Palavra de Mulher
Vou voltar
Haja o que houver, eu vou voltar
Já te deixei jurando nunca mais olhar para trás
Palavra de mulher, eu vou voltar
Posso até
Sair de bar em bar, falar besteira
E me enganar
Com qualquer um deitar
A noite inteira
Eu vou te amar
Vou chegar
A qualquer hora ao meu lugar
E se uma outra pretendia um dia te roubar
Dispensa essa vadia
Eu vou voltar
Vou subir
A nossa escada, a escada, a escada, a escada
Meu amor eu, vou partir
De novo e sempre, feito viciada
Eu vou voltar
Pode ser
Que a nossa história
Seja mais uma quimera
E pode o nosso teto, a Lapa, o Rio desabar
Pode ser
Que passe o nosso tempo
Como qualquer primavera
Espera
Me espera
Eu vou voltar
Chico Buarque
12.11.06
Lágrimas em forma de canções
Futuros Amantes
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
Chico Buarque
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
Chico Buarque
7.11.06
E naquele dia tu foste João, e eu Maria
Outros Sonhos
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
Sonhei que ela corava
Quando me via
Sonhei que ao meio-dia
Havia intenso luar
E o povo se embevecia
Se empetecava João
Se impiriquitava Maria
Doentes do coração
Dançavam na enfermaria
E a beleza não fenecia
Belo e sereno era o som
Qual lá no morro se ouvia
Eu sei que o sonho era bom
Porque ela sorria
Até quando chovia
Guris mertes no chão
Falavam de astronomia
E a polícia já não batia
E me jurava o diabo
Que Deus existia
De mão em mão o ladrão
Relógios distribuía
De noite raiava o sol
Que todo mundo aplaudia
Maconha só se comprava
Na tabacaria
Drogas na drogaria
Um passarinho espanhol
Cantava esta melodia
E com sotaque esta letra
De sua autoria
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
E por sonhor o impossível, ai
Sonhei que tu me querias
Soñé que el fuego heló
Soñé que la nieve ardia
Y por soñar lo impossible, ay, ay
Soñe que tu me querias.
Chico Buarque @ Coliseu dos Recreios, 06.11.06
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
Sonhei que ela corava
Quando me via
Sonhei que ao meio-dia
Havia intenso luar
E o povo se embevecia
Se empetecava João
Se impiriquitava Maria
Doentes do coração
Dançavam na enfermaria
E a beleza não fenecia
Belo e sereno era o som
Qual lá no morro se ouvia
Eu sei que o sonho era bom
Porque ela sorria
Até quando chovia
Guris mertes no chão
Falavam de astronomia
E a polícia já não batia
E me jurava o diabo
Que Deus existia
De mão em mão o ladrão
Relógios distribuía
De noite raiava o sol
Que todo mundo aplaudia
Maconha só se comprava
Na tabacaria
Drogas na drogaria
Um passarinho espanhol
Cantava esta melodia
E com sotaque esta letra
De sua autoria
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
E por sonhor o impossível, ai
Sonhei que tu me querias
Soñé que el fuego heló
Soñé que la nieve ardia
Y por soñar lo impossible, ay, ay
Soñe que tu me querias.
Chico Buarque @ Coliseu dos Recreios, 06.11.06
6.11.06
Recuperação
[Tenho alguns textos guardados, coisas que escrevi e eram demasiado francas, falsas, falaciosas - ai como eu gosto de aliterações-, pretensiosas, ou simplesmente mal-escritas para publicá-las aqui. Hoje reli este texto, de Julho deste ano, e decidi que era publicável. Cá vai.]
Queria explicar-te
olhos nos olhos
o que se passa comigo, queria dizer-te
as minhas mãos nas tuas
que sinto, que dentro de mim pulsa, enquanto cresce, uma vontade enorme de te abraçar e de te levar para longe.
Mas não sei definir bem onde começa e onde acaba, se é que o faz, nem sei se é bom ou mau, se é que tem de ser alguma coisa. E sou incapaz de impôr o meu ritmo, de estabelecer as tuas prioridades baseando-me nas minhas, que tipo de egoísmo seria esse?
Reconhecer as tuas necessidades e compreendê-las parece-me às vezes tão difícil, mas quando tento olhar para dentro de ti,
tenho uma só certeza
que simplesmente não estás disponível,
tens pó e teias por limpar no teu sótão emocional
e apetece-me estar por perto para garantir-te que estou ao teu lado e é uma faca de dois gumes, sabes? porque ao mesmo tempo quero garantir a mim mesma que ainda não preciso de ti
quando tenho a certeza que preciso.
Queria explicar-te
olhos nos olhos
o que se passa comigo, queria dizer-te
as minhas mãos nas tuas
que sinto, que dentro de mim pulsa, enquanto cresce, uma vontade enorme de te abraçar e de te levar para longe.
Mas não sei definir bem onde começa e onde acaba, se é que o faz, nem sei se é bom ou mau, se é que tem de ser alguma coisa. E sou incapaz de impôr o meu ritmo, de estabelecer as tuas prioridades baseando-me nas minhas, que tipo de egoísmo seria esse?
Reconhecer as tuas necessidades e compreendê-las parece-me às vezes tão difícil, mas quando tento olhar para dentro de ti,
tenho uma só certeza
que simplesmente não estás disponível,
tens pó e teias por limpar no teu sótão emocional
e apetece-me estar por perto para garantir-te que estou ao teu lado e é uma faca de dois gumes, sabes? porque ao mesmo tempo quero garantir a mim mesma que ainda não preciso de ti
quando tenho a certeza que preciso.
5.11.06
[ II ]
"I want to be
The one to make you feel okay right now
Some way, some how
So when I fall short
I sink so low that I even blame the clouds
For blocking out the sun
And the shadows on the wall
That’s why you feel alone"
The one to make you feel okay right now
Some way, some how
So when I fall short
I sink so low that I even blame the clouds
For blocking out the sun
And the shadows on the wall
That’s why you feel alone"
"Last Sunday I went to see a jam session downtown"
'Whatever' he nodded with a sigh, his eyes surprisingly turning grey. He exhaled the smoke of the cigarrette, looking down, collecting the ashes.
'I don't want to make you sad' she said while her hand aproached his cheek. Each noise in the room stopped. The bassist stopped playing that sad song and no more Martinis were shaken. Everybody in the room quietly stared at the bottom of their glasses.
Everything STOPS.
Everything but their hearts, beating like never before.
'I don't want to make you sad' she said while her hand aproached his cheek. Each noise in the room stopped. The bassist stopped playing that sad song and no more Martinis were shaken. Everybody in the room quietly stared at the bottom of their glasses.
Everything STOPS.
Everything but their hearts, beating like never before.
31.10.06
Ensaio sobre o amor - parte I
Há uma criança que brinca apesar da chuva em seu redor. Tem um camião de folha - folha apesar de estarmos em 2006- vermelho e azul e um auto-tanque dos bombeiros. No canteiro da borracheira, o camião despistou-se e o auto-tanque dirige-se ao local a alta velocidade, uivando "uú uú uú", a boca do menino desenhando um beicinho "uú uú uú".
Qem o vê, ali a brincar, ama-o subitamente. Deixa de ser uma criança que brinca com os seus carrinhos para ser um rasgo de luz na vida de alguém. E esse alguém, sem dar conta, é preenchido por um calor intenso, aquele calor que nos surpreende num dia frio de Inverno em que o céu está absolutamente azul.
Não consigo perceber o que nos faz amar alguém. E hoje, este verbo tão determinante, "amar", é usado de forma bem mais abrangente do que o amor por outra pessoa, de sexo igual ou diferente, que visa juntar duas vidas numa só. Hoje "amar" é bem mais do que isso.
Amar é um verbo imperativo independentemente da forma verbal em que está conjugado. Há uma necessidade - e estou a ser bem limitativa quando escrevo necessidade -, há mesmo uma qualquer vontade intrínseca em amar.
Nascemos e já amamos alguém. Ou somos, no mínimo, amados. Mas eu acredito que amamos. O meu irmão reconhece a minha mãe, o seu peito, a sua voz, o seu cheiro, mesmo que a única coisa que os seus olhos reconheçam seja um jogo de sombra e luminosidade.
Depois a cada dia que passa da vida que a cada dia se torna maior, vamos abrindo o coração a mais e mais pessoas. E é isto que me põe pensativa. "Vamos abrindo o coração"? Nós vamos abrindo o coração? Ou vão-nos abrindo o coração?
Se de alguma maneira é praticamente unânime que amar faz parte do nosso código e é independente de pressões exteriores, o que é que determina que amemos alguém?
Já não via o meu irmão há quase um mês. Esquecera-me (?) do quanto gostei dele a primeira vez que o vi. Mas desta vez foi completamente diferente. Ontem quando acordei, ouvi-o gemer de satisfação enquanto tomava banho, fui vê-lo sentado/ encostado na banheira e toda eu fui ternura. Ternura como a que sentimos pela criança que brinca com o camião numa calçada. E não é isso que se sente por um irmão. É mais do que ternura. E esse mais veio depois. "Joana, seca-o." E eu peguei nele, no meu irmão e ele acomodou-se aos meus braços e, por entre toda aquela paz, mergulhou o seu olhar miúdo dentro do meu. Eu senti amor, o que foi marcante porque noutras relações não conseguimos determinar quando é que o sentimos. Mas ali foi bem claro- o amor, na sua forma mais genuína, porque desprovido de interesse ou intolerância.
Como um amigo meu que foi recentemente pai me disse: "de repente olhei para o miúdo e pensei 'sou pai dele' e agora amo-o mais do que à própria vida".
(continua)
Qem o vê, ali a brincar, ama-o subitamente. Deixa de ser uma criança que brinca com os seus carrinhos para ser um rasgo de luz na vida de alguém. E esse alguém, sem dar conta, é preenchido por um calor intenso, aquele calor que nos surpreende num dia frio de Inverno em que o céu está absolutamente azul.
Não consigo perceber o que nos faz amar alguém. E hoje, este verbo tão determinante, "amar", é usado de forma bem mais abrangente do que o amor por outra pessoa, de sexo igual ou diferente, que visa juntar duas vidas numa só. Hoje "amar" é bem mais do que isso.
Amar é um verbo imperativo independentemente da forma verbal em que está conjugado. Há uma necessidade - e estou a ser bem limitativa quando escrevo necessidade -, há mesmo uma qualquer vontade intrínseca em amar.
Nascemos e já amamos alguém. Ou somos, no mínimo, amados. Mas eu acredito que amamos. O meu irmão reconhece a minha mãe, o seu peito, a sua voz, o seu cheiro, mesmo que a única coisa que os seus olhos reconheçam seja um jogo de sombra e luminosidade.
Depois a cada dia que passa da vida que a cada dia se torna maior, vamos abrindo o coração a mais e mais pessoas. E é isto que me põe pensativa. "Vamos abrindo o coração"? Nós vamos abrindo o coração? Ou vão-nos abrindo o coração?
Se de alguma maneira é praticamente unânime que amar faz parte do nosso código e é independente de pressões exteriores, o que é que determina que amemos alguém?
Já não via o meu irmão há quase um mês. Esquecera-me (?) do quanto gostei dele a primeira vez que o vi. Mas desta vez foi completamente diferente. Ontem quando acordei, ouvi-o gemer de satisfação enquanto tomava banho, fui vê-lo sentado/ encostado na banheira e toda eu fui ternura. Ternura como a que sentimos pela criança que brinca com o camião numa calçada. E não é isso que se sente por um irmão. É mais do que ternura. E esse mais veio depois. "Joana, seca-o." E eu peguei nele, no meu irmão e ele acomodou-se aos meus braços e, por entre toda aquela paz, mergulhou o seu olhar miúdo dentro do meu. Eu senti amor, o que foi marcante porque noutras relações não conseguimos determinar quando é que o sentimos. Mas ali foi bem claro- o amor, na sua forma mais genuína, porque desprovido de interesse ou intolerância.
Como um amigo meu que foi recentemente pai me disse: "de repente olhei para o miúdo e pensei 'sou pai dele' e agora amo-o mais do que à própria vida".
(continua)
23.10.06
Tenho saudades deste filme...
22.10.06
Food and liquor
Nem sempre preciso de escrever um texto bonito sobre um álbum para vos dizer o quanto gosto dele, sobretudo quando o álbum de que vos quero falar tem canções assim:
Lupe Fiasco | Kick push (no álbum seguida da I Gotcha, que também é linda)
Lupe Fiasco (featuring Miss-gotta-love-her Jill Scott) | Daydream
Álbum viciante.
21.10.06
A coisa funciona mais ou menos assim
Abre-se o pacote da recém-adquirida
Cucumber extracts peel-off mask,
ou em bom português a máscara de depelar com extractos de pepino. Serve, diz a embalagem, para purificar os poros visando uma pele mais suave.
A dita máscara tem textura de gel e é para ser espalhada por todo o rosto, evitando os olhos e a boca
(ATENÇÃO: EVITEM OS OLHOS E A BOCA, MESMO! Para já porque arde quando se espalha em redor dos olhos, imagine-se o que não deve arder quando toca a conjuntiva. Depois porque vocês já não são crianças nenhumas e sabem ler: escusam de levar à boca uma coisa só porque cheira bem. Adiante.)
A pessoa vai espalhando aquilo e sabe bem: é refrescante e como já disse, tem um perfume delicioso, a limão e flores - bem menos artificial que os toalhetes da TAP.
Depois tem de deixar actuar? repousar? - nunca percebi bem qual dos dois- durante 10 a 15 minutos. E é aí que a magia acontece, meus amigos.
Aos cinco minutos, a cara começa a ficar rígida porque o gel vai formando uma película firme sobre a pele. A pessoa quer rir e não consegue, falar e não consegue, comer e não consegue.O simples esboçar de um trejeito é impossibilitado por aquele gel cheiroso que antes espalharam - parecia agradável, não era? - e que agora parece película aderente.
Aos dez minutos a cara está paralisada, como se o extracto de pepino fosse toxina botulínica. Experimentem, por exemplo, atender o telefone nestes últimos momentos e sair-vos-á qualquer coisa como "hôn?", em vez do habitual "'tou?". Dá azo a situações desconfortáveis que passam pela própria mãe perguntar o que é que andamos a fazer num sábado à tarde - procuramos não pensar que a mãe está a pensar o mesmo que nós, que passa por ter a boca ocupada com qualquer coisa, porque uma mãe a pensar nisso é no mínimo escabroso.
Aos quinze minutos podem enfim tirar a coisa que espalharam na cara. É aconselhado que a remoção se inicie nos contornos do rosto. Devem começar por passar a unha no bordo da película - sim, o conceito de película aderente volta à mente quando se remove isto. Ao pouco a pele restabelece a sua elasticidade. Respiramos de alívio.
Resultado: os mesmo poros dilatados mas limpos. Não compensa o susto, apesar de tudo.
A lição a reter é não comprar produtos de cosmética a 1,50 €, mesmo que seja na H&M - a única loja que vende roupa estilosa a bom preço desde que a saibamos procurar - diz-se que até vendem caras larocas se procurarmos bem no segundo andar. O pior, caros leitores, é que este gel-máscara-poção-experiência científica não carece de procura, está tão debaixo do olho que é compra quase imediata. Vão por mim, cosmética a 1, 5 € não é boa cena. Como é que eu pude pensar que era?
Cucumber extracts peel-off mask,
ou em bom português a máscara de depelar com extractos de pepino. Serve, diz a embalagem, para purificar os poros visando uma pele mais suave.
A dita máscara tem textura de gel e é para ser espalhada por todo o rosto, evitando os olhos e a boca
(ATENÇÃO: EVITEM OS OLHOS E A BOCA, MESMO! Para já porque arde quando se espalha em redor dos olhos, imagine-se o que não deve arder quando toca a conjuntiva. Depois porque vocês já não são crianças nenhumas e sabem ler: escusam de levar à boca uma coisa só porque cheira bem. Adiante.)
A pessoa vai espalhando aquilo e sabe bem: é refrescante e como já disse, tem um perfume delicioso, a limão e flores - bem menos artificial que os toalhetes da TAP.
Depois tem de deixar actuar? repousar? - nunca percebi bem qual dos dois- durante 10 a 15 minutos. E é aí que a magia acontece, meus amigos.
Aos cinco minutos, a cara começa a ficar rígida porque o gel vai formando uma película firme sobre a pele. A pessoa quer rir e não consegue, falar e não consegue, comer e não consegue.O simples esboçar de um trejeito é impossibilitado por aquele gel cheiroso que antes espalharam - parecia agradável, não era? - e que agora parece película aderente.
Aos dez minutos a cara está paralisada, como se o extracto de pepino fosse toxina botulínica. Experimentem, por exemplo, atender o telefone nestes últimos momentos e sair-vos-á qualquer coisa como "hôn?", em vez do habitual "'tou?". Dá azo a situações desconfortáveis que passam pela própria mãe perguntar o que é que andamos a fazer num sábado à tarde - procuramos não pensar que a mãe está a pensar o mesmo que nós, que passa por ter a boca ocupada com qualquer coisa, porque uma mãe a pensar nisso é no mínimo escabroso.
Aos quinze minutos podem enfim tirar a coisa que espalharam na cara. É aconselhado que a remoção se inicie nos contornos do rosto. Devem começar por passar a unha no bordo da película - sim, o conceito de película aderente volta à mente quando se remove isto. Ao pouco a pele restabelece a sua elasticidade. Respiramos de alívio.
Resultado: os mesmo poros dilatados mas limpos. Não compensa o susto, apesar de tudo.
A lição a reter é não comprar produtos de cosmética a 1,50 €, mesmo que seja na H&M - a única loja que vende roupa estilosa a bom preço desde que a saibamos procurar - diz-se que até vendem caras larocas se procurarmos bem no segundo andar. O pior, caros leitores, é que este gel-máscara-poção-experiência científica não carece de procura, está tão debaixo do olho que é compra quase imediata. Vão por mim, cosmética a 1, 5 € não é boa cena. Como é que eu pude pensar que era?
[ ]
Um homem sai de casa.
Morava num apartamento junto ao Castelo S. Jorge, um prédio antigo de alguma maneira recuperado. A vizinha de cima chamava-se dona Emília, era coscuvilheira mas boa cozinheira: desde pastéis de bacalhau a pães-de-ló, tudo lhe vinha parar às mãos quando chegava do trabalho. Os vizinhos do andar de baixo pintavam paredes com arte por encomenda, chegaram mesmo a pintar a parede do corredor que ligava o quarto do homem à sala.
Um homem sai de casa e tem as malas à porta.
Três malas cheias de momentos que foi coleccionando, discos e livros, fotografias e postais dos sítios que foi visitando, roupas que foi usando e gastando e deixando de usar. As malas, enormes, desproporcionais ao tamanho do seu coração - que encolhe a cada dia - ocupam toda a largura do passeio. A vizinhança chega-se à janela, curiosa. Ali no número 52 mora o senhor Jacinto, operário reformado, comunista com todas as suas forças. Chegou-se à janela e perguntou para a rua, visivelmente emocionado
"Então o senhor doutor vai-se embora?"
Ninguém lhe respondeu. A menina Aline - menina do cimo dos seus setenta anos- mulher do senhor Pereira do talho, doméstica toda a vida, fadista nas horas vagas, ouviu o senhor Jacinto e apressou-se a ir buscar uma peça de carne do lombo, que depositou no passeio, junto às malas.
Um homem sai de casa, tem as malas à porta e um saco com uma peça de carne do lombo.
Sobe as escadas mais uma vez para ir buscar dois ou três caixotes. Uma vida despedaçada, são cacos que transporta para outro lugar, para tentar recomeçar não a partir do zero, mas a partir da reconstrução de peças. Leva o passado atrás de si, para onde quer que vá, sem poder desprender-se dele. Tudo o resto que permanece é efémero. Quase superficial, não é só passado - é pretérito perfeito. Foi-se. Aquilo que o marcou visceralmente - pretéritos imperfeitos que ficam em cada caixote que transporta para a rua. Fragmentos em suspenso de vidas - não é só a sua que é assim - inacabadas.
Um homem sai de casa, tem as malas à porta, um saco com uma peça de carne do lombo, dois ou três caixotes contendo cacos e começa a chover.
De repente, mas não era nada que não prevera quem olhara para o céu essa manhã. Estava carregado, macilento. E o rio - da sua janela via-o bem - turvo e revolto, trazendo a sujidade de uma península inteira para vir dissolvê-la ao mar. Um relâmpago iluminara a rua parda, seguido de um trovão. A chuva começara logo de seguida. Recolheu-se a roupa a secar nos varandins, chamaram-se as crianças que brincavam na praceta. E a rua ficou vazia, só folhas e riachos de água que se formavam na beira da estrada, descendo, empurrando, tropeçando.
Um homem sai de casa, tem as malas à porta, um saco com uma peça de carne do lombo, dois ou três caixotes contendo cacos, começa a chover e não se vê ninguém na rua.
Está finalmente só. Um corpo vazio - ou pior, um coração vazio.Como uma telefonia avariada, que não recebe mas também não emite. No caso da telefonia, música, notícias, vozes sem rosto. No caso dele, emoções. Olha em redor antes de fechar a porta, duas vezes: primeiro ao sair do apartamento, depois ao sair do prédio. Ainda hesita da primeira vez: se deixasse as malas e os caixotes à porta - e alguém os fosse buscar, que não ele - podia tentar ser outro alguém ali entre aquelas paredes. Podia encher a casa com o seu presente e ignorar os pretéritos imperfeitos da sua vida. Decide, no entanto, cumprir-se. Ser ele próprio o determinista das suas acções. E desce as escadas; não queria ficar por ali. Ficar por ali seria acabar a vida que começara quando decidiu partir. E recomeçar a anterior. Ele não, queria uma vida nova com as pessoas de sempre- feito que conseguiria, a todo o custo.
Um dia a chuva há-de engolir o mundo, pensava ele quando era criança. Nunca pensou que nós acabamos por nos engolir a nós próprios de tão absortos que estamos com a possibilidade de mudar ou de permanecer. Que somos nós, e não a chuva ou o vento ou qualquer outra intempérie, quem tem a capacidade de nos engolir para voltar a ser. Ou engolir para acabar de vez.
Um homem sai de casa, tem as malas à porta, um saco com uma peça de carne do lombo, dois ou três caixotes contendo cacos, começa a chover, não se vê ninguém na rua e ele parte enfim.
Morava num apartamento junto ao Castelo S. Jorge, um prédio antigo de alguma maneira recuperado. A vizinha de cima chamava-se dona Emília, era coscuvilheira mas boa cozinheira: desde pastéis de bacalhau a pães-de-ló, tudo lhe vinha parar às mãos quando chegava do trabalho. Os vizinhos do andar de baixo pintavam paredes com arte por encomenda, chegaram mesmo a pintar a parede do corredor que ligava o quarto do homem à sala.
Um homem sai de casa e tem as malas à porta.
Três malas cheias de momentos que foi coleccionando, discos e livros, fotografias e postais dos sítios que foi visitando, roupas que foi usando e gastando e deixando de usar. As malas, enormes, desproporcionais ao tamanho do seu coração - que encolhe a cada dia - ocupam toda a largura do passeio. A vizinhança chega-se à janela, curiosa. Ali no número 52 mora o senhor Jacinto, operário reformado, comunista com todas as suas forças. Chegou-se à janela e perguntou para a rua, visivelmente emocionado
"Então o senhor doutor vai-se embora?"
Ninguém lhe respondeu. A menina Aline - menina do cimo dos seus setenta anos- mulher do senhor Pereira do talho, doméstica toda a vida, fadista nas horas vagas, ouviu o senhor Jacinto e apressou-se a ir buscar uma peça de carne do lombo, que depositou no passeio, junto às malas.
Um homem sai de casa, tem as malas à porta e um saco com uma peça de carne do lombo.
Sobe as escadas mais uma vez para ir buscar dois ou três caixotes. Uma vida despedaçada, são cacos que transporta para outro lugar, para tentar recomeçar não a partir do zero, mas a partir da reconstrução de peças. Leva o passado atrás de si, para onde quer que vá, sem poder desprender-se dele. Tudo o resto que permanece é efémero. Quase superficial, não é só passado - é pretérito perfeito. Foi-se. Aquilo que o marcou visceralmente - pretéritos imperfeitos que ficam em cada caixote que transporta para a rua. Fragmentos em suspenso de vidas - não é só a sua que é assim - inacabadas.
Um homem sai de casa, tem as malas à porta, um saco com uma peça de carne do lombo, dois ou três caixotes contendo cacos e começa a chover.
De repente, mas não era nada que não prevera quem olhara para o céu essa manhã. Estava carregado, macilento. E o rio - da sua janela via-o bem - turvo e revolto, trazendo a sujidade de uma península inteira para vir dissolvê-la ao mar. Um relâmpago iluminara a rua parda, seguido de um trovão. A chuva começara logo de seguida. Recolheu-se a roupa a secar nos varandins, chamaram-se as crianças que brincavam na praceta. E a rua ficou vazia, só folhas e riachos de água que se formavam na beira da estrada, descendo, empurrando, tropeçando.
Um homem sai de casa, tem as malas à porta, um saco com uma peça de carne do lombo, dois ou três caixotes contendo cacos, começa a chover e não se vê ninguém na rua.
Está finalmente só. Um corpo vazio - ou pior, um coração vazio.Como uma telefonia avariada, que não recebe mas também não emite. No caso da telefonia, música, notícias, vozes sem rosto. No caso dele, emoções. Olha em redor antes de fechar a porta, duas vezes: primeiro ao sair do apartamento, depois ao sair do prédio. Ainda hesita da primeira vez: se deixasse as malas e os caixotes à porta - e alguém os fosse buscar, que não ele - podia tentar ser outro alguém ali entre aquelas paredes. Podia encher a casa com o seu presente e ignorar os pretéritos imperfeitos da sua vida. Decide, no entanto, cumprir-se. Ser ele próprio o determinista das suas acções. E desce as escadas; não queria ficar por ali. Ficar por ali seria acabar a vida que começara quando decidiu partir. E recomeçar a anterior. Ele não, queria uma vida nova com as pessoas de sempre- feito que conseguiria, a todo o custo.
Um dia a chuva há-de engolir o mundo, pensava ele quando era criança. Nunca pensou que nós acabamos por nos engolir a nós próprios de tão absortos que estamos com a possibilidade de mudar ou de permanecer. Que somos nós, e não a chuva ou o vento ou qualquer outra intempérie, quem tem a capacidade de nos engolir para voltar a ser. Ou engolir para acabar de vez.
Um homem sai de casa, tem as malas à porta, um saco com uma peça de carne do lombo, dois ou três caixotes contendo cacos, começa a chover, não se vê ninguém na rua e ele parte enfim.
19.10.06
Para ser lido como foi escrito: ao som de Django Reinhardt
Escute senhor,
Eu não pedi a ninguém p'ra namorar.
Só lhe perguntei
Porque queria um par p'ra dançar.
Esta gente, hoje em dia!,
Está sempre a complicar
Eu pedi companhia, não ninguém p'ra namorar!
Queria abraçar enquanto dançava
E dar a mão até à pista
Começar o swing, a festa!
Eu girava, ele sorria.
Queria partilhar a alegria,
A tristeza?
Suava-a até que desaparecia!
Oiça outra vez senhor,
Não pedi ninguém em casamento!
Só queria um par p'ra dançar
E (quem sabe?) dormir ao relento.
(Olhe senhor, quando eu lhe pedi p'ra dançar
Se eu bem me lembro, ouvi-o me rejeitar
Que faço eu agora pois sou incapaz
De dançar consigo ou com outro rapaz?)
Eu não pedi a ninguém p'ra namorar.
Só lhe perguntei
Porque queria um par p'ra dançar.
Esta gente, hoje em dia!,
Está sempre a complicar
Eu pedi companhia, não ninguém p'ra namorar!
Queria abraçar enquanto dançava
E dar a mão até à pista
Começar o swing, a festa!
Eu girava, ele sorria.
Queria partilhar a alegria,
A tristeza?
Suava-a até que desaparecia!
Oiça outra vez senhor,
Não pedi ninguém em casamento!
Só queria um par p'ra dançar
E (quem sabe?) dormir ao relento.
(Olhe senhor, quando eu lhe pedi p'ra dançar
Se eu bem me lembro, ouvi-o me rejeitar
Que faço eu agora pois sou incapaz
De dançar consigo ou com outro rapaz?)
17.10.06
"He poos clouds"
Ele faz cocó de nuvens.
Não me canso de dizer isto, como quem descobriu qualquer coisa, a cura para o cancro, qualquer coisa.
Ele faz cocó de nuvens e em cada nuvem me sento e contemplo enquanto decorre a viagem. Basta fechar os olhos e aproveitar para descolar enquanto Owen vai samplando o seu próprio violino com os seus pedais mágicos.
Não há tripulação nesta viagem, para além do piloto Owen Pallet e dos pedais mágicos - que são piloto automático nas horas vagas. Reflectem-se, como numa aula do Liceu, imagens e animações artesanais, sobreposições de papéis e folhas de acetato, recortes e colagens. O nosso piloto afasta-se para o lado que as vejamos melhor.
"I can't sing, I can't play the piano, I can't play the violin, so I brought along these guys."
Vemos a cor ser adicionada aos poucos, como numa ilustração com números, há castelos e cavaleiros, palácios e sapos. Não há princesas. Um envelope com uma carta abre-se à nossa frente. A viagem continua.
"Can you please make the room darker?". Not dark enough yet. "Like a cinema."
Há o público e um homem que canta para dentro do seu violino. Nós e uma espécie de William Tell musical que guarda o arco atrás das costas para dedilhar as cordas do seu instrumento.
Estamos ainda sobre a nuvem mas não nos recostamos para trás porque as canções sobressaltam-nos. Percebemos que estamos perante a banda-sonora das nossas vidas e que cada acorde esteve presente em todos os momentos. Desde a tarde de domingo passada no sofá a ver filmes de segunda categoria como aquele pôr-do-sol sobre o rio que inundava de ternura quente uma boa conversa.
A nossa vida decorre lá em baixo (devo-me sentir culpada por não querer fazer parte dela?) e as imagens tornam-se cada vez mais negras, à medida que estranhas silhuetas
cadáveres? aves de rapina?
se juntam para escurecer a imagem até que apenas reste um ponto de luz.
Seguem-se dois encores, o primeiro com a Took you two years to win my heart, a minha preferida, em que a letra e o instrumento se fundem como em mais nenhuma outra, em que o dramatismo das notas parece acompanhar o batimento do coração.
"They say heartbreak is good for the skin but all that it's helped is my drinking."
Com o fim do concerto, acaba a viagem, mas não a vida.
Final Fantasy @ Club Lua, 15.10.2006
Não me canso de dizer isto, como quem descobriu qualquer coisa, a cura para o cancro, qualquer coisa.
Ele faz cocó de nuvens e em cada nuvem me sento e contemplo enquanto decorre a viagem. Basta fechar os olhos e aproveitar para descolar enquanto Owen vai samplando o seu próprio violino com os seus pedais mágicos.
Não há tripulação nesta viagem, para além do piloto Owen Pallet e dos pedais mágicos - que são piloto automático nas horas vagas. Reflectem-se, como numa aula do Liceu, imagens e animações artesanais, sobreposições de papéis e folhas de acetato, recortes e colagens. O nosso piloto afasta-se para o lado que as vejamos melhor.
"I can't sing, I can't play the piano, I can't play the violin, so I brought along these guys."
Vemos a cor ser adicionada aos poucos, como numa ilustração com números, há castelos e cavaleiros, palácios e sapos. Não há princesas. Um envelope com uma carta abre-se à nossa frente. A viagem continua.
"Can you please make the room darker?". Not dark enough yet. "Like a cinema."
Há o público e um homem que canta para dentro do seu violino. Nós e uma espécie de William Tell musical que guarda o arco atrás das costas para dedilhar as cordas do seu instrumento.
Estamos ainda sobre a nuvem mas não nos recostamos para trás porque as canções sobressaltam-nos. Percebemos que estamos perante a banda-sonora das nossas vidas e que cada acorde esteve presente em todos os momentos. Desde a tarde de domingo passada no sofá a ver filmes de segunda categoria como aquele pôr-do-sol sobre o rio que inundava de ternura quente uma boa conversa.
A nossa vida decorre lá em baixo (devo-me sentir culpada por não querer fazer parte dela?) e as imagens tornam-se cada vez mais negras, à medida que estranhas silhuetas
cadáveres? aves de rapina?
se juntam para escurecer a imagem até que apenas reste um ponto de luz.
Seguem-se dois encores, o primeiro com a Took you two years to win my heart, a minha preferida, em que a letra e o instrumento se fundem como em mais nenhuma outra, em que o dramatismo das notas parece acompanhar o batimento do coração.
"They say heartbreak is good for the skin but all that it's helped is my drinking."
Com o fim do concerto, acaba a viagem, mas não a vida.
Final Fantasy @ Club Lua, 15.10.2006
9.10.06
Julian 'Cannonball' Adderley (ou eu não percebo nada disto mas adorava perceber)
Começar por algum lado, iniciar, meter as mãos (e a alma) na massa, dar o corpo (e o coração) ao manifesto.
Há álbuns que sabem a instantes, sobremesas ou bons vinhos. Outros transportam-nos ou acompanham-nos ao longo de estações do ano. Preconceito ou não, o pouco (ou o pouquíssimo íssimo íssimo) jazz que conheço sempre me lembrou Outono. Os dois ou três álbuns que tenho foram sempre comprados entre o dia 21 de Setembro e o dia 20 de Dezembro. Geralmente, ainda com o disco debaixo do braço, apanhava chuva, punha o pé numa poça de água, bebia um chocolate quente.
A tradição manteve-se e novamente, mas desta vez seguindo o conselho de "ir pelo menos óbvio" (porque quando alguém sabe mais do que nós acerca de qualquer coisa anotamos as recomendações e cumprimo-las), sendo que o meu conhecimento jazzístico é tão parco que até o óbvio é menos óbvio, acolhi no seio da minha reduzida colecção de discos (é quase infame chamar-lhe colecção) esta deliciosa rodela:

Este Somethin' else - oh e como tem sido somethin' else na minha vida - é daquelas pérolas vendidas a onze euros e meio na FNAC. Onze euros e meio para comprar tranquilidade - na ausência de tranquilidade intrínseca à alma, uma pechincha!
Autumn leaves abre o álbum e faz jus a tudo o que disse acerca do Outono e de álbuns de jazz outonais. A cada nota soprada (ou devo dizer, tal é a calma, suspirada?) caem folhas de árvores caducas, que primeiro dançam no ar, ao ritmo do piano do Hank Jones
further investigation tells me: este álbum tem um elenco de luxo
depois lentamente escorregam, como se o vento fosse caramelo líquido, até ao chão onde tombam, vivas. Porque a diferença entre estas Autumn leaves e aquelas que caem na minha rua e na tua é a presença de vitalidade, como se dissessem "Não me matas assim; ainda hei-de resistir ao Inverno".
Aqui não há estrelato nem domínio, cada músico entra, rigorosamente trajado para tal baile de gala, Art Blakey num registo suave, fazendo-nos fechar os olhos e inspirar fundo a cada nota de saxofone, e a faixa aquece sempre em lamento alegre (as pessoas alegres também às vezes estão tristes). 11 minutos de lareira acesa, de tons dourados e acastanhados, 11 minutos de se isto é jazz, nunca mais ouço outra coisa. Apaixonante.
A fasquia vai alta para a segunda faixa, pedimos-lhe "por favor deixa-me estar aqui onde ninguém me vê", mas Love for Sale está feita para acabar com a melancolia (to all of you, sullen lovers!). Agora o amor está à venda numa rua de Manhattan - que nunca visitei, mas também no calçadão de Copacabana (que sim, já visitei) ou nas escadas de Montmartre, com a Église Sacré Coeur ao fundo (ai Paris, Paris). O amor está à venda até numa tasca assimétrica no Bairro Alto, daquelas frequentadas por intelectuais barbudos. Mas agora o amor vende-se? Não sei. A promessa de amor sim. Impossível não jingar, não abanar o pé, não curtir quando se sabe que algures depois deste mato cerrado que é a desilusão - para quê o eufemismo?, falo de desgosto - há uma clareira onde entra o sol, onde se dissipam as mágoas e as lágrimas escondidas dão lugar a sorrisos longilíneos. E saltamos para a rua, e sentimos o Outono apoderar-se do vento e das nuvens, e não nos importamos porque Love for sale pede-nos, em linguagem saxofónica e trompética, "sai dessa, meu!". Aos cinco minutos e trinta, no entanto, nova surpresa!, afinal por cada amor há melancolia, grita Adderley ao saxofone, mas há discussão, e o piano e a bateria continuam optimistas. Eu também.
Ó alegria! Ó boa- disposição! Ó velha Joana de sempre, dançarina das danças improváveis, de ancas imparáveis! Os dedos estalam, tentam acompanhar, mas o corpo descoordena-se, há passos para a direita e mãos para a esquerda, há o pescoço que impele o queixo para a frente e para baixo. DANÇA DANÇA DANÇA, impera o saxofone e o trompete, e como evitá-lo? Afinal nesta canção dizem-me que há sempre mais qualquer coisa, ou não se chamasse a faixa Somethin' else. Será esta uma alternativa para mim? Ou uma alternativa, ou antes, um novo elemento a adicionar na conta de somar que é a música? Não se tratam da conjunção OU, mas sim, e agora vejo-o tão bem, de muitos sinais de mais, somando diálogos entre o Miles e o Julian 'Cannonball', que à terceira faixa são já meus velhos amigos de infância. Vou ali dançar. Volto na quarta faixa.
"One for Daddy-O" é sensual, é mesmo a mais sensual até agora. Sensual nesse primeiro sentido que pensaram - o sexual-, sim, mas também no sentido de "ACORDA e USA OS CINCO SENTIDOS!". Desperto embriagada. Doce jogo de sedução este, em que me deixo levar, em que o meu oponente (rival? parceiro?) me olha nos olhos e sem usar palavras, me diz as coisas mais bonitas. Regresso ao meu ninho de folhas outonais, esta canção traz-me demasiadas recordações boas, cheiros, sabores, beijos. Esses momentos são meus, ninguém mos tira. Estas canções são minhas agora. Ninguém mas tira.
De volta ao lamento - mas já o disse aqui e volto a dizê-lo, um lamento não tem de ser necessariamente triste. Mas este lamento é um bocadinho triste. Ou talvez não. Talvez seja apenas fatigado. Um lamento de cansaço, de saturação, "já chega ou vou-me embora". Julian não está cansado da música, pelo que me conta, nem está cansado de nada nem de ninguém. Não está cansado dele (e como é fácil ficarmos fartos de nós, que convivemos connosco repetidamente). Não sabe bem de que se cansa ele. Como te compreendo, Julian, dá cá mais cinco e um abraço. É uma imperial e um whisky para esta mesa, faz'avor. Este lamento transforma-se em segredo ao ouvido e eu não o conto a ninguém (era incapaz de trair a confiança deste meu bom amigo). Mas a segundos do fim, Julian satura-se de estar saturado e sai do bar finalmente em liberdade.
O tio da Alison (Alison's Uncle) só pode ser um moço bem-humorado. Esta música mal começa e já me fez rir. Julian saíu do bar mas não me deixou sozinha, entraram os meus amigos e estamos em alegre galhofa a conversar sobre tudo e sobre nada. E eles, na faixa, também conversam e riem. A bateria parece pedir "Hey Miles Davis, play it louder!" e o mestre corresponde e o Julian não se deixa ficar e se isto fosse uma rua eu desatava a correr como a Heidi pelos Alpes. Esta música faz-me teclar desenfreadamente, enche-me de energia, e eu mexo-me na prisão desta cadeira, mas é de festa que esta música fala. Volto para os meus amigos, caramba! estão cada vez mais bêbedos!, brindamos a cada solo de bateria e trauteamos a secção de sopro cada vez que entra para dar o mote a festa. E o mote é simples "Sejam felizes, porra!". Como um filme que acaba bem, com os créditos finais a passar em fundo preto, saio da sala onde decorreu a sessão.
A festa continua cá fora.

Para ler a sério sobre Julian 'Cannonball' Adderley, podem consultar este, aquele ou o outro sites.
Há álbuns que sabem a instantes, sobremesas ou bons vinhos. Outros transportam-nos ou acompanham-nos ao longo de estações do ano. Preconceito ou não, o pouco (ou o pouquíssimo íssimo íssimo) jazz que conheço sempre me lembrou Outono. Os dois ou três álbuns que tenho foram sempre comprados entre o dia 21 de Setembro e o dia 20 de Dezembro. Geralmente, ainda com o disco debaixo do braço, apanhava chuva, punha o pé numa poça de água, bebia um chocolate quente.
A tradição manteve-se e novamente, mas desta vez seguindo o conselho de "ir pelo menos óbvio" (porque quando alguém sabe mais do que nós acerca de qualquer coisa anotamos as recomendações e cumprimo-las), sendo que o meu conhecimento jazzístico é tão parco que até o óbvio é menos óbvio, acolhi no seio da minha reduzida colecção de discos (é quase infame chamar-lhe colecção) esta deliciosa rodela:
Este Somethin' else - oh e como tem sido somethin' else na minha vida - é daquelas pérolas vendidas a onze euros e meio na FNAC. Onze euros e meio para comprar tranquilidade - na ausência de tranquilidade intrínseca à alma, uma pechincha!
Autumn leaves abre o álbum e faz jus a tudo o que disse acerca do Outono e de álbuns de jazz outonais. A cada nota soprada (ou devo dizer, tal é a calma, suspirada?) caem folhas de árvores caducas, que primeiro dançam no ar, ao ritmo do piano do Hank Jones
further investigation tells me: este álbum tem um elenco de luxo
depois lentamente escorregam, como se o vento fosse caramelo líquido, até ao chão onde tombam, vivas. Porque a diferença entre estas Autumn leaves e aquelas que caem na minha rua e na tua é a presença de vitalidade, como se dissessem "Não me matas assim; ainda hei-de resistir ao Inverno".
Aqui não há estrelato nem domínio, cada músico entra, rigorosamente trajado para tal baile de gala, Art Blakey num registo suave, fazendo-nos fechar os olhos e inspirar fundo a cada nota de saxofone, e a faixa aquece sempre em lamento alegre (as pessoas alegres também às vezes estão tristes). 11 minutos de lareira acesa, de tons dourados e acastanhados, 11 minutos de se isto é jazz, nunca mais ouço outra coisa. Apaixonante.
A fasquia vai alta para a segunda faixa, pedimos-lhe "por favor deixa-me estar aqui onde ninguém me vê", mas Love for Sale está feita para acabar com a melancolia (to all of you, sullen lovers!). Agora o amor está à venda numa rua de Manhattan - que nunca visitei, mas também no calçadão de Copacabana (que sim, já visitei) ou nas escadas de Montmartre, com a Église Sacré Coeur ao fundo (ai Paris, Paris). O amor está à venda até numa tasca assimétrica no Bairro Alto, daquelas frequentadas por intelectuais barbudos. Mas agora o amor vende-se? Não sei. A promessa de amor sim. Impossível não jingar, não abanar o pé, não curtir quando se sabe que algures depois deste mato cerrado que é a desilusão - para quê o eufemismo?, falo de desgosto - há uma clareira onde entra o sol, onde se dissipam as mágoas e as lágrimas escondidas dão lugar a sorrisos longilíneos. E saltamos para a rua, e sentimos o Outono apoderar-se do vento e das nuvens, e não nos importamos porque Love for sale pede-nos, em linguagem saxofónica e trompética, "sai dessa, meu!". Aos cinco minutos e trinta, no entanto, nova surpresa!, afinal por cada amor há melancolia, grita Adderley ao saxofone, mas há discussão, e o piano e a bateria continuam optimistas. Eu também.
Ó alegria! Ó boa- disposição! Ó velha Joana de sempre, dançarina das danças improváveis, de ancas imparáveis! Os dedos estalam, tentam acompanhar, mas o corpo descoordena-se, há passos para a direita e mãos para a esquerda, há o pescoço que impele o queixo para a frente e para baixo. DANÇA DANÇA DANÇA, impera o saxofone e o trompete, e como evitá-lo? Afinal nesta canção dizem-me que há sempre mais qualquer coisa, ou não se chamasse a faixa Somethin' else. Será esta uma alternativa para mim? Ou uma alternativa, ou antes, um novo elemento a adicionar na conta de somar que é a música? Não se tratam da conjunção OU, mas sim, e agora vejo-o tão bem, de muitos sinais de mais, somando diálogos entre o Miles e o Julian 'Cannonball', que à terceira faixa são já meus velhos amigos de infância. Vou ali dançar. Volto na quarta faixa.
"One for Daddy-O" é sensual, é mesmo a mais sensual até agora. Sensual nesse primeiro sentido que pensaram - o sexual-, sim, mas também no sentido de "ACORDA e USA OS CINCO SENTIDOS!". Desperto embriagada. Doce jogo de sedução este, em que me deixo levar, em que o meu oponente (rival? parceiro?) me olha nos olhos e sem usar palavras, me diz as coisas mais bonitas. Regresso ao meu ninho de folhas outonais, esta canção traz-me demasiadas recordações boas, cheiros, sabores, beijos. Esses momentos são meus, ninguém mos tira. Estas canções são minhas agora. Ninguém mas tira.
De volta ao lamento - mas já o disse aqui e volto a dizê-lo, um lamento não tem de ser necessariamente triste. Mas este lamento é um bocadinho triste. Ou talvez não. Talvez seja apenas fatigado. Um lamento de cansaço, de saturação, "já chega ou vou-me embora". Julian não está cansado da música, pelo que me conta, nem está cansado de nada nem de ninguém. Não está cansado dele (e como é fácil ficarmos fartos de nós, que convivemos connosco repetidamente). Não sabe bem de que se cansa ele. Como te compreendo, Julian, dá cá mais cinco e um abraço. É uma imperial e um whisky para esta mesa, faz'avor. Este lamento transforma-se em segredo ao ouvido e eu não o conto a ninguém (era incapaz de trair a confiança deste meu bom amigo). Mas a segundos do fim, Julian satura-se de estar saturado e sai do bar finalmente em liberdade.
O tio da Alison (Alison's Uncle) só pode ser um moço bem-humorado. Esta música mal começa e já me fez rir. Julian saíu do bar mas não me deixou sozinha, entraram os meus amigos e estamos em alegre galhofa a conversar sobre tudo e sobre nada. E eles, na faixa, também conversam e riem. A bateria parece pedir "Hey Miles Davis, play it louder!" e o mestre corresponde e o Julian não se deixa ficar e se isto fosse uma rua eu desatava a correr como a Heidi pelos Alpes. Esta música faz-me teclar desenfreadamente, enche-me de energia, e eu mexo-me na prisão desta cadeira, mas é de festa que esta música fala. Volto para os meus amigos, caramba! estão cada vez mais bêbedos!, brindamos a cada solo de bateria e trauteamos a secção de sopro cada vez que entra para dar o mote a festa. E o mote é simples "Sejam felizes, porra!". Como um filme que acaba bem, com os créditos finais a passar em fundo preto, saio da sala onde decorreu a sessão.
A festa continua cá fora.
Para ler a sério sobre Julian 'Cannonball' Adderley, podem consultar este, aquele ou o outro sites.
5.10.06
Iogurtes
"Reputada por sua permanente aposta na Inovação, a Danone volta a surpreender ao relançar os Puro Danone Pedaços, que aliam os benefícios nutricionais do iogurte aos da melhor fruta produzida em Portugal, incluindo pedaços de fruta com Denominação de Origem Protegida (D.O.P.) ou Indicação de Origem Protegida (I.G.P.).
A nova gama de iogurtes "Puro Danone Pedaços", que estará no mercado português a partir de 9 de Junho, inclui os sabores Ananás dos Açores (D.O.P.), Pêra Rocha do Oeste (D.O.P.), Mel da Terra Quente (D.O.P.) e Nozes (vindas do Alentejo), Cereja da Cova da Beira (I.G.P.), Pêssego da Cova da Beira (I.G.P.), Maçã de Alcobaça (I.G.P.), e Morango cultivado no Ribatejo. No primeiro ano, A Danone prevê produzir 10 milhões de unidades destas.
Dos Açores ao Alentejo, passando pela Estremadura, Ribatejo, Beira Interior e Trás-os-Montes, são várias as regiões frutícolas abrangidas neste inovador projecto que envolve 620 produtores frutícolas e mais de 360 toneladas de fruta anualmente produzida em Portugal.
Ao relançar a linha "Puro Danone Pedaços", a Danone pretende conquistar a liderança no segmento dos iogurtes com pedaços, o único em que ainda não é líder. O objectivo é portanto uma duplicação das vendas.
O desafio remonta a 2004, quando a Danone relançou toda a linha "Puro", fortalecendo os valores de Família, Confiança e Tradição. Decidiu-se então reformular o conceito do iogurte com pedaços, aliando-o a frutos exclusivamente portugueses e de origem seleccionada.
Sob o lema "O melhor do que é nosso", a campanha de publicidade estará patente a partir de meados de Junho na imprensa e na televisão. Paralelamente, decorrem acções em 100 lojas, com material de visibilidade, distribuição de folhetos e degustação dos novos iogurtes.
Reconhecendo a qualidade da produção frutícola nacional, esta é a primeira vez em Portugal que a agro-indústria se dispõe formalmente a utilizar frutos nacionais com nomes protegidos a nível comunitário. O projecto Puro Danone Pedaços representa assim uma aposta na Inovação, na Qualidade certificada e na Agricultura nacional. E, claro, na Alimentação saudável e saborosa!
in agroportal.pt
O iogurte Puro danone de ananás dos Açores é o meu novo vício alimentar.
A nova gama de iogurtes "Puro Danone Pedaços", que estará no mercado português a partir de 9 de Junho, inclui os sabores Ananás dos Açores (D.O.P.), Pêra Rocha do Oeste (D.O.P.), Mel da Terra Quente (D.O.P.) e Nozes (vindas do Alentejo), Cereja da Cova da Beira (I.G.P.), Pêssego da Cova da Beira (I.G.P.), Maçã de Alcobaça (I.G.P.), e Morango cultivado no Ribatejo. No primeiro ano, A Danone prevê produzir 10 milhões de unidades destas.
Dos Açores ao Alentejo, passando pela Estremadura, Ribatejo, Beira Interior e Trás-os-Montes, são várias as regiões frutícolas abrangidas neste inovador projecto que envolve 620 produtores frutícolas e mais de 360 toneladas de fruta anualmente produzida em Portugal.
Ao relançar a linha "Puro Danone Pedaços", a Danone pretende conquistar a liderança no segmento dos iogurtes com pedaços, o único em que ainda não é líder. O objectivo é portanto uma duplicação das vendas.
O desafio remonta a 2004, quando a Danone relançou toda a linha "Puro", fortalecendo os valores de Família, Confiança e Tradição. Decidiu-se então reformular o conceito do iogurte com pedaços, aliando-o a frutos exclusivamente portugueses e de origem seleccionada.
Sob o lema "O melhor do que é nosso", a campanha de publicidade estará patente a partir de meados de Junho na imprensa e na televisão. Paralelamente, decorrem acções em 100 lojas, com material de visibilidade, distribuição de folhetos e degustação dos novos iogurtes.
Reconhecendo a qualidade da produção frutícola nacional, esta é a primeira vez em Portugal que a agro-indústria se dispõe formalmente a utilizar frutos nacionais com nomes protegidos a nível comunitário. O projecto Puro Danone Pedaços representa assim uma aposta na Inovação, na Qualidade certificada e na Agricultura nacional. E, claro, na Alimentação saudável e saborosa!
in agroportal.pt
O iogurte Puro danone de ananás dos Açores é o meu novo vício alimentar.
3.10.06
30.9.06
NASCEU (e eu renasci)
Chama-se André, nasceu às 17:15 do dia 28 de Setembro de 2006. Pesa 2.840 kg e mede 50 centímetros. É irrequieto, está sempre a se mexer, a esticar os braços e as pernas, a flecti-los, a abrir e a fechar as mãos, a mexer nas orelhas, no cabelo, no nariz, na boca, mas mal apanhe um colo onde se aninhe bem, toca de dormir. Apresento-vos o meu irmão mais novo:
29.9.06
Uma vez parva, sempre parva V
parvo
do Lat. parvu ou parvulu
adj.,
pequeno;
apoucado de juízo ou entendimento;
idiota;
s. m.,
indivíduo parvo ou atoleimado.
A palavra parva é gira se a decompusermos mentalmente, repetindo-a até que deixe de fazer qualquer sentido e o seu sentido se torne tão parvo quanto a palavra parva.
parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva
Bolas, isto da parvoíce está bem pior do que eu pensava.
do Lat. parvu ou parvulu
adj.,
pequeno;
apoucado de juízo ou entendimento;
idiota;
s. m.,
indivíduo parvo ou atoleimado.
A palavra parva é gira se a decompusermos mentalmente, repetindo-a até que deixe de fazer qualquer sentido e o seu sentido se torne tão parvo quanto a palavra parva.
parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva parva
Bolas, isto da parvoíce está bem pior do que eu pensava.
Sou parva III
UM LIVRO PARVO PARA PESSOAS PARVAS- e que fará as menos parvas perceber o mundo das verdadeiramente parvas:

"Rabbits. We'll never quite know why, but sometimes they decide they've just had enough of this world - and that's when they start getting inventive."

Para além do livro, também aqui.
"Rabbits. We'll never quite know why, but sometimes they decide they've just had enough of this world - and that's when they start getting inventive."
Para além do livro, também aqui.
Sou parva II
Formigas não atrapalham, só fazem comichão. *coça-se*
Já ouviram alguém a dizer "sai-me da frente, ó formigo!!"? Não, pois não?
E "caramba tenho uma comichão nas costas, deve ser uma formiga, ora vê lá"? Claro que já.
*coça-se*
Depois não me venham dizer que aqui não se discutem verdades concretas. Ou venham, que eu ajo sobre os vossos corpos com o meu taser.
Já ouviram alguém a dizer "sai-me da frente, ó formigo!!"? Não, pois não?
E "caramba tenho uma comichão nas costas, deve ser uma formiga, ora vê lá"? Claro que já.
*coça-se*
Depois não me venham dizer que aqui não se discutem verdades concretas. Ou venham, que eu ajo sobre os vossos corpos com o meu taser.
28.9.06
A/C Navegação
Pessoal que comenta aqui no blogue: decidi responder pessoalmente a todos os vossos comentários, como tenho feito de forma mais ou menos esporádica a alguns até à data. A questão é: vocês vêm até aqui ler-me e eu gosto muito que comentem, que reajam, que sintam e que reflictam comigo, ou pelo menos, que se distraiam. É uma honra ser lida por vocês, malta.
Scroll back até aos posts anteriores onde encontrarão respostas aos comentários do último mês. A partir de hoje será assim.
Estimo que comentem,
Joanie Bats
Scroll back até aos posts anteriores onde encontrarão respostas aos comentários do último mês. A partir de hoje será assim.
Estimo que comentem,
Joanie Bats
27.9.06
Liars a frio
Antes de mais nada, o Angus baba-se. E visto que dança e se abana, há quase como uma celebração de champagne mas em versão baba para cima do público. Não me molhou, no entanto, pois fiquei longe do palco para não atrapalhar ninguém quando fosse buscar a imperial habitual do meio do concerto.
Depois, não vi Deerhunter, ou melhor, só ouvi a última música, por isso estava ainda pouco aquecida para o que vinha depois. Mas o que ouvi pareceu-me bem, tive pena do atraso, mas jogou o Benfica, houve greve de metro, enfim a cidade estava imposssível.
Assim sendo, é válido afirmar que para mim o início do concerto foi morninho, num quase "é só isto?". Mas os Liars valem pelo que são, ou pelo último disco digo eu, que não gosto tanto do segundo (não falo do primeiro porque não ouvi) e quando o coração, à segunda/terceira música, começa a bater ao ritmo dos
DRUMS
e o Angus - atente-se à precisão científica deste post: não ouvi o primeiro disco, não sei o sobrenome do moço, nem procurei porque não quero saber, fixe não é?- começa a dar o seu espectáculo, às vezes quase independente dos outros dois índios que maltratam as baterias até mais não poderem, outras vezes numa relação de simbiose do mais puro que existe, eis quando um concerto de Liars começa a valer a pena. E valeu, ó se valeu.
Claro que a minha opinião vale o que vale. Ignorem este post, até. Mas a noite tinha um momento marcado, a Visit from drums, que é qualquer coisa de sobrenatural. E esse momento não defraudou, aliás lançou a tónica para que o resto do concerto fosse cada vez melhor. Superaram-se a si próprios talvez. (estou croma disto, repare-se na expressão "lançou a tónica")
Ultimamente sempre que vou a um concerto penso "isto foi histórico", "é a música do futuro", blá blá blá. (É a isto a que chegou o meu nível de cromice.)Não posso dar certezas, mas apercebi-me que, baba à parte (e vestido vermelho aos folhos, pois claro), o futuro é risonho para a música. Ou baba incluída.
Depois, não vi Deerhunter, ou melhor, só ouvi a última música, por isso estava ainda pouco aquecida para o que vinha depois. Mas o que ouvi pareceu-me bem, tive pena do atraso, mas jogou o Benfica, houve greve de metro, enfim a cidade estava imposssível.
Assim sendo, é válido afirmar que para mim o início do concerto foi morninho, num quase "é só isto?". Mas os Liars valem pelo que são, ou pelo último disco digo eu, que não gosto tanto do segundo (não falo do primeiro porque não ouvi) e quando o coração, à segunda/terceira música, começa a bater ao ritmo dos
DRUMS
e o Angus - atente-se à precisão científica deste post: não ouvi o primeiro disco, não sei o sobrenome do moço, nem procurei porque não quero saber, fixe não é?- começa a dar o seu espectáculo, às vezes quase independente dos outros dois índios que maltratam as baterias até mais não poderem, outras vezes numa relação de simbiose do mais puro que existe, eis quando um concerto de Liars começa a valer a pena. E valeu, ó se valeu.
Claro que a minha opinião vale o que vale. Ignorem este post, até. Mas a noite tinha um momento marcado, a Visit from drums, que é qualquer coisa de sobrenatural. E esse momento não defraudou, aliás lançou a tónica para que o resto do concerto fosse cada vez melhor. Superaram-se a si próprios talvez. (estou croma disto, repare-se na expressão "lançou a tónica")
Ultimamente sempre que vou a um concerto penso "isto foi histórico", "é a música do futuro", blá blá blá. (É a isto a que chegou o meu nível de cromice.)Não posso dar certezas, mas apercebi-me que, baba à parte (e vestido vermelho aos folhos, pois claro), o futuro é risonho para a música. Ou baba incluída.
25.9.06
QUERO UM CÃO.
Um agradecimento por uma noite bem passada
E um beijinho cheio de coragem à Rita (com a promessa da visita a Boston logo que os astros se alinhem nesse sentido).
Tchakare Kanyembe + Rita Martins @ Andanças 2006
Tchakare Kanyembe + Rita Martins @ Andanças 2006
23.9.06
Autumn or Fall
Dias assim, em que o vento despe o bronzeado do Verão, deixando-o tombar sobre as folhas que repousam no chão.
Passados que estão os dias de cabeça vazia e tronco nu, há despedidas para fazer(porque o Outono é também tempo de refazer e de partir) e há abraços obrigatoriamente apertados e sentidos.
Someone staying and someone gone
A mente fixa numa só coisa, num só instante, como se não conseguisse avançar nem retroceder, como se antes disso nada tivesse acontecido, como se naquele momento se tivesse nascido. Nascer para morrer, como um fruto que não é colhido. Pensar que nada é desnecessário ou supérfluo: porque tal como um fruto que quando apodrece lança à terra sementes que gerarão novas vidas, também no amor nada se destrói e tudo é reaproveitado e regenerado. Mesmo quando tudo acaba, quando tudo parece morrer - ou quando nos matam, devagar - há sempre um novo nós que ressurge por entre a polpa ácida e perfumada de um fruto maduro. Nós próprios, talvez mais ácidos, mais perfumados, sem dúvida mais maduros.
Is it bad that you're good for me,
did I love you just randomly?
Vejo uma estação de comboios, uma gare de autocarros, um aeroporto. Pessoas que partem ou regressam, como o Outono, todos os anos.
*dEUS "Serpentine"
Passados que estão os dias de cabeça vazia e tronco nu, há despedidas para fazer(porque o Outono é também tempo de refazer e de partir) e há abraços obrigatoriamente apertados e sentidos.
Someone staying and someone gone
A mente fixa numa só coisa, num só instante, como se não conseguisse avançar nem retroceder, como se antes disso nada tivesse acontecido, como se naquele momento se tivesse nascido. Nascer para morrer, como um fruto que não é colhido. Pensar que nada é desnecessário ou supérfluo: porque tal como um fruto que quando apodrece lança à terra sementes que gerarão novas vidas, também no amor nada se destrói e tudo é reaproveitado e regenerado. Mesmo quando tudo acaba, quando tudo parece morrer - ou quando nos matam, devagar - há sempre um novo nós que ressurge por entre a polpa ácida e perfumada de um fruto maduro. Nós próprios, talvez mais ácidos, mais perfumados, sem dúvida mais maduros.
Is it bad that you're good for me,
did I love you just randomly?
Vejo uma estação de comboios, uma gare de autocarros, um aeroporto. Pessoas que partem ou regressam, como o Outono, todos os anos.
*dEUS "Serpentine"
22.9.06
Sentir? (ou a minha relação com a arte contemporânea)
Mostram-nos bocados de arte e dizem-nos:
Sente.
Imagens retorcidas, traços que unem pontos e perspectivas, homens esculpidos de mármore, de filamentos metálicos, de cabos de electricidade, de barro, homens de cera iguais a ti mas opacos e maciços.
Mostram-nos essas coisas e dizem-nos:
Sente.
Como se sentir fosse uma ordem ou desculpa.
Olhar - ou ver- fragmentos de vidro espalhados num soalho de madeira. Sentir? Ver, no mínimo. Explicarem-nos qualquer coisa, estragarem sempre tudo com explicações baratas.
Não perceberem que quanto mais se justificam, quanto mais nos pedem desculpa, menos mérito lhes damos.
Sentir? Absolutamente. Se nos der gozo. Sempre que nos der gozo. Enquanto nos der gozo.
Porque existirem obras de arte que não nos dizem nada não é novidade nem é fruto da arte contemporânea - e entender porquê é que cada obra nos faz um arrepio vai para além de qualquer reflexão.
(Como a cor de um batôm ou a forma das nuvens, nem todas nos fazem desviar o olhar pela segunda vez.)
Olhar para a criatividade (para alguns só se chama criatividade porque eles se consideram criadores), ver intervenções e instalações e pensar que "um enxame de mosquitos fazia melhor trabalho numa noite em que dormisse destapada do que estes gajos numa sala de 300 metros quadrados".
Ou ver cada coisa no seu lugar
o quadro no chão, a escultura no tecto, a instalação em nossa casa
e achar que se pertence ali, que se está em cada objecto, porque sabemos que viver num mundo como este e em tempos como estes, é também, por si só, uma forma de arte.
Sente.
Imagens retorcidas, traços que unem pontos e perspectivas, homens esculpidos de mármore, de filamentos metálicos, de cabos de electricidade, de barro, homens de cera iguais a ti mas opacos e maciços.
Mostram-nos essas coisas e dizem-nos:
Sente.
Como se sentir fosse uma ordem ou desculpa.
Olhar - ou ver- fragmentos de vidro espalhados num soalho de madeira. Sentir? Ver, no mínimo. Explicarem-nos qualquer coisa, estragarem sempre tudo com explicações baratas.
Não perceberem que quanto mais se justificam, quanto mais nos pedem desculpa, menos mérito lhes damos.
Sentir? Absolutamente. Se nos der gozo. Sempre que nos der gozo. Enquanto nos der gozo.
Porque existirem obras de arte que não nos dizem nada não é novidade nem é fruto da arte contemporânea - e entender porquê é que cada obra nos faz um arrepio vai para além de qualquer reflexão.
(Como a cor de um batôm ou a forma das nuvens, nem todas nos fazem desviar o olhar pela segunda vez.)
Olhar para a criatividade (para alguns só se chama criatividade porque eles se consideram criadores), ver intervenções e instalações e pensar que "um enxame de mosquitos fazia melhor trabalho numa noite em que dormisse destapada do que estes gajos numa sala de 300 metros quadrados".
Ou ver cada coisa no seu lugar
o quadro no chão, a escultura no tecto, a instalação em nossa casa
e achar que se pertence ali, que se está em cada objecto, porque sabemos que viver num mundo como este e em tempos como estes, é também, por si só, uma forma de arte.
21.9.06
I.
Há um lustre cheio de brilhos presunçosos suspenso ao centro da sala. Há sofás de veludo cor-de-sangue, a maior parte deles com marcas do tempo, outros clientes, outras seduções. Ao canto, um piano, empoeirado. Mas as colunas debitam canções e há funk e jazz e outras coisas que não percebe bem.
Ela dança e pensa
Dança comigo a primeira valsa da Primavera. Dança sem sonhos, esquece as promessas, ninguém nos espera
Notas soltas de piano que a abraçam, que sozinhas enchem a sala quente, despovoada como um cabaret abandonado. Não há janelas para a rua, ali ninguém os vê e ela dança. Desenha sonhos como bolhas de sabão que os envolvem,, alienando-os das conversas, dos degraus, dos espelhos. O único sítio onde se reflectem é nos olhos um do outro: olhares que se cruzam para logo se afastarem, cheios de timidez delicodoce.
Olhares que suspiram, embriagados
Com um pouco de sexo ou muita poesia ainda nos vamos casar.
*Quinteto Tati "Valsa Quase Antidepressiva"
Ela dança e pensa
Dança comigo a primeira valsa da Primavera. Dança sem sonhos, esquece as promessas, ninguém nos espera
Notas soltas de piano que a abraçam, que sozinhas enchem a sala quente, despovoada como um cabaret abandonado. Não há janelas para a rua, ali ninguém os vê e ela dança. Desenha sonhos como bolhas de sabão que os envolvem,, alienando-os das conversas, dos degraus, dos espelhos. O único sítio onde se reflectem é nos olhos um do outro: olhares que se cruzam para logo se afastarem, cheios de timidez delicodoce.
Olhares que suspiram, embriagados
Com um pouco de sexo ou muita poesia ainda nos vamos casar.
*Quinteto Tati "Valsa Quase Antidepressiva"
16.9.06
Uma canção e um adeus ou até logo
E não é uma canção qualquer; é a única que hoje faz sentido.
Fiona Apple |I Know
So be it, I'm your crowbar
If that's what I am so far
Until you get out of this mess
And I will pretend
That I don't know of your sins
Until you are ready to confess
But all the time, all the time
I know, I know
And you can use my skin
To bury secrets in
And I will settle you down
And at my own suggestion
I will ask no questions
While I do my thing in the background
But all the time, all the time
I know, I know
Baby
I can't help you out
While she's still around
So for the time being
I'm being patient
And amidst the bitterness
If you'll just consider this
Even if it don't make sense
All the time, give it time
And when the crowd becomes your burden
And you've early closed your curtains
I'll wait by the backstage door
While you try to find
The lines to speak your mind
And pry it open, hoping for an encore
And if it gets too late
For me to wait
For you to find you love me, and tell me so
It's ok, don't need to say it.
E então adeus ou até logo.
Fiona Apple |I Know
So be it, I'm your crowbar
If that's what I am so far
Until you get out of this mess
And I will pretend
That I don't know of your sins
Until you are ready to confess
But all the time, all the time
I know, I know
And you can use my skin
To bury secrets in
And I will settle you down
And at my own suggestion
I will ask no questions
While I do my thing in the background
But all the time, all the time
I know, I know
Baby
I can't help you out
While she's still around
So for the time being
I'm being patient
And amidst the bitterness
If you'll just consider this
Even if it don't make sense
All the time, give it time
And when the crowd becomes your burden
And you've early closed your curtains
I'll wait by the backstage door
While you try to find
The lines to speak your mind
And pry it open, hoping for an encore
And if it gets too late
For me to wait
For you to find you love me, and tell me so
It's ok, don't need to say it.
E então adeus ou até logo.
"Desculpa, mas não sou capaz."
E eis que através do post anterior este blogue tornou-se profético. Posto isto, deixo aqui a frase "um dia estarei um bocadinho menos triste" a ver se também isto se torna realidade.
9.9.06
6.9.06
Moleskine
Escrever com as palavras dos outros, juntar letras para usar expressões e frases dos outros.
Escrever com as tuas palavras. Escrever - sem saber bem o quê- contigo nos meus dedos, tu preenchendo cada espaço em branco.
Tu preenchendo cada espaço vazio em mim.
Desligar a televisão porque ela não me traz notícias tuas. Fechar os jornais - ou nem os abrir. Não chegar sequer a sintonizar o rádio.
Esperar. Esperar, sempre. Depois achar que isto não é estar à espera. Voltar a esperar na expectativa que não pode correr bem.
Atitudes pró-activas que moem mas não matam.
E o tempo que não passa. E os dias que finalmente se esgotam, um atrás do outro.
Luares que se repetem, sendo cada dia novos no seu esplendor marinho. Brilhos de prata que se acusam (e como os invejo!) por te verem, por saberem onde estás na tua frieza árctica, por te espiarem, por te embalarem ao entrarem pela tua janela quando dormes.
Silêncios prescrutadores (o mar sempre ao fundo, enquanto as ondas arrastam calhaus pela praia na maré baixa) em que surges sempre tão perto como se o teu sorriso viesse calar o vento ou os grilos, como se as tuas mãos fossem agarrar as minhas num abraço apertado (e a tonta da lua que tudo testemunha), como se cada conversa tivesse a sorte de ter-te como seu interveniente.
Não saber o que dizer de forma a acabar este post, sabendo, bom, tendo a certeza, que a melhor forma de acabar este Verão seria ter-te aqui.
Escrever com as tuas palavras. Escrever - sem saber bem o quê- contigo nos meus dedos, tu preenchendo cada espaço em branco.
Tu preenchendo cada espaço vazio em mim.
Desligar a televisão porque ela não me traz notícias tuas. Fechar os jornais - ou nem os abrir. Não chegar sequer a sintonizar o rádio.
Esperar. Esperar, sempre. Depois achar que isto não é estar à espera. Voltar a esperar na expectativa que não pode correr bem.
Atitudes pró-activas que moem mas não matam.
E o tempo que não passa. E os dias que finalmente se esgotam, um atrás do outro.
Luares que se repetem, sendo cada dia novos no seu esplendor marinho. Brilhos de prata que se acusam (e como os invejo!) por te verem, por saberem onde estás na tua frieza árctica, por te espiarem, por te embalarem ao entrarem pela tua janela quando dormes.
Silêncios prescrutadores (o mar sempre ao fundo, enquanto as ondas arrastam calhaus pela praia na maré baixa) em que surges sempre tão perto como se o teu sorriso viesse calar o vento ou os grilos, como se as tuas mãos fossem agarrar as minhas num abraço apertado (e a tonta da lua que tudo testemunha), como se cada conversa tivesse a sorte de ter-te como seu interveniente.
Não saber o que dizer de forma a acabar este post, sabendo, bom, tendo a certeza, que a melhor forma de acabar este Verão seria ter-te aqui.
28.8.06
15.8.06
Durante o concerto de Morrissey
O Morrissey está a tocar em Paredes de Coura. Está em Portugal. Eu estou em casa, na Madeira, a ouvir o concerto através da emissão on-line da Antena 3.
Parece que estou mesmo a ouvir-me
"MOZ MAKE ME A BABY", que é a frase que grito nos concertos de rock quando sei que ninguém está a ouvir-me (e que só não gritei ao Hooke dos New Order porque
1- não quero ter um filho com ele;
2- estava na primeira fila, ou quase, e ele ainda ouvia e levava-me a sério.)
Está calor. Em Paredes de Coura chove, também chove na "Life is a Pig Sty" do Ringleader of the Tormentors, e ouvem-se trovões enquanto ele se lamenta.
(Tal como eu me lamento. Tal como, tantas vezes, chove dentro de mim.)
É isso, o lamento quase fado do Morrissey que me abraça e me consola.
Ouvir Smiths e, por conseguinte, Morrissey é cada vez mais viajar no tempo, porque isto de ouvir música, e gostar de o fazer, obriga a estar atento ao novo
E este homem não vai propriamente para novo, já o sabemos.
o que empurra as coisas demasiado ouvidas para o fim da prateleira dos discos.
Comecei a ouvir Smiths e Morrissey tarde. Estupidamente tarde.
Lembro-me de chegar a casa de uma amigo e estar a dar Smiths a decibéis pouco recomendáveis e de ter gostado desde então.
Valeram-me os álbuns em promoção na fnhéque
- lembro-me de uma tarde no primeiro ano em que comprei, assim de seguida, três álbuns dos Smiths:
::The Queen is Dead
::The Smiths
::Strangeways, here we come -
e valeu-me este ouvido e este coração, que quase imediatamente elevaram os Smiths a banda preferida de sempre.
(Claro que agora sei que isso é uma hipérbole, mas não deixa de saber bem dizê-lo.)
Tendo esta voz que mais ninguém tem, Morrissey esgrima por entre letras muitíssimo bem conseguidas,
não, não é o maior poeta de sempre mas escreveu dos versos mais bonitos que já tive o prazer de ouvir e ler
onde deliberadamente nos mostra a realidade em tons de sarcasmo e ternura, em que raramente queremos acreditar,
I know it's over still I cling, I don't know where else I can go
e um som que desliza entre o bate-o-pé-e-dança-e-canta-comigo e o senta-te-no-puff-e-pensa-na-vida.
E foi assim que fui enfrentando e convivendo com e a cada instante e aprendendo a amar e a seduzir, a afastar-se e sofrer, a criticar o mundo com um dedo espetado, a sair à noite e a apanhar bebedeiras só de imperial; como se gostar de Smiths tivesse ensinado a viver - e ensinou.
Por isso hoje, oiço este concerto com o coração pequenino a bater depressa, porque sou outra Joana desde o dia em que os ouvi pela primeira vez,
já fui até várias Joanas desde então
mas o Morrissey nunca deixou de ser um dos meus melhores amigos.
Parece que estou mesmo a ouvir-me
"MOZ MAKE ME A BABY", que é a frase que grito nos concertos de rock quando sei que ninguém está a ouvir-me (e que só não gritei ao Hooke dos New Order porque
1- não quero ter um filho com ele;
2- estava na primeira fila, ou quase, e ele ainda ouvia e levava-me a sério.)
Está calor. Em Paredes de Coura chove, também chove na "Life is a Pig Sty" do Ringleader of the Tormentors, e ouvem-se trovões enquanto ele se lamenta.
(Tal como eu me lamento. Tal como, tantas vezes, chove dentro de mim.)
É isso, o lamento quase fado do Morrissey que me abraça e me consola.
Ouvir Smiths e, por conseguinte, Morrissey é cada vez mais viajar no tempo, porque isto de ouvir música, e gostar de o fazer, obriga a estar atento ao novo
E este homem não vai propriamente para novo, já o sabemos.
o que empurra as coisas demasiado ouvidas para o fim da prateleira dos discos.
Comecei a ouvir Smiths e Morrissey tarde. Estupidamente tarde.
Lembro-me de chegar a casa de uma amigo e estar a dar Smiths a decibéis pouco recomendáveis e de ter gostado desde então.
Valeram-me os álbuns em promoção na fnhéque
- lembro-me de uma tarde no primeiro ano em que comprei, assim de seguida, três álbuns dos Smiths:
::The Queen is Dead
::The Smiths
::Strangeways, here we come -
e valeu-me este ouvido e este coração, que quase imediatamente elevaram os Smiths a banda preferida de sempre.
(Claro que agora sei que isso é uma hipérbole, mas não deixa de saber bem dizê-lo.)
Tendo esta voz que mais ninguém tem, Morrissey esgrima por entre letras muitíssimo bem conseguidas,
não, não é o maior poeta de sempre mas escreveu dos versos mais bonitos que já tive o prazer de ouvir e ler
onde deliberadamente nos mostra a realidade em tons de sarcasmo e ternura, em que raramente queremos acreditar,
I know it's over still I cling, I don't know where else I can go
e um som que desliza entre o bate-o-pé-e-dança-e-canta-comigo e o senta-te-no-puff-e-pensa-na-vida.
E foi assim que fui enfrentando e convivendo com e a cada instante e aprendendo a amar e a seduzir, a afastar-se e sofrer, a criticar o mundo com um dedo espetado, a sair à noite e a apanhar bebedeiras só de imperial; como se gostar de Smiths tivesse ensinado a viver - e ensinou.
Por isso hoje, oiço este concerto com o coração pequenino a bater depressa, porque sou outra Joana desde o dia em que os ouvi pela primeira vez,
já fui até várias Joanas desde então
mas o Morrissey nunca deixou de ser um dos meus melhores amigos.
3.8.06
Só mais um (e este vale MUITO a pena)
Fiona Apple "Paper Bag"
I was staring at the sky
Just looking for a star
To pray on, or wish on
Or something like that
I was having a sweet fix
Of a daydream of a boy
Whose reality I knew
Was a hopeless to be had
But then the dove of hope began its downward slope
And I believed for a moment that my chances were
Approaching to be grabbed
But as it came down near, so did a weary tear
I thought it was a bird, but it was just a paper bag
Hunger hurts, and I want him so bad, oh it kills
'Cause I know I'm a mess he don't wanna clean up
I got to fold 'cause these hands are too shaky to hold
Hunger hurts, but starving works, when it costs too much to love
And I went crazy again today, looking for a strand to climb
Looking for a little hope
Baby said he couldn't stay, wouldn't put his lips to mine,
And a fail to kiss is a fail to cope
I said, "Honey, I don't feel so good, don't feel justified
Come on put a little love here in my void"
He said, "It's all in your head"
And I said, "So's everything'" but he didn't get it
I thought he was a man but he was just a little boy
Hunger hurts, and I want him so bad, oh it kills
'Cause I know I'm a mess he don't wanna clean up
I got to fold écause these hands are too shaky to hold
Hunger hurts, but starving works, when it costs too much to love
2.8.06
Prazeres
Carte d'Or Mania for Coffee directamente da embalagem com uma colher de sopa enquanto os olhos fechados deixam o corpo balançar ao som de Simentera.
1.8.06
30.7.06
Raciocínio (pouco) lógico
Hemorragia, dor, solidão, calor, sol, música, Sines, praia, amizades, lágrimas, nó na garganta, saudades, desilusão, tempo, exames, Lisboa, acasos, coincidências, projectos, frustrações, encontros, desencontros, mudanças, viagens, madrugadas, aurora (não boreal), sorrisos, mãos dadas, conversas, temperos, cerveja, sapatilhas (ou ténis?), vestidos, Havaianas, Tejo, dança, beijos, timidez, frigorífico, palavras, canções, mensagens, fotografias, desejo, prazer, melancolia.
Summer tunes V
Jamie Lidell "Multiply" (A merecida recuperação porque o Verão é também sensualidade, sedução e menear de ancas.)
Such a twat
"Why did I have to go and do a stupid thing like that
Coz yeah it felt like we were through though
But I could've ruined it,
I’m such a twat."
Coz yeah it felt like we were through though
But I could've ruined it,
I’m such a twat."
29.7.06
Save as draft?
Ouvir a tua voz depois de todos estes anos e ela ter a mesma doçura enquanto me convidas para um café. Encontrar-te agora (hoje!) e estares na mesma.
O teu sorriso aberto por me ver, "Ao tempo!", abraçarmos-nos como nunca, conversarmos como se apenas ontem não nos tivéssemos visto, como se este tempo em branco tivesse apenas durado aqueles dias que duram anos quando se está apaixonado.
Eu com a esperança que sejas tu, eu com a certeza que ainda és tu quem me completa, eu julgando que quando nos víssemos acabariam os receios e as perguntas.
Eu concentrada em ti enquanto te olho nos olhos para perceber se também gostas, se também queres, se também sentes.
Tu a afastares-te suavemente dos meus braços, a dar um passo ao lado
[e eu com a cabeça - e o coração - num beijo]
a apontares para uma mulher com um carrinho de bebé.
Os meus braços como pêndulos alinhados, a consciência que é um túnel em espiral por onde entro, primeiro a cabeça, depois o tronco, só então as pernas, o corpo ganhando o peso de elefantes para depois ficar leve como uma pluma, uma cegueira breve, os ouvidos que - por mais que me esforce- ainda te ouvem
"Aquela é a minha mulher e o meu filho."
[Nota para mim mesma: texto obviamente a precisar de polimento.]
O teu sorriso aberto por me ver, "Ao tempo!", abraçarmos-nos como nunca, conversarmos como se apenas ontem não nos tivéssemos visto, como se este tempo em branco tivesse apenas durado aqueles dias que duram anos quando se está apaixonado.
Eu com a esperança que sejas tu, eu com a certeza que ainda és tu quem me completa, eu julgando que quando nos víssemos acabariam os receios e as perguntas.
Eu concentrada em ti enquanto te olho nos olhos para perceber se também gostas, se também queres, se também sentes.
Tu a afastares-te suavemente dos meus braços, a dar um passo ao lado
[e eu com a cabeça - e o coração - num beijo]
a apontares para uma mulher com um carrinho de bebé.
Os meus braços como pêndulos alinhados, a consciência que é um túnel em espiral por onde entro, primeiro a cabeça, depois o tronco, só então as pernas, o corpo ganhando o peso de elefantes para depois ficar leve como uma pluma, uma cegueira breve, os ouvidos que - por mais que me esforce- ainda te ouvem
"Aquela é a minha mulher e o meu filho."
[Nota para mim mesma: texto obviamente a precisar de polimento.]
Eyes wide shut
Aproximo-me de ti devagar, arrasto-me preguiçosamente pelos lençóis revoltos e o meu corpo procura o teu, e já o conhece bem, as minhas coxas encaixam nas tuas e o meu peito encosta-se às tuas costas.
Dormes a sono solto mas aos poucos despertas. Sem nunca abrir os olhos, viras-te para mim e sem me ver olhas-me, e os teus lábios tocam os meus, ao de leve, em reconhecimento.
As nossas mãos fecham-se uma na outra, descobrindo primeiro as pontas dos dedos, macias, depois percorrendo o comprimento até à palma, as linhas da vida que não te adivinharam aqui e que se desenham e entrecruzam como as nossas pernas.
Os corpos em mar alto.
O beijo que se prolonga em suspiros, a tua boca que se continua
no meu pescoço
na minha nuca
no lóbulo da orelha esquerda
no pescoço outra vez
no lóbulo da orelha direita
na minha nuca
para se perderem em desejo junto aos ombros destapados.
Os teus olhos sempre fechados.
A minha língua desliza pelo teu pescoço, por lá se demorando, e percorre o teu tronco, desenhando ténues espirais, começo no tórax e desço ao ritmo da tua respiração até ao teu abdómen, páro no teu umbigo.
Não resistimos e voltamos a fazer encontrar os lábios para mais ósculos. E digo-te
"Ósculos"
e tu sorris mas estás preso em mim, por isso sorris para dentro de mim e esse sorriso junta-se à corrente sanguínea e enche-me de prazer dos pés ao cabelo.
As nossas mãos soltam-se e as tuas agarram firmemente nas minhas ancas e fazemos da figura humana geometria enquanto nos projectamos em ângulos, curvas e intersecções.
Os teus olhos sempre fechados.
Até que os abres e.
(E o fim da história já o conhecemos.)
Dormes a sono solto mas aos poucos despertas. Sem nunca abrir os olhos, viras-te para mim e sem me ver olhas-me, e os teus lábios tocam os meus, ao de leve, em reconhecimento.
As nossas mãos fecham-se uma na outra, descobrindo primeiro as pontas dos dedos, macias, depois percorrendo o comprimento até à palma, as linhas da vida que não te adivinharam aqui e que se desenham e entrecruzam como as nossas pernas.
Os corpos em mar alto.
O beijo que se prolonga em suspiros, a tua boca que se continua
no meu pescoço
na minha nuca
no lóbulo da orelha esquerda
no pescoço outra vez
no lóbulo da orelha direita
na minha nuca
para se perderem em desejo junto aos ombros destapados.
Os teus olhos sempre fechados.
A minha língua desliza pelo teu pescoço, por lá se demorando, e percorre o teu tronco, desenhando ténues espirais, começo no tórax e desço ao ritmo da tua respiração até ao teu abdómen, páro no teu umbigo.
Não resistimos e voltamos a fazer encontrar os lábios para mais ósculos. E digo-te
"Ósculos"
e tu sorris mas estás preso em mim, por isso sorris para dentro de mim e esse sorriso junta-se à corrente sanguínea e enche-me de prazer dos pés ao cabelo.
As nossas mãos soltam-se e as tuas agarram firmemente nas minhas ancas e fazemos da figura humana geometria enquanto nos projectamos em ângulos, curvas e intersecções.
Os teus olhos sempre fechados.
Até que os abres e.
(E o fim da história já o conhecemos.)
27.7.06
Summer tunes IV
Beck "Girl"(Hino do Verão passado, mas sempre muito solarengo e actual, a letra podem-na encontrar aqui)
Summer tunes III
Phoenix "Consolation Prizes(sim, é a mesma banda, mas exala Verão por todos os poros, não lhe consigo resistir.)
26.7.06
Sullen Batsie
sul·len (sln)
adj. sul·len·er, sul·len·est
1. Showing a brooding ill humor or silent resentment; morose or sulky.
2. Gloomy or somber in tone, color, or portent: sullen, gray skies.
3. Sluggish; slow: the sullen current of a canal.
"Days like this, I don't know what to do with myself
All day and all night
I wander the halls along the walls and under my breath
I say to myself I need fuel to take flight
And there's too much going on
But it's calm under the waves, in the blue of my oblivion
Under the waves in the blue of my oblivion
Is that why they call me a sullen girl, sullen girl
They don't know I used to sail the deep and tranquil sea
But he washed me shore and he took my pearl
And left an empty shell of me
And there's too much going on
But it's calm under the waves in the blue of my oblivion
Under the waves in the blue of my oblivion
Under the waves in the blue of my oblivion
It's calm under the waves in the blue of my oblivion."
"Sullen girl" - Fiona Apple (tudo a ouvir até decorar, vá)
adj. sul·len·er, sul·len·est
1. Showing a brooding ill humor or silent resentment; morose or sulky.
2. Gloomy or somber in tone, color, or portent: sullen, gray skies.
3. Sluggish; slow: the sullen current of a canal.
"Days like this, I don't know what to do with myself
All day and all night
I wander the halls along the walls and under my breath
I say to myself I need fuel to take flight
And there's too much going on
But it's calm under the waves, in the blue of my oblivion
Under the waves in the blue of my oblivion
Is that why they call me a sullen girl, sullen girl
They don't know I used to sail the deep and tranquil sea
But he washed me shore and he took my pearl
And left an empty shell of me
And there's too much going on
But it's calm under the waves in the blue of my oblivion
Under the waves in the blue of my oblivion
Under the waves in the blue of my oblivion
It's calm under the waves in the blue of my oblivion."
"Sullen girl" - Fiona Apple (tudo a ouvir até decorar, vá)
25.7.06
Um adeus
O vento corria rasteiro sobre a areia. Um barco encostava no quebrar das ondas, dois (ou três?) homens de pele queimada e barba por fazer, puxavam por cordas fazendo-o atracar. Traziam redes cheias de peixe; um bando enorme de gaivotas rodeava-os desde alto-mar, roubando um ou outro. As poucas pessoas na praia àquela hora aproximavam-se também, curiosas ou mesmo interessadas. Via-as afastarem-se minutos depois, sacos na mão, os miúdos contentes a mexerem nas escamas, nas barbatanas.
Foi um instante para aquela confusão acabar e eu finalmente ficar a sós com o mar.
O vento cada vez mais frio e o sol que desaparecia longe. Eu abraçada às minhas pernas pensava em mim. Mas em mim de uma maneira diferente, porque só pensava em mim por não conseguir deixar de pensar em ti.
Como se pensar em ti fosse uma maneira de te ter aqui.
De alguma maneira associava cada detalhe desta praia que adoravas a um pedacinho da tua vida. De alguma maneira sentia-me abraçada por ti, apesar da nossa etérea distância.
Vem dar um mergulho, a água está óptima!, dizias-me - ou a criança dentro de ti, acenando por entre braçadas.
Fizeste de mim irmã do mar, do vento, dos relâmpagos, confidente das algas e das conchas, amante da areia e do sol. Entregaste a minha paternidade ao Verão, às chuvas quentes, ao céu limpo, ao chocolate derretido.
Mas nenhum deles é capaz de me consolar agora que aqui já não estás.
Ontem, antes de te ver sob sete palmos de terra, sentia um profundo ódio por isto: nunca foste um pai muito presente excepto quando aqui vínhamos os dois e eu sempre pensei que isso um dia mudaria. E quando soube, que tinhas
Desculpa, mas ainda não consigo dizê-lo
quando soube que tinhas ido para outro sítio qualquer, julguei que me abandonavas, pai, que finalmente assumias que tinhas desistido de mim. Foi ao ver o teu rosto no velório que te perdoei, que desejei estar ali deitada a teu lado para que juntos pudessemos conhecer todas as praias por este mundo a fora.
Desejei morrer para te deixar ser meu pai só mais uma vez.
[Cada vez mais frio nesta praia cada vez mais deserta. Dentro de mim, um sangue que não me aquece, um coração que bate apenas o suficiente para me manter viva, um corpo seco que já perdeu todas as suas lágrimas.]
Decido adormecer na areia gélida no nosso último dia de praia juntos. (Avisa à mãe que fico cá a dormir.)
Anoitece sobre o mar, o espelho negro reflecte a luz da lua. O vento cada vez mais agreste cobre-me de areia e eu sinto-te aqui. Pões a mão no meu ombro
Eu sei que não podes estar aqui a pôr-me a mão no ombro mas eu sinto-te, não sei explicar
e o vento e as ondas falam comigo, dizem-me aquelas coisas que eu gostava de ter ouvido da tua boca. Sei que és tu, aqui.
Sei que serás tu para sempre aqui.
Foi um instante para aquela confusão acabar e eu finalmente ficar a sós com o mar.
O vento cada vez mais frio e o sol que desaparecia longe. Eu abraçada às minhas pernas pensava em mim. Mas em mim de uma maneira diferente, porque só pensava em mim por não conseguir deixar de pensar em ti.
Como se pensar em ti fosse uma maneira de te ter aqui.
De alguma maneira associava cada detalhe desta praia que adoravas a um pedacinho da tua vida. De alguma maneira sentia-me abraçada por ti, apesar da nossa etérea distância.
Vem dar um mergulho, a água está óptima!, dizias-me - ou a criança dentro de ti, acenando por entre braçadas.
Fizeste de mim irmã do mar, do vento, dos relâmpagos, confidente das algas e das conchas, amante da areia e do sol. Entregaste a minha paternidade ao Verão, às chuvas quentes, ao céu limpo, ao chocolate derretido.
Mas nenhum deles é capaz de me consolar agora que aqui já não estás.
Ontem, antes de te ver sob sete palmos de terra, sentia um profundo ódio por isto: nunca foste um pai muito presente excepto quando aqui vínhamos os dois e eu sempre pensei que isso um dia mudaria. E quando soube, que tinhas
Desculpa, mas ainda não consigo dizê-lo
quando soube que tinhas ido para outro sítio qualquer, julguei que me abandonavas, pai, que finalmente assumias que tinhas desistido de mim. Foi ao ver o teu rosto no velório que te perdoei, que desejei estar ali deitada a teu lado para que juntos pudessemos conhecer todas as praias por este mundo a fora.
Desejei morrer para te deixar ser meu pai só mais uma vez.
[Cada vez mais frio nesta praia cada vez mais deserta. Dentro de mim, um sangue que não me aquece, um coração que bate apenas o suficiente para me manter viva, um corpo seco que já perdeu todas as suas lágrimas.]
Decido adormecer na areia gélida no nosso último dia de praia juntos. (Avisa à mãe que fico cá a dormir.)
Anoitece sobre o mar, o espelho negro reflecte a luz da lua. O vento cada vez mais agreste cobre-me de areia e eu sinto-te aqui. Pões a mão no meu ombro
Eu sei que não podes estar aqui a pôr-me a mão no ombro mas eu sinto-te, não sei explicar
e o vento e as ondas falam comigo, dizem-me aquelas coisas que eu gostava de ter ouvido da tua boca. Sei que és tu, aqui.
Sei que serás tu para sempre aqui.
23.7.06
BITE ME!
Os Strokes são bons, mas melhores no primeiro disco do que nos outros. E enormes em palco. Ponto final.
JUST TAKE IT OR LEAVE IT. JUST TAKE IT OR LEAVE IT.
OH TAAAAAAKE IT.
JUST TAKE IT OR LEAVE IT. JUST TAKE IT OR LEAVE IT.
OH TAAAAAAKE IT.
22.7.06
Humanos
Sou humana, como tu. Tenho dúvidas, pressentimentos, medos e inseguranças. Mas como tu, sei que há qualquer coisa dentro de cada um de nós que nos eleva, que nos faz ser mais um para o outro - e um para os outros - do que uma mera e permanente questão. Estou mais que certa que dentro de mim existe mais do que um ponto de interrogação, de exclamação, umas reticências ou - Deus nos livre! - um ponto final. É porque dentro de nós existe mais do que pontuação; há algo vivo, que respira e se alimenta e que, ao fazê-lo, assegura que também nós passemos pela vida fazendo mais do que apenas respirar e alimentar. Passamos pela vida sentindo-a, o que nos humaniza mais do que tudo.
Sou humana como tu. Tenho certezas, emoções, lógicas e razões. E é por isso que gosto assim, que sinto com o corpo todo e que esta alma está, mais do que nunca, inquieta e expectante.
Ao som de "I found a reason" dos Velvet Underground pela doce (tão doce!) Cat Power. Deixo o site para download para que o leiam também assim!
Sou humana como tu. Tenho certezas, emoções, lógicas e razões. E é por isso que gosto assim, que sinto com o corpo todo e que esta alma está, mais do que nunca, inquieta e expectante.
Ao som de "I found a reason" dos Velvet Underground pela doce (tão doce!) Cat Power. Deixo o site para download para que o leiam também assim!
17.7.06
E por ora
15.7.06
PARABÉNS (só mais uma vez)
Uma canção de João Gilberto por dia dá saúde e alegria II
Coisa mais bonita é você, assim, justinho você
Eu juro, eu não sei porquê você.
Você é mais bonita que a flor, quem dera à primavera da flor
Tivesse todo esse aroma de beleza, que é o amor
Perfumando a natureza, numa forma de mulher.
Porque tão linda assim não existe, a flor, nem mesmo a cor não existe,
E o amor, nem mesmo o amor existe.
João Gilberto "Coisa Mais Linda"
Eu juro, eu não sei porquê você.
Você é mais bonita que a flor, quem dera à primavera da flor
Tivesse todo esse aroma de beleza, que é o amor
Perfumando a natureza, numa forma de mulher.
Porque tão linda assim não existe, a flor, nem mesmo a cor não existe,
E o amor, nem mesmo o amor existe.
João Gilberto "Coisa Mais Linda"
(ATENÇÃO, LEITORES DESATENTOS: Isto é um link para fazerem download da música, para que também vocês possam fazer karaoke; na canção anterior também lá está o link para os interessados - que eu, confiando no bom-gosto dos meus leitores, receio que sejam todos!)
13.7.06
Uma canção de João Gilberto por dia dá saúde e alegria I
Este seu olhar
Quando encontra o meu
Fala de umas coisas
Que eu não posso acreditar
Doce é sonhar
É pensar que você
Gosta de mim
Como eu de você!
Mas a ilusão
Quando se desfaz
Dói no coração
De quem sonhou
Sonhou demais
Ah! Se eu pudesse entender
O que dizem os seus olhos...
João Gilberto "Este seu olhar"
(sempre em prol da saúde dos seus leitores, o Desumanos têm o prazer de disponibilizar a canção- é só seguir o link e fazer o download, por favor)
Quando encontra o meu
Fala de umas coisas
Que eu não posso acreditar
Doce é sonhar
É pensar que você
Gosta de mim
Como eu de você!
Mas a ilusão
Quando se desfaz
Dói no coração
De quem sonhou
Sonhou demais
Ah! Se eu pudesse entender
O que dizem os seus olhos...
João Gilberto "Este seu olhar"
(sempre em prol da saúde dos seus leitores, o Desumanos têm o prazer de disponibilizar a canção- é só seguir o link e fazer o download, por favor)
12.7.06
CSS [cansei de ser sexy]
Nen sempre se percebe porque gostamos à primeira de uma canção. Há quem fale em letra, há quem fale em melodia ou instrumentalizações, há quem fale em beats e pós-produção. No caso de quem escreve, costuma ser uma sensação de viagem, de identificação, ou para resumir e deixar-se de devaneios, aquela sensação boa de comer um gelado de nata com molho de chocolate quente e morangos frescos, sabem?, é essa sensação que me costuma prender a uma canção.
No caso de Cansei de ser sexy (CSS para facilitar), há também o humor. Que começa imediatamente com o nome escolhido pela banda [que eu vou mandar escrever numa t-shirt, by the way] e com o início da banda: quando se juntaram, quais trapezistas musicais sem rede, não sabiam tocar instrumentos nenhuns à excepção do baterista. É no mínimo inusitado, querer ter uma banda e não saber tocar, mas é visível em toneladas de objectos pop morangos-com-açúcar-band-totalmente-em-desrespeito-com-a-música; ainda mais inusitado se torna quando as pessoas que se juntam têm realmente paixão pela música, como eu ou tu, porque ainda mais do que inusitado torna-se sobretudo um acto de coragem e rebeldia. E o humor, ou a ironia, acontece também na distribuição do seu cd, que vinha com um CD virgem vazio para que se pudesse copiá-lo livremente (bela forma de combater a hipocrisia da suposta crise dos downloads ilegais). E o humor está também em cada título de EP, canção ou álbum (Em Rotterdam já é uma febre é o nome do primeiro EP, Let's make love and listen to Death from above, o nome do single).
Toda a gente sabe que o Brasil é um mundo, quem lá foi e quem pelo país se interessa mais do que ninguém o reconhece, se fosse para descrever o Brasil com uma cor, teríamos que usar uma paleta enorme, porque é um país de vários tons, não se fica pelo amarelo, também é cinzento, não se fica pelo azul, é também vermelho, não se fica pelo verde, é também laranja; nãoo se fica pelo branco, é também preto. E um dos factores inequívocos desta panóplia espectrofotométrica é, indiscutivelmente, a música. Estando toda a gente familiarizada com a bossa-nova, o samba, o pagode, o sertanejo, as dúvidas afloram um pouco quando se fala em baile funk, electrónica, hip-hop, reggae isto tudo cantado em português com um sotaque que lhe dá a graça toda. São Paulo, meus amigos, está no epicentro desta revolução (S. Paulo e as favelas, mas para o caso as favelas pouco interessam pois os moços de que vos falo são paulistas). E que cidade melhor que S. Paulo para fundir toda a música num só estilo? (uma cidade que, recordo-vos, tem tantos ou mais habitantes que Portugal todo junto) Em São Paulo, muito graças à editora Trama, nascem e renascem novos géneros musicais a toda a hora, novos hypes a cada minuto, novas bandas a cada segundo. E nós, deste lado do Atlântico, agradecemos. Porque esta música brasileira nova traz a boa-disposição e o sentimento da velha mas intemporal MPB, apenas torna-a mais bip-bop (seja o que isso for).
E é de bip-bop e de silly season que os CSS são feitos. Guitarras que misturam rock com electrónica desmesurada, beats provavelmente saídos de um órgão Casio (carrega-se-neste-botão-e-pronto), que se conjugam para fazer das coisas mais dançáveis (e sexys, há que dizê-lo) que já se ouviram este ano, letras provocantes e fáceis-de-decorar q.b., há The Kills e Yeah Yeah Yeahs mas há muito mais do que a fusão disto; os Cansei de ser sexy, sem o fazerem de propósito, conseguiram trazer muito mais às pistas de dança do que aquelas bandas de revivalismo 80s (que já me irritam): a evolução. Trouxeram mais, oferecem muito mais e é por isso que os devemos receber de braços abertos.
Na sua música há pura genuinidade (não confundir com ingenuinidade), há pôr-do-sol-depois-de-um-dia-de-praia, há caipirinhas, há bikinis e mini-saias e há corpos bronzeados. Mas, não fosse isto já bom o suficiente, não há só verão nestas canções, há também a cultura cosmopolita, há o Bairro Alto (ou a down-town NY), há o botellón (cada vez mais em voga na Praça Camões), há pontes sobre rios ( Brooklyn Bridge ou Vasco da Gama, not important), há imperiais fresquinhas em copos de plástico, há piercings e t-shirts (às riscas sempre) rasgadas.
E não sou só eu a dizê-lo.
Os Cansei de ser sexy começaram este mesmo mês uma tournée com o Diplo pelos Estados Unidos (boa sorte, amigos!) e eu temo que, para bem do nosso Verão, eles sejam the next big thing. Vão-no ser pelo menos no meu leitor de cd's.
[Não fosse a música suficientemente boa e os meninos ainda tiveram a audácia de ter um grande vídeo para mostrar]
"Let's make love and listen to Death From Above"
Cansei de ser sexy n'Os desumanos
Tempo para um conselho: se querem ser felizes, vão ao site da Trama, dos CSS e ao seu mypace e oiçam mais.
Tempo para um aviso: se não dançarem, é porque estão mortos.
No caso de Cansei de ser sexy (CSS para facilitar), há também o humor. Que começa imediatamente com o nome escolhido pela banda [que eu vou mandar escrever numa t-shirt, by the way] e com o início da banda: quando se juntaram, quais trapezistas musicais sem rede, não sabiam tocar instrumentos nenhuns à excepção do baterista. É no mínimo inusitado, querer ter uma banda e não saber tocar, mas é visível em toneladas de objectos pop morangos-com-açúcar-band-totalmente-em-desrespeito-com-a-música; ainda mais inusitado se torna quando as pessoas que se juntam têm realmente paixão pela música, como eu ou tu, porque ainda mais do que inusitado torna-se sobretudo um acto de coragem e rebeldia. E o humor, ou a ironia, acontece também na distribuição do seu cd, que vinha com um CD virgem vazio para que se pudesse copiá-lo livremente (bela forma de combater a hipocrisia da suposta crise dos downloads ilegais). E o humor está também em cada título de EP, canção ou álbum (Em Rotterdam já é uma febre é o nome do primeiro EP, Let's make love and listen to Death from above, o nome do single).
Toda a gente sabe que o Brasil é um mundo, quem lá foi e quem pelo país se interessa mais do que ninguém o reconhece, se fosse para descrever o Brasil com uma cor, teríamos que usar uma paleta enorme, porque é um país de vários tons, não se fica pelo amarelo, também é cinzento, não se fica pelo azul, é também vermelho, não se fica pelo verde, é também laranja; nãoo se fica pelo branco, é também preto. E um dos factores inequívocos desta panóplia espectrofotométrica é, indiscutivelmente, a música. Estando toda a gente familiarizada com a bossa-nova, o samba, o pagode, o sertanejo, as dúvidas afloram um pouco quando se fala em baile funk, electrónica, hip-hop, reggae isto tudo cantado em português com um sotaque que lhe dá a graça toda. São Paulo, meus amigos, está no epicentro desta revolução (S. Paulo e as favelas, mas para o caso as favelas pouco interessam pois os moços de que vos falo são paulistas). E que cidade melhor que S. Paulo para fundir toda a música num só estilo? (uma cidade que, recordo-vos, tem tantos ou mais habitantes que Portugal todo junto) Em São Paulo, muito graças à editora Trama, nascem e renascem novos géneros musicais a toda a hora, novos hypes a cada minuto, novas bandas a cada segundo. E nós, deste lado do Atlântico, agradecemos. Porque esta música brasileira nova traz a boa-disposição e o sentimento da velha mas intemporal MPB, apenas torna-a mais bip-bop (seja o que isso for).
E é de bip-bop e de silly season que os CSS são feitos. Guitarras que misturam rock com electrónica desmesurada, beats provavelmente saídos de um órgão Casio (carrega-se-neste-botão-e-pronto), que se conjugam para fazer das coisas mais dançáveis (e sexys, há que dizê-lo) que já se ouviram este ano, letras provocantes e fáceis-de-decorar q.b., há The Kills e Yeah Yeah Yeahs mas há muito mais do que a fusão disto; os Cansei de ser sexy, sem o fazerem de propósito, conseguiram trazer muito mais às pistas de dança do que aquelas bandas de revivalismo 80s (que já me irritam): a evolução. Trouxeram mais, oferecem muito mais e é por isso que os devemos receber de braços abertos.
Na sua música há pura genuinidade (não confundir com ingenuinidade), há pôr-do-sol-depois-de-um-dia-de-praia, há caipirinhas, há bikinis e mini-saias e há corpos bronzeados. Mas, não fosse isto já bom o suficiente, não há só verão nestas canções, há também a cultura cosmopolita, há o Bairro Alto (ou a down-town NY), há o botellón (cada vez mais em voga na Praça Camões), há pontes sobre rios ( Brooklyn Bridge ou Vasco da Gama, not important), há imperiais fresquinhas em copos de plástico, há piercings e t-shirts (às riscas sempre) rasgadas.
E não sou só eu a dizê-lo.
Os Cansei de ser sexy começaram este mesmo mês uma tournée com o Diplo pelos Estados Unidos (boa sorte, amigos!) e eu temo que, para bem do nosso Verão, eles sejam the next big thing. Vão-no ser pelo menos no meu leitor de cd's.
[Não fosse a música suficientemente boa e os meninos ainda tiveram a audácia de ter um grande vídeo para mostrar]
"Let's make love and listen to Death From Above"
Cansei de ser sexy n'Os desumanos
Tempo para um conselho: se querem ser felizes, vão ao site da Trama, dos CSS e ao seu mypace e oiçam mais.
Tempo para um aviso: se não dançarem, é porque estão mortos.
11.7.06
Lugares-comuns
Passo as páginas do livro sem as ler, não leio palavras nem frases porque já nenhuma me diz seja o que for. Decidida a escrever a minha própria estória, sem intromissões nem compromissos, abro um caderno em branco, folhas vazias que esperam os meus instantes.
Penso que só acreditamos em príncipes encantados porque foi isso que nos ensinaram na infância.
E assim começo, a caneta bic roída na tampa desliza sobre o papel rugoso
folhas recicladas porque sou environment-friendly
E conto uma história e invento floreados e olhares e instantes que não existiram
porque quem conta um conto, acrescenta sempre um ponto
e geralmente está vento
e hoje em Lisboa o vento soprava com força, trazendo cheiros de outras nacionalidades
e arranjo qualquer coisa bonita para dizer sobre a forma como os cabelos estavam despenteados e a chuva consegue ser romântica porque toda a gente se recolhe debaixo de algum tecto
e, vinda do nada, ou talvez daquelas nuvens além, sinto gotas no rosto, primeiro no nariz, depois nos lábios e só então molham-me o cabelo - e o guarda-chuva em casa - e eu acelero o passo dirigindo-me a lado nenhum
e o ar que se respirava, que era já húmido, torna-se ainda mais sufocante, mas eu descubro maneira de fazer com que um olhar tímido se cruze com outro e duas pessoas, até então desconhecidas, sorriem e vão beber uma imperial e falar sobre a vida.
Dou por mim e apaixono-me pela minha caneta, pelo meu caderno, pela música que oiço, pelos livros que leio. Dou por mim e sou mais uma da carneirada com a mania que sou diferente (não melhor, só diferente). Agarro na minha caneta bic e parto para o egocentrismo: assino o meu nome em todas as folhas brancas do caderno, faço trocadilhos, desenho figuras geométricas e, cansada de esperar que alguém o faça por mim, preencho cada espaço vazio restante com uma cara sorridente (vulgo smiley).
Fecho o caderno e guardo-o na gaveta. Saio para a rua e está a chover, mas o ar está quente, seca-me por dentro. Era um belo momento para inspirar profundamente e sentir o cheiro da terra, mas se eu inspirar profundamnete agora, fico com uma grande dor de cabeça e o máximo que consigo cheirar é fumo de escape.
Penso que só acreditamos em príncipes encantados porque foi isso que nos ensinaram na infância.
E assim começo, a caneta bic roída na tampa desliza sobre o papel rugoso
folhas recicladas porque sou environment-friendly
E conto uma história e invento floreados e olhares e instantes que não existiram
porque quem conta um conto, acrescenta sempre um ponto
e geralmente está vento
e hoje em Lisboa o vento soprava com força, trazendo cheiros de outras nacionalidades
e arranjo qualquer coisa bonita para dizer sobre a forma como os cabelos estavam despenteados e a chuva consegue ser romântica porque toda a gente se recolhe debaixo de algum tecto
e, vinda do nada, ou talvez daquelas nuvens além, sinto gotas no rosto, primeiro no nariz, depois nos lábios e só então molham-me o cabelo - e o guarda-chuva em casa - e eu acelero o passo dirigindo-me a lado nenhum
e o ar que se respirava, que era já húmido, torna-se ainda mais sufocante, mas eu descubro maneira de fazer com que um olhar tímido se cruze com outro e duas pessoas, até então desconhecidas, sorriem e vão beber uma imperial e falar sobre a vida.
Dou por mim e apaixono-me pela minha caneta, pelo meu caderno, pela música que oiço, pelos livros que leio. Dou por mim e sou mais uma da carneirada com a mania que sou diferente (não melhor, só diferente). Agarro na minha caneta bic e parto para o egocentrismo: assino o meu nome em todas as folhas brancas do caderno, faço trocadilhos, desenho figuras geométricas e, cansada de esperar que alguém o faça por mim, preencho cada espaço vazio restante com uma cara sorridente (vulgo smiley).
Fecho o caderno e guardo-o na gaveta. Saio para a rua e está a chover, mas o ar está quente, seca-me por dentro. Era um belo momento para inspirar profundamente e sentir o cheiro da terra, mas se eu inspirar profundamnete agora, fico com uma grande dor de cabeça e o máximo que consigo cheirar é fumo de escape.
Querem-se / Precisam-se
Pessoas que observem
Que opinem , que escolham, que se insurjam
Que não toquem nas obras de arte mas saibam senti-las
Que vejam televisão e desliguem-na cinco minutos depois
Que percam meia hora a fazer o seu jantar
Que ponham a mesa mesmo quando jantam sós
Que oferecem um malmequer como presente de anos
Que enviem uma carta pelo correio
Que dêem a mão a quem gostam
Que fiquem tristes com as notícias, mas
Que ficam ainda mais tristes com a doença do vizinho do lado
Que não se limitem a encolher os ombros
Que brincam com crianças na rua
Que reconhecem as crianças que têm dentro de si
Que fazem brindes por tudo e por nada
Que opinem , que escolham, que se insurjam
Que não toquem nas obras de arte mas saibam senti-las
Que vejam televisão e desliguem-na cinco minutos depois
Que percam meia hora a fazer o seu jantar
Que ponham a mesa mesmo quando jantam sós
Que oferecem um malmequer como presente de anos
Que enviem uma carta pelo correio
Que dêem a mão a quem gostam
Que fiquem tristes com as notícias, mas
Que ficam ainda mais tristes com a doença do vizinho do lado
Que não se limitem a encolher os ombros
Que brincam com crianças na rua
Que reconhecem as crianças que têm dentro de si
Que fazem brindes por tudo e por nada
Que fazem planos para amanhã, para daqui a meses ou daqui a uns anos
Que descobrem sempre uma maneira de dar a volta por cima
Que dançam com o corpo todo, à frente do espelho e de outras pessoas
Que sorriem perante a lua, o sol, o mar, o vento
Que se aninhem em coisas, e não só nos lençóis.
Que só se deitam depois de ouvir música
Que na cama lêem um parágrafo de um livro que adoram
Que ao fim do dia reparam que hoje foram melhores
Que, com a luz apagada ou acesa, nunca se esquecem de sonhar.
9.7.06
8.7.06
Adormecer
Estou cansada e é aqui que escolhi dormir.
O meu corpo repousado sobre um manto fofo de musgo, o cabelo estendendo-se junto aos malmequeres amarelos, as mãos e os pés intimamente acariciando a terra.
Mais importante, a alma, vazia de emoções, finalmente existe com esse único propósito: o de existir. Deixar passar o tempo sem tentar acelerá-lo, desfrutar unicamente da companhia do silêncio.
Aos poucos, um formigueiro percorre suavemente os membros, que perdem a tensão desviando-se do centro. O corpo adormece.
O meu corpo repousado sobre um manto fofo de musgo, o cabelo estendendo-se junto aos malmequeres amarelos, as mãos e os pés intimamente acariciando a terra.
Mais importante, a alma, vazia de emoções, finalmente existe com esse único propósito: o de existir. Deixar passar o tempo sem tentar acelerá-lo, desfrutar unicamente da companhia do silêncio.
Aos poucos, um formigueiro percorre suavemente os membros, que perdem a tensão desviando-se do centro. O corpo adormece.
Jens Lekman - A higher power
She said let's put a plastic bag over our heads
and then kiss and stuff 'til we get dizzy and fall on the bed.
We were in heaven for five or six minutes, then we passed out
and I was so in love I thought I knew what love was all about.
In church on sunday making out in front of the preacher.
You had a black shirt on with a big picture of Nietzsche.
When we had done our thing for a full christian hour,
I had made up my mind that there must be a higher power.
A higher, higher power.
At a Christmas-party, I'd hold your hair when you vomit,
I'd help you up to brush your teeth, and then I'd kiss your stomach.
We lie still on your bed, the room is lit only by the tele
and it's a perfect night for feeling melancholy.
A higher, higher power.
[esta merece um post só para si]
and then kiss and stuff 'til we get dizzy and fall on the bed.
We were in heaven for five or six minutes, then we passed out
and I was so in love I thought I knew what love was all about.
In church on sunday making out in front of the preacher.
You had a black shirt on with a big picture of Nietzsche.
When we had done our thing for a full christian hour,
I had made up my mind that there must be a higher power.
A higher, higher power.
At a Christmas-party, I'd hold your hair when you vomit,
I'd help you up to brush your teeth, and then I'd kiss your stomach.
We lie still on your bed, the room is lit only by the tele
and it's a perfect night for feeling melancholy.
A higher, higher power.
[esta merece um post só para si]
À redescoberta
A sofreguidão para conhecer coisas novas, musicalmente falando, faz-me esquecer coisas boas que andavam a ganhar pó na minha estante. Foi o que aconteceu ao Jens Lekman, que tão injustamente há já algum tempo que não girava por estas bandas.
E um senhor que escreve coisas como as que vos vou mostrar não deveria ser nunca silenciado.
"She said "shhh
please be quiet
I know you don't want to
but please deny it""
[The cold swedish winter]
Ou então,
"When I said I wanted to be your dog
I wasn't coming on to you
I just wanted to lick your face
Lick those raindrops from the rainy days"
[When I said I wanted to be your dog].
E um senhor que escreve coisas como as que vos vou mostrar não deveria ser nunca silenciado.
"She said "shhh
please be quiet
I know you don't want to
but please deny it""
[The cold swedish winter]
Ou então,
"When I said I wanted to be your dog
I wasn't coming on to you
I just wanted to lick your face
Lick those raindrops from the rainy days"
[When I said I wanted to be your dog].
6.7.06
Figura de estilo
Correr descalça e livre sobre a relva molhada,
respingar os tornozelos com gotas de chuva,
distraír-se,
cair.
Levantar-se,
uma perna atrás da outra,
erguer-se e limpar a dor,
sem se incomodar com o sangue
ou com a lama nas mãos,
concentrar-se,
correr de novo,
escorregar,
voltar a cair,
lamber as feridas,
erguer-se novo.
Uns dias um pouco mais triste, outros dias feliz como nunca.
respingar os tornozelos com gotas de chuva,
distraír-se,
cair.
Levantar-se,
uma perna atrás da outra,
erguer-se e limpar a dor,
sem se incomodar com o sangue
ou com a lama nas mãos,
concentrar-se,
correr de novo,
escorregar,
voltar a cair,
lamber as feridas,
erguer-se novo.
Uns dias um pouco mais triste, outros dias feliz como nunca.
4.7.06
Praia IV
Entretive-me a desenhar círculos na areia com os dedos, muito suavemente como o rasto de um eremita. O coração, enterrado no fundo do mar, batia mais depressa, cada dia um bocadinho mais.
Distraída como estava, não vi formar-se a onda que lavou a minha alma quando chegaste.
Distraída como estava, não vi formar-se a onda que lavou a minha alma quando chegaste.
América Latina
Se eu pudesse, se eu pudesse..., visitava todos de uma assentada. Falta-me dinheiro e meses de férias para isso.
| You Should Visit Peru |
Peru is ideal for your "off the beaten path" traveling style. Head out to an ancient Incan city, visit a volcano, and don't forget to pet a llama. |
3.7.06
Googlism for: joana
joana is rich compared to those living in the villages of fiji
joana is self
joana is our second beanie tapir
joana is completely obsessed with bernhard and the relationship disintegrates
joana is a who's
joana is currently a sophomore at rock valley college and plans to transfer to niu after graduation in the spring of 2002
joana is originally from lisboa
joana is a happy
joana is still hoping that the family will get together again one day and that something positive will come out of all this
joana is keeping track of
joana is working on getting sierra nevada to donate space
joana is active in missionary work in haiti
joana is a seattle native who worked at world vision and interned at northwest urban ministry's hope central before joining the campus ministries staff
joana is een hele lieve en prachtige poes met grote oren en megapluimen erop
joana is a rio nightspot known as a bastion of old
joana is 15 and lives in germany
joana is born hier finden sie informationen zu den folgenden themen
joana is trusted by
joana is a booger
joana is deeply committed to enhancing life in ghana and the world
joana is my cousin but also belongs to my group of friends
joana is a naval infantry
joana is one of the original members of the blast
joana is another veteran of the blast from last season
joana is kein leben
joana is talking about is going to a lab and doing a timing on a feature
joana is a true local artist
joana is not literate
joana is the 2
joana is a 11 years old and tiago is a 12 years old
joana is looking for a friend that is between the ages of 30
joana is getting married
joana is willing to do light housework
joana is portuguese
joana is studying "signature whistles" while robin is studying behavioral development in the dolphins
joana is flexible
joana is decidedly architectonic
joana is the presidente of brca/usa and a very dear friend
joana is a bitchy wimp
joana is a genius
joana is the most polished setter
joana is the most polished
joana is going to school there
joana is a busy setting with 1
joana is 16
Verdades, mentiras, são os factos sobre as Joanas encontrados no google.
joana is self
joana is our second beanie tapir
joana is completely obsessed with bernhard and the relationship disintegrates
joana is a who's
joana is currently a sophomore at rock valley college and plans to transfer to niu after graduation in the spring of 2002
joana is originally from lisboa
joana is a happy
joana is still hoping that the family will get together again one day and that something positive will come out of all this
joana is keeping track of
joana is working on getting sierra nevada to donate space
joana is active in missionary work in haiti
joana is a seattle native who worked at world vision and interned at northwest urban ministry's hope central before joining the campus ministries staff
joana is een hele lieve en prachtige poes met grote oren en megapluimen erop
joana is a rio nightspot known as a bastion of old
joana is 15 and lives in germany
joana is born hier finden sie informationen zu den folgenden themen
joana is trusted by
joana is a booger
joana is deeply committed to enhancing life in ghana and the world
joana is my cousin but also belongs to my group of friends
joana is a naval infantry
joana is one of the original members of the blast
joana is another veteran of the blast from last season
joana is kein leben
joana is talking about is going to a lab and doing a timing on a feature
joana is a true local artist
joana is not literate
joana is the 2
joana is a 11 years old and tiago is a 12 years old
joana is looking for a friend that is between the ages of 30
joana is getting married
joana is willing to do light housework
joana is portuguese
joana is studying "signature whistles" while robin is studying behavioral development in the dolphins
joana is flexible
joana is decidedly architectonic
joana is the presidente of brca/usa and a very dear friend
joana is a bitchy wimp
joana is a genius
joana is the most polished setter
joana is the most polished
joana is going to school there
joana is a busy setting with 1
joana is 16
Verdades, mentiras, são os factos sobre as Joanas encontrados no google.
28.6.06
Tem dias em que me apetece
Agarrar neste blog e cortá-lo aos bocadinhos porque às vezes fico muito farta dele.
(Desta vez safou-se.)
(Desta vez safou-se.)
Breathtaking
José Gonzalez - Heartbeats
one night to be confused
one night to speed up truth
we had a promise made
four hands and then away
both under influense
we had devine scent
to know what to say
mind is a razorblade
to call for hands of above
to lean on
wouldn't be good enough
for me, no
one night of magic rush
the start a simple touch
one night to push and scream
and then releaf
ten days of perfect tunes
the colors red and blue
we had a promise made
we were in love
to call for hands of above
to lean on
wouldn't be good enough
for me, no
to call for hands of above
to lean on
wouldn't be good enough
and you, you knew the hands of the devil
and you, kept us awake with wolf teeths
sharing different heartbeats
in one night
to call for hands of above
to lean on
wouldn't be good enough
for me, no
to call for hands of above
to lean on
wouldn't be good enough
for me, no
(a sério, queridos leitores, o que seria de vocês sem as letras que ponho aqui?)
one night to be confused
one night to speed up truth
we had a promise made
four hands and then away
both under influense
we had devine scent
to know what to say
mind is a razorblade
to call for hands of above
to lean on
wouldn't be good enough
for me, no
one night of magic rush
the start a simple touch
one night to push and scream
and then releaf
ten days of perfect tunes
the colors red and blue
we had a promise made
we were in love
to call for hands of above
to lean on
wouldn't be good enough
for me, no
to call for hands of above
to lean on
wouldn't be good enough
and you, you knew the hands of the devil
and you, kept us awake with wolf teeths
sharing different heartbeats
in one night
to call for hands of above
to lean on
wouldn't be good enough
for me, no
to call for hands of above
to lean on
wouldn't be good enough
for me, no
(a sério, queridos leitores, o que seria de vocês sem as letras que ponho aqui?)
Mais uma daquelas que não me sai da cabeça
Matthew Herbert - Something Isn't Right
i don't buy the thing you said
you hit the nail and not the head
tried to chain me to the floor
took the handle from the door
won't you look me in the eye
start by admitting now
something isn't right
something isn't right
look me in the eye
tell me something isn't right in here
no that something isn't right
not right
i won't pander to it all
join an army not a school
fit the handle to the door
something isn't right
look me in the eye
tell me something isn't right in here
no that something isn't right
cover up, when expose you ought to
wise up to the things they taught ya
cover up: its an allied slaughter
pucker up: it's a friendly torture
i won't follow you in to the night
i won't use your torch for a light
chop down trees just to set them alight
i won't follow your scent in the night
there must be something wrong
i don't feel love
there must be something wrong in here
i don't feel love do ya?
there must be something wrong
i don't fell love
because i ain't felt like this
i don't feel love
felt like this before
do ya
there must be something wrong
i don't feel love
something isn't right
there must be something wroing
something isn't right
i don't feel love
because i ain't felt like this
i don't feel love
felt like this before
ddddddo you think?
what d.d.d.do you think?
do you remember?
something isn't right
there must be something wrong
because i ain't felt like this
felt like this before
do ya
there must be something wrong
ddddddo you think?
what d.d.d.do you think?
do you remember?
do you deny all the goodness in everything?
can you describe all the wonder in me?
and if the details are too much to comprehend
an email's there on your laptop to see
i'm all over this world
im all over this
i'm all over this world
i'll over this
come on to me
try and take me down
i'm all over this, i'm all over this
(aqui fica a letra da praxe, mesmo sabendo que ninguém a lê- ficam a saber que eu sou adepta do homemade karaoke)
i don't buy the thing you said
you hit the nail and not the head
tried to chain me to the floor
took the handle from the door
won't you look me in the eye
start by admitting now
something isn't right
something isn't right
look me in the eye
tell me something isn't right in here
no that something isn't right
not right
i won't pander to it all
join an army not a school
fit the handle to the door
something isn't right
look me in the eye
tell me something isn't right in here
no that something isn't right
cover up, when expose you ought to
wise up to the things they taught ya
cover up: its an allied slaughter
pucker up: it's a friendly torture
i won't follow you in to the night
i won't use your torch for a light
chop down trees just to set them alight
i won't follow your scent in the night
there must be something wrong
i don't feel love
there must be something wrong in here
i don't feel love do ya?
there must be something wrong
i don't fell love
because i ain't felt like this
i don't feel love
felt like this before
do ya
there must be something wrong
i don't feel love
something isn't right
there must be something wroing
something isn't right
i don't feel love
because i ain't felt like this
i don't feel love
felt like this before
ddddddo you think?
what d.d.d.do you think?
do you remember?
something isn't right
there must be something wrong
because i ain't felt like this
felt like this before
do ya
there must be something wrong
ddddddo you think?
what d.d.d.do you think?
do you remember?
do you deny all the goodness in everything?
can you describe all the wonder in me?
and if the details are too much to comprehend
an email's there on your laptop to see
i'm all over this world
im all over this
i'm all over this world
i'll over this
come on to me
try and take me down
i'm all over this, i'm all over this
(aqui fica a letra da praxe, mesmo sabendo que ninguém a lê- ficam a saber que eu sou adepta do homemade karaoke)
É impressão minha...
Ou Lisboa está-se mesmo a tornar uma praia onde a Cesária canta "É doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar" e o corpo deixa-se levar pela ondulação, os pés pisam a areia fina sem deixar pegadas e a brisa que corre refresca sem arrepiar?
Curta-metragem
Saíu do autocarro duas paragens antes de sua casa, apetecia-lhe andar um bocado a pé, pensar na vida talvez (como se ultimamente conseguisse fazer outra coisa).
Decidida a apagar a imagem do estranho que conhecera uns dias antes, pensando "isto é uma grande estupidez", e de cada vez que o pensava os seus passos ganhavam mais velocidade como se de facto essa fosse a decisão mais acertada. Perante o trânsito e o seu andar ritmado, quase que acompanhava o autocarro no regresso a casa, e sorria por dentro e por fora, pensando, claro, que tinha controlo sobre si própria e sobre o que sentia.
Pensava na palavra paz dita de várias maneiras e em várias línguas, e noutras como viajar, sorrir, mar, vento, simples, todas elas soletradas pelas pedras da calçada para entretê-la durante a caminhada.
Quando chegou a casa, determinada em apagar aquele contacto do messenger, ligou o computador e leu "constroe tu stencillo!" - o seu braço paralisou. Lembrou-se de uma palavra dita pela pedra da calçada "sencillo" e também de como tinha vindo até casa a pensar que chegara a Primavera e com ela a hora de simplificar.
Por isso não apagou o contacto, antes pelo contrário, passou o serão a imaginar a melhor abordagem. E foi mesmo isso que lhe disse
Estava a pensar na melhor maneira de te dizer isto
apostada em causar uma boa segunda impressão.
Decidida a apagar a imagem do estranho que conhecera uns dias antes, pensando "isto é uma grande estupidez", e de cada vez que o pensava os seus passos ganhavam mais velocidade como se de facto essa fosse a decisão mais acertada. Perante o trânsito e o seu andar ritmado, quase que acompanhava o autocarro no regresso a casa, e sorria por dentro e por fora, pensando, claro, que tinha controlo sobre si própria e sobre o que sentia.
Pensava na palavra paz dita de várias maneiras e em várias línguas, e noutras como viajar, sorrir, mar, vento, simples, todas elas soletradas pelas pedras da calçada para entretê-la durante a caminhada.
Quando chegou a casa, determinada em apagar aquele contacto do messenger, ligou o computador e leu "constroe tu stencillo!" - o seu braço paralisou. Lembrou-se de uma palavra dita pela pedra da calçada "sencillo" e também de como tinha vindo até casa a pensar que chegara a Primavera e com ela a hora de simplificar.
Por isso não apagou o contacto, antes pelo contrário, passou o serão a imaginar a melhor abordagem. E foi mesmo isso que lhe disse
Estava a pensar na melhor maneira de te dizer isto
apostada em causar uma boa segunda impressão.
Estórias
Estava perfeitamente combinado então, às 16 horas na porta do Monumental, sessenta euros na mão, na mão do anónimo dois bilhetes que garantiriam uma noite extremamente emocional na Aula Magna. Na cabeça, ideias dispersas que se centravam numa abordagem divertida mas também compenetrada, sobretudo empenho em esconder a timidez e o receio de desconhecidos. A alma, no sério compromisso de baralhar o corpo (como já é seu costume), sugeria ainda um convite para tomar café, caso o moço fosse simpático.
Aproximou-se da porta a medo, não conhecia o rapaz, ele também não a conhecia, não havia rosas na mão (que chamariam a atenção) mas sim dois bilhetes iguais a tantos outros papéis azulados com letras impressas a preto. De repente, reparou: só podia ser ele, que também olhava em redor, uma t-shirt verde que em tudo fazia sobressair o mesmo tom nos olhos. E houve qualquer coisa que a desarmou, deitando no saneamento básico lisboeta toda e qualquer hipótese de parecer uma pessoa normal. Palavras ditas para dentro como que engolidas cada vez que tentavam sair, quando o que mais apetecia era dizer qualquer coisa extremamente inoportuna como "ninguém me avisou que eras tão giro". E a falta de à-vontade que aquela surpresa causara fez com que o encontro demorasse 46 segundos, nem mais nem menos.
E por isso, não querendo ele confirmar o valor monetário em jogo, assim viraram costas e foi cada um à sua vida para sempre.
Para sempre?
Aproximou-se da porta a medo, não conhecia o rapaz, ele também não a conhecia, não havia rosas na mão (que chamariam a atenção) mas sim dois bilhetes iguais a tantos outros papéis azulados com letras impressas a preto. De repente, reparou: só podia ser ele, que também olhava em redor, uma t-shirt verde que em tudo fazia sobressair o mesmo tom nos olhos. E houve qualquer coisa que a desarmou, deitando no saneamento básico lisboeta toda e qualquer hipótese de parecer uma pessoa normal. Palavras ditas para dentro como que engolidas cada vez que tentavam sair, quando o que mais apetecia era dizer qualquer coisa extremamente inoportuna como "ninguém me avisou que eras tão giro". E a falta de à-vontade que aquela surpresa causara fez com que o encontro demorasse 46 segundos, nem mais nem menos.
E por isso, não querendo ele confirmar o valor monetário em jogo, assim viraram costas e foi cada um à sua vida para sempre.
Para sempre?
Ponto da situação (após um mês de ausência)
Através do vidro que ilusoriamente me separa de uma realidade tamtas vezes amarga, sinto-me aparentemente bem. O Verão chegou e com ele a preocupação dos exames, que quer se queira quer não, acabam sempre por reduzir um ano de trabalho a umas semanas de estudo. Preferia ter o sol na cara e franzir todas as rugas para me proteger, claro, mas se calhar é por fazer isso apenas quando este stress passar que faz com que o sol saiba tão bem.
De qualquer maneira tenho novidades. Um miúdo, por enquanto chamado André (e eu faço figas para que assim se mantenha), que vive neste momento dentro da barriga da minha mãe, com a mais que ternurenta idade de 26 semanas de gestação. Nada descreve a sensação de se ter 21 anos e estar-se à espera de um irmão, pelo menos no meu caso fui inundada de uma enorme alegria e estou mais participativa (na medida do possível dadas as devidas distâncias que me separam da família) que nunca na gravidez.
De qualquer maneira tenho novidades. Um miúdo, por enquanto chamado André (e eu faço figas para que assim se mantenha), que vive neste momento dentro da barriga da minha mãe, com a mais que ternurenta idade de 26 semanas de gestação. Nada descreve a sensação de se ter 21 anos e estar-se à espera de um irmão, pelo menos no meu caso fui inundada de uma enorme alegria e estou mais participativa (na medida do possível dadas as devidas distâncias que me separam da família) que nunca na gravidez.
31.5.06
Esplendor
Caía uma chuva fina em forma de confissão
E eu solidão
Sou como a folha de outono que sem dono navegando chega aqui
P'ra lhe dizer que o abandono já vai chegando ao fim
E eu só perdão,
Só falta agora o teu sorriso, um aviso que a luz do sol está por vir
E se você me vir vagando sem razão
Não vai pensar que o desengano mora no meu coração
Há muito tempo já se foi a estação que vem depois
Descortina todo o Esplendor.
(Caía uma chuva fina.)
Cibelle
E eu solidão
Sou como a folha de outono que sem dono navegando chega aqui
P'ra lhe dizer que o abandono já vai chegando ao fim
E eu só perdão,
Só falta agora o teu sorriso, um aviso que a luz do sol está por vir
E se você me vir vagando sem razão
Não vai pensar que o desengano mora no meu coração
Há muito tempo já se foi a estação que vem depois
Descortina todo o Esplendor.
(Caía uma chuva fina.)
Cibelle
30.5.06
And she was
Mais de trinta graus para mim é roçar o Inferno, incluindo diabos, chamas, suor e tonturas. Daí que precise de uma cançoneta que me arrefeça o espírito. Com esta pulo, danço e canto, não arrefeço mas pelo menos esqueço-me que desci às profundidades da Terra.
And she was lying in the grass
And she could hear the highway breathing
And she could see a nearby factory
She's making sure she is not dreaming
See the lights of a neighbour's house
Now she's starting to rise
Take a minute to concentrate
And she opens up her eyes
The world was moving and she was right there with it (and she was)
The world was moving she was floating above it (and she was) and she was
And she was drifting through the backyard
And she was taking off her dress
And she was moving very slowly
Rising up above the earth
Moving into the universe
Drifting this way and that
Not touching ground at all
Up above the yard
The world was moving and she was right there with it (and she was)
The world was moving she was floating above it (and she was) and she was
She was glad about it... no doubt about it
She isn't sure where she's gone
No time to think about what to tell them
No time to think about what she's done
And she was
And she was looking at herself
And things were looking like a movie
She had a pleasant elevation
She's moving out in all directions
The world was moving and she was right there with it (and she was)
The world was moving she was floating above it (and she was) and she was
Joining the world of missing persons (and she was)
Missing enough to feel alright (and she was)
Talking Heads
And she was lying in the grass
And she could hear the highway breathing
And she could see a nearby factory
She's making sure she is not dreaming
See the lights of a neighbour's house
Now she's starting to rise
Take a minute to concentrate
And she opens up her eyes
The world was moving and she was right there with it (and she was)
The world was moving she was floating above it (and she was) and she was
And she was drifting through the backyard
And she was taking off her dress
And she was moving very slowly
Rising up above the earth
Moving into the universe
Drifting this way and that
Not touching ground at all
Up above the yard
The world was moving and she was right there with it (and she was)
The world was moving she was floating above it (and she was) and she was
She was glad about it... no doubt about it
She isn't sure where she's gone
No time to think about what to tell them
No time to think about what she's done
And she was
And she was looking at herself
And things were looking like a movie
She had a pleasant elevation
She's moving out in all directions
The world was moving and she was right there with it (and she was)
The world was moving she was floating above it (and she was) and she was
Joining the world of missing persons (and she was)
Missing enough to feel alright (and she was)
Talking Heads
Ainda mais animais na cidade (III)
Besouros e/ou borboletas.
Com direito a cabeçadas nas lâmpadas, candeeiros, abat-jours, televisão, micro-ondas e frigorífico aberto, após vôo picadíssimo.
Com direito a cabeçadas nas lâmpadas, candeeiros, abat-jours, televisão, micro-ondas e frigorífico aberto, após vôo picadíssimo.
29.5.06
Mais animais na cidade (II)
Melgas.
Na minha terra não há nada destas coisas. Mosquitos com patas tão grandes que parecem aranhas e ferrões afiados com ar de quem nos vai sugar o sangue todo até ao último capilar.
Tenho medo.
Na minha terra não há nada destas coisas. Mosquitos com patas tão grandes que parecem aranhas e ferrões afiados com ar de quem nos vai sugar o sangue todo até ao último capilar.
Tenho medo.
28.5.06
26.5.06
Como ir a um Festival (que se quer ignorar) sem gastar um tostão
Faz-se assim: mora-se perto do recinto e abre-se uma janela.
Tenho o Rock in Rio a entrar-me pela casa a dentro.
Tenho o Rock in Rio a entrar-me pela casa a dentro.
23.5.06
No llores más
22.5.06
[sem título]
Sopravas bolas de sabão feitas de sonhos e serpentinas e eu embevecida perante a tua jovialidade, o teu sorriso de menino traquinas vendo-as subir, volteando, rodopiando até que, bem junto às nuvens,
puf!
se desfaziam em gotas que molhavam as maçãs do teu rosto, iluminando-o com as sete cores do arco-íris
amarelo, laranja, vermelho, anil, violeta, azul, verde
e cada gota de todas as gotas vibrava por acariciar a tua face perfeita, a tua pele macia, percorrendo o teu maxilar anguloso até ao queixo para logo se perder nos teus lábios suaves e carnudos, que semicerravas para as sorver, uma por uma.
puf!
se desfaziam em gotas que molhavam as maçãs do teu rosto, iluminando-o com as sete cores do arco-íris
amarelo, laranja, vermelho, anil, violeta, azul, verde
e cada gota de todas as gotas vibrava por acariciar a tua face perfeita, a tua pele macia, percorrendo o teu maxilar anguloso até ao queixo para logo se perder nos teus lábios suaves e carnudos, que semicerravas para as sorver, uma por uma.
21.5.06
Sim, é um post parvo [mas também são 5 da manhã]
Deixe as palavras refogar lentamente num bom azeite virgem, deixe-as dourar, amolecer, ganhar brilho. Só aí é que vale a pena juntar outro interveniente a esta receita. Escolha-o bem, fresco, livre, e sorriso tímido. [Não se deixe levar pelas aparências.] Perceba se ele sabe ouvir, se sabe quando interromper, se sabe guiar a conversa. Se sim, junte-o às palavras e tempere com gargalhadas e suspiros q.b.. Mexa o preparado até que este esteja cozido por fora, nesse momento adicione uma colher de sopa de carinho e uma chávena de intimidade. Mexa vigorosamente até que fique cozido, instante em que pode então regar generosamente com atracção física e gostos partilhados. Salpique com encontros de frequência gradualmente maior até que todos os outros ingredientes ganhem cor.
Vai a servir em travessa bonita, decorada com beijos e alegria.
Vai a servir em travessa bonita, decorada com beijos e alegria.
11.5.06
Quem quer ser lobo, que lhe vista a pele.
Empty Shell
All that is left is an empty shell
Of my heart that is crushed
I don't never wanna see
What my mind has seen
When you loved me
Every night every night alone with you
Every night alone now
When she sits on your lap
Try to pretend to laugh
When she does stupid things
Just like I used to do
Do not hate her
Don't you even try
For to leave her is to love her
The same as you and I
I love you
And I miss you too
I really do love you
And I really miss you too
But I don't know you
And I don't need you
And I don't want you anymore
Every night every night alone with you
Every night alone now.
Cat Power
All that is left is an empty shell
Of my heart that is crushed
I don't never wanna see
What my mind has seen
When you loved me
Every night every night alone with you
Every night alone now
When she sits on your lap
Try to pretend to laugh
When she does stupid things
Just like I used to do
Do not hate her
Don't you even try
For to leave her is to love her
The same as you and I
I love you
And I miss you too
I really do love you
And I really miss you too
But I don't know you
And I don't need you
And I don't want you anymore
Every night every night alone with you
Every night alone now.
Cat Power
4.5.06
Lover, you should've come over
Looking out the door i see the rain fall upon the funeral mourners
Parading in a wake of sad relations as their shoes fill up with water
And maybe i'm too young to keep good love from going wrong
But tonight you're on my mind so you never know
When i'm broken down and hungry for your love with no way to feed it
Where are you tonight, child you know how much i need it
Too young to hold on and too old to just break free and run
Sometimes a man gets carried away, when he feels like he should be having his fun
And much too blind to see the damage he's done
Sometimes a man must awake to find that really, he has no-one
So i'll wait for you... and i'll burn
Will I ever see your sweet return
Oh will I ever learn
Oh lover, you should've come over
'Cause it's not too late
Lonely is the room, the bed is made, the open window lets the rain in
Burning in the corner is the only one who dreams he had you with him
My body turns and yearns for a sleep that will never come
It's never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder
It's never over, all my riches for her smiles when i slept so soft against her
It's never over, all my blood for the sweetness of her laughter
It's never over, she's the tear that hangs inside my soul forever
Well maybe i'm just too young
To keep good love from going wrong
Oh... lover, you should've come over
'Cause it's not too late
Well I feel too young to hold on
And i'm much too old to break free and run
Too deaf, dumb, and blind to see the damage i've done
Sweet lover, you should've come over
Oh, love well i'm waiting for you
Lover, you should've come over
'Cause it's not too late
Jeff Buckley, porque há dias assim em que uma canção diz mais sobre nós do que mil palavras escritas.
Parading in a wake of sad relations as their shoes fill up with water
And maybe i'm too young to keep good love from going wrong
But tonight you're on my mind so you never know
When i'm broken down and hungry for your love with no way to feed it
Where are you tonight, child you know how much i need it
Too young to hold on and too old to just break free and run
Sometimes a man gets carried away, when he feels like he should be having his fun
And much too blind to see the damage he's done
Sometimes a man must awake to find that really, he has no-one
So i'll wait for you... and i'll burn
Will I ever see your sweet return
Oh will I ever learn
Oh lover, you should've come over
'Cause it's not too late
Lonely is the room, the bed is made, the open window lets the rain in
Burning in the corner is the only one who dreams he had you with him
My body turns and yearns for a sleep that will never come
It's never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder
It's never over, all my riches for her smiles when i slept so soft against her
It's never over, all my blood for the sweetness of her laughter
It's never over, she's the tear that hangs inside my soul forever
Well maybe i'm just too young
To keep good love from going wrong
Oh... lover, you should've come over
'Cause it's not too late
Well I feel too young to hold on
And i'm much too old to break free and run
Too deaf, dumb, and blind to see the damage i've done
Sweet lover, you should've come over
Oh, love well i'm waiting for you
Lover, you should've come over
'Cause it's not too late
Jeff Buckley, porque há dias assim em que uma canção diz mais sobre nós do que mil palavras escritas.
2.5.06
Frases que se ditas com frequência poderiam evitar muitos problemas I
"Sabes, tens toda a razão, desculpa."
PROCURA-SE
Árvore com flores fúcsia, copa frondosa povoada de melros pretos cantando e esvoaçando por entre a folhagem exuberante, tronco robusto habitado por esquilos e líquenes. É importante que tenha a capacidade de sobreviver na minha rua no centro de Lisboa e que os seus ramos atinjam o 5º andar.
Respostas a este mesmo jornal.
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