falar sobre ti hoje, quero-te dizer que tu mereces mais do que aquilo que te fiz, tens razão nisso, mas não tens razão quando não me perdoas nem és sincera comigo o suficiente para me dizeres que ficaste magoada e que provavelmente nos próximos tempos vais querer distância de mim.
Fico preocupada contigo, sabes quem és, se não sabes eu digo-te, és a minha melhor amiga, és mais do que isso até, és a irmã mais velha que nunca tive, és a primeira pessoa na minha cabeça de manhã e a última antes de me deitar.
Podia estar aqui a recordar o início atribulado e repentino da nossa amizade, cada peripécia em que nos envolvemos, todas as vezes que precisei de ti e tu estavas disponível ou em que me ligavas e mentias "está tudo bem, mas não queres vir aqui?" e o meu coração ficava pequenino porque sabia que estava qualquer coisa mal, cada gargalhada feliz que demos, cada lágrima que chorámos juntas, as mensagens e telefonemas tardios, as surpresas, as rotinas, as obrigações, os pequenos prazeres.

Sabes que gosto muito de ti e que não sou burra nenhuma, já percebi que precisas de espaço e de tempo. Mas enquanto isso faz-me um favor, não te esqueças de mim, querida.

Z2

Penso em ti e vêm-me à cabeças as coisas que te queria dizer mas que me ficaram entaladas na garganta como espinhas de peixe.
Lembro-me que a luz entrava grandiosamente pela janela, enchia a sala de uma Primavera inusitada, nós conversávamos enquanto olhávamos sem ver para a televisão, que transmitia um jogo da Liga Inglesa, recordávamos juntos a noite em que nos tínhamos conhecido e todas as outras que vieram a seguir. E apeteceu-me tanto te dizer coisas bonitas para que nunca mais me esquecesses mas o teu entusiasmo sobrepunha-se ao meu medo de falar, por isso ouvi-te embevecida sem te interromper e ficou tanto por dizer.

Agora tenho medo que me esqueças, que a rapariga (mulher?) de vestido castanho tenha menos medo do que eu e te diga as coisas bonitas que eu gostava de ter dito.

Z1

Agarrei num pincel e pintei-te. Não me esqueci de nada, os teus lábios carnudos mas suaves, os teus olhos castanhos e grandes, o teu nariz genialmente esculpido na tua face ossuda, que também desenhei, aqueles dois sinais que tens mesmo ao lado do olho direito. Demorei algum tempo com o teu cabelo, sabes que é difícil desalinhá-lo e deixá-lo ao mesmo tempo penteado como tu fazes.

Confesso, não fui capaz de captar o teu sorriso, de roubar aquele brilho do olhar que me põe as pernas a tremer, de pintar aquelas madeixas grisalhas que tanto te preocupam ou de passar para o papel as tuas rugas de expressão enquanto sorris e fechas as pálpebras, por isso o meu desenho, que se exigia ser uma fiel representação de ti, não passa de rabiscos de criança ao lado da imensidão da tua beleza. Porque tu és bonito para além do teu aspecto físico, há mais qualquer coisa em ti que eu não consigo explicar nem, talvez por isso mesmo, consegui transmitir com o meu pincel.

Guardei os pincéis e os óleos e decidi procurar-te dentro de mim. E rapidamente descobri o que falta à minha pintura para se parecer contigo, são as tuas mãos a agarrarem-me na cintura enquanto a tua voz me pede "Não vás.".

Relações

Não te consigo tirar da cabeça.

Não digas isso.

Mas não consigo, o que é que queres que faça?

Não digas isso, Joana.

Porquê?

Pára com isso.

Pára de me dar ordens.

Não o estou a fazer.

Tens saudades minhas?

O que é que achas?

Sei lá, se soubesse não te perguntava.

Pára com isso.

‘Tás-me a dar ordens outra vez.



Hoje estás impossível.

‘Tou nada.

Tens vontade de estar comigo?

Tenho vontade de apanhar um avião e ir a Lisboa, se é isso que queres saber.

É mais ou menos isso que quero saber, sim.

Só não sei fazer o quê.

Não?

Não, mas tu deves saber. Sabes sempre tudo.

Mas desta vez não sei. Estar comigo, suponho.

Depois apanho outro avião e voltamos a estar longe.

Não que estejas apaixonado.

O teu ouvido está melhor?

Está. Não mudes de assunto.

O que é que estar apaixonado tem a ver com isso?

Tem a ver que só custa estar longe da pessoa por quem se está apaixonado.

Não é bem assim.

Vês, não estás apaixonado.

E tu, estás?

Estamos a falar de ti.

Eu sei.

E então?

Então que gosto muito da Joana que está na Madeira.

Que Joana é essa?

És tu.

Mas eu não estou na Madeira.

Pois não.

Portanto não gostas desta Joana que está a falar contigo ao telefone.

Não, dessa Joana tenho saudades.

Hoje estás impossível.

E tu repetitiva.

Não te consigo tirar da cabeça.

Nem eu.

19.1.06

"If I could have a second skin, I'd probably dress up in you"

Dress up in you

"I always loved you
You always had a lot of style
I'd hate to see you on the pile
Of ‘nearly-made-it' s.
You've got the essence, dear
If I could have a second skin
I'd probably dress up in you."

Belle and Sebastian

18.1.06

De battre mon coeur est s'arrêté

Queria saber se um dia os cinco dedos da minha mão esquerda, num passeio onde quiseres, se entrelaçarão com os cinco dedos da tua mão direita num nó cego irreversível. Escrevo de madrugada porque sei que esta resposta não a traz nem o vento nem a lua nem a aurora, escrevo agora porque tenho esperança de te encontrar nos meus sonhos.
Parce q'un jour tu m'as dit que tu n'aime pas personne et aprés ça j'ai devenue pensative et triste.
Gosto de ti com receios porque a vida foi calcando calçadas e pátios de dor e uma vez li numa crítica musical que é o amor que traz ao mundo as angústias e os medos mas também as reflexões e as progressões, era um filósofo esse crítico musical, e eu pensei em ti quando li isso porque também li um dia que le peur de n'être pas correspondu pendant l'amour peut léser l' authenticité de cette sentiment. E eu volto a contar o número de vezes que o meu coração bateu desde que chegaste (incontáveis) e de vezes que me disseste não (que ainda nem enchem os dedos de uma mão) e quando eu não te conhecia e era um feijão de gente dizia que muitas vezes era só quando os dedinhos do corpo já não chegavam, por isso, como uso apenas o polegar, o indicador e o médio, depreendo que nos falta tanto para decidirmos o que fazer com este olhar que procura o olhar do outro. E hoje os teus olhos estavam extraordinariamente claros, pude ver o mar, o céu e um bocadinho do universo, nonobstant tout qu'on a passé j'ai envie de t'enlacer et de lire ton âme.
O francês é a língua mais romântica de todas, é cantada mas não chorada, é suspirada mas não soprada e eu encho-me de coragem para escrever coisas bonitas em francês para tas dizer ao ouvido, mas a professora teima que ainda não nos ensinou o passé composé nem o futur e por isso só podemos usar o présent de l'indicatif nas nossas redacções, mas eu teimo com ela e escrevo as nossas linhas tangentes no francês que posso e tento ser romântica e usar palavras profundas, mas tu olhas-me nos olhos e só me apetece dizer-te, como no filme,

de battre mon coeur est s'arrêté.

E estragar tudo e acrescentar pour toi.

16.1.06

Sapatos vermelhos

Ao fim da tarde corria pelo prédio o aroma da chegada dos vizinhos a casa, ouviam-se chaves nas fechaduras, bater das portas, panelas e tachos na lufa-lufa do jantar, a água dos banhos das crianças corria pelos canos e de repente todo o prédio ganhava vida, os passos humanos para cá e para lá aquecendo cada andar.

Era aí que ela tirava os sapatos vermelhos, de baile,e os calçava, punha a tocar o seu bolero preferido de maneira a que todo o prédio parasse para ouvi-la e rodopiava, só, pela sala, pequenos passos para diante, outros em redor de si mesma, passos para trás e para ao lado em movimentos delicados.

Quando a música acabava, ela, exausta, tirava o disco da grafonola e guardava-o na estante; quanto aos sapatos, esses, desde que os comprara que os sentia apertados, por isso escorregavam para o armário aos últimos acordes, os pés doridos deslizavam lentamente pelo soalho até à cama onde se enroscava até ao dia seguinte.

"Quero é viver"

Enquanto a vontade de viver não vinha, entretinha-se a alinhar sobre a cómoda junto à cama:

- Valium e uma garrafa de vodka;
- uma corda de três metros;
- uma 0,5 carregada;
- umas sapatilhas para subir ao telhado.

Esperava pacientemente que uma razão de viver a encontrasse ali quando a única coisa que ela sempre procurara fôra uma razão para morrer.

12.1.06

Pequenina

Se algum dia descobrirmos que nada disto foi mais que uma passagem do tempo e que isto que vivemos foi tão ou mais irreal do que o que sentimos, espero por ti na ponte sobre o rio para as despedidas. Sei que direi coisas sem sentido, que vou provavelmente chorar e achar que não.
Tudo isto vai ter valido a pena se nesse dia me deres um abraço apertado, daqueles que duram horas que são segundos, e me prometeres que nunca hás-de desaparecer da minha vida.

Daqui à água é um salto grande e a água está fria, gelada. E as trutas vão desovar à nascente mas talvez aqui já nem haja trutas porque o rio está imundo e imunda está também a minha alma enquanto te vê partir, estás de costas para mim e eu fico cada vez mais pequenina

mais pequenina

mais pequenina

mais pequenina

até me tornar um pequeno ponto mais pequeno que o grão de areia que me ofereceste quando fomos à praia ver o mar.

Inquietação

A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está p'ra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me a fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
P'ra ficar pelo caminho

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está p'ra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda.

José Mário Branco

10.1.06

*inserir aquele smiley vermelhinho com corações*

Fazes-me pensar em nuvens e em pássaros e em coisas esquisitas. E de repente, pois, agora mesmo, não tem coisa de cinco minutos, comecei a falar como tu, ou pelo menos como imagino que falas.

Desde que te conheci (conheço?) não ando, levito a milímetros do chão. E não tiro da cara este sorriso estúpido, mesmo quando disse ao arrumador de carros "Irra que é chato como a putaça", coisa que aliás eu nunca antes tinha dito na minha vida, eu também tinha este sorriso, que teima em ficar aqui e vai ficando. E a culpa é dele se eu for pensando em ti e sorrindo cada vez mais.

Mas tu levas-me para lugares bonitos com as tuas palavras e as coisas que me dizes sem palavras e sem gestos ou olhares, só com smileys e sinais de pontuação.

É, o pior que pode acontecer é isto mesmo. E isto já é tão bom.

5.1.06

Accionar modo medo


Esta minha t-shirt (oferecida ironicamente pela minha mãe há dois Natais atrás), diz junto ao peito em letras amarelas "Mental state of independence" (que caracteriza eficazmente o modo como me sinto agora).


A parte do medo??

Aqui em baixo diz "69".

Identidade II

Porque a Cristina é (ainda) mais problemática e complicadinha (faz lembrar aquela música dos GNR, qualquer coisa tipo "Mas com uns pós modernos nada realizados sentimo-nos complicados") e como eu honestamente estou farta deste meu alter-ego intelectualóide e constantemente deprimido, decidi mudar o meu nome para um bem mais próximo ao meu, uma vez que no dia 31 de Dezembro de 2005 nasceu uma nova pessoa.

Alguns amigos chamam-me Jonie, outros Bats (diminutivos dos meus nomes), qualquer um deles não fui eu que inventei. Mas identifico-me bastante.

Não sei se será bom para o blog mas a verdade é que a maioria das chatices de que a Cristina se queixava tende a desaparecer (a maior parte, levou-a o ano velho para, felizmente, bem longe).
A Jonie Bats é bem mais disposta, apesar de achar que há muita coisa no mundo que pode (e deve) de mudar. No mundo e nela própria.

Benvinda, Jonie Bats!

2.1.06

Ano novo, vida nova

Porque 2005 foi um ano muito enjeitadinho em termos de felicidade, deixei-me de new year's resolutions por agora e vou-me dedicar a encontrar defeitos no ano que passou... Ao melhor estilo "passas das 12 badaladas":
  1. De repente fiquei mais só
  2. porque namorava há 4 anos mas já não deu mais.
  3. A verdade é que não me consigo afastar
  4. porque afinal preciso sempre de ter alguém
  5. e as one night stands em que me tenho envolvido
  6. não dão calor nem carinho
  7. quando me apetece apenas beber um chocolate quente
  8. e enroscar-me num sofá a ver um filme.
  9. Distanciei-me de uma grande amiga
  10. porque ela achou que eu queria enroscar-me no namorado dela.
  11. Roubaram-me o que tinha de valor no Sudoeste apesar de até ter sido divertido.
  12. Estou mais vazia.

Foram boas razões para me despedir com alegria do velho ano, como dizia a minha professora primária e dizer

OLÁ 2006!!! aos gritos de forma extravagante pelas ruas do Funchal.

Feliz ano novo para todos os que se lembram de passar por aqui.

17.12.05

Há Sempre Alguém

A chuva varre as janelas do teu apartamento.
A minha bagagem repousa ao abrigo do vento
E eu nem preciso de olhar para ti
Para saber o que esperas de mim.
Tu queres-me fazer cumprir
Coisas que eu não prometi.

Tu também sentes na pele o sopro da mudança,
Mas ficas sentada na sala à espera da esperança.
Aprendemos juntos a enfrentar o frio,
Embarcámos juntos no mesmo avião
E agora tu queres parar...Dormir na margem do rio.

Mas, basta-me saber que há sempre alguém a lutar contra a corrente
Para me apetecer saltar,
Ir nadar ao lado dele,
Derretendo com o olhar
Todos os muros de gelo
E não consigo descansar
Enquanto não alcanço uma nova nascente.

Dizes que não suportas ver-te sózinha ao relento
Mas tudo o que fazes é soltar o teu longo lamento

E eu vou para o meio da multidão,
Não levo a virtude nem a salvação,
Mas levo o meu calor
E uma guitarra na mão

E basta-me saber que há sempre alguém a lutar contra a corrente
Para me apetecer saltar,
Ir nadar ao lado dele,
Derretendo com o olhar
Todos os muros de gelo
E não consigo descansar
Enquanto não alcanço uma nova nascente.

E quando te voltar a apetecer seguir em frente,
Se me quiseres acompanhar,
Canta uma canção de amor,
Pinta os olhos cor de mar...
Põe no teu peito uma flor,
Traz um amigo qualquer
E vamos juntos abraçar o sol nascente.

Jorge Palma

8.12.05

Tempo vs Fado vs Fatalismo vs Livre Arbítrio

Tal como um vício do qual não se dissocia há muito tempo, também as imagens do que o que poderia ser não a abandonam, conduzindo-a entre as suas actividades diárias.

Às vezes vislumbra traços de felicidade.

Outras questiona-se.

A maior parte das vezes reconhece que, enquanto a vida não lhe estiver a escorrer entre os dedos, enquanto tiver a certeza que está a fazer tudo para viver, sem exigências, sem compromissos, sem mais, como disse Diderot, se o nosso destino está escrito lá em cima, então cá em baixo podemos decidir o que fazemos dele, somos juízes do curso das estrelas. Está saturada de discursos pessimistas fatalistas, de mãos a abanar "não havia mais nada que pudesse fazer" e um sorriso conformado, acompanhante obrigatório dos que desistem.

Aquela frase "O tempo é o nosso maior amigo", uma merda. Uma completa ilusão com a única finalidade de nos fazer perder cada vez mais tempo útil. O nosso maior inimigo, isso sim, e à medida que ele vai passando é que nos apercebemos disso. Não se deixem enganar. Existam. Sejam.

(A propósito, alguém quer ir ver O Fatalista de João Botelho?)

2.12.05

SAMBA!

Para aquecer as nossas noites de Inverno, cada vez mais frias.
Quero acreditar que o vento hoje sopra com tanta força porque me quer levar com ele.

29.11.05

Fado

A porta foi fechada com estrondo, a madeira corcomida vibrou na pancada, o trinco acusou o passar do tempo e rangeu ao fechar. Mesmo na soleira da porta, encostado, estava um bêbedo, um homem nos seus setentas, bem-vestido apesar de sujo, que ainda que aparentemente inconsciente, resmungava "Viva a Junta geral!". Sacudiu-o com um pé "Vá para casa, senhor!" e ele virou-se para o outro lado e adormeceu profundamente.

Chovia.

Tirou o guarda-chuva da mala e abriu-o sobre a cabeça, mas uma rajada de vento virou-o ao contrário. "Merda." Deitou o guarda-chuva fora e foi assim, com um pequeno salto, que desceu para a rua, evitando o passeio por onde a água escorria como se tratasse de uma levada. Desceu a calçada em passos apressados, em certas pedras da estrada os sapatos não tinham aderência e escorregavam. Para chegar à igreja tinha ainda que subir uma calçada idêntica, mas agora as águas da bátega vinham estrada a baixo e não pôde evitar molhar os sapatos, os pés, a alma. "Merda."

Quando chegou, ela ainda não estava. As mãos tremiam, reconhecia a importância daquela conversa nesse dia, em que chovia, em que o bêbedo estava à porta da sua casa, em que ela perdera o eléctrico e teve que vir a pé. Afogueada, sem saber se do calor, se da ansiedade, encostou-se a uma parede abrigada de S. Pedro por um longo telhado. Respirou fundo.

Aos poucos, enquanto a chuva acalmava, os rostos e as esquinas tornavam-se perceptíveis. Pôde afastar-se da parede, pintada de cal, que lhe deixara o casaco com vestígios brancos, e ir para perto da estátua onde combinara.

Ela não chegava. Sentou-se de esplanada, pediu o inevitável café, acendeu o inevitável cigarro. Ao longe, sim, agora mais definida, uma guitarra portuguesa soava triste. Os seus lábios afastaram-se, deixaram escapar um sorriso. Sempre fora tão portuguesa, admitia, assumia a custo isso, mesmo com a sua vontade enorme de viajar, de ficar por lá, de emigrar. Gostava dos palcos pequenos das tascas onde se soltava a amargura. O fado sempre fôra o seu género de música preferido. E a sua vida acabava sempre por ser escrita de acordo com o que ouvia.

O sol vinha agora para secar as ruas e os corpos e ela, ainda sentada, dispôs-se a recebê-lo e virou-se com a cara para o sul, de onde vinham os raios com mais calor.

Ela não chegava. E ela, sentada, não queria esperar mais, então desceu. Novamente afogueada, descendo depressa, sem apreciar os edíficios que já conhecia de cor, o coração começou a bater acelerado e ela levou a palma da mão ao peito, com dor. Abrandou. Viu a luz ser reflectida dos muros, das casas e dos vidros, iluminava a rua sem vergonha de si mesmo, o sol, e aquecia-a, então tirou o sobretudo. Com o sobretudo na mão, continuou a caminhada e foi envolvida pelo Terreiro do Paço, atravessou a vastidão da Praça fria sentindo-se muito pequena, muito só, como uma semente perdida num celeiro imenso. As pessoas passavam por ela sem se perguntarem "Ela sofre?". Ela também passava por elas todas, muito auto-comiserativa, sem se ralar com a dor de cada um dos que se cruzavam com ela.

Tinha mais com que se preocupar, agora que tudo isto lhe estava a acontecer. O seu mundo desabava sobre si mesmo, que podia ela fazer senão angustiar-se consigo? Nenhum fado tinha sido escrito com pena do vizinho, era sempre de si próprio. E ela, ela assumia-o, era portuguesa e vivia como os poemas escritos ao sabor do vinho e da guitarra.

O Tejo resplandecia de claridade, via-se, lá para os lados do Ginjal, nascer um arco-íris, que parecia mais uma ponte sobre o rio, as sete cores, amarelo, laranja, vermelho, roxo, anil, azul, verde. Sentou-se no muro sobre o cais, olhava em volta e eram só homens da construção civil, tudo em obras, tudo em obras, tudo em obras.

Inspirou profundamente e deixou secar a alma molhada, o olhar fixado na outra margem, no vai-vem dos cacilheiros. Quando não tinha mais lágrimas, muito tempo depois, já era de noite, e as luzes de Natal estavam acesas atrás de si, desenhando rumos de alegria. Sentiu saudade da vida que antes tinha, no entanto sabendo que o que desejava realmente era um corpo que não se importasse de partilhar com ela o seu fado, que desejasse secar as suas lágrimas. Lembrou-se, numa tentativa bem sucedida de se animar, que não há muito tempo tinha sabido ser feliz, que tinha sabido escolher os destinatários das suas palavras, as mãos em que entrelaçava as suas, os olhos em que lia os pensamentos. Sorriu e levantou-se.

Saudade da sua família, de repente, pesando mais do que tudo, mais do que a árvore gigante que se erguia perante a cidade estupefacta, os carros, as gentes perfilando-se, eternas filas de espera, toda a vida à espera para que ela fosse sempre bem-acolhida, mas afinal sempre quiseram ultrapassá-la em tudo, "A inveja mata os sentimentos nobres que nunca chegaram a nascer".

Ela também, amizades condenadas logo à partida por estarem envenenadas de ciúmes e falsas honestidades.

Pôs as mãos nos bolsos do sobretudo, que entretanto vestira, e deixou-se ir na corrente de gente que andava sob as estrelas, sob as mangueiras de luz desenhando no ar objectos e cenas de uma felicidade imensa.

"O que não nos mata, torna-nos mais fortes", e ela ali estava viva, mais forte. Subiu até casa sem se cansar com a inclinação e a velocidade. Comprou uma dúzia de castanhas e pôs-se à janela, vendo o fim do rio ao longe, assistindo ao suceder da noite.

Já a cidade recolhia para finalmente adormecer, quando decidiu fechar a janela, sacudindo para o beiral restos das cascas. Ao longe, ela podia jurar, ouvia-se uma guitarra portuguesa que soava triste, embalando, cansada, as estrelas, as casas, o luar.

22.11.05

Objectos detestáveis (apesar da sua utilidade)

Piaçabas. Detesto o nome que lhes deram, o fim para que se destinam, acho-os feios, ferem a vista em qualquer casa de banho.
Apesar de tudo, o mundo anda a precisar de um piaçaba.

21.11.05

TINDERSTICKS (Can we start again?)

So many times
I said that I love them
Looking over my shoulder at the door
So many times
I can't live without her
The wheel kept turning round
My feeling's changed
I went my own way
What can I say
To make you stay?

(...)

I did you wrong
But I'm sorry now
And I'll show you how

(...)

Can we start again?
So many times I said that I loved them
I'm ready now
But I'm ready now
Can we start again?
So many times
I can't live without her
The ache was more than I could bear
It's turning round

But in my dreams Can we start again?
They smother all over me I'm ready now
And I'm trying to explain Can we start again?

Nota para mim mesma

Comprar o Grace do Jeff Buckley.

14.11.05

Footprints

Se julgas que podemos ser um só, deixo as minhas marcas nos solos por onde passo para que as sigas. Não posso esperar por ti. Deixei-me ficar tempo demais e agora? agora estou livre e caminho sem saber onde acaba este trilho, dou passos pequenos na certeza do fim, cravo as minhas pegadas na lama, podes vê-las sob a tua sombra, vem, despacha-te. Quero partilhar o próximo túnel contigo, proteger-me da tempestade envolta em ti, cheia de ti, quero que escrevas comigo as páginas em branco que aí vêm. Podes vir, vem, porque estamos os dois sós com vontade de partilhar. Pressinto o teu medo, o teu zelo em arriscar tanto, mas nós não vamos para longe, podes voltar quando quiseres, sem laços nem mágoas, vem, tens tanta vida por usar, por gastar, o teu corpo vibra dentro de uma máscara fria e eu ofereço-te todos os meus pensamentos, toma, sem segredos a partir de agora, vem. Se te for suficiente isto, então segue-me, prometo que quando chegar ao lago, sento-me na margem, sem chorar, abraço as pernas para aquecer o resto do corpo e espero por ti. Vem porque o frio e a chuva teimam em não ir embora, vem porque está escuro e os dias são curtos e por onde eu vou não há luz. Vem.

Hoje, Domingo, equilibra-se a alma com:

12.11.05

A não perder

Em jeito de nota de rodapé com honras de letras gordas na primeira página do jornal, venho aconselhar o concerto de Devendra Banhart, amanhã à noite na Aula Magna.

E sei do que vos falo. Vi o senhor em concerto no Sudoeste, no palco Planeta Sudoeste.

Logo que entraram em palco, senti-me transportada para Woodstock, pelo visual, pela boa onda, pelo ar que se respirava. Não é preciso ser-se hippie ou fumar erva para compreender a sua música, feita de simplicidade e boas letras. É só exigido que nos deixemos levar. Que fechemos os olhos e respiremos profundamente, deixando cada acorde e cada palavra disseminar-se por nós e logo a tranquilidade e o prazer encarregar-se-ão do resto. Quando acabou, quem lá estava saíu diferente, ninguém o pode negar, preenchidos por uma mensagem de paz que cada um interpretou à sua maneira.

E quando ele chamou um songwriter ao acaso do público para tocar uma música, que momento tão humilde e generoso!

Este concerto marcou-me muito, mais não seja por o ter visto totalmente sozinha (bom, não tanto sozinha, mas sim acompanhada por um copo de plástico constantemente cheio de imperial).

Enfim, amanhã, dia 12, ele volta para estar connosco. É um aviso.

10.11.05

Melhor comentário 2005

Prémio a ser atribuído com alguma antecipação porque o vencedor desta categoria teve uma ideia que eu adorava ter tido.

Verão :D, este prémio é para si!!!

"Quando eu cheguei parecias encantada. Não te lembras das idas à praia, das saidas agradaveis nas minhas noites, das férias.
Como pudeste fazer isto?!
Prometeste fieldade, falaste em comprar aquecedores para as minhas ausências, em continuar a usar cores vivas, em continuar a comer gelados, até disseste que me ias visitar ao Brasil...Como pudeste fazer isto?!?!
Aparece um palhaço qualquer que faz cair as Folhas(das arvores e da velhice), molha tudo, traz trabalho...
Castanhas! ah,grande coisa! comida de porcos é o que é!
Já te esqueceste das saladas frescas?
Como pudeste fazer isto?!!!!!!!"

(Julgo que sei quem és mas pelo sim pelo não, reserva-se aqui o anonimato.)

dEUS


Mesmo sabendo que
não gostavas, empenhei meu anel de rubi para te levar ao concerto que havia no Rivoli
corro o risco de não almoçar nem jantar durante parte do mês de Novembro, não consegui resistir. Comprei.

E em Dezembro lá estarei na Aula Magna, a aplaudi-los.

"Here comes the sun smiling, how long have you been blue?
There'd ever be a time for us to recapture all the time we lose."

9.11.05

Um "AI PODE"

É o que eu quero receber nos anos.

(ou um Zen da Creative).

P.S. Se alguém tiver sugestões acerca de coisos-que-tocam-mp3-e-já-agora-rádio, pode deixar um comentário se faz favor que eu não percebo nada disso.

Isto não me sai da cabeça, mais vale pôr aqui para ver se ajuda...

My love life

Come on to my house
Come on and do something new.

I know you love one person so why can't you love two?

Give a little something
Give a little something
To my love life
To my love life
My love life...

I know you love one person so why can't you love two?

Give a little something
Give a little something
To my love life
To my love life
My love life...

I know you love one person so why don't you love two?
Love two...

Oh give a... Love.
I know you love.

Morrissey

7.11.05

Mensagem para o Outono

O meu corpo sentiu a tua presença hoje porque finalmente pude respirar fundo e absorver o ar frio transpirado pelos dias cada vez mais curtos. O amanhecer às 7 da manhã foi recebido com um arrepio: apesar da luz brilhante que aquecia o céu azul, o sol arrefeceu a casa do meu amigo, arrefecendo também a conversa inflamada sobre orgulho e justiça e moral(idade).

Chegaste há tempo mas só agora te aceitei, Outono, por isso faz-me companhia nestes dias breves mas sós que se avizinham. Tu e este cd fantástico com todas as músicas publicadas pelos Belle & Sebastian (presente mais que generoso de um amigo meu). E agora que já nos entendemos, Outono, posso começar a contar os dias para o meu aniversário, fazer listas de convidados para uma festa (nem que seja para actualizar mentalmente quem são os meus amigos), pensar em presentes que gostava de receber e, sobretudo, começar a tortura (que dura até ao fim do ano) dos balanços: o que é que eu fiz, o que estou a fazer, o que quero mudar, o que mudei, o que consegui, o que está por alcançar. Talvez também chore quando precisar mas a verdade é que a percepção que tenho de mim agora, é, estranhamente, de tranquilidade.

E comer castanhas.

Já agora, achas que o orgulho pessoal deve ser impedimento para viver a vida e aproveitá-la ao máximo?

5.11.05

Praia III

A praia só e calma
Feita de choros breves
E frias madrugadas
É o abrigo dos seres
Feitos, eles também,
De lamentos, sonhos
E gargalhadas.

1.11.05

A insensibilidade dos Homens

Porque reside na insensibilidade dos Homens a insegurança dos angustiados, porque quando olhava o Tejo no comboio, evitando chorar, descobri que podia ilibar-me da culpa de te desejar, porque é o passado de um povo que o sentencia e o passado do meu cruzou-se com reis e rainhas e amores de perdição.

Com a insensibilidade dos Homens revelou-se-me a destreza do Engano, ele próprio um engano de si mesmo por poder ser a verdade camuflada em mais enganos e lapsos voluntários. Eu própria, cansada de ti, pensava eu, em engano, afinal os meus vazios estão preenchidos pela plenitude que me trazes.

Desde a insensibilidade dos Homens que cada passo que dou parece pesar o decorrer dos anos, a dor dos vivos, a ausência dos mortos.

3.10.05

Conversas

Uma amiga dos meus pais, apontando para mim (que estava ao longe mas a ouvir tudo) "Mas a vossa filha é giríssima! Ela tem namorado?".
Resposta pronta "Não".

A amiga dos meus pais com ar introspectivo: "Ela é diferente, tem uma personalidade muito forte."

Isto foi há um mês e ainda hoje reflicto se devo encarar esta justificação como um elogio, uma crítica, uma coisa boa, uma coisa má, uma coisa que não é coisa nenhuma.

1.10.05

Misto de sentimentos

Depois de ler este artigo, não sei se sinto humilhação, desolação, profunda tristeza, vergonha, pena.

Se calhar estou a sentir tudo isso.

29.9.05

Mais música portuguesa

Para acrescentar a este post. Ouvi Quinteto Tati e Belle Chase Hotel nestes últimos dias e permitam-me juntar um nome aos já referidos: JP Simões. Um bem haja. Das das melhores coisas que se fizeram até hoje no mundo.

Não estás à espera que te responda a essa merda de mensagem, estás?

É que se estiveres, bem podes ir tirando o cavalinho da chuva, porque ainda me resta dignidade e amor-próprio.

Ora porra.

28.9.05

- Oh, tu nunca sequer fizeste um esforço...
- Eu nunca fiz um esforço... Ou tu exigias demais de mim? Pára de fazer isso ao cabelo, estuda, não uses as meias assim, não fumes, come mais verdura, faz a barba, diz obrigada, pede desculpa, conduz mais devagar, não dances, dança, lê mais, não sejas ignorante e irresponsável, puta que te pariu mais às tuas manias.
- Nós nunca iríamos resultar juntos.

Desculpa.

27.9.05

E porque as saudades já apertam


É esta a minha irmã.

Os R's da música portuguesa

Digam o que disserem, para mim a música portuguesa essencial tem dois nomes: Rui Reininho e Rodrigo Leão.

O primeiro porque é o David Byrne português (e eu já achava isto antes de ele fazer aquele cover dos Talking Heads).

O segundo porque é um génio.

Mas isto sou eu, que não percebo nada de música. Apenas ouvinte. E dos atentos.

26.9.05

A fenda

Algures entre mim e aquilo que passou, existe uma fenda no tempo composta de desilusões e sonhos desfeitos. Aproveito os dias de hoje onde o tempo navega tranquilo ao sabor da vontade e do desejo, vivo sem amar mas também não odeio. Vou sendo, convivo comigo e aprendo que o espaço da vida foi dimensionado para as pessoas imperfeitas.

Como eu.

25.9.05

Eu quero é dormir

Gasto todos os dias 45 minutos antes de sair de casa de manhã. Vejamos:

- 10-15 m. a tomar banho;
- 15 m. para vestir, pentear, perfume e cremes;
- 10 m. para pequeno-almoço e lavagem dos dentes.

Ora 45 minutos todos os dias são 16425 minutos por ano, isto é 273,75 horas, logo... 11 dias por ano gastos apenas para me tornar um ser social.

É impressão minha ou isto é tempo que eu poderia estar a dormir se pudesse sair à rua de pijama?

21.9.05

Rajadas de vento

Nem eu percebi bem o que se estava a passar comigo quando um dia olhaste para dentro de mim e roubaste a minha alma.
Não me lembro bem de ti, de mim, de onde estávamos, do olhar que trocámos enquanto nos fundíamos, sei que desde então não sou a mesma.

Apercebo-me que poderia ter dito "Pára!" antes de cair neste pântano emocional que é gostar de ti, mas como se não consigo identificar aquele instante que mudou as minhas horas, os meus dias, os meus meses, os meus anos, porque os tornei nossos.

Lembro-me de rajadas de vento em dias de temporal, a maioria das vezes arrebatadoras, outras tranquilas.

19.9.05

Uma pequena consideração acerca do dia 19 de Setembro às 9 horas

Voltei às aulas em Lisboa. As férias parecem um sonho bom que aconteceu durante uma noite entre o último exame e hoje.

16.9.05

"Summer has come and passed"

Pois é, o Verão está a acabar e muito em breve (dentro de três dias para ser exacta) as experiências intensas e variadas que vivi na silly season vão passar a ser memórias, ganhando com isso uma vertente subjectiva e muito minha. Se calhar ainda vos conto melhor o que passei neste último mês e picos...

O verso acima é de uma música (nada de especial, aviso já) dos Green Day que a minha irmã de oito anos está sempre a cantar ("Wake me up when September ends"). Hoje ao ouvi-la, e reparando na letra, fiquei com aquela bola na garganta que geralmente aparece quando tenho vontade de chorar. Não sei porquê. Não sei se foi de ver a minha irmã tão crescida a tentar cantar Green Day (como eu mais ou menos com a idade dela a cantar músicas da mesma banda ao estilo "du iu rave de taime tu lissen tu mi uaine"). Não sei se foi por saber que daqui a três dias já não vou poder abraçá-la, falar com ela assim, vê-la crescer. Não sei se foi mesmo por o Verão estar a acabar. Ou as aulas a começar. Sei que hoje fiquei nostálgica.

Ou isto ou o síndrome pré-menstrual a falar mais alto.

15.9.05

O Grito

Vinhas a correr, ofegante, lembro-me de ter parado na ponte à tua espera. Estavas assustado, suavas e tremias por todos os poros, por todas as extremidades, chamavas "Joana" mas o medo apertava as tuas cordas vocais uma contra a outra, roubava a saliva dos teus lábios (efeito do Simpático, que ironia) e querias gritar e não podias, por isso limitavas-te a acelerar o passo para te aproximares de mim.

De onde estavas, não me vias e eu via-te a ti, cansado, cada perna pesava mais do que a vida alguma vez pesou e agora o coração mais frequente e a respiração mais dolorosa a complicarem o ritmo rápido e descoordenado dos teus membros, no entanto o tronco mantinha-se rígido, ponte insustentável de um corpo frágil e desconexo, franzino e esguio.

Mantive na memória (onde ficará para sempre) os teus olhos sem órbita, esferas perfeitas que fogem do abrigo do rosto, o teu nariz quase invisível, os ossos da cara angulados sob a pele acentuando a carga dramática da tua beleza esquálida. Usavas aquela camisola negra tamanho XXL, desbotada nos cotovelos, que te escondia o tronco cada vez mais magro, as costelas e o esterno -irrepreensível escudo de uns pulmões que anos de fumo enegreceram.

Eu trazia o envelope na mão, a confirmação da tua morte, porque quando te telefonei apercebi-me que as minhas palavras te feriam como punhaladas na tua convicção, que não resistirias a passar por isto, ainda para mais só, sem heroína ( a metadona tinha funcionado tão bem e agora isto) e sem heroínas, agora nada nem ninguém poderia tirar-te de dentro desta carta, igual às outras, é certo, letras pretas sobre papel branco, o teu nome a começar o texto, o Pos. à frente daquelas siglas que deveria ser Neg.. Telefonei "Chegou o envelope."

"Abre, abre, lê-me, diz-me, vais ver como não passou de um erro infantil da puta do laboratório." Tu cheio de infinita certeza, desde pequeno que és assim, achas que a vida só castiga os outros.
"É positivo, querido. Mas tem calma porque há tratamentos..."

Sabias que os tratamentos na maior parte das vezes adiam a data da morte por isso desligaste-me o telemóvel sem sim nem senão. E eu fui ter contigo à praia, o sol punha-se por entre rajadas de vento, a cor do fogo que ardia cada teu passo ao meu encontro, ah se eu pudesse queimaria aquele papel que tinha na mão e viveríamos sem remédios nem contagens de leucócitos CD4s nem medos de infecções oportunistas nem preservativos obrigatórios. Mas tu já corrias e já sabias.

De repente vês-me e abrandas a marcha, gradualmente, até parares. E gritas "REPETE!".

"É positivo, porra!"

E então cospes a culpa, a injustiça, a dor, a parcialidade, a SIDA, a morte num só grito, as palmas das mãos sobre as tuas orelhas para que não te ouvisses.

"AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHH"



Munch- O Grito



10.9.05

Beleza

Não me venhas tu falar de beleza e de como eu sou bonita porque para mim a beleza é um conceito muito vasto e relativo. O que é a beleza afinal? Fisicamente falando, pois. Um conjunto de traços perfeitos que, conjugados, tornam um corpo e um rosto agradáveis ao olhar? Ou o detalhe e o pormenor do organismo?

Para mim a beleza não é isto, sabes, a beleza para mim não é um conceito nem uma definição e não parte de quem a possui, mas sim de quem a avalia. É isso que a torna tão indefinida, o facto de depender do olhar de alguém.

O olhar, outra palavra tão abrangente, enfim. Olhar como sujeito, algo que implica muito mais do que um par de olhos, algo que engloba outros sentidos, processamento, integração, comparação com aprendizagens anteriores e associação com experiências diversas, para depois ser produzido um juízo pessoal, que tem tanto de mentira como de verdade.

Por isso não me venhas falar de beleza nem de como eu sou bonita e trata, isso sim, de guardar este momento dentro de ti porque ele pode ser irrepetível. Podes nunca mais me achar bonita, pode este instante mudar a tua beleza, mas saberás sempre que um dia eu fui, para ti, a beleza. E nenhum conceito ou explicação poderá estragar isso.

7.9.05

Nada

Foi quando emergi de ti que senti que já nada nos ligava um ao outro, que alguém cruelmente cortara o nosso cordão umbilical.

Agora a mim resta-me vaguear apenas, os meus passos ligeiros não deixarão rasto para que não me possas encontrar, e assim parto à descoberta de mim por este trilho desgastado que é a vida.

Sabes, às vezes acho que serias bem mais feliz se eu te deixasse.

6.9.05

"Onde quer que estejas...

... Quero que saibas que não tenho pensado em ti nem um bocadinho."

Ihihih


Acabo de reparar que o post anterior foi o 69º deste blog. Em homenagem à Vitória, que se lembrou disto no nosso extinto blog, é uma sugestão para hoje à noite. Ou à tarde. Ou de manhã. Para quando tiverem vontade.

O fim da festa

Ao acordar, as ruas sujas, o cheiro nauseabundo a precisões físicas e a alcoól fermentado, o empedrado coberto por uma fina camada pegajosa, os festeiros mais resistentes ainda de copo na mão, os olhares cansados, outros que não aguentaram e adormeceram pelos cantos, pelas bermas, o sono pesado feito de roncos surdos.

Apesar de tudo, uma sensação incrível de bem-estar.

24.8.05

{vazio}

Creio que este aperto no peito é apenas a forma como o meu corpo demonstra o vazio que ironicamente o preenche.

Um vazio que se revela angustiadamente na minha incapacidade de chorar.

23.8.05

Dica de engate nº 1

Vestida com umas calças de ganga, sapatilhas nos pés e uma t-shirt branca justa, o cabelo amarrado num rabo-de-cavalo no topo da cabeça, encostada a uma parede ou a um canto do local onde nos encontramos (um canto movimentado).

Fazer ar sexy sou-tão-boa-na-cama-sou-de-estarrecer-vais-pedir-por-mais, olhar o objecto de desejo nos olhos e cantar o Love is a deserter dos The Kills (é importante saber a letra de cor).

(Talvez isto possa ajudar:
One eye in the sun, one in the night
Sleep tight
Sleep walk like honey honey
Oh my, capital I-L-O-V-E-U, put it in a letter honey
I could kiss you underwater
I could, in the rearview mirror
X-O, took my heart and crossed it
Set it down and lost it, set it down and lost it

Say it again...
get the guns out get the guns out get the guns out get the guns out get the guns out get the guns out
Your love is a deserter
Your love is a deserter

One eye in the sun
One eye in the night
Sleep tight
Sleep walk like honey honey,
when you want me you got me where you want me again
Say it again
If it's personal, say it again
Get the guns out
Your love is a deserter
You got one eye as white as a bride
The other eye, as black as the devil
It's alright
Crossed wires, sparking a little,
start a house fire with us in the middle it's alright

Get the guns out
Your love is a deserter - intensificar o olhar na parte do "get your guns out", naturalmente.)

É tiro e queda (a experiência não foi testada em animais).

Ou isso ou ser solteira está a dar cabo do meu restante juízo.

22.8.05

Lapas e caramujos










Respectivamente:
Caramujos
Lapas

Os caramujos comem-se cozidos com um pouco de pimenta, sendo retirados da sua concha com um alfinete através de movimentos circulares da mão. (Uma fina arte, a de retirar todo o animal sem o partir!)

As lapas são fritas com um pouco de manteiga sobre o corpo (não sobre a casca) e servidas bem ensopadas em sumo de limão espremido na hora. O corpo desprende-se durante a fritura sendo facilmente retirado (dão muito menos trabalho a comer do que os caramujos) e na casca resta um suco resultante da mistura entre a manteiga, os sucos da lapa, a água do mar e o limão, que deve obviamente ser sorvido. E que delícia!

Percebeu, Papo-seco?

19.8.05

Identifiquei-me com estes excertos

"É um amanhecer calmo. Este. Sem vitórias nem derrotas para depois. Nem triste nem alegre, música apenas, com a evidência da vida no meio - porque estás triste? Não estou. Vou à janela da marquise, olho em baixo as árvores trémulas de luz - gosto tanto desta música. Ouvi-la até me entrar no sangue, porque estás triste? E como se de o não saber, mais triste assim. Oh, não, melancolia agora, não. Ser simplesmente um homem. Com alegrias pequenas e grandes, chatices quotidianas e das que dão a volta à vida toda - na coragem simples de existires. Mas esta súbita solidão, instantâneo o desamparo a toda a roda em deserto. Os bons propósitos, pois, os bons propósitos. São sempre despropositados. Sente-se com o corpo todo e com tudo o que está nele. Mas pensa-se com um mecanismo qualquer independente que se compra nas lojas do pensar."

"As "intermitências do coração", um tipo disse. E com efeito. Se não te vejo, se na corrente dos dias os mil acidentes diários, a força absoluta das coisas. Mas que te veja no acaso de um encontro que raramente é um acaso. E logo tudo volta outra vez, com uma força multiplicada pela imaginação do intervalo. (...) Um outro tipo, a propósito, falou em "cristalização". (...) A cristalização. É uma criação do nada. Mas esse nada é o tudo pela minha invenção. Que estupidez - mas é a estupidez da vida."

Vergílio Ferreira- Rápida, a sombra

O que eu gosto e não gosto em Agosto

Quando não tenho nada para fazer gosto de fazer listas por isto e por aquilo. Aqui vai outra:

GOSTO DE:

- Viajar
- Mar
- Sol
- Protectores solares
- Beijos e abraços nas mulheres da minha família
- Desafinar enquanto canto um hit qualquer
- Lapas e caramujos
- Havaianas

Mas NÃO GOSTO DE:

- Ter saudades dos meus amigos que neste mês emigram todos para o Porto Santo
- Mosquitos
- Em particular neste Verão 2005, não ter podido viajar com os meus pais até a Austrália e Nova Zelândia.

Coisas boas deste Verão

Musicalmente:

Voltar a ouvir Cat Power para recordar as coisas boas dos últimos 4 anos;

Acordar com os Arcade Fire e pensar que depois deste Verão é o início de um novo ciclo;

Conhecer Devendra Banhart (continuar sem a certeza de ser assim que se escreve) e ser transportada para os anos 70 ao me lembrar do excelente concerto que deram no Sudoeste;

Acompanhar estas refeições com livros:

A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera;

Rápida, a sombra, de Vergílio Ferreira;

Pode um desejo imenso, de Frederico Lourenço (o primeiro de uma trilogia que agora tenho que adquirir);

A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge;

O Verão tem sido bom :)

Acorda

"Do you love me do you love meeeeee"

Acorda pá! Não estás em Paredes de Coura e não, não estás a ver o Nick Cave em cima do palco. Pronto.Já passou. Não é preciso chorar, Ju.

"LIKE I LOVE YOUUUUU"

17.8.05

But everytime you close your eyes, lies!*

Hoje tinha o teu corpo na evidência daquilo que podíamos ser, os teus ombros largos na revelação de ti perante o que somos. O Sol inundava-te de profundidade, desenhando no chão os teus contornos firmes, cada teu passo na nossa proximidade, até que enfim chegaste aqui e eu, complicada, ansiosa, olhando em volta, consciente de mim, perguntei

Quando foi?

O meu corpo cada vez mais cheio de nada na ilusão fraca de que estás aqui e me respondes

O quê?

A tua mão sobre a pele fina da coxa, a água do mar a arrefecer-me a alma, tu cada vez mais longe, quando acrescento

Que eu comecei a gostar assim de ti.

Já de pé, deslocando-se para uma realidade em que eu não acredito, o teu sorriso igual às marés

Foi quando te perguntei se não gostavas de Cardoso Pires.

* Rebellion(Lies), Arcade Fire

Pais

Como é que se contam coisas más aos pais? Coisas tipo "Fui ao Festival que tu (mãe) não querias muito que eu fosse e lá roubaram-me a bolsa com as chaves do carro, os documentos, o telemóvel e a máquina fotográfica"?

Podia começar assim "Apanharam-me no duche e sodomizaram-me à bruta, depois recebi um telefonema e afinal tinha perdido todas as cadeiras e portanto o ano, tornei-me viciada em heroína, dei em puta para pagar as despesas, entretanto fiquei grávida... De gémeos...O pai deles foi para uma ilha deserta e não pretende de lá sair e infectou-me com o vírus da SIDA. Com estas desgraças todas, mãe, acendi uma vela a Nossa Senhora, a vela virou e ardeu a tua enorme estante com os teus preciosos livros. neste momento estou em depressão. (um suspiro) Ah! Roubaram-me no Sudoeste incluindo a máquina, as chaves do carro (que teve de ser rebocado) e o telemóvel. Mas também que importância é que isso tem comparando com tudo o que me podia ter acontecido na vossa ausência e não aconteceu?"

P.S. Esta foi a sugestão do meu padrinho e melhor amigo do meu pai (ele lá sabe!)
, dei em puta para pagar as despesas

Paredes de Coura

Por não ter ido, ontem perdi:

- Death from above 1979
- !!!
- The Bravery
- Kaiser Chiefs

... Hoje estarei a perder:

- Pixies
- Arcade Fire (perca passível de causar depressão)
- Hot Hot Heat
- Queens of the Stone Age
- The Roots

Enfim.

16.8.05

Praia II

Protegida por uma falésia de xisto e aconchegada por uma enseada, dormia a praia. De areia fina e muito amarela, interrompida por rochas baixas onde se quebravam as ondas, era quase inatingível.
Para invadir o seu leito abandonado, usava-se todo o corpo na tentativa firme de chegar, no perigo de um mergulho arriscado para o calhau ou para o mar bravio, mas a paz que invade quem consegue compensa a vertigem da descida. Sem piqueniques nem famílias demasiadamente grandes, apenas se exige que se feche os olhos e se oiça.

O mar.

O vento.

E se sinta.

A areia.

O vento.

O calor do Sol.

Porque naquela praia não há sombra nem faz frio. Nem há vestígios de ti.

15.8.05

Arcade Fire

Neighbor # 2 (Laika)

Alexander, our older brother,
set out for a great adventure.
He tore our images out of his pictures,
he scratched our names out of all his letters.

Our mother shoulda just named you Laika!

Come on Alex, you can do it.
Come on Alex, there's nothin' to it.
If you want somethin' don't ask for nothin,
if you want nothin' don't ask for somethin'!

Our mother shoulda just named you Laika!

It's for your own good,
it's for the neighborhood!
Our older brother bit by a Vampire!
For a year we caught his tears in a cup.
And now we're gonna make him drink it.
Come on Alex don't die or dry up!

Our mother shoulda just named you Laika!

It's for your own good,
it's for the neighborhood!
When daddy comes home you always start a fight,
so the neighbors can dance in the police disco lights.
The police disco lights.

Now the neighbors can dance!
Look at 'em dance.

Ouviste? Se não queres nada, não peças. Que é como quem diz, se não te apetece, não me aborreças. E se queres, caramba, não finjas que não é nada contigo. Percebes? Porque eu estou farta de andar a perseguir quem não quer ser perseguido e depois ignorar quem quer ter atenção. Vê se te entendes para eu te poder entender.

Diabo do miúdo.

14.8.05

Sudoeste

Saio de casa com ar dentro do peito, o queixo erguido, o olhar posto nas promessas a mim mesma. Oiço The Kills enquanto atravesso a rua, na praia abano a ancas ao som dos Wraygunn, dou pulos de alegria a cantar Humanos, rio com os Mäximo Park e choro com o Devendra Banhart, danço com os LCD Soundsystem até às seis de manhã, bebo mais uma Super Bock enquanto comemoro a vida.

Isto para dizer que o Sudoeste foi muito bom e que os assaltantes podem ter levado as fotografias mas as memórias dos bons concertos e dos bons amigos ficam sempre e não há assaltante que os leve. para lado nenhum.

Claro que eu podia estar aqui a me queixar da vida e da (falta de) segurança e da minha ingenuidade e dos duches e pias em número reduzido e das tendas amontoadas umas sobre as outras, mas é verdade é que isso não vai trazer a minha mochila de volta, não é?

Por isso, enquanto vou contando o meu incidente em tom dramático a mais uma das milhentas pessoas, sorrio por dentro e penso que o Sudoeste foi das coisas mais giras a que já fui.

Apesar de tudo.


Vai uma sandes de atum em pão de forma?

25.7.05

Casa Branca

Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e algas marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.

A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.



Sophia de Mello Breyner Andresen
Poesia I (1944)

P.S. O post Praia I foi naturalmente inspirado por este poema da minha poetisa preferida.

Praia I

A praia surgia após um caminho estreito entre ciprestes, um areal estreito mas longo onde as ondas do mar, frágeis, teimavam em se enroscar. A casa branca erguia-se, toda ela branca de cal, sobre as dunas, as janelas como olhos contemplativos sobre o mar. Dando duzentos passos para a esquerda- ela contara-os, contornando a silhueta da baía, encontrava as grutas, a língua de calhau contra a qual o mar, de um azul mais frio, revolvia-se com mais força, criando ondas altas em tubo, que escorregavam depressa sobre a superfície gelada do mar e acabavam por esculpir as rochas.

Beck - Girl

I saw her, yea I saw her
With a black tongue tied round the roses
A fist pounding on a vending machine
Toy diamond ring stuck on her finger
With a noose she could hang from the sun
And point it out with the dark sunglasses
Walking crooked down the beach
She spits in the sand
Where their bones are bleaching

And I know I'm gonna steal her life
She doesn't even know it's wrong
And you know I'm gonna make her die
Take her where her soul belongs
Know I'm gonna steal her life
Nothing that I wouldn't try

Hey, my cyanide girl
Hey, my cyanide girl
My cyanide girl
Hey, my cyanide girl

I saw her, yea I saw her
With her hands tied back
Her rags are burnin'
Calling out from a landfilled life
Scrawling her name up on the ceiling
Throw a coin in the fountain of dust
White noise, her ears are ringing
Got a ticket for my midnight hanging
Throw a bullet from a freight train leaving

And I know I'm gonna steal her life
She doesn't even know it's wrong
And you know I'm gonna make her die
Take her where her soul belongs
Know I'm gonna steal her life
Nothing that I wouldn't try

Hey my cyanide girl
Hey my cyanide girl
My cyanide girl
Hey my cyanide girl

Hey my cyanide girl
Hey my cyanide girl
My cyanide girl
Hey my cyanide girl
Hey my cyanide girl
Hey my cyanide girl
My cyanide girl
Hey my cyanide girl

P.S. Mais uma música que traz o Sol ao meu quarto (os exames teimam em não acabar).

15.7.05

Para a Ni

“Lembras-te de termos passado uma tarde de Outono juntas, o vento empurrava o nosso corpo para trás, levantava as folhas do chão fazendo-as rodopiar aos nossos pés num baile sem ritmo e a música que cantarolavas fazia-me querer dançar com as folhas na calçada portuguesa do Chiado, enquanto ríamos sem parar das nossas tentativas inúteis de andar contra o vento, os braços com um saco cheio de livros a remar contra as rajadas, o cabelo que insistia em tapar-nos os olhos, o João que telefonou a perguntar

Está um temporal, não é melhor virem para casa?

a nos dar mais razões para querer ficar, para querer aproveitar aquela tarde só nossa, e nós deste lado, palavras ao vento,

Achas? Isto até está agradável!

e muitos risos que o vento também levava e dentro de nós um peito quente, cheio, como uma barriga depois de uma fausta refeição, a despertar para aquele Outono dourado, cheio de promessas a cada passo que dávamos.”

“Pois foi, e de repente chuva e um chá e calma, olhámo-nos cúmplices porque aquele era o Outono da vida, apesar da natureza morta pelo vento seco e frio, sabíamos que dentro de nós renascíamos, que este peito não estava cheio de nada, éramos nós quem despertávamos de um sono sombrio, e a partir de hoje não vai haver dor porque a água da chuva lavara-nos a alma e o coração

washed away

porque crescêramos, agora somos mulheres e à nossa volta o mundo sorri, porque afinal ninguém precisa de ninguém se estas tardes de Outono continuarem assim bonitas, agora que vemos tudo com mais clareza e o coração já não bate tão depressa, o único cheiro que sinto é o do movimento incessante das folhas na calçada, afinal o mundo sempre sorriu, nós é que não reparámos

Por isso a partir de hoje vamos pôr mãos à obra e fazer com que o mundo gire à volta de quem precisa de nós.

disseste, triunfante, e brindámos a isso com a chávena; nesse momento a Terra interrompeu a rotação à volta do nosso umbigo, girou com mais força e nós saímos para apanhar chuva; enquanto eu cantarolava, tu fingias dançar porque não querias pisar os riscos pretos da calçada e eu achei

Nunca fui tão feliz.

E tu sorriste como eu nunca tinha visto e pareceste-me a mulher mais bonita do universo.”

(Para a Ni)

14.7.05

Tantas palavras

Tantas palavras e tu tão só, quando podias agarrar numa delas e assim agarrares-te à vida. Precisas de coragem, de afecto, de liberdade, mas para ti estas três coisas são só palavras porque não as procuras, não vais ao fundo de ti encontrá-las nem modificas nada que possa fazer o mundo dar-tas, por isso continuas agarrado a um conceito.

Ser livre não é ter asas. Ser livre é ter asas e saber usá-las para ousar.

Julgas-te dono da liberdade e do virtuosismo, mas quem és tu? Tu que vives rodeado de oceano, consigo imaginar-te, no dia em que atingires o fundo, a nadar contra a corrente, a sentires o sal nos lábios e na língua e nos olhos e a tentares cada vez mais, mas nesse dia talvez seja tarde demais e já estaremos demasiado longe de ti para te podermos socorrer.

Liberta-te dessas amarras e põe-te à deriva para que possas encontrar o porto que anseias. Tantas palavras e não és capaz de usar nenhuma, seria tão simples, em tantas palavras escolheres uma, apenas uma, e eu criaria o istmo que faria de nós um só continente.

Tantas palavras e tu cada vez mais só.

Porque sim.

Porque me fazes viajar. Porque me elevas o espírito. Porque sabes conversar. Porque me mostras novos universos. Porque os teus olhos procuram os meus. Porque o teu sentido de humor é inteligente. Porque dizes piadas baixinho. Porque me rio contigo. Porque a tua voz é calma. Porque estar ao teu lado é um desafio. Porque a tua presença é apaziguadora. Porque não és pacífico. Porque és infantil. Porque ficas bem de azul. Porque sinto o teu cheiro mesmo quando não estás aqui. Porque pressinto a tua presença e a tua ausência. Porque a tua tristeza é-me angustiante. Porque ver-te inspira-me. Porque estar contigo levanta-me da cama. Porque as tuas palavras inebriam-me. Porque a simples perspectiva de estar contigo faz-me feliz. Porque o teu sorriso não me sai da cabeça. Porque me admiras. Porque me interessas.

Porque gosto de ti. Porque sim.

23.6.05

Seu Jorge - Tive razão

Tive razão
Posso falar
Não foi legal, não pegou bem
Que vontade de chorar dói
Em pensar que ela não vem, só dói
Mas pra mim tá tranquilo, eu vou zuar
O clima é de partida, vou dar sequência na vida
E de bobeira é que eu não estou,
E você sabe como é, eu vou
Mais poderei voltar quando você quiser.
ô ô ô ô ô ô ô ô, lá lá lá...
Demorô vai ser melhor...

Com outros afazeres...

... E bem mais próxima da desumanidade é como me encontro neste mês infernal. Prometo voltar quando o tempo amenizar, a cabeça estiver mais livre, que isto de ter exames (sobretudo exame de Farmacologia) tem o seu quê de psicótico e absorvente... Por isso os próximos posts são letras de músicas que têm trazido o Verão à minha secretária (e um sorriso á minha cara)...

5.6.05

(Caos)

Se quiseres vir comigo eu sei onde te posso levar, é uma falésia onde batem as ondas do mar com tal força que sentes o chão vibrar sob os teus pés, se há coisa que nunca entendi é como é que Portugal, sendo todo ele enraízado no oceano, nunca se aproveitou decentemente da sua força para gerar vida, se calhar podemos falar disto noutra altura, mas agora queria poder levar-te comigo para longe mas sem querer dizer que estamos a fugir aos problemas, sentar-te-ias ao meu lado, sorridente, eu conduziria por entre planícies e montes para te poder mostrar esta falésia, qualquer dia o mar entra por ela a dentro e consome-a mas enquanto isso não acontece, sei que o melhor que tínhamos a fazer era senti-la vibrar sob os nossos corpos, deixá-la demonstrar-nos o quanto a vida é efémera e ao mesmo tempo tão bela, e o horizonte aparecer-nos-ia cor-de-rosa como são os sonhos das crianças, as nuvens e as cores como numa pintura, pinceladas de branco, rosas e azuis, amarelos; dar-me-ias a mão enquanto olhávamos a linha do mar, dizem que para lá dela o mar continua, mas eu quero acreditar que é mentira, porque te quero provar que o meu amor por ti é maior do que qualquer coisa e se tu souberes que o mar é maior do que a faixa de água entre a costa e o horizonte não acreditas em mim, e tens de acreditar, tal como tens de confiar em mim quando te digo "não te vou magoar", se eu digo é porque o sei, e tenho tanta certeza disto como tenho a certeza de que a mão que se enrosca na minha enquanto te digo estas coisas é tua, que o fazes porque gostas de mim mas não sabes se por pena se por outra coisa qualquer, não sabes mesmo por mais que penses nisso, eu peço-te para não pensares porque seja porque for, o que importa é que estejas aqui e agora comigo e que eu tenha a liberdade de te levar a sítios bonitos, paisagens que mostrem que no mundo há mais do que opressão, ignorância e lágrimas, que mostrem que no Universo há lugar para duas pessoas como nós com vontade de tentar.
Se quiseres vir comigo eu sei onde te posso levar, é uma falésia onde batem as ondas do mar.

O escritor

Acordava a meio da noite com suores frios, a boca seca entreaberta, os músculos doridos, os lençóis franzidos entrelaçados nas suas pernas, também eles húmidos, o corpo febril. A luz da Lua abraçava as linhas rectas dos móveis: a secretária à janela, a cómoda, a estante, a sua cama.
Despertava por entre o luar e o torpor, levantava-se, sôfrego, e agarrava no bloco de capa preta cartonada, a caneta na mão esquerda ("os canhotos são filhos do Diabo", costumava dizer a avó Miquelina quando ele era pequeno, como se de uma praga se tratasse), as letras ocupavam agora o seu lugar correcto e específico, sem margem para erros, formando palavras, que escorregavam da sua pele para o papel, linhas oblíquas e curvas oblongas, formando frases e histórias em cada folha branca que passava.
Cada página era um local, um passeio, uma viagem, um sonho, uma trip. Cada hora de sono perdida era uma homenagem simples àqueles com quem se cruzava todos os dias, o vizinho com o cão, a vizinha e o saco de lixo, o senhor do quiosque, a senhora do café, a mulher-avião que o olhava abertamente no metro, a velhinha a quem ele ajudava a transportar os sacos de compras, o condutor apressado que quase o atropelava na passadeira.

De manhã acordava para ir para o trabalho, era segurança num ginásio, via entrar as tias que o olhavam com desprezo e pediam "Duas toalhas" e ele, cansado, entregava-as na mão, todo ele sorrisos e falsas cortesias. O bloquinho de capa preta cartonada ficava no bolso direito do seu casaco, à espera de ser ocupado com vida. Com vidas.

3.6.05

Identidade

Eu chamo-me Joana Batista ou eu sou Joana Batista? O meu nome define a minha identidade?