23.1.07

E a música?

Em 2004, um ano antes do Desumanos ter sido criado, JP Simões e Sérgio Costa juntaram um Quinteto - que afinal ao vivo era um sexteto - e apelidaram-no de Tati. Escreveram um disco chamado Exílio que me inspirou a escrever muitos textos, não só aqui, como no extinto Crime Passional. Canções que constroem cenários, que esboçam histórias a giz, que guiam os meus dedos através do teclado.

Em 2007, JP Simões, depois dos Belle Chase Hotel e dos Quinteto Tati, lançou um álbum a solo chamado 1970. Ontem ouvi a apresentação do álbum na FNAC e logo me apeteceu ter direito a um concerto à séria, com os coros que preenchem o disco de uma forma especial. As canções de 1970 são, de forma nada supreendente, lindas. A influência é nitidamente buarquiana ( a palavra não deve existir) mas a vivência é portuguesa - e há a Inquietação, do José Mário Branco, cuja letra foi aqui publicada a propósito, já há um ano - desta versão do JP.

Os textos de Parabéns foram todos escritos ao som deste disco. Oiçam-no.

Quinze coisas que poderiam fazer nos quinze minutos que gastam a ler o Desumanos:

1. Ver, pelo menos, cinco sketches dos Monty Phyton.
2. Fazer uma tosta, comê-la e limpar a tostadeira (por causa do queijo derretido).
3. Ouvir as faixas Retrospectiva de um amor profundo e 16/12/95 do Pratica(mente) e ter atenção absoluta à letra.
4. Aspirar uma divisória da vossa casa, ou duas ou três, ou mesmo a casa toda (dependendo do tamanho da casa).
5. Pôr um disco do Marvin Gaye a tocar e deixar a criatividade apontar o caminho para o sexo.
6. Dar uma rapidinha (ou uma queca a sério, caso sofram/o vosso namorado sofra de ejaculação precoce).
7. Ver três intervalos publicitários seguidos dos três canais generalistas principais (a 2: não conta para o caso porque só passa publicidade institucional).
8. Fazer a massa para um pão-de-ló (mais dez minutos e teriam o pão-de-ló no forno).
9. Pegar no carro e ir ver o mar, se o trânsito estiver de feição.
10.Ler os "Castelos" d' A Mensagem do Pessoa.
11.Ler uma página de um livro e mesmo assim não a perceberem e terem que a reler (se isto nunca vos aconteceu, lamento, andam a ler os livros errados).
12.Namorar.
13.Telefonar a uma amiga que não vêem há duas semanas (mais tempo do que isto sem se verem resultará numa conversa maior que quinze minutos).
14. Beber uma bica e ler as letras gordas do jornal.
15. Não fazer absolutamente nada e pensar na morte da bezerra.

Por isto tudo, e muito mais, aos que cá vêm o meu

muito obrigado.

Parabéns, Desumanos.

É o teu segundo aniversário.

Obrigada por guardares dentro de ti aquilo que sou.

Obrigada por me deixares ser mais ainda por tua causa.

Obrigada por todos os espaços em branco que me obrigaste a preencher.

Obrigada por me ouvires.

Obrigada por teres sido a minha tábua de flutuação quando estava atolada em pântano viscoso.

Obrigada pelos discos que ouviste, pelas letras que cantaste.

Obrigada por seres mais do que um blogue, obrigada por seres eu e eu ser tu e tu assim o permitires.

Obrigada por todas as vezes em que limpaste as lágrimas derramadas de dentro de mim.

Obrigada pela tua paciência quando não tenho nada para te dizer.

Obrigada pelos textos em que deixaste, propositadamente, que a realidade a ficção fossem uma e uma só identidade, fusão terapêutica de chá, sorrisos e choro.

Obrigada por quando me fizeste rir.

Obrigada por me aturares as esquisitices, as manias, as insónias.

Obrigada por te deixares adormecer e obrigada por nunca teres morrido, mesmo nas vezes que tentei matar-te, assassina impiedosa.

Obrigada por acolheres textos feios, mal-escritos, desdenhosos.

Obrigada por reconheceres quando estou demasiado feliz para falar de desgraças.

Obrigada por ainda me deixares sonhar.

Obrigada por cada sílaba, cada palavra, cada frase, cada post.

Ainda és tu quem se mantém mais ou menos o mesmo, dois anos depois. Eu já não sou a mesma e também a ti o devo. Obrigada.

Parabéns ao Desumanos.

Um piano toca dolente e enche a tarde, ao longe. As chaves - um molho enorme, com chaves de todos os formatos - está a um canto da entrada, talvez deixadas cair por alguém que entrou à pressa.

Há um bilhete sobre a mesinha da sala, a única mesa de todo o apartamento. Vazio.

Segura o bilhete entre os lábios, já em miúda a mãe lhe dizia que aquilo era pouco higiénico mas criara essa mania. Habituara-se a fazer tudo ao mesmo tempo, jantar enquanto estudava, ver televisão enquanto fazia a depilação, falar ao telefone enquanto se arranjava. Sempre com o bilhete nos lábios, e ainda sem o ler, abre as cortinas e as persianas dos grandes janelões da sala. Já não precisa de acender a luz, porque o sol ocupa o espaço deixado livre pela ausência dos móveis. Ilumina o grande armário dos discos, onde vinis alinham-se com cds em estantes oblíquas. Decide ouvir música antes de seja o que for. Antes de pousar a mala, a pasta com a papelada do escritório, o saco do supermercado.

Levantou o braço do gira-discos ainda antes de escolher o que queria ouvir. Apetecia-lhe ouvir qualquer coisa onde se sobrepusesse o trompete. Apetecia-lhe dançar para que a felicidade que sentia inundasse aquelas paredes vazias, como se de quadros de Magritte se tratasse.

Ceci n'est pas une pipe. C'est seulement joie de vivre.

Já ouve Donald Byrd enquanto pousa tudo o que havia para pousar. Finalmente o bilhete passa para as suas mãos.

Volto logo. Logo. O mais rápido que puder. Está um dia lindo, parecia que ia chover e começou o sol a brilhar desta maneira, viste? Fui buscar coisas a casa. Trago jantar. Ou vamos jantar fora. Ou ficamos por casa na cama. Ia escrever "a comer-nos" mas achei demasiado porco. Vais guardar este bilhete? "O primeiro bilhete que ele me deixou na nossa casa nova"? Se soubesses o quanto te amo. Já temos gás e internet. Quero-te encontrar a dançar. Ou dentro de um banho. Prometo juntar-me a ti, independemente do que estiveres a fazer quando eu chegar. Mesmo que estejas a lavar os dentes. Temos internet, já disse? Eu amo-te muito. Até já, num já que são horas que serão séculos.

Guardou o papel no bolso e agora rodopia pela sala. Há pó que se eleva com os seus passos. Sabe que é delicada e que dança bem, sobretudo agora que ninguém a vê. Os olhos estão abertos porque pôs-se a imaginar cada canto daquela sala com os móveis e as fotografias que deseja trazer. Gradualmente deixa de ser ela quem dança, uma força que se move para além dela mas que não a força a nada. Tem que arrumar alguns dos caixotes que lhe ocupam aquele lado da - ou melhor, pensa imediatamente, os caixotes que lhe ocupam a zona do escritório. É talvez a última dança que fará sozinha naquela sala vazia. Amanhã chegará um sofá, uma estante, as molduras de fotografias.

Fecha os olhos e sente nos seus lábios as bocas de quem já beijou. O rosto abre-se em alegria. Agora beija quem sempre quis beijar. Como se já o conhecesse do útero e tivesse que ter andado à procura cá fora. Contorce-se de prazer, o trompete sobe, sob ele há batida funk, quente. Sob ele há uma viagem.

Empilha dois caixotes diante da janela e vai mudar de disco. Escolhe o Chico Buarque, escolhe o Brasil como ponto de partida. Senta-se nos caixotes e aproveita aquele final de tarde absurdo. Absurdo de tão bonito. O céu estende-se na potencialidade infinita de ser feliz. Aqui, agora.

19.1.07

Scoop

Pela primeira vez, saí do cinema desconsolada depois de ver um filme do Woody Allen. Eu que até agora tinha gostado de todos os filmes dele, mesmo aqueles apelidados de "lixo cinematográfico".

A história merecia mais, o Hugh Jackman merecia mais, a Scarlett Johansson talvez não mereça tanto.

Mas vão ver, em termos de gargalhadas descomprometidas, o filme é um sucesso - e é do Woody Allen, só não é uma obra-prima. Falta-lhe um twist qualquer no enredo. Falta sarcasmo aos acontecimentos. Falta aquele humor negro, que o Match Point teve (o anel que podia cair no rio ou no chão, tal como a bola num jogo de ténis.) Não há ali nada disso. Há até uma história bem clara, demasiado clara, arriscaria mesmo a usar o termo previsível.



Sempre são duas horinhas bem passadas no cinema - e na companhia dele.



Peço-vos que reparem na cana do nariz deste senhor. Rectilínea, afilada, ligiramente inclinada para baixo (cada uma gosta do que gosta, a mim são narizes, que hei-de fazer?). O nariz mais perfeito que tive oportunidade de observar. A cara, magra, que se desdobra em rugas expressivas quando sorri, a testa grande, imediatamente cima de uns olhos sinceramente castanhos e vivaços. E é o Hugh Jackman que faz com que a melhor cena do filme seja exactamente a melhor cena do filme - para não falar do efeito de pólos, ainda por cima verdes, no meu coração fraquito:

Três canções para ter uma filha chamada Madalena

Uma. Madalena, Elis Regina

Duas. Magdalena, dEUS

Três. Magdalina's dance, Bert Jansch

18.1.07

A/C mana [Ó não! Mais um vídeo do youtube! II]



The Roots feat. Erykah Badu | You got me

16.1.07

Crítica televisiva a um programa defunto

Os pés levaram-me para o sofá e os dedos, encostados à borracha dos botões do comando, levaram-me até à RTP Memória, onde estava a ser transmitido o Parabéns, com Herman José.

Há várias considerações a tecer quando se vê o Parabéns com Herman José (nunca tinham reparado que o nome é assim mesmo? é para isso que aqui estou). Uma delas é francamente óbvia: o Herman José nesta altura não era loiro. E afinal nesta altura também já não tinha assim tanta piada quanto isso - recordo-me que o humor voltou aos programas do Herman com as rábulas da Maria Rueff no Herman'98, não com o próprio Herman. O Parabéns com Herman José era, já nesta altura, um chorrilho de amizades e de queridas e queridos e de grandes amigos para todo o lado. Talvez com menos pompa do que o actual Herman SIC (programa que não assisto há coisa de dois anos e meio ou mesmo mais), mas ainda assim uma chatice.

A roupa das criaturas que aparecem no programa é digna de nota. O Parabéns com Herman José é dos anos noventa, meodeos. Eu já estava minimamente acordada para a vida nesta década e não me lembro de n i n g u é m na minha família se vestir assim - God forbid! No jogo das idades, em que os dois concorrentes seleccionados para jogar com o Herman escolhem aniversariantes do público, uma miúda tinha a minha idade actual - 22 anos, para os poucos que não sabem - e eu dava-lhe, na boa, 30 anos ou mais. Ou mais. Que ar tão pesadão. Que coisa é aquela de vestir um tailleur cinzento escuro para ir a um programa de televisão de entretenimento? Se ainda fosse falar sobre microeconomia, aceitava-se o ar - literalmente - cinzentão. Agora ali há dados que rebolam sobre as cabeças do público, chaves com cores berrantes em que só uma abre o cofre do banco Fonsecas e Burnay (que é feito do banco Fonsecas e Burnay, anyway?), há a Ana Bola e o Vítor de Sousa para o momento humorístico da noite. E no programa que assisti (apenas parcialmente, confesso), o aniversariante VIP era o Artur Albarran. (E a mulher por quem estava apaixonado na altura - e casado, acho - não era a Lisa que alegadamente levou pancada, para verem como o mundo dá voltas.) Não é programa para alguém ir vestido daquela maneira. Adiante.

Claro que assistir a este programa, Parabéns com Herman José, deixou-me um pouco nostálgica. Os meus sábados à noite em miúda eram exactamente a ver aquilo: a aguardar ansiosamente que acabasse o Telejornal, depois de comer creme de ervilhas e ovo estrelado com arroz, em casa da minha avó - para que começasse o Parabéns com Herman José. Eu vibrava com aquilo. Sonhava com o dia em que eu pudesse participar para ir ali, na semana do dia 18 de Novembro, pôr as mãos naqueles dados que me pareciam tão fofinhos. (Ainda hoje quando vejo dados grandes, daqueles de esponja para as crianças brincarem, agarro-me a eles com convicção e faço-os rolar com um rufar de tambores - Joana, the human beatbox - , tal como no Parabéns com Herman José.) Escolhia as cores das chaves com fervor para abrir o tal cofre do banco Fonsecas e Burnay, que continha setecentos e cinquenta mil escudos, os presentes com pistas muito idênticas - mas em que os pequenos detalhes distinguiam um micro-ondas de um simples púcaro. E havia a banda. E eu gostava daquilo tudo e lembro-me que toda a gente lá em casa via aquele programa comigo.

Bem vistas as coisas, faz falta um programa assim à actual televisão-floribella-morangos-related. Apesar de tudo, a entrevista com o Albarran estava a aborrecer-me desliguei a televisão. Já há muito tempo que não via tanto tempo de televisão de seguida, ainda assim.

Ó não! Mais um vídeo do youtube!



Chad VanGaalen | Flower Gardens

Skelliconnection, o álbum do Chad VanGaalen, está nas menções honrosas porque não mereceu entrar no top 30. Não deixa, no entanto, de ser um óptimo álbum, com canções como esta com que vos presenteio hoje - e que me levantou da cama em muitos dias de sono; a Sing me to sleep - que, ao contrário da anterior, adormeceu-me em noites de insónia; e outras pequenas surpresas, como a See thru skin e a Red Hot Drops.

O vídeo aqui oferecido foi animado e realizado pelo próprio Chad.

(já agora, esta é a belíssima capa do álbum:
)

14.1.07

Neko Case & M. Ward | To go home



Esta é a versão ao vivo da canção do M. Ward "To go home", que consta no Post war (álbum que figura no lugar 24 - e lembrem-se que a partir do 12 a lista é, em termos de classificação, pouco/nada consistente- da lista atrás publicada). A Neko Case (responsável por um senhor álbum, no número 2 da referida lista) canta o coro desta canção, convidada pelo M. Ward. A versão ao vivo não é a melhor (do vídeo, então nem se fala, não se vê ninguém, talvez só o cabelo vermelho da Neko).

De qualquer maneira, fica aqui o apelo: um festival com a Neko Case, o M. Ward, o Jens Lekman - por acaso acho que me esqueci que o "Ooh you're so silent Jens!" é de 2006 - e o Tom Waits. A coisa compunha-se, não era?

Vale o que vale, mas aqui está ela: lista pessoal dos melhores álbuns de 2006

Aqui temos os meus campeões mensais de audições nos primeiros 12 lugares. Os restantes foi seguindo um sábio conselho: tentar não colocar consecutivamente géneros musicais ou editoras iguais. É, talvez, a lista mais injusta e parva de todo o sempre, mas aqui está ela, para o bem e para o mal.

1. Ali Farka Touré - Savane
2. Neko Case - Fox Confessor Brings the Flood
3. Cibelle - The Shine of Dried Electric Leaves
4. Carlos Bica & Azul$Believer
5. Bert Jansch - The Black Swan
6. Howe Gelb - ’sno angel like you
7. Beach House - Beach House
8. Lupe Fiasco - Food & Liquor
9. Beirut - Gulag Orkestra
10. Cat Power - The Greatest
11. Kode 9 & the Spaceape - Memories of the Future
12. Liars - Drum's Not Dead
13. Toumani Diabaté Symmetric Orchestra - Boulevard de l’independance
14. Sam the Kid - Pratica(mente)
15. Yo la tengo - I am not afraid of you and I will beat your ass
16. Tom Waits - Orphans
17. Buraka Som Sistema - From Buraka to the World
18. Gaiteiros de Lisboa - Sátiro
19. Grizzly Bear - Yellow House
20.Lisa Germano - In the maybe world
21. Spanky wilson & Quantic Soul Orchestra - I’m Thankful
22. Chico Buarque - Carioca
24. M Ward - Post-War
25. Marisa Monte - Universo ao Meu Redor
26.Tv on the Radio - Return to the Cookie Mountain
27. Ty - Closer
28. Phoenix - It’s never been like that
29. Clipse - Hell hath no fury
30. Dead Combo - Quando a alma não é pequena – volume 2

Menções honrosas (saíram do top 30 porque eu à custa de números repetido tinha já 35 discos): - Nino Moschella, The Fix
- Sparklehorse, I dreamt of light years in the belly of a mountain
- Boards of Canada, Trans Canada Highway
- Spank Rock, Yoyoyo
- Chad VanGallen, Skelliconnection

12.1.07

Doismileseis

Sou uma pessoa medíocre. Não sei muito sobre arte nenhuma (espero que a medicina seja excepção, mas neste caso estou a falar de cinema, literatura, música, pintura e coisas assim). Se me pedissem para escrever um texto sobre o que quer que fosse, escrevia, no máximo, umas duas ou três linhas. Vivo dos meus cinco sentidos e de uma inteligência que se vai revelando a cada dia em pequenas coisas e que convive e coabita no mesmo ser (eu, claro, who else?) com uma parvoíce sem limites - que é o lado meu que as pessoas mais conhecem.

Dois mil e seis acabou. Gosto de escrever o ano assim, por extenso. E ainda mais se o escrever tudo pegado. Assim, vejam: doismileseis. A relatividade do tempo continua a assustar-me. Talvez me assuste cada vez mais. Ainda ontem era 2002 e eu estava a vir para Lisboa, onde tudo me parecia frio, cruel, distante, impessoal. Agora não sei se quero regressar à Madeira tão cedo. Doismileseis trouxe-me esse dilema: o regresso a casa ou a adopção de um novo lar? Lisboa é o meu lar (estupidamente cito a Fiona Apple que diz "home is where my habits have an habitat" ou o Common que canta "home is where the hatred is/ home is filled with pain" e concordo em absoluto com a primeira e com o segundo às vezes). Nesta cidade enorme (enorme em dimensões e enorme em beleza), ganhei o meu espaço. Fiz amigos, atei laços que espero nunca vir a desatar. Mas sobretudo encontrei a Joana que eu sempre quis ser e de quem sempre estive aquém (obra inacabada, óbvio). Concertos, exposições, horas dentro de livrarias e lojas de discos, horas fora de casa de olhar indefinido enquanto pombas pousam para comer migalhas do meu prato. Horas sentada no Castelo, sozinha, exactamente no sítio onde disse ao Pedro, há quase dois anos "Pedro, quero acabar.", com toda a cidade a entrar dentro de mim. Recupero todo esse trajecto com o meu carro, amigo de todas as horas. Adoro o meu carro, sabiam? Desço do castelo até à rua do Santiago Alquimista, que julgo se chamar Rua de Santiago, entro no carro e vou ouvindo rádio.

"Pe-dro-que-ro-a-ca-bar." são apenas sete sílabas, o que dá o quê? uns sete segundos. Sete segundos que me marcarão para a vida inteira. Faz dois anos em Março deste ano; entretanto o Pedro é o meu melhor amigo. Doismilecinco foi o pior ano de sempre. Lembro-me de o ano ter mudado nas luzinhas da montanha, de 2005 para 2006, e de eu ter pensado "Foda-se, finalmente!" e de ter desatado a chorar. Quatro anos é muito tempo. É tempo a mais para acabar em sete segundos.

Em doismileseis, logo ali no início, portanto há um ano, habituei-me a estar sozinha. Até porque a minha noção de sozinha mudou radicalmente: o contacto com velhas amizades voltou. O nome Joana Martins vem-me assim à cabeça, logo. Que saudades que eu tinha de estar assim com esta rapariga. Não sei se ela sabe, mas vai já passar a saber: é a minha confidente de todas as horas, de todos os segredos. Mesmo aqueles planos mais inconfessáveis são-lhe confessados. (As outras amigas que não me levem a mal, mas esta rapariga é minha irmã sem termos nenhum pai ou mãe em comum.) Está um frio do caraças e tenho os dedos gelados e só me apetece dizer-te, Joana, que quando sorris iluminas o céu pararapapa. PlantLife, babe. E bater-te aí à porta e ouvirmos o Baduizm, talvez dos melhores álbuns de sempre. E a culpa é tua, nem é da Erykah. E conversarmos com palavras e entendermo-nos porque os nossos ouvidos ouvem para além daquilo que dizemos.

Cheguei a ir ao cinema sozinha. Almocei sozinha num centro comercial, coisa que sempre achei do mais deprimente que há - e ainda o é, não é por tê-lo feito que deixou de o ser. Mas também tive muito tempo para mim, por isso doismileseis foi também o ano em que ouvi mais música. Tanta música, credo. Há cada vez menos coisas que me causem a excitação que é ouvir um álbum pela primeira vez. E os concertos, pouco mais de meia centena de concertos, amoresnovo, conslidados ou reforçados por ouvir as canções ao vivo. O que me lembra outra coisa.

Em doismileseis, troquei mais de 200 mensagens escritas com uma pessoa. Antes e durante esse período, as conversas pelo messenger, guardadas pelo histórico que foi, entretanto, desactivado, foram tantas que ocuparam quase 9 megas do meu disco - sem contar com um m~es de conversas não gravadas. Tudo com essa pessoa - do sexo masculino, como já se deve ter notado- foi especial, conhecer do nada foi especial, aproximar-se foi especial, conhecer melhor foi especial, passarmos muito tempo juntos foi especial. E importante. E intenso. Tudo aquilo que partilhámos foi consumido e foi vivido. Às vezes dá-me a sensação absurda de ter sido feliz sem mais nada durante algum tempo, por causa dele. Vimos por duas vezes o sol nascer atrás de um Hospital - provavelmente a coisa mais romântica do mundo- e, dessas duas vezes, por muitas horas que tenhamos conversado, parecia-me sempre que tanto ainda havia por dizer (ex aequo com ver os peixinhos de uma avenida da liberdade deserta às cinco da manhã e olhar-me nos olhos e o mundo parar, o tempo parar, haver silêncio à nossa volta e uma cena que durou no máximo uns segundos, parecer ter durado dias). Outra vez empurrámos o carro dele rua abaixo e essa foi provavelmente a terceira coisa mais romântica do mundo, sendo que a segunda é ir ver skaters ao skatepark, quase debaixo da Ponte Vasco da Gama. E a quarta é, suponho eu, andar de carro quando a cidade já dorme, numa segunda feira de madrugada. E podia dizer a quinta, porque à medida que vou escrevendo, vou-me lembrando de mais coisas, mas não vou fazê-lo. Mais uma vez, as coisas acabam e eu agora com a frieza de quem passou um mau bocado mas também já pode efectivamente usar o pretérito perfeito quanto a isso, vejo que sou uma menina de castelos no ar, que vou construindo e albaroando à medida que os dias passam. Aprendi uma coisa importante, e aprender aqui não é o melhor termo, reformulando: apercebi-me de uma coisa importante. Vale sempre a pena. S E M P R E. Faz parte da vida, é viver. E há sempre tantas coisas boas que ficam, por exemplo a recordação do Portugal- Holanda, de como Portugal estava a jogar para ganhar e de como eu segui o exemplo da nossa selecção e apostei num 1-0 a seguir ao jogo ter acabado. As recordações são infinitas, o prazer é infinito. A alegria de saber que não só me fizeram feliz mas também eu fiz outro alguém feliz (grande presunção a minha) é infinita. Ainda nem voltei a ler isto e já me lembrei da quinta coisa mais romântica de sempre: enviar mensagens quando já passou - e muito - da hora de dormir e ir acordando para ler a mensagem e responder. Ouvir Cibelle. A translação da Terra em volta do Sol descontinuada pelo brilho no olhar. Pelo sorriso. E agora, depois da turbulência, a paz. A tranquilidade.

Doismileseis trouxe-me o André e eu não consigo expressar por palavras o quanto gosto do meu irmão mais novo, o que nos leva de volta à primeira frase deste post e ao facto de eu ser medíocre. Tento todos os dias ser menos medíocre por causa dos meus irmãos. É por eles que todos os dias me levanto da cama e vou ao Hospital, mesmo quando a paciência para o fazer é, tipo, nula. Sei que sou um exemplo para a Frederica. Eu não gostava de ter maus exemplos para mim por isso dou mais de mim para nunca ser medíocre aos olhos dela. E sei que com o André a relação vai ser diferente, mas que sempre sempre nos unirá este amor despretensioso que é o amor por um irmão. Não sei explicar como me sinto por saber que a Frederica já conhece o Fernando Pessoa e toca guitarra como nunca ninguém na família tocou ou que o André já ergue o pescoço ou palra como gente grande.

Sei que é tarde e que não me lembro de ter desejado seja o que for para doismilesete enquanto comia as passas. Sei que em doismileseis fui feliz. Desejo que em doismilesete sejas feliz. Sim, tu.

11.1.07

Frase do dia

"Ouvi dizer que és gay, mas

CAGAY!"

[nota pessoal nº 1] Concertos de 2006 (editado a negrito)

Para reflexão e escolha do meu top5:

Kings of Convenience, Aula Magna, 29.04.06

Roger Waters (+ Carlos Santana (oh nausea oh nausea here i come) + Rui Veloso), Rock in Rio, 02.06.06

Stuart Staples, Santiago Alquimista, 03.06.06

Franz Ferdinand + dEUS + Editors (+ The Cult) + Legendary Tiger Man, SBSR, 07.06.06

Josh Rouse, Aula Magna, 23.06.06

Buraka Som Sistema, Clube Mercado, 23.06.06 (não me enganei, foi no mesmo dia)

Cesária Évora, Torre de Belém, 18.07.06

Bonga + Cheikh Lô (o Kenny G das camisas foleiras ou assim :D), África Festival, Torre de Belém, 06.07.06


Belle and Sebastian, Coliseu dos Recreios, 17.06.06

The Strokes + Isobel Campbell + Howe Gelb + Los Hermanos (+ She wants revenge (SWR=vómitos) + Dirty Pretty Things - idem), Lisboa Soundz, 22.07.06

Gaiteiros de Lisboa+ Rabih- Abou Khalil & Joachim Kuhn + Toumani Diabaté & Symmetric Orchestra + Alamaailman Vasarat, FMM Sines, 27.06.06

Buraka Som Sistema (+ dj set Diplo), Lux, 14.09.06

Tchakaré Kanyembe + Cacique' 97, Clube Mercado, 22.09.06

Rocky Marsiano e as suas Pyramid Sessions, Gulbenkian, 23.09.06

Liars, Clube Lua, 26.09.06

Sir Richard Bishop + Mestre Galissá, ZDB, 04.10.06

Nuno Prata, FNAC Colombo, 07.10.06

Comets on Fire + Caveira, ZDB, 13.10.06

Lula Pena, ZDB, 14.10.06

Final Fantasy, Clube Lua, 15.10.06

Azevedo Silva, FNAC Colombo, 18.10.2006 (e o meu nome na Agenda FNAC por ter escrito um texto que não aparece por lá, é classe!)

Bonde do Rolé + Buraka Som Sistema (SEM PETTY!!!), Clube Mercado, 21.10.06

Carlos Bica & Azul, FNAC Chiado, 23.10.06 (a P Beat neste concerto!)

An Pierlé & White Velvet (meu rico dinheirinho, sinceramente...)+ Wraygunn, Santiago Alquimista, 03.11.06

Chico Buarque, Coliseu dos Recreios, 06.11.06

Jahcoozi + Kalaf & Lil' John, 25.11.06

Spanky Wilson & Quantic Soul Orchestra, Casino de Lisboa, 27.11.12

Who Made Who, Clube Mercado, 30.11.06

Lisa Germano, Santiago Alquimista, 2.12.2006

Yo La Tengo, Aula Magna, 03.12.06

Cat Power, Aula Magna, 04.12.06

TY + Steinski (+ Daz i kue), Roots & Routes, 08.12.06

Kode9 & The Spaceape + Boxcutter + Mwëslee (+ seenistra meets salivah), Roots & Routes, 09.12.06

Koop, Casino Lisboa, 11.12.06


Mesmo assim consegui perder muita coisa que gostava de ver/ ter visto - alguns deles tornam-se projectos adiados para 2007:

Kanye West, Oeiras (&%$#$%&%#)
Cool Hipnoise (tanto no Casino como no Maxime em Junho)
Deerhoof, Lux
ESG, Lux
DJ Shadow, Lux
Tony Allen + Sean Kuti ( e demais cambada) nos restantes dias do FMM em Sines
Tora Tora Big Band, algures em Lisboa nalguma das datas (perdi todas!)
Antibalas Afrobeat Orchestra, Castelo de Montemor-o-Velho
Morrissey + Broken Social Scene + !!! + Bloc Party ( e mais coisas que agora não me ocorrem), Paredes de Coura
Cibelle + Seu Jorge, Festival Sudoeste
Fennezs, Cinema S. Jorge
Lambchop, Aula Magna (esta é bem estúpida, não vou - é amanhã - porque o meu MB desmagnetizou)
Vicious 5, algures no país ou mesmo na Europa
Red Bull Popular Soundclash nos Santos - este ano com os Buraka (para o ano os Santos serão na Bica e não em Alfama)
Old Jerusalem, ZDB
Sparklehorse, Festival para Gente Sentada
Camera Obscura, TAGV Coimbra
erro!
Dazkarieh
Garoto

Para quem vai ficar em Lisboa, é ter em atenção a agenda da novíssima Music Box (apostada em ser um novo centro de novidades musicais da capital) e que em Dezembro, depois de ter acolhido o Roots & Routes, vai receber Questlove (dos The Roots), Sagas e Twism, Bunnyranch e mais umas coisas que podem conferir aqui.
O Clube Mercado tem uma noite dia 21 de Dezembro com Buraka Som Sistema + Petty que eu não perderia só para poder recordar dos meus melhores momentos de 2006. Outras coisas também a ouvir e ver, como Vicious 5 (yup, não vou vê-los de novo), no blogue do Mercado.

Por falar em dia 21 de Dezembro, ficam todos convidados para a noite The Kids are United no LEFT - da responsabilidade do JG, do Dário e do Gonçalo Sciencia. Ao que parece também não devem perder os Bailarico Sofisticado (que passam discos no Lounge dia 22) e no Left na passagem de ano (fica feita a publicidade, Bruno!).

Espero que tenham gostado deste momento agenda na imprensa especializada tanto quanto eu. Às vezes dá-me para isto. Se a minha mãe ler este post, perguntar-me-á "mas não tens mais nada p'ra fazer?", ao que eu, calmamente, lhe responderei "não, mamã, por acaso até não tenho". E como não tenho, enfim. Vocês leram.

A secção "Falta ver" desapareceu porque já chegamos a 2007.

7.1.07

Enough is enough

Há uma ténue linha que separa a cegueira da persverança. Quando finalmente dói, foi ultrapassada. Na cegueira não há dignidade nem clareza. Não há dignidade.

Há uma sucessão de acontecimentos e há uma pessoa no meio de tudo isto. Como que impávida e serena. Como se isso fosse possível. Alguém que perde tudo o que importa e, no entanto, está bem.

Quando se perde alguém - e não estou a falar de uma criança se desencontrar da mãe no supermercado, há uma boa parte de nós que se vai ou esvai. Não há serenidade: há, sim, a necessidade de tentar mais uma vez. E outra. E ainda mais uma. As prioridades são redefinidas constantemente, mutação óbvia de cometas e estrelas que não se auto-limita. Por isso, perde-se parte de nós e, como se isso não bastasse, todos os outros detalhes quotidianos, parte de rotinas estudadas ao longo de anos e testadas até atingir a perfeição, simplesmente acabam. É quando tudo isto acaba que chega a incapacidade de ver. De olhar para além de.

Um dia, deitamo-nos. Já sabemos há muito tempo que é um mito aquilo de as lágrimas secarem - quando há vontade de chorar, há lágrimas, ponto final. E aquele dia é mais um igual a tantos outros, depois de mil sorrisos e ainda mais gargalhadas, sentes-te cansado e choras. Não estás cansado porque o dia foi duro no trabalho ou porque estiveste a correr durante duas horas, não. Choras porque estás saturado. Deitas-te.
Em teu redor um túmulo, estás decidido a finalmente morrer mas não estás morto. Naquele caixão cabe a tua vida até então, olhas em redor e vês os teus amigos, um por um, e os teus familiares, todos te acenam e sorriem. Cabem as frases que disseste e as respostas que ouviste. Há espaço para os livros que leste e as músicas que ouviste. Restam cantinhos que preenches com sabores, com imagens, com sorrisos e beijos.

Mas há uma frase que subitamente retumba nas paredes frias do teu túmulo. Uma frase estúpida a que nunca deras importância alguma, mas que hoje, ao repeti-la enquanto vagueia pelo teu túmulo, airosa, soa-te diferente no seu significado.

Tu que estavas deitado sob a terra, tu que tinhas perdido toda a dignidade que almejaras e atingiras, tu que passavas em revista os teus anos para poderes descansar de olhos fechados. E desistir deixa imediatamente de fazer sentido, porque aquela frase dirige-te algures por entre a compreensão e o entendimento. É uma frase crua e sobretudo cruel, que te fere como punhais, que é afiada e cortante como se fosse filha de uma fieira de dentes de tubarão. E ao memso tempo, espicaça-te e sentes-te outro.

Olhas à volta e vês o teu túmulo - e pensar que tu pegaras na pá há um ano e começaras a cavá-lo sozinho- e isso faz-te ter vontade de escapar, qual The Bride no Kill Bill, daquela horrível caixa que te encerra, a ti e aos teus sonhos. E escapas.

"Já chega, pensas, enough is enough."

4.1.07

The sweetest little song

You go your way.
I'll go your way too.

Leonard Cohen

27.12.06

Long distance calls

"Hoje estava a andar a pé e reparei que sei de cor a Summertime do Gershwin." [entusiasmo]

"Qual é essa." [desinteresse]

"Aquela do Porgy and Bessy, "summertime and the wheather is easy"." [faz voz de cantora de jazz]

"Já sei. Sabes de cor?" [espanto]

"Sei. E no regresso apercebi-me que também já quase sei a Poetas do karaoke toda." [alegria]

"És uma pessoa muito desocupada, Joana." [sarcasmo]

Mundo Feminino, edição século XXI

Já não é a primeira vez que temas femininos são abordados neste blog. Não quero tornar isto uma versão barata de uma revista feminina (se bem que às vezes conto aqui coisas dignas de figurar nas páginas do consultório da Maria), mas há certas coisas de tal maneira intrincadas nisto de ser mulher (ou miúda, conforme o caso)que eu preciso de abordá-las aqui.

Uma dessas coisas é a depilação. A depilação é um acto íntimo. Há filosofia na depilação: sujeitar-se a dor, física, real, em prol de um bem estético. Aliás os noems das senhoras dizem isso mesmo: são esteticistas. Há também sociologia na depilação: a partilha daquele momento íntimo mas doloroso torna vítima e agressor cúmplices, uma espécie de síndrome de Estocolmo versão quanto-mais-te-bato-mais-gostas-de-mim.

Eu era já amiga da minha esteticista (e já vão perceber porque estou a usar o pretérito imperfeito). Chamava-se Cristina, tinha uma filha de 6 anos, um namorado que não era o pai da filha, morava numa casinha junto à casa da mãe. Eu também lhe contava parte da minha vida, aulas, amores, desamores, saídas à noite. Sobretudo expunha-lhe as minhas dúvidas "devia fazer as sobrancelhas?", "o que fazer perante uma borbulha" ou "como resolver pêlos encravados" eram temáticas profundamente debatidas entre mim e a minha esteticista.

Uma semana antes de vir para a Madeira os pêlos estavam a precisar de uma camada de cera mas aguentei para poder visitar a Cristina. Pois marquei a depilação e qual não é o meu espanto quando lá apareço e quem me recebe é uma menina loura, com mais de metro e meio e que nunca me viu mais gorda.

Com a pergunta "costumava vir aqui?" começou então uma série de constrangimentos entre mim e a que vim a saber chamar-se Daniela, passando pelo silêncio praticamente sepulcral. Pensei que ia seguir a Cristina onde quer que ela estivesse, várias vezes na depilação das pernas. Pensei que a Sónia não tinha nada que trocar a Cristina só porque ela não tinha curso de esteticista. Afinal o que ensinam no tal curso que uma mulher não saiba por instinto? Pensei que a Cristina não tinha o direito de me abandonar desta maneira.

Mas quando me apercebi que a coisa estava feita e que não me tinha doído nada de especial, limpinhas que estavam as virilhas e as axilas, percebi a utilidade de um curso de esteticismo ou de seja lá o que for que esta malta estuda. E a Daniela disse mesmo "isto se lhe doía asim tanto antes é porque a rapariga não sabia fazer isto." Meio cabra, a Daniela, apesar de jeitosa para o seu trabalho.

23.12.06

Natal, Christmas, Nöel, Navidad, Weinachten

Amazing Grace | Sufjan Stevens

Amazing grace, how sweet the sound,
That saved a wretch like me!
I once was lost, but now am found,
Was blind, but now I see.

'Twas grace that taught my heart to fear,
And grace my fears relieved;
How precious did that grace appear,
The hour I first believed!

Through many dangers, toils and snares,
We have already come;
'Tis grace has brought me safe thus far,
And grace will lead me home.

When we've been there ten thousand years,
Bright shining as the sun,
We've no less days to sing God's praise
Than when we'd first begun.

(Talvez das canções de Natal mais bonitas de sempre - são tantas que rejeito aqui títulos absolutos - porque canta o meu Natal: época de reflexão, de remissão, dias de benção e de encontro comigo mesma e em que a fé não se questiona pois é sentida em cada sorriso, em cada doçaria, em cada missa, em cada cumplicidade, em cada beijo.)

O meu presente. (clicar e seguir o link para download.)

FELIZ NATAL!

Para um Natal feliz



(ou até para quem não celebra o Natal, na verdade.)

22.12.06

Alquimia

Princípio um: a transformação de metais vulgares em ouro.
Seres um indivíduo absolutamente igual aos outros. E eu também.

Princípio dois: a descoberta - ou a chegada- a uma cura universal, a panaceia que cura todos os males.
Eu ser feita de mágoa e o sangue que corre em mim ser lágrimas e ter-te olhado triste, um rio a quem uma barragem roubou fulgor, e tu mesmo assim me teres dado a mão sem fazeres perguntas e como em cada vez que a palma da tua mão encontrou a minha, foste super-cola para fragmentos de mim, que são de nada.

Princípio três: a criação de vida humana artificial.
Uma vida que já não era vida e é vivida apenas quando te despediste de mim com um beijo. E esse brilho no olhar ser mais eficaz que mil ventiladores no que toca à minha ressuscitação.

Perco palavras

Perco palavras por não escrevê-las. Perco palavras porque não tas digo e olho-te em silêncio e reconheço em cada traço teu as palavras que perdi.

És tu, apesar de não o assumires, és tu em mim. É o teu sorriso no meu quando sorrio.

Sabes, podias voltar. Meter a chave à porta de casa (deixei de fechar a porta com a corrente para que possas sempre entrar), trazer na mão o saco do pão e dizer-me, sem mais delongas

Voltei.

e pousares o pão na mesa e lancharmos juntos como se tivesses ido embora só há cinco minutos para ir à padaria. Sem conversas desnecessárias, sem pedidos de desculpa, sem arrependimentos. Não te quero ouvir dizer o quanto sentiste a minha falta ou o quanto és estúpido por me ter deixado assim.

Por favor, não.

Por favor, finge que esteve sempre tudo bem.

Não quero que me mostres que mais uma vez estás comigo por carência. Foi por carência que nos juntámos, duas almas em perfeita sintonia, dois coraçães que batiam compassadamente, duas pessoas magoadas com o amor. Que perfeito que foi, ver-te em mim pela primeira vez, mal nos conhecemos: olhar para ti e seres a minha imagem em espelho, face simétrica de uma vida desalinhada e perdida.

Quero que me abraces porque nunca mais fui abraçada como tu me abraçavas, quero que apontes, quando estivermos a ler deitados sobre o tapete da sala, para aquele poema que te acabou de comover, que pouses os óculos e esfregues o nariz e digas

estou cansado, vou para a cama

e eu pergunte

já?


e tu respondas com risos e me pegues ao colo e transformes o cansaço em amor pela madrugada a dentro.

Desisto de chamar o teu nome mas nunca de ti porque desistir de ti seria desistir de mim. O meu corpo pede-me que te deixe ir mas todo o pouco que restou de mim depois do nosso amor não me deixa abandonar-te.

Perco palavras porque as digo em demasia. Sempre falei demais.

20.12.06

Prevendo já a melancolia de 2007

Eles voltaram com mais canções delicodoces. Encostem-se ao sofá, de chocolate quente na mão e sorriam - mesmo que às vezes saia uma lagrimita ou outra.



The Shins | Phantom Limb
(Wincing the night away)

19.12.06

Melancolia recuperada ao ano 2001



The Shins > New slang

"Turn me back into the pet I was when we met.
I was happier then with no mind-set. "

15.12.06

Ninguém sai por cima ou por baixo e mais cedo ou mais tarde estamos todos mal.

13.12.06

E já agora, um pedido de desculpas

Lamento nunca mais ter escrito histórias sobre vidas paralelas à minha. Como imaginam, a maior parte dessas histórias acaba por beber da minha realidade, o que exige de mim um esforço suplementar - um quase sacrifício - e eu ando a dar férias às emoções demasiado fortes.

Inspirada no meu velho amigo Ricardo Reis, deixo os sentimentos à flor da pele para outros e passo pela vida silenciosamente e sem desasossegos grandes, de mãos desenlaçadas.

Não sinto vontade de abrir a arca dos desejos e das frustrações e encontro o prazer em cada coisa que me é apresentada. Talvez estes últimos meses tenham sido, apesar de tudo, aqueles em que mais disfrutei de mim própria como ser único, individual e independente.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!

E como são prazeirosas as coisas mínimas! Libertar-se - aos poucos, é certo - do caos modernista álvaro-camposiano em que a minha vida se tinha tornado, em que as sensações se sobrepunham aos medos, em que o ruído se sobrepunha à música, e ser Lídia, à beira do charco sentada vendo as rosas, deixando que corra vida pelo riacho invés de ser ela a correr pela vida.

Parece desistir, mas não o é na verdade: desistir seria demasiado fácil e acessível. Leio Ricardo Reis - que sempre foi o meu heterónimo preferido - e aprendo a existir, isso sim. E existir está nos antípodas de desistir.

Existo de forma perfeitamente lúcida. Recuso-me a ser mais uma na carneirada dos vazios, mas também rejeito um lugar no grupo dos que sentem demasiado acabando por desperdiçar também demasiado. Come what may.

Ah a ataraxia: como uma forma de vida resumida numa palavra vai evitar que recorra a anti-depressivos e coisas que tais. Imperturbável e estóica, assim sigo, conduzida por linhas tranquilas.

Lembro-me de Epicuro e de como Reis escreveu

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.

Andava a exagerar e a excluir. Mas com o frio e estes dias de luz intensa, chegou esta paz morna e esta nova percepção de ser eu toda, por inteiro, nada a mais nem a menos, eu. Porque só na ilusão da liberdade / A liberdade existe.

"I'm better than fine"

O shuffle do iTunes levou-me a ouvir isto - já não ouvia a Fiona há uns tempos - enquanto bebia um chá de menta (personal fave) e recuperava do Monte Velho bebido no jantar de turma. E é isto mesmo: aproveitar cada potencialidade, cada instante, cada dom, porque por mais que se peçam outras coisas no sapatinho (ah a graçola natalícia!) aquilo que já temos pode e deve ser usufruido.

"If you don't have a song to sing you're okay
You know how to get along
Humming
(Hmmm)

If you don't have a date,
Celebrate
Go out and sit on the lawn
And do nothing
'Cause it's just what you must do
And nobody does it anymore.

No, I don't believe in the wasting of time,
But I don't believe that I'm wasting mine.

If you don't have a point to make
Don't sweat it
You'll make a sharp one being so kind
And I'd sure appreciate it
Everyone else's goal's to get big headed
Why should I follow that beat being that
I'm better than fine."

Fiona Apple Waltz (Better than fine)

E sim, para variar, I'm better than fine. Meeeesmo bem. E quis que isso ficasse aqui registado porque sim.

5.12.06

Cat Power @ Aula Magna, 04.12.2006

Não se lembra de quando começou a beber. Nem porquê. Sabe, isso sim, que primeiro achou graça ao facto de toda a gente a abraçar e socorrer quando estava bêbeda. Gosta de ser o centro de atenções desde que nasceu, já em miúda tinha as atenções todas do pai.

I go to some bar room
And drink with my friends
If women and men would come to follow
To see what I might spend God bless them handsome men
I wish they was mine

É bonita. Magra, longilínea, lábios carnudos. Pinta os olhos com sombra negra esfumada e os olhos quase que parecem (ou serão?) verdes.

Depois chegaram as ressacas: e toda a gente sabe que a melhor maneira de combater a ressaca é bebendo um grande gole do que se bebeu na noite anterior. Quando deu por si, sem saber como, bebia a toda a hora. Deixou de ter fome ou sono. Nas festas também já não se divertia.

I spent all my money on whisky and beer

Ainda por cima o outro sacana deixou-a. Foi-se embora. Não porque gostasse de outra pessoa, não, afirmou mesmo que ainda a amava. Simplesmente foi. Ele e outros.

All that is left is an empty shell
Of my heart that is crushed
I don't never wanna see
What my mind has seen
When you loved me
Every night every night alone with you
Every night alone now

Noutras vezes foi ela quem partiu. Relações que adulteram as pessoas, tal como os sofrimentos. Sentir-se uma pessoa pior porque ama outra. Ou mais ainda do que sentir, ser-se. O coração ganhar calo cicatricial e já não bater como batia.

I don’t want be a bad woman
And I can’t stand to see you be a bad man
I will miss your heart so tender
And I will love
This love forever
And this is why I am leaving
And this is why I can’t see you no more
This is why I am lying when I say
That I don’t love you no more

Por isso quando o conheceu achou que a sua vida mudaria. Não se lembra do primeiro copo mas lembra-se do sorriso dele, ocupando a cara toda, enchendo Nova Iorque de uma esperança suave. Lembra-se de como os seus olhos fechavam e de como a língua humedecia os lábios, isto tudo antes de sorrir. De como ele não párava de sorrir. Ou dos seus olhos, profundamente verdes, melancólicos, naquele tom pantanoso do musgo. Só que nada disso lhe interessava realmente, porque o que a fez perder a cabeça foi aquele seu jeito miúdo de cantar as palavras enquanto falava, aquela traquinice - apesar de tudo - madura de encarar o mundo, de lhe mostrar caminhos e trajectos sem imposições.

It's not your face
Or the color of your hair
Or the sound of your voice my dear
That's got me dragged in here
It's the ice in the seam, the scheme of you
You're supposed to have the answer
You're supposed to have living proof

Deixou-se afundar no pântano dos seus olhos. Sabe que foi feliz. Ainda hoje o é, quando se recorda de cada passeio no Central Park, de cada concerto na Blue Note (ali entre a 6ª Ave. e a MacDougal St.) , de cada amanhecer sobre a Brooklyn Bridge erigido sobre conversas e risos.

Could we
Take a walk
Could we
Have us a talk alone
In the afternoon
(...)
What a dream
In the grass
We kissed
Fell in love too fast too soon
Love full bloom

Os encontros sucederam-se na proporção do amor que sentia. Na proporção dos copos de whisky que bebia. Ele não resolvera o problema dela com o alcoól. Ele não resolvia problemas, ele apenas podia ajudar no que ela quisesse mudar. Ela tinha que querer a mudança.

Enquanto se afundava no pantâno dele, afundava-se também em bebida, todos os dias mais um copo do que a conta do dia anterior. Ele não pedira aquilo. Nem tão pouco o prevera. Ele também queria mais, todos os dias mais descontente.

When you give half of you
I want all of you

Acabou por deixá-la como todos os anteriores tinham feito. E ela caíu na dormência fácil de quem perdeu a vontade para dar um passo em frente. A bebida era um óptimo aliado, os anti-depressivos, os ansiolíticos, as misturas explosivas, a cabeça que pesava mais que o corpo, que acabava por se manter recolhido em concha.

I don't want no heavy diamonds
And pearls crush my teeth
I just want my sailor
To sail back to me

(...)
But if you're not coming back
I will sleep eternally

Ninguém dorme para sempre sem morrer primeiro. E ela acabou por acordar um dia e percebeu que até ali era apenas argila moldada por quem a rodeava - os mesmos que pacientemente esperavam que ela acabasse por adormecer. Que a única vontade que era realmente sua era a de ser mais do que a própria vida, mesmo que isso significasse sacrificá-la.

Once I wanted to be the greatest
No wind or waterfall could stall me
And then came the rush of the flood
Stars of night turned deep to dust
(...)
Once I wanted to be the greatest
Two fists of solid rock
With brains that could explain
Any feeling

E porque uma ponte suspensa, por melhores que sejam os cabos que a sustentam ou os nós que a seguram, nunca deixa de ser desequilibrada, também ela ainda o é. Mas está mais feliz e gosta de si, por isso sorri enquanto dança. Pelo palco, pela vida, passos pequenos em passeios largos que lhe ensinam que para ser mulher não precisa de um homem, para ser mulher precisa de uma mulher dentro de si.

30.11.06

"Devias ouvir stephen malkmus, em vez de gostares da vida"*

"go back to those gold soundz
and keep my advent to your self
because it's nothing i don't like
is it a crisis or a boring change?
when it's central, so essential,
it has a nice ring when you laugh
at the low life opinions
and they're coming to the chorus now...
i keep your address to myself
'cause we need secrets
we need secrets (crets crets crets crets crets) back right now

(...)

so drunk in the august sun
and you're the kind of girl i like
because you're empty
and i'm empty
and you can never quarantine the past
did you remember in december
that i won''t eat you when i'm gone
and if i go there, i won't stay there
because i'm sitting here too long
i've been sitting here too long
and i've been wasted
advocating that word for the last word
last words come up all you've got to waste"

*conselho com direitos de autor

29.11.06

A verdadeira cicatriz da infância é esta

[volta ao infantário]

"OLHA OS NAMORADOS, PRIMOS E CASAAAADOS!!!!!"

*corre atrás do tolinho que está a dizer isso, de seu nome joão maria*

*ele corre mais depressa*

"eu não sou namorada dele!" grita, ofendida.

*correm ainda mais depressa*

"és, és que estavam a dar beijinhos!"

"não estávamos nada! és mentiroso! vai-te crescer o nariz!"

*mais depressa*

"Tu é que és porque vocês são namorados que eu vi e eu vou dizer à Eugénia [a educadora]!"

*muuuuito mais depressa*

"Vou-te apanhar!"

*tropeça em mini-degrau*

Faz ferida gigante no cotovelo com cicatriz que se mantém aos 22 anos.

[/volta ao infantário]

26.11.06

Árvores de Natal, galochas e croissants de chocolate (e mais, muito mais)

Irritam-me casaizinhos aos beijos sob as luzinhas da Rua Augusta. Iritam-me alfacinhas em romaria para ver a árvore do Millenium (sim, deixem-se de merdas, é a árvore de um banco, não a que decoraram com os vossos filhos ou assim).

Chateia-me de morte que o preço das castanhas asssadas aumente todos os anos. Poucas coisas me dão tanto prazer do que comer uma dúzia de castanhas sentada num banquinho. Estou-me bem nas tintas para quem me ache deprimente. Eu também me acho deprimente e não é por aí que fico triste. (Eu sou deprimente mas não sou triste.)

Outra coisa óptima para se fazer quando o frio aperta é comer um croissant com chocolate na Bénard. São tão bons! Fico toda lambuzada em chocolate, nos dedos, na boca, no queixo. algum nas bochechas, mas é tão bom! Nunca me lembro de lá ir quando estamos no Verão, mas mal o frio aperta ou começa a chuva, é poiso certo.

É engraçado sentar-se na esplanada da Bénard - ou da Brasileira, se bem que nesta não se comem croissants - e ver/observar/estudar a fauna e flora que por lá anda. Gosto da Baixa por muitas razões e esta é certamente uma delas: hippies, rastas, punks, betos, tiazonas, indies, mitras, malta-do-ghetto, ciganos, alunos-de-belas-artes (sim, é um grupo social), fashioneers, gays, por lá se encontra de tudo um pouco e sempre em salutar convivência. É interessante - e interessante é uma palavra que quer, na sua essência, dizer muito pouco.

É extremamente vaga a palavra interessante. É uma boa palavra de recurso, poder-se-ia dizer "acho interessante" seguido de um "mas não me interessa muito" que ninguém se surpreenderia. É raro qualquer coisa que seja verdadeiramente interessante nos fazer dizer "É interessante". Geralmente acabamos por mostrar mais entusiasmo, alguns gritos de satisfação, "espectacular" entoado com muitos pontos de exclamação. Agora ninguém diz "é interessante"!
Por exemplo, quando vi Animal Collective ao vivo há um ano e picos - excelente concerto, já agora - não usei nunca a palavra interessante para descrevê-los, apesar de efectivamente achar interessante a forma como distorcem a pop. Lembro-me de ter usado "genial", "brilhante", "sublime", mas nunca interessante!

Os Animal Collective já voltavam cá para mais um concerto. Ainda há dias pensei nisto e pensei também "fixe era virem cá os Death Cab for Cutie". Não era inusitado? Eu ia vê-los de certeza. Lembro-me que antes achava-os um guilty pleasure. Já me apercebi que there's no such thing. Ontem dancei Nelly Furtado, Kelis, Justin Timberlake, como se nada fosse. Pérolas indie era o que pareciam.

Desmistifique-se a pop - quando é bem-feita - tal como se desmistifica a pouco e pouco a moda de outros anos, revivendo-a - ou revisitando-a. A propósito, a pressão social sugere-me que compre umas galochas. Parece que são a grande tendência de calçado no Bairro Alto. Eu gosto, por mais que me lembrem botas de pisar uvas nas vindimas (porque de facto são botas de pisar uvas). Se calhar não vou comprar galochas nenhumas. Mas preciso de umas botas pretas. E de umas skinny jeans.

Gosto daqules casacos Adidas de há 30 anos atrás. São tão estilosos. E de calças Carhartt. Streetwear no seu melhor, sem nunca ficar desactualizada. Investimento, diria eu, para convencer a minha mãe.

Por falar em Adidas surgiu a hipótese de voltar a jogar andebol. Treinar três vezes por semana e ter um jogo por fim de semana, tudo no Liceu Camões. É uma hipótese que estou a considerar com carinho. Tenho muitas saudades de jogar. Julgo que os primeiros treinos correriam pessimamente mas depois o jeito voltaria - não que alguma vez tenha tido muito jeito. Não, não tive. Já não jogo há 5 anos.

Se calhar é do que preciso, mesmo. Rematar dos nove metros quatro vezes por semana para voltar a ser menos picuinhas. Organizar jogadas quatro vezes por semanas para deixar de andar a organizar a minha vida de cinco em cinco minutos. Gastar cerca de sete horas por semana com o andebol - serão menos sete horas a pensar na vida.

É, se calhar é disso que preciso. Acho que vou fazer um treino à experiência.

25.11.06

[A beleza nem sempre é relativa]

Quando se vêem mulheres assim, em que os astros, o magma e as marés se juntaram para criar a perfeição:




Conseguimos abstrair-nos por segundos do senhor com hemorragia digestiva alta a quem temos de fazer um diagnóstico provisório para a faculdade para ficar de Havaiana no pé a passear por Búzios, como ela, há quarenta anos.

Disseram -me há dias que eu era parecida com ela. Só se for pelo espaço entre os dentes.

No Shopping Day

E eu preciso de pão e cêgripe.

E agora?

Get that ass tight

Tenho para mim que o que me falta é a minha ida ao ginásio.

19.11.06

Manias (muito pensei e de uma vasta selecção escolhi estas)

"Cada bloguista participante tem de enunciar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue."

1. Não consigo adormecer se a minha almofada estiver quente.

Isto é mesmo verdade. Seja Inverno ou Verão, só consigo adormecer se a minha almofada estiver geladinha. Tenho sérios problemas em hotéis com fronhas de algodão manhoso porque não arrefecem como deve ser.

2. Não consigo ver um papel sem o dobrar até ficar mais pequeno que um selo, ter uma caneta e não escrevinhar em algum lado, uma tesoura e não fazer trabalho de recorte.

Ou seja, não consigo estar quieta. Quando estou numa mesa de café com amigos, o mais natural é que o cinzeiro esteja cheio de papelinhos, a mesa cheia de papelinhos, haja guardanapos com assinaturas, bonecada, mais assinaturas. Se houver caricas, também faço pequenas esculturas. Aceito encomendas pelos contactos do costume. :D

3. Escolho fios de cabelo com texturas esquisitas e passo os dedos por eles até alguém me mandar parar.

A mania mais estranha e também a mais irritante para as outras pessoas, sem dúvida. E para mim também. Mas é um vício do caramba. Começou quando deixei de roer as unhas e fiquei a precisar de ter alguma coisa para ocupar as mãos quando as manias enunciadas em 2 não fossem possíveis. Esta minha mania é levada ao extremo em horas de estudo e a conduzir. Irritante p'ra cacete, a sério.

4. Conto o número de doses de vegetais e frutas que ingiro por dia.

A OMS recomenda que sejam no mínimo 5 para reduzir o risco cardiovascular. E eu cumpro. Às vezes também conto o número de doses de hidratos de carbono ou lacticínios. Não tenho tendência a achar-me gorda porque a minha constituição física é mesmo muito próxima da magreza, mas tenho a mania da alimentação saudável. Detesto pratos sem vestígios de vegetais. Adoro sopa. Como fruta depois da refeição. Bebo chá a rodos.

5. Quando conheço as músicas que passam na rádio enquanto estou a conduzir, apresento-as como se fosse locutora de rádio.

Sonho desde miúda com ter um programa meu numa estação. Um espaço onde mostrasse as canções que gosto. O que eu faço habitualmente é qualquer coisa como "São 14 horas e dz minutos, o meu nome é joana batista e vou estar convosco até às 16 aqui na Oxigénio. A música que vai passar a seguir é I'm thankful, da Spanky Wilson com a Quantic Soul Orchestra. Vamos poder ver esta pandilha deliciosa no Arena Lounge do Casino Lisboa em breve. I'm thankful, na Oxigénio. Boa tarde."

Decidi não incluir a mania dos discos e dos concertos e de andar à cata de música ou a mania de escrever no Desumanos, porque essas são óbvias para quem lê o meu blogue.

Conclusão: sou doida, pois.

E agora, vítimas *esfregas as mãos com malícia*:

Raras vezes
Horas negras
Balão d'Ar
Inominável
Cuspo com bolor

Há dois anos atrás, era este o espírito

"Pois não tem! Acabei de entrar na terceira década... Tenho 20 anos. Queria ter vindo escrever sobre isto mais cedo (no dia de anos teria sido giro), mas honestamente não há nada a dizer. Como há para aí dez anos toda a gente pergunta "Então, como é ter x anos?", sendo x a idade que celebro nesse ano, há muito que me habituei a dizer "Bom, é igual a ter x-1 anos", sendo x-1, claro, a idade que teria feito no ano anterior.
Ora, isso faz-me pensar. Se ter a idade que tenho é sempre igual a ter a anterior e há dez anos que isto é assim, será que eu ainda não mudei???

Sinto-me grande. Cheia de vontade de viver. De morar alguns meses na Europa- pelo menos a candidatura para Erasmus começa a ser uma realidade. De ser uma óptima médica, cheia de conhecimentos e de cuidado com o doente. De sair, beber e dançar ao som da música do Incógnito durante a noite inteira. De conversar com a Vitória. De ler mais e melhor. De escrever mais e melhor. De saber dizer não ao que não quero. De ir à procura daquilo que acho que mereço. De ouvir música até que os ouvidos me doam. De conhecer mais países, mais teatro, mais museus, mais músicas. De não desperdiçar pessoas, acordes, gargalhadas, raios de Sol, estados de espírito. De não desperdiçar nada. De reciclar: companhias, papéis, sentimentos, ocupações, vidros, hábitos. De reciclar tudo. De ler poesia. De não ter a prepotência que sei tudo sobre tudo. De aprender a ouvir opiniões totalmente diferentes, um pouco diferentes, mais ou menos idênticas ou totalmente iguais à minha. De não julgar as pessoas à primeira. De encontrar satisfação. De viver insatisfeita.
Cristina"

In Crime Passional

18.11.06

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos.

Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos.

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

Álvaro de Campos

22 anos, hoje. Ainda estou no tempo em que festejam os meus anos. :)

17.11.06

O concerto do Chico continua a fazer mossa



Palavra de Mulher (com a letra já aqui em baixo), Chico no Coliseu dos Recreios, Lisboa 2006

12.11.06

Prometo-te que volto, não sei se o desejas mas volto (canções em forma de lágrimas nº 2)

Palavra de Mulher

Vou voltar
Haja o que houver, eu vou voltar
Já te deixei jurando nunca mais olhar para trás
Palavra de mulher, eu vou voltar
Posso até
Sair de bar em bar, falar besteira
E me enganar
Com qualquer um deitar
A noite inteira
Eu vou te amar

Vou chegar
A qualquer hora ao meu lugar
E se uma outra pretendia um dia te roubar
Dispensa essa vadia
Eu vou voltar
Vou subir
A nossa escada, a escada, a escada, a escada
Meu amor eu, vou partir
De novo e sempre, feito viciada
Eu vou voltar

Pode ser
Que a nossa história
Seja mais uma quimera
E pode o nosso teto, a Lapa, o Rio desabar
Pode ser
Que passe o nosso tempo
Como qualquer primavera
Espera
Me espera
Eu vou voltar

Chico Buarque

Lágrimas em forma de canções

Futuros Amantes

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

Chico Buarque

7.11.06

E naquele dia tu foste João, e eu Maria

Outros Sonhos

Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
Sonhei que ela corava
Quando me via
Sonhei que ao meio-dia
Havia intenso luar
E o povo se embevecia
Se empetecava João
Se impiriquitava Maria
Doentes do coração
Dançavam na enfermaria
E a beleza não fenecia

Belo e sereno era o som
Qual lá no morro se ouvia
Eu sei que o sonho era bom
Porque ela sorria
Até quando chovia
Guris mertes no chão
Falavam de astronomia
E a polícia já não batia
E me jurava o diabo
Que Deus existia
De mão em mão o ladrão
Relógios distribuía
De noite raiava o sol
Que todo mundo aplaudia
Maconha só se comprava
Na tabacaria
Drogas na drogaria
Um passarinho espanhol
Cantava esta melodia
E com sotaque esta letra
De sua autoria
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
E por sonhor o impossível, ai
Sonhei que tu me querias

Soñé que el fuego heló
Soñé que la nieve ardia
Y por soñar lo impossible, ay, ay
Soñe que tu me querias.

Chico Buarque @ Coliseu dos Recreios, 06.11.06

6.11.06

Recuperação

[Tenho alguns textos guardados, coisas que escrevi e eram demasiado francas, falsas, falaciosas - ai como eu gosto de aliterações-, pretensiosas, ou simplesmente mal-escritas para publicá-las aqui. Hoje reli este texto, de Julho deste ano, e decidi que era publicável. Cá vai.]

Queria explicar-te

olhos nos olhos

o que se passa comigo, queria dizer-te

as minhas mãos nas tuas

que sinto, que dentro de mim pulsa, enquanto cresce, uma vontade enorme de te abraçar e de te levar para longe.

Mas não sei definir bem onde começa e onde acaba, se é que o faz, nem sei se é bom ou mau, se é que tem de ser alguma coisa. E sou incapaz de impôr o meu ritmo, de estabelecer as tuas prioridades baseando-me nas minhas, que tipo de egoísmo seria esse?

Reconhecer as tuas necessidades e compreendê-las parece-me às vezes tão difícil, mas quando tento olhar para dentro de ti,

tenho uma só certeza

que simplesmente não estás disponível,

tens pó e teias por limpar no teu sótão emocional

e apetece-me estar por perto para garantir-te que estou ao teu lado e é uma faca de dois gumes, sabes? porque ao mesmo tempo quero garantir a mim mesma que ainda não preciso de ti

quando tenho a certeza que preciso.

5.11.06

[ II ]

"I want to be
The one to make you feel okay right now
Some way, some how
So when I fall short
I sink so low that I even blame the clouds
For blocking out the sun
And the shadows on the wall
That’s why you feel alone"

"Last Sunday I went to see a jam session downtown"

'Whatever' he nodded with a sigh, his eyes surprisingly turning grey. He exhaled the smoke of the cigarrette, looking down, collecting the ashes.
'I don't want to make you sad' she said while her hand aproached his cheek. Each noise in the room stopped. The bassist stopped playing that sad song and no more Martinis were shaken. Everybody in the room quietly stared at the bottom of their glasses.

Everything STOPS.

Everything but their hearts, beating like never before.

31.10.06

Ensaio sobre o amor - parte I

Há uma criança que brinca apesar da chuva em seu redor. Tem um camião de folha - folha apesar de estarmos em 2006- vermelho e azul e um auto-tanque dos bombeiros. No canteiro da borracheira, o camião despistou-se e o auto-tanque dirige-se ao local a alta velocidade, uivando "uú uú uú", a boca do menino desenhando um beicinho "uú uú uú".

Qem o vê, ali a brincar, ama-o subitamente. Deixa de ser uma criança que brinca com os seus carrinhos para ser um rasgo de luz na vida de alguém. E esse alguém, sem dar conta, é preenchido por um calor intenso, aquele calor que nos surpreende num dia frio de Inverno em que o céu está absolutamente azul.

Não consigo perceber o que nos faz amar alguém. E hoje, este verbo tão determinante, "amar", é usado de forma bem mais abrangente do que o amor por outra pessoa, de sexo igual ou diferente, que visa juntar duas vidas numa só. Hoje "amar" é bem mais do que isso.

Amar é um verbo imperativo independentemente da forma verbal em que está conjugado. Há uma necessidade - e estou a ser bem limitativa quando escrevo necessidade -, há mesmo uma qualquer vontade intrínseca em amar.

Nascemos e já amamos alguém. Ou somos, no mínimo, amados. Mas eu acredito que amamos. O meu irmão reconhece a minha mãe, o seu peito, a sua voz, o seu cheiro, mesmo que a única coisa que os seus olhos reconheçam seja um jogo de sombra e luminosidade.

Depois a cada dia que passa da vida que a cada dia se torna maior, vamos abrindo o coração a mais e mais pessoas. E é isto que me põe pensativa. "Vamos abrindo o coração"? Nós vamos abrindo o coração? Ou vão-nos abrindo o coração?

Se de alguma maneira é praticamente unânime que amar faz parte do nosso código e é independente de pressões exteriores, o que é que determina que amemos alguém?

Já não via o meu irmão há quase um mês. Esquecera-me (?) do quanto gostei dele a primeira vez que o vi. Mas desta vez foi completamente diferente. Ontem quando acordei, ouvi-o gemer de satisfação enquanto tomava banho, fui vê-lo sentado/ encostado na banheira e toda eu fui ternura. Ternura como a que sentimos pela criança que brinca com o camião numa calçada. E não é isso que se sente por um irmão. É mais do que ternura. E esse mais veio depois. "Joana, seca-o." E eu peguei nele, no meu irmão e ele acomodou-se aos meus braços e, por entre toda aquela paz, mergulhou o seu olhar miúdo dentro do meu. Eu senti amor, o que foi marcante porque noutras relações não conseguimos determinar quando é que o sentimos. Mas ali foi bem claro- o amor, na sua forma mais genuína, porque desprovido de interesse ou intolerância.

Como um amigo meu que foi recentemente pai me disse: "de repente olhei para o miúdo e pensei 'sou pai dele' e agora amo-o mais do que à própria vida".

(continua)

23.10.06

Tenho saudades deste filme...





E ao 1:10 do excerto que se segue, o momento mais incrível: NUMA CASA PORTUGUESA FICA BEEEEEEM PÃO E VINHO SOBRE A MESA.

22.10.06

Food and liquor


Nem sempre preciso de escrever um texto bonito sobre um álbum para vos dizer o quanto gosto dele, sobretudo quando o álbum de que vos quero falar tem canções assim:



Lupe Fiasco | Kick push (no álbum seguida da I Gotcha, que também é linda)



Lupe Fiasco (featuring Miss-gotta-love-her Jill Scott) | Daydream

Álbum viciante.

21.10.06

A coisa funciona mais ou menos assim

Abre-se o pacote da recém-adquirida

Cucumber extracts peel-off mask,

ou em bom português a máscara de depelar com extractos de pepino. Serve, diz a embalagem, para purificar os poros visando uma pele mais suave.

A dita máscara tem textura de gel e é para ser espalhada por todo o rosto, evitando os olhos e a boca

(ATENÇÃO: EVITEM OS OLHOS E A BOCA, MESMO! Para já porque arde quando se espalha em redor dos olhos, imagine-se o que não deve arder quando toca a conjuntiva. Depois porque vocês já não são crianças nenhumas e sabem ler: escusam de levar à boca uma coisa só porque cheira bem. Adiante.)

A pessoa vai espalhando aquilo e sabe bem: é refrescante e como já disse, tem um perfume delicioso, a limão e flores - bem menos artificial que os toalhetes da TAP.

Depois tem de deixar actuar? repousar? - nunca percebi bem qual dos dois- durante 10 a 15 minutos. E é aí que a magia acontece, meus amigos.

Aos cinco minutos, a cara começa a ficar rígida porque o gel vai formando uma película firme sobre a pele. A pessoa quer rir e não consegue, falar e não consegue, comer e não consegue.O simples esboçar de um trejeito é impossibilitado por aquele gel cheiroso que antes espalharam - parecia agradável, não era? - e que agora parece película aderente.

Aos dez minutos a cara está paralisada, como se o extracto de pepino fosse toxina botulínica. Experimentem, por exemplo, atender o telefone nestes últimos momentos e sair-vos-á qualquer coisa como "hôn?", em vez do habitual "'tou?". Dá azo a situações desconfortáveis que passam pela própria mãe perguntar o que é que andamos a fazer num sábado à tarde - procuramos não pensar que a mãe está a pensar o mesmo que nós, que passa por ter a boca ocupada com qualquer coisa, porque uma mãe a pensar nisso é no mínimo escabroso.

Aos quinze minutos podem enfim tirar a coisa que espalharam na cara. É aconselhado que a remoção se inicie nos contornos do rosto. Devem começar por passar a unha no bordo da película - sim, o conceito de película aderente volta à mente quando se remove isto. Ao pouco a pele restabelece a sua elasticidade. Respiramos de alívio.

Resultado: os mesmo poros dilatados mas limpos. Não compensa o susto, apesar de tudo.

A lição a reter é não comprar produtos de cosmética a 1,50 €, mesmo que seja na H&M - a única loja que vende roupa estilosa a bom preço desde que a saibamos procurar - diz-se que até vendem caras larocas se procurarmos bem no segundo andar. O pior, caros leitores, é que este gel-máscara-poção-experiência científica não carece de procura, está tão debaixo do olho que é compra quase imediata. Vão por mim, cosmética a 1, 5 € não é boa cena. Como é que eu pude pensar que era?

[ ]

Um homem sai de casa.

Morava num apartamento junto ao Castelo S. Jorge, um prédio antigo de alguma maneira recuperado. A vizinha de cima chamava-se dona Emília, era coscuvilheira mas boa cozinheira: desde pastéis de bacalhau a pães-de-ló, tudo lhe vinha parar às mãos quando chegava do trabalho. Os vizinhos do andar de baixo pintavam paredes com arte por encomenda, chegaram mesmo a pintar a parede do corredor que ligava o quarto do homem à sala.

Um homem sai de casa e tem as malas à porta.

Três malas cheias de momentos que foi coleccionando, discos e livros, fotografias e postais dos sítios que foi visitando, roupas que foi usando e gastando e deixando de usar. As malas, enormes, desproporcionais ao tamanho do seu coração - que encolhe a cada dia - ocupam toda a largura do passeio. A vizinhança chega-se à janela, curiosa. Ali no número 52 mora o senhor Jacinto, operário reformado, comunista com todas as suas forças. Chegou-se à janela e perguntou para a rua, visivelmente emocionado

"Então o senhor doutor vai-se embora?"

Ninguém lhe respondeu. A menina Aline - menina do cimo dos seus setenta anos- mulher do senhor Pereira do talho, doméstica toda a vida, fadista nas horas vagas, ouviu o senhor Jacinto e apressou-se a ir buscar uma peça de carne do lombo, que depositou no passeio, junto às malas.

Um homem sai de casa, tem as malas à porta e um saco com uma peça de carne do lombo.

Sobe as escadas mais uma vez para ir buscar dois ou três caixotes. Uma vida despedaçada, são cacos que transporta para outro lugar, para tentar recomeçar não a partir do zero, mas a partir da reconstrução de peças. Leva o passado atrás de si, para onde quer que vá, sem poder desprender-se dele. Tudo o resto que permanece é efémero. Quase superficial, não é só passado - é pretérito perfeito. Foi-se. Aquilo que o marcou visceralmente - pretéritos imperfeitos que ficam em cada caixote que transporta para a rua. Fragmentos em suspenso de vidas - não é só a sua que é assim - inacabadas.

Um homem sai de casa, tem as malas à porta, um saco com uma peça de carne do lombo, dois ou três caixotes contendo cacos e começa a chover.

De repente, mas não era nada que não prevera quem olhara para o céu essa manhã. Estava carregado, macilento. E o rio - da sua janela via-o bem - turvo e revolto, trazendo a sujidade de uma península inteira para vir dissolvê-la ao mar. Um relâmpago iluminara a rua parda, seguido de um trovão. A chuva começara logo de seguida. Recolheu-se a roupa a secar nos varandins, chamaram-se as crianças que brincavam na praceta. E a rua ficou vazia, só folhas e riachos de água que se formavam na beira da estrada, descendo, empurrando, tropeçando.

Um homem sai de casa, tem as malas à porta, um saco com uma peça de carne do lombo, dois ou três caixotes contendo cacos, começa a chover e não se vê ninguém na rua.

Está finalmente só. Um corpo vazio - ou pior, um coração vazio.Como uma telefonia avariada, que não recebe mas também não emite. No caso da telefonia, música, notícias, vozes sem rosto. No caso dele, emoções. Olha em redor antes de fechar a porta, duas vezes: primeiro ao sair do apartamento, depois ao sair do prédio. Ainda hesita da primeira vez: se deixasse as malas e os caixotes à porta - e alguém os fosse buscar, que não ele - podia tentar ser outro alguém ali entre aquelas paredes. Podia encher a casa com o seu presente e ignorar os pretéritos imperfeitos da sua vida. Decide, no entanto, cumprir-se. Ser ele próprio o determinista das suas acções. E desce as escadas; não queria ficar por ali. Ficar por ali seria acabar a vida que começara quando decidiu partir. E recomeçar a anterior. Ele não, queria uma vida nova com as pessoas de sempre- feito que conseguiria, a todo o custo.

Um dia a chuva há-de engolir o mundo, pensava ele quando era criança. Nunca pensou que nós acabamos por nos engolir a nós próprios de tão absortos que estamos com a possibilidade de mudar ou de permanecer. Que somos nós, e não a chuva ou o vento ou qualquer outra intempérie, quem tem a capacidade de nos engolir para voltar a ser. Ou engolir para acabar de vez.

Um homem sai de casa, tem as malas à porta, um saco com uma peça de carne do lombo, dois ou três caixotes contendo cacos, começa a chover, não se vê ninguém na rua e ele parte enfim.

19.10.06

Para ser lido como foi escrito: ao som de Django Reinhardt

Escute senhor,
Eu não pedi a ninguém p'ra namorar.
Só lhe perguntei
Porque queria um par p'ra dançar.

Esta gente, hoje em dia!,
Está sempre a complicar
Eu pedi companhia, não ninguém p'ra namorar!

Queria abraçar enquanto dançava
E dar a mão até à pista
Começar o swing, a festa!
Eu girava, ele sorria.
Queria partilhar a alegria,
A tristeza?
Suava-a até que desaparecia!

Oiça outra vez senhor,
Não pedi ninguém em casamento!
Só queria um par p'ra dançar
E (quem sabe?) dormir ao relento.

(Olhe senhor, quando eu lhe pedi p'ra dançar
Se eu bem me lembro, ouvi-o me rejeitar
Que faço eu agora pois sou incapaz
De dançar consigo ou com outro rapaz?)

17.10.06

"He poos clouds"

Ele faz cocó de nuvens.

Não me canso de dizer isto, como quem descobriu qualquer coisa, a cura para o cancro, qualquer coisa.

Ele faz cocó de nuvens e em cada nuvem me sento e contemplo enquanto decorre a viagem. Basta fechar os olhos e aproveitar para descolar enquanto Owen vai samplando o seu próprio violino com os seus pedais mágicos.

Não há tripulação nesta viagem, para além do piloto Owen Pallet e dos pedais mágicos - que são piloto automático nas horas vagas. Reflectem-se, como numa aula do Liceu, imagens e animações artesanais, sobreposições de papéis e folhas de acetato, recortes e colagens. O nosso piloto afasta-se para o lado que as vejamos melhor.

"I can't sing, I can't play the piano, I can't play the violin, so I brought along these guys."

Vemos a cor ser adicionada aos poucos, como numa ilustração com números, há castelos e cavaleiros, palácios e sapos. Não há princesas. Um envelope com uma carta abre-se à nossa frente. A viagem continua.

"Can you please make the room darker?". Not dark enough yet. "Like a cinema."

Há o público e um homem que canta para dentro do seu violino. Nós e uma espécie de William Tell musical que guarda o arco atrás das costas para dedilhar as cordas do seu instrumento.

Estamos ainda sobre a nuvem mas não nos recostamos para trás porque as canções sobressaltam-nos. Percebemos que estamos perante a banda-sonora das nossas vidas e que cada acorde esteve presente em todos os momentos. Desde a tarde de domingo passada no sofá a ver filmes de segunda categoria como aquele pôr-do-sol sobre o rio que inundava de ternura quente uma boa conversa.

A nossa vida decorre lá em baixo (devo-me sentir culpada por não querer fazer parte dela?) e as imagens tornam-se cada vez mais negras, à medida que estranhas silhuetas

cadáveres? aves de rapina?

se juntam para escurecer a imagem até que apenas reste um ponto de luz.

Seguem-se dois encores, o primeiro com a Took you two years to win my heart, a minha preferida, em que a letra e o instrumento se fundem como em mais nenhuma outra, em que o dramatismo das notas parece acompanhar o batimento do coração.

"They say heartbreak is good for the skin but all that it's helped is my drinking."

Com o fim do concerto, acaba a viagem, mas não a vida.

Final Fantasy @ Club Lua, 15.10.2006

9.10.06

Julian 'Cannonball' Adderley (ou eu não percebo nada disto mas adorava perceber)

Começar por algum lado, iniciar, meter as mãos (e a alma) na massa, dar o corpo (e o coração) ao manifesto.

Há álbuns que sabem a instantes, sobremesas ou bons vinhos. Outros transportam-nos ou acompanham-nos ao longo de estações do ano. Preconceito ou não, o pouco (ou o pouquíssimo íssimo íssimo) jazz que conheço sempre me lembrou Outono. Os dois ou três álbuns que tenho foram sempre comprados entre o dia 21 de Setembro e o dia 20 de Dezembro. Geralmente, ainda com o disco debaixo do braço, apanhava chuva, punha o pé numa poça de água, bebia um chocolate quente.

A tradição manteve-se e novamente, mas desta vez seguindo o conselho de "ir pelo menos óbvio" (porque quando alguém sabe mais do que nós acerca de qualquer coisa anotamos as recomendações e cumprimo-las), sendo que o meu conhecimento jazzístico é tão parco que até o óbvio é menos óbvio, acolhi no seio da minha reduzida colecção de discos (é quase infame chamar-lhe colecção) esta deliciosa rodela:



Este Somethin' else - oh e como tem sido somethin' else na minha vida - é daquelas pérolas vendidas a onze euros e meio na FNAC. Onze euros e meio para comprar tranquilidade - na ausência de tranquilidade intrínseca à alma, uma pechincha!

Autumn leaves abre o álbum e faz jus a tudo o que disse acerca do Outono e de álbuns de jazz outonais. A cada nota soprada (ou devo dizer, tal é a calma, suspirada?) caem folhas de árvores caducas, que primeiro dançam no ar, ao ritmo do piano do Hank Jones

further investigation tells me: este álbum tem um elenco de luxo

depois lentamente escorregam, como se o vento fosse caramelo líquido, até ao chão onde tombam, vivas. Porque a diferença entre estas Autumn leaves e aquelas que caem na minha rua e na tua é a presença de vitalidade, como se dissessem "Não me matas assim; ainda hei-de resistir ao Inverno".

Aqui não há estrelato nem domínio, cada músico entra, rigorosamente trajado para tal baile de gala, Art Blakey num registo suave, fazendo-nos fechar os olhos e inspirar fundo a cada nota de saxofone, e a faixa aquece sempre em lamento alegre (as pessoas alegres também às vezes estão tristes). 11 minutos de lareira acesa, de tons dourados e acastanhados, 11 minutos de se isto é jazz, nunca mais ouço outra coisa. Apaixonante.

A fasquia vai alta para a segunda faixa, pedimos-lhe "por favor deixa-me estar aqui onde ninguém me vê", mas Love for Sale está feita para acabar com a melancolia (to all of you, sullen lovers!). Agora o amor está à venda numa rua de Manhattan - que nunca visitei, mas também no calçadão de Copacabana (que sim, já visitei) ou nas escadas de Montmartre, com a Église Sacré Coeur ao fundo (ai Paris, Paris). O amor está à venda até numa tasca assimétrica no Bairro Alto, daquelas frequentadas por intelectuais barbudos. Mas agora o amor vende-se? Não sei. A promessa de amor sim. Impossível não jingar, não abanar o pé, não curtir quando se sabe que algures depois deste mato cerrado que é a desilusão - para quê o eufemismo?, falo de desgosto - há uma clareira onde entra o sol, onde se dissipam as mágoas e as lágrimas escondidas dão lugar a sorrisos longilíneos. E saltamos para a rua, e sentimos o Outono apoderar-se do vento e das nuvens, e não nos importamos porque Love for sale pede-nos, em linguagem saxofónica e trompética, "sai dessa, meu!". Aos cinco minutos e trinta, no entanto, nova surpresa!, afinal por cada amor há melancolia, grita Adderley ao saxofone, mas há discussão, e o piano e a bateria continuam optimistas. Eu também.

Ó alegria! Ó boa- disposição! Ó velha Joana de sempre, dançarina das danças improváveis, de ancas imparáveis! Os dedos estalam, tentam acompanhar, mas o corpo descoordena-se, há passos para a direita e mãos para a esquerda, há o pescoço que impele o queixo para a frente e para baixo. DANÇA DANÇA DANÇA, impera o saxofone e o trompete, e como evitá-lo? Afinal nesta canção dizem-me que há sempre mais qualquer coisa, ou não se chamasse a faixa Somethin' else. Será esta uma alternativa para mim? Ou uma alternativa, ou antes, um novo elemento a adicionar na conta de somar que é a música? Não se tratam da conjunção OU, mas sim, e agora vejo-o tão bem, de muitos sinais de mais, somando diálogos entre o Miles e o Julian 'Cannonball', que à terceira faixa são já meus velhos amigos de infância. Vou ali dançar. Volto na quarta faixa.

"One for Daddy-O" é sensual, é mesmo a mais sensual até agora. Sensual nesse primeiro sentido que pensaram - o sexual-, sim, mas também no sentido de "ACORDA e USA OS CINCO SENTIDOS!". Desperto embriagada. Doce jogo de sedução este, em que me deixo levar, em que o meu oponente (rival? parceiro?) me olha nos olhos e sem usar palavras, me diz as coisas mais bonitas. Regresso ao meu ninho de folhas outonais, esta canção traz-me demasiadas recordações boas, cheiros, sabores, beijos. Esses momentos são meus, ninguém mos tira. Estas canções são minhas agora. Ninguém mas tira.

De volta ao lamento - mas já o disse aqui e volto a dizê-lo, um lamento não tem de ser necessariamente triste. Mas este lamento é um bocadinho triste. Ou talvez não. Talvez seja apenas fatigado. Um lamento de cansaço, de saturação, "já chega ou vou-me embora". Julian não está cansado da música, pelo que me conta, nem está cansado de nada nem de ninguém. Não está cansado dele (e como é fácil ficarmos fartos de nós, que convivemos connosco repetidamente). Não sabe bem de que se cansa ele. Como te compreendo, Julian, dá cá mais cinco e um abraço. É uma imperial e um whisky para esta mesa, faz'avor. Este lamento transforma-se em segredo ao ouvido e eu não o conto a ninguém (era incapaz de trair a confiança deste meu bom amigo). Mas a segundos do fim, Julian satura-se de estar saturado e sai do bar finalmente em liberdade.

O tio da Alison (Alison's Uncle) só pode ser um moço bem-humorado. Esta música mal começa e já me fez rir. Julian saíu do bar mas não me deixou sozinha, entraram os meus amigos e estamos em alegre galhofa a conversar sobre tudo e sobre nada. E eles, na faixa, também conversam e riem. A bateria parece pedir "Hey Miles Davis, play it louder!" e o mestre corresponde e o Julian não se deixa ficar e se isto fosse uma rua eu desatava a correr como a Heidi pelos Alpes. Esta música faz-me teclar desenfreadamente, enche-me de energia, e eu mexo-me na prisão desta cadeira, mas é de festa que esta música fala. Volto para os meus amigos, caramba! estão cada vez mais bêbedos!, brindamos a cada solo de bateria e trauteamos a secção de sopro cada vez que entra para dar o mote a festa. E o mote é simples "Sejam felizes, porra!". Como um filme que acaba bem, com os créditos finais a passar em fundo preto, saio da sala onde decorreu a sessão.

A festa continua cá fora.



Para ler a sério sobre Julian 'Cannonball' Adderley, podem consultar este, aquele ou o outro sites.

5.10.06

Iogurtes

"Reputada por sua permanente aposta na Inovação, a Danone volta a surpreender ao relançar os Puro Danone Pedaços, que aliam os benefícios nutricionais do iogurte aos da melhor fruta produzida em Portugal, incluindo pedaços de fruta com Denominação de Origem Protegida (D.O.P.) ou Indicação de Origem Protegida (I.G.P.).

A nova gama de iogurtes "Puro Danone Pedaços", que estará no mercado português a partir de 9 de Junho, inclui os sabores Ananás dos Açores (D.O.P.), Pêra Rocha do Oeste (D.O.P.), Mel da Terra Quente (D.O.P.) e Nozes (vindas do Alentejo), Cereja da Cova da Beira (I.G.P.), Pêssego da Cova da Beira (I.G.P.), Maçã de Alcobaça (I.G.P.), e Morango cultivado no Ribatejo. No primeiro ano, A Danone prevê produzir 10 milhões de unidades destas.

Dos Açores ao Alentejo, passando pela Estremadura, Ribatejo, Beira Interior e Trás-os-Montes, são várias as regiões frutícolas abrangidas neste inovador projecto que envolve 620 produtores frutícolas e mais de 360 toneladas de fruta anualmente produzida em Portugal.

Ao relançar a linha "Puro Danone Pedaços", a Danone pretende conquistar a liderança no segmento dos iogurtes com pedaços, o único em que ainda não é líder. O objectivo é portanto uma duplicação das vendas.

O desafio remonta a 2004, quando a Danone relançou toda a linha "Puro", fortalecendo os valores de Família, Confiança e Tradição. Decidiu-se então reformular o conceito do iogurte com pedaços, aliando-o a frutos exclusivamente portugueses e de origem seleccionada.

Sob o lema "O melhor do que é nosso", a campanha de publicidade estará patente a partir de meados de Junho na imprensa e na televisão. Paralelamente, decorrem acções em 100 lojas, com material de visibilidade, distribuição de folhetos e degustação dos novos iogurtes.

Reconhecendo a qualidade da produção frutícola nacional, esta é a primeira vez em Portugal que a agro-indústria se dispõe formalmente a utilizar frutos nacionais com nomes protegidos a nível comunitário. O projecto Puro Danone Pedaços representa assim uma aposta na Inovação, na Qualidade certificada e na Agricultura nacional. E, claro, na Alimentação saudável e saborosa!

in agroportal.pt

O iogurte Puro danone de ananás dos Açores é o meu novo vício alimentar.

3.10.06

Sorriso

Ele sorri. E nós, que fazemos senão sorrir com ele?