Parece fazer pouco sentido beber um sumo de laranja natural e misturá-lo com beterraba, mas a mistura é boa, garanto-vos: a minha avó faz um bolo de chocolate com um creme de queijo fresco que fica divinal e também sempre me soou demasiado estranho.
No que toca à cozinha, o importante é não misturar alhos com bogalhos e torcer o pepino em pequeno. Não sei porque me deu para citar provérbios populares a esta hora da madrugada - e antes de ir dormir o sono dos justos, ou o dos injustos, ou dos injustiçados, um sono qualquer -, não sei tanta coisa e ainda assim faço-a.
No que toca à minha vida, farto-me de errar - e quem não erra? Erro atrás de erro (mas não o João Palma), cabeçada atrás de cabeçada. Por acaso em relação ao erro, gosto da metáfora do pontapé na esquina do móvel (a melhor maneira de descobrir móveis em corredores escuros é pontapeá-los). Já muita gente partiu dedos dos pés assim e não é coisa que, a não ser que se seja estupidamente parvo, se faça de propósito. Já cabeçadas na parede umas atrás de outras não creio que sejam erros, mas sim burrices.
Os próprios erros, se exaustivamente repetidos, são também eles burrices. Não julgo, e olhando em retrospectiva, que sejam erros - e, por conseguinte, burrices - propositados e conscientes. Nisto da vida e do erro sistemático, o material está viciado, tal como o dado que pesa mais na face oposta à face "seis" (que é a "um", acho).
A própria matemática tenta simplificar a vida, mas as contas aritméticas sucedem-se umas atrás de outras e a calculadora humana perde-se entre somas e perdas e divisões (multiplicações são raras, infelizmente). Deveria haver um exercício no exame de Bioestatística:
Suponha que J. errou já por três vezes ao avaliar e julgar uma pessoa. Partindo do pressuposto que conhece 10 pessoas por mês, calcule:
a) a quantidade de vezes que poderá ir jantar fora.
b) a probabilidade de se desiludir com 7 em cada 10 pessoas.
c) a probabilidadde de se enganar no julgamento dessas pessoas, sabendo que o número de pessoas que a desiludem é significativamente maior que o número de pessoas que acabam por surpreendê-la.
d) a probabilidade de ser iludida ou mesmo ludibriada por todas elas.
Já não é a primeira vez que leio numa canção que há uma sensação falsa de felicidade até a hora em que se desliga a luz e se fica a sós, de olhos e ouvidos nos próprios pensamentos. É aí - e sempre aí, invariavelmente - que me apercebo que isto de ser feliz é mais frágil do que a própria fragilidade. A felicidade é como uma teia de aranha, construímo-la a pulso e basta uma criança armada em chica-esperta para destruir o trabalho de meses.
Estou à defesa e não me sinto bem. Pareço um cavaleiro da Idade Média, iluminada por archotes (e a dar pontapés em móveis como se não houvesse amanhã porque a luz do archote é mínima), vestida e armada da cabeça aos pés com a cota de malha, o escudo, a lança, o capacete, a espada. Devia usar a espada muito mais vezes - para cortar a cabeça aos que me chateassem a minha, para trespassar o peito àqueles que fizessem o meu estalar. Estou à guarda de um castelo, nem sei o que guardo, nem sei quem me mandou aqui ficar. E o pior é que o que guardo nem é provavelmente nada de especial, é só um coração pequenino que bate muito depressa, um coração apertado numa caixa feia dentro de um quarto enorme.
A Cat Power está a dizer-me que se eu estiver à procura de coisas fáceis, é melhor desistir. As coisas difíceis dão pica, são intrigantes e desafiam-nos até à medula, instigam os reflexos e as respostas rápidas corticais. Eu tenho medo das coisas, sejam elas fáceis ou difíceis. É como se até então tivesse perdido o chão cedo demais. Não consigo assumir dentro de mim nada, mas quero que o façam por mim e não o fazem.
Não sei em quem acreditar, se naqueles que dizem que somos capazes de dar voltas à vida, se naqueles que dizem que dá-nos a vida a volta a nós. Os erros são tantos que se atropelam uns aos outros, já nem fazem fila para acontecerem. Eu atravesso a nado as dúvidas e os medos, quase me afogando a cada inspiração.
Oiço os pragmáticos dizerem que a vida dá voltas de 180º, que num instante estamos aqui e depois estamos no nosso antípoda se assim o quisermos. Eu nunca fui céptica, mas dizem-me os meus dedos dos pés,, doridos e cheios de hematomas, que a minha vida está sempre a dar voltas de 360º. Parece mudar, parece, parece, mas depois fica ali, como na Roda da Sorte, quase quase quase no milhão de não sei que moeda e acaba por calhar no prémio de valor mais pequeno. Comigo, nem dinheiro recebo; só estas nódoas negras nos pés e uma vontade de receber um abraço que nunca vem.
*Pergunta-me ainda a Cat Power que raio escondo eu no meu coração metálico; depois, empertigada - deve ter bebido demasiado hoje, ela - diz-me que o meu coração metálico não vale nada. E não vale mesmo, não sei porque o guardo tanto. Não sei, ó Chan, o que estou a tentar provar escondendo escondendo escondendo. Mas isso que dizes é verdade, eu estava cega e depois vi-o, agora quanto a isso de me ter encontrado, já tenho as minhas dúvidas. E sim, sou egoísta, mas também sou sempre verdadeira e estou encerrada numa triste triste canção.
5.5.07
30.4.07
Dizem que o açúcar faz mal.
Há lugares que são nossos para sempre, mesmo que a eles nunca regressemos. Quatro paredes de história desconhecida, um tecto bolorento, um soalho que estala no vazio. Penso
fui feliz ali
e fui, e sou-o agora porque penso nisso e volto a sê-lo. Eventualmente poderias ripostar comigo - nunca concordámos em coisas insignificantes - e dizeres-me que quando fechei a porta, o momento acabara-se, a energia esgotara-se e o que é já era. Mas na rua ainda demos a mão e na viagem de eléctrico - o 28, sempre, acima e abaixo por toda a cidade que interessa - lembro-me que encostei a minha têmpora direita
oh por favor, senhoras à janela
ao teu ombro esquerdo e que me afagaste a cabeça e eu vi, e não mo podes negar, que olhaste para mim e derreteste-te em doçura perante o meu cansaço e a minha cara franzida do sol.
Não sei porque te fez Deus tão doce.
Como os caramelos que a minha bisavó Julieta dava aos Domingos, sempre antes de ir para casa e lhe dar um beijinho na bochecha. A avó Julieta era grande e morreu já velha. Velhinha. Às vezes quero lembrar-me dela e não sou capaz e fico muito triste comigo porque sei que gostava muito dela. Ela era grande mas agora que cresci, julgo que não era maior do que eu e eu é que era pequena demais para o tamanho dela. Lembro-me que fazia bolinhos na frigideira, bifinhos de vaca que picavam na língua e eu adorava e bolos, muito bolos, bolos de tudo e mais alguma coisa. Não me lembro de ela me pegar ao colo nem de conversar comigo, ou talvez me lembre, se me esforçar. Uma vez deu-me um cabritinho acabado de nascer para o colo e passou-me o biberão.
Tens de o deixar quente
E eu não vi a minha avó fria nem me despedi dela nem a vi morrer. Num domingo fomos jantar a casa dela e eu comi os bolinhos na frigideira, os bifinhos, os bolos e ela deu-me caramelos e Galak Buttons antes de me ir embora. Angustia-me não me recordar se a beijei nesse dia ou se estava simplesmente entretida a comer os Galak Buttons ou aqueles chocolates com molho por dentro que vinham dentro de pratas coloridas. Quero tanto que a memória me leve para esse dia e me mostre o beijo que lhe dei.
Porque na manhã seguinte atendi o telefone e a minha avó, nora da minha bisavó Julieta, disse-me
Passa o telefone à mamã porque a avó Julieta está no Hospital.
E eu estava com um conjunto Benetton, camisola amarela e saia rosa choque e fui trocar porque estava triste, bem mais triste que o amarelo e o rosa da roupa Benetton. Não voltei a ver a minha avó, que morreu no hospital e eu não fui ao seu funeral.
Mas a casa dela será sempre a casa dela e sempre que vamos lá e juntamo-nos todos - os filhos, os netos, os bisnetos e os maridos e mulheres desta gente toda - é ainda
Vamos a casa da avó Julieta
que dizemos.
Portanto, amor, há lkugares que são para sempre nossos e aquele quarto será sempre nosso e aquelas paredes que nos viram amarmo-nos sem e agoras ou entãos encarcerão para sempre aquilo que existiu.
Tal como o meu coração guardou a tua doçura. Não sei mesmo porque te fez Deus tão doce.
fui feliz ali
e fui, e sou-o agora porque penso nisso e volto a sê-lo. Eventualmente poderias ripostar comigo - nunca concordámos em coisas insignificantes - e dizeres-me que quando fechei a porta, o momento acabara-se, a energia esgotara-se e o que é já era. Mas na rua ainda demos a mão e na viagem de eléctrico - o 28, sempre, acima e abaixo por toda a cidade que interessa - lembro-me que encostei a minha têmpora direita
oh por favor, senhoras à janela
ao teu ombro esquerdo e que me afagaste a cabeça e eu vi, e não mo podes negar, que olhaste para mim e derreteste-te em doçura perante o meu cansaço e a minha cara franzida do sol.
Não sei porque te fez Deus tão doce.
Como os caramelos que a minha bisavó Julieta dava aos Domingos, sempre antes de ir para casa e lhe dar um beijinho na bochecha. A avó Julieta era grande e morreu já velha. Velhinha. Às vezes quero lembrar-me dela e não sou capaz e fico muito triste comigo porque sei que gostava muito dela. Ela era grande mas agora que cresci, julgo que não era maior do que eu e eu é que era pequena demais para o tamanho dela. Lembro-me que fazia bolinhos na frigideira, bifinhos de vaca que picavam na língua e eu adorava e bolos, muito bolos, bolos de tudo e mais alguma coisa. Não me lembro de ela me pegar ao colo nem de conversar comigo, ou talvez me lembre, se me esforçar. Uma vez deu-me um cabritinho acabado de nascer para o colo e passou-me o biberão.
Tens de o deixar quente
E eu não vi a minha avó fria nem me despedi dela nem a vi morrer. Num domingo fomos jantar a casa dela e eu comi os bolinhos na frigideira, os bifinhos, os bolos e ela deu-me caramelos e Galak Buttons antes de me ir embora. Angustia-me não me recordar se a beijei nesse dia ou se estava simplesmente entretida a comer os Galak Buttons ou aqueles chocolates com molho por dentro que vinham dentro de pratas coloridas. Quero tanto que a memória me leve para esse dia e me mostre o beijo que lhe dei.
Porque na manhã seguinte atendi o telefone e a minha avó, nora da minha bisavó Julieta, disse-me
Passa o telefone à mamã porque a avó Julieta está no Hospital.
E eu estava com um conjunto Benetton, camisola amarela e saia rosa choque e fui trocar porque estava triste, bem mais triste que o amarelo e o rosa da roupa Benetton. Não voltei a ver a minha avó, que morreu no hospital e eu não fui ao seu funeral.
Mas a casa dela será sempre a casa dela e sempre que vamos lá e juntamo-nos todos - os filhos, os netos, os bisnetos e os maridos e mulheres desta gente toda - é ainda
Vamos a casa da avó Julieta
que dizemos.
Portanto, amor, há lkugares que são para sempre nossos e aquele quarto será sempre nosso e aquelas paredes que nos viram amarmo-nos sem e agoras ou entãos encarcerão para sempre aquilo que existiu.
Tal como o meu coração guardou a tua doçura. Não sei mesmo porque te fez Deus tão doce.
26.4.07
D de dado
D de Dário, D de dia, D de David Bowie, D de dinâmica, D de diarreia, D de disco, D de David Lynch, D de diabrura, D de directo, D de Diesel, D de diferente.
[Só para mais um post com título começado pela letra D.]
[Só para mais um post com título começado pela letra D.]
Definições
Às vezes é como se me segurassem na tripa e ma revirassem e apertassem a mucosa entre os dedos como se a quisessem perfurar. Outras vezes é bom.
25.4.07
Da liberdade
De vos poder mostrar o que quero mostrar, de nos podermos expôr apenas e só o quanto nos quisermos expôr, de podermos partilhar aquilo que queremos partilhar, de podermos viver de acordo com aquilo que somos.
Do sentido da solidariedade - e não da caridade. Do sentido da justiça - e não do conformismo.
Da igualdade nos valores, nas decisões, nas oportunidades, nos juízos. Do direito à diferença.
Da liberdade.
Do sentido da solidariedade - e não da caridade. Do sentido da justiça - e não do conformismo.
Da igualdade nos valores, nas decisões, nas oportunidades, nos juízos. Do direito à diferença.
Da liberdade.
22.4.07
Dois ENORMES álbuns
Esta sala está cheia de destroços de mim; tantos e tão dispersos que já não sei quem é esta que se levanta pela manhã para ir para o trabalho. Fiz de mim uma jarra partida - e agora estou pela sala toda, pelos tacos de soalho, pelo sofá, pela mesinha do café.
Olho para mim ali atrás como que a partir de um retrovisor de um carro e assim não oiço o que tocam as estações de rádio dos outros carros, não sou eu agora como naquele tempo: fugida, ferida, fingida. E o era porque me doíam os ossos da pancada, doía-me a alma da queda vertiginosa, doía-me ser eu, porque não gostava do que era. Eu como objecto, elemento pura e simplesmente decorativo. Ser meramente acéfalo sem opinião nem vontade, que absorvia as vontades dos outros - ou do outro - e fazia delas sua bandeira.
Era como se eu não pudesse ser feliz ou, mesmo podendo, não quisesse porque não o merecia.
E por isso arranjei mil vestes em seda e brocados em cores garridas e com elas cobri o corpo nu, julgando erradamente que assim não me expunha - quando era exactamente o contrário, quanto mais mostrava as várias camadas, mais se via que aquelas camadas não eram a minha pele nem nunca o seriam.
Não se é - e este é é o verbo ser na sua forma mais abstracta - sem escolha, sem desfrute, sem mágoa. E antes de ser feliz e exigi-lo a si próprio e aos outros, há que ser - e sê-lo com orgulho.
Olho para mim ali atrás como que a partir de um retrovisor de um carro e assim não oiço o que tocam as estações de rádio dos outros carros, não sou eu agora como naquele tempo: fugida, ferida, fingida. E o era porque me doíam os ossos da pancada, doía-me a alma da queda vertiginosa, doía-me ser eu, porque não gostava do que era. Eu como objecto, elemento pura e simplesmente decorativo. Ser meramente acéfalo sem opinião nem vontade, que absorvia as vontades dos outros - ou do outro - e fazia delas sua bandeira.
Era como se eu não pudesse ser feliz ou, mesmo podendo, não quisesse porque não o merecia.
E por isso arranjei mil vestes em seda e brocados em cores garridas e com elas cobri o corpo nu, julgando erradamente que assim não me expunha - quando era exactamente o contrário, quanto mais mostrava as várias camadas, mais se via que aquelas camadas não eram a minha pele nem nunca o seriam.
Não se é - e este é é o verbo ser na sua forma mais abstracta - sem escolha, sem desfrute, sem mágoa. E antes de ser feliz e exigi-lo a si próprio e aos outros, há que ser - e sê-lo com orgulho.
Mmmmm
Há qualquer coisa especial nisto de chegar a casa a cheirar a ti. De te ter beijado a noite toda, sem vergonha na cara nem nos lábios. Tenho o coração a vaguear na expectativa de quem serás tu que me agarras com força, e que me aqueces o corpo todo com um olhar, e que me dás dentadas no pescoço porque és completamente parvo.
Não sei se estás a pensar em mim agora, mas eu estou a pensar em ti, por isso boa noite e dorme bem.
(E tens tanta falta de jeito para karaoke, és quase tão mau quanto eu.)
Não sei se estás a pensar em mim agora, mas eu estou a pensar em ti, por isso boa noite e dorme bem.
(E tens tanta falta de jeito para karaoke, és quase tão mau quanto eu.)
21.4.07
Casamento
Gostava de te pedir em casamento para que ficasses a olhar para mim com essa cara entre o terror, o descrédito e o gozo. Que me respondesses não e depois ríssemos juntos. Ou então que fugisses de mim a sete pés e me achasses doida. Ou me dissesses, peremptoriamente
eu nunca me hei-de casar
para depois eu poder pedir-te em casamento mesmo quando só quisesse comer um gelado.
Pedir-te-ia em casamento vezes sem conta, hoje, amanhã e daqui a um mês, e, se ainda estivéssemos juntos daqui a um ano, também o faria. Pedir-te-ia em casamento no metro, na praia, num miradouro, num restaurante, na cama ou na cozinha. Pedir-te ia em casamento de pé, sentada, deitada, de joelhos ou a fazer o pino.
É que eu também não quero casar contigo, sabes?
Gostava de te pedir em casamento porque seria a minha maneira atabalhoada de te dizer que gosto de ti.
eu nunca me hei-de casar
para depois eu poder pedir-te em casamento mesmo quando só quisesse comer um gelado.
Pedir-te-ia em casamento vezes sem conta, hoje, amanhã e daqui a um mês, e, se ainda estivéssemos juntos daqui a um ano, também o faria. Pedir-te-ia em casamento no metro, na praia, num miradouro, num restaurante, na cama ou na cozinha. Pedir-te ia em casamento de pé, sentada, deitada, de joelhos ou a fazer o pino.
É que eu também não quero casar contigo, sabes?
Gostava de te pedir em casamento porque seria a minha maneira atabalhoada de te dizer que gosto de ti.
All i wanna do is love you
Hoje soube que esta canção foi a última que o Curtis Mayfield gravou antes da sua morte em 1999.
Bran van 3000 feat. Curtis Mayfield :: Astounded
Curiosamente, foi esta canção que me fez ir descobrir o Curtis. (*) Hoje recordo-a. É uma canção boa para se ouvir em dias de coração aberto e sol na cara. E não o são sempre, senhor Curtis? Onde quer que esteja, obrigada mais uma vez. Descanse em paz.
(*) Faz-me lembrar o Grace do Jeff Buckley, que também só fui ouvir quando ele morreu. Silly me.
Nota: só mesmo eu para fazer um post póstumo com 8 anos de atraso.
Bran van 3000 feat. Curtis Mayfield :: Astounded
Curiosamente, foi esta canção que me fez ir descobrir o Curtis. (*) Hoje recordo-a. É uma canção boa para se ouvir em dias de coração aberto e sol na cara. E não o são sempre, senhor Curtis? Onde quer que esteja, obrigada mais uma vez. Descanse em paz.
(*) Faz-me lembrar o Grace do Jeff Buckley, que também só fui ouvir quando ele morreu. Silly me.
Nota: só mesmo eu para fazer um post póstumo com 8 anos de atraso.
17.4.07
Obra de Santa Engrácia é finalmente inaugurada
Em rodapé: "O Túnel do Marquês foi finalmente inugurado. A cerimónia decorreu durante a noite. Não foram servidos comes, mas bebes sim. A já tão esperada passagem de meios de transporte veio confirmar a perfeita suavidade do alcatrão. Não se encontrou nenhuma carruagem do Metro a obstruir a passagem."
Um típico caso de amor à primeira vista
Literalmente. Estava na secção de hip-hop de uma determinada multinacional que começa com F, acaba com C e no meio tem NA e a capa deste disco chamou-me à atenção. Meia hora depois, lá regressei com este amigo, mostrei-lhe a capa e ele disse que era a minha cara. "É tipo 4Hero e Plantlife, não gostas?". Gosto, pois, muito muito. Siga ouvir.
Adoro-o desde que o comecei a ouvir. Hip hop cítrico, melódico, harmonioso, refrescante. Um cubo de gelo (dos bons) neste calor primaveril inusitado.
Ao especial cuidado da mana Joana, que vai adorar, e dos demais leitores.
Amor em pacotinhos de açúcar, that's what it is.

Strange Fruit Project :: The Healing (myspace aqui)
P.S. Muito, mas mesmo muito cuidado com a faixa com a Erykah Badu.
P.P.S. E com a faixa Special, com uma moçoila chama Thesis (tese, em português).
Adoro-o desde que o comecei a ouvir. Hip hop cítrico, melódico, harmonioso, refrescante. Um cubo de gelo (dos bons) neste calor primaveril inusitado.
Ao especial cuidado da mana Joana, que vai adorar, e dos demais leitores.
Amor em pacotinhos de açúcar, that's what it is.
Strange Fruit Project :: The Healing (myspace aqui)
P.S. Muito, mas mesmo muito cuidado com a faixa com a Erykah Badu.
P.P.S. E com a faixa Special, com uma moçoila chama Thesis (tese, em português).
WARNING! You're entering the addictive area.
Há canções que nos entram pelo corpo como se fizessem parte de nós. Por mais que as ouçamos não parecem essas vezes nunca ser suficientes. Ouvimos, ouvimos, voltamos a ouvir, comemos um iogurte a ouvir, ouvimos, ouvimos de novo.
Não admira que a música soul se chame soul. Entranha-se pelos poros, pelos tegumentos, pelos músculos, pelos órgãos. Se há alma, a alma é isto: algo de tal forma intrincado a nós que a única coisa que sabemos sobre isso é que nos pertence para sempre. Mais resistente que o tempo e que o espaço, a nossa alma.
E a canção Beggin':: Frankie Valli and the Four Seasons.
(Clicar no nome da canção para seguir o link que vos levará a conhecer um vestígio de alma sob a forma de notas de música e palavras bonitas.)
Não admira que a música soul se chame soul. Entranha-se pelos poros, pelos tegumentos, pelos músculos, pelos órgãos. Se há alma, a alma é isto: algo de tal forma intrincado a nós que a única coisa que sabemos sobre isso é que nos pertence para sempre. Mais resistente que o tempo e que o espaço, a nossa alma.
E a canção Beggin':: Frankie Valli and the Four Seasons.
(Clicar no nome da canção para seguir o link que vos levará a conhecer um vestígio de alma sob a forma de notas de música e palavras bonitas.)
13.4.07
Maybe he got the wrong counterclockwise
He said "No more loud music".
dEUS :: Theme from Turnpike
(Nada de novo, só o Tom Barman mais a sua gente. Devo sonhar de tempos a tempos com os dEUS porque acordo a cantar uma canção deles. Hoje foi esta. Como não tinha o disco cá na Madeira, fui procurar o vídeo no bendito youtube. Estraaaaaaanho.)
12.4.07
"I have weird memories of you."
Sonhei contigo. No sonho estavas inseguro - é-lo sempre, mas desta vez um pouco mais que o normal. Disseste-me que não estavas bem e ficaste a olhar-me intensamente, daquela maneira como só tu olhas, como sempre olhaste, os olhos doces de cão abandonado, o cinzento da íris perdido no nada e pousado no nunca. Não sorrias e eu estranhei.
Estavam mais pessoas, que conversavam comigo. Ignoravam-te ali no plâteau dos sonhos, mas não é suposto ninguém estranhar nada por ali. Aliás poderíamos ter voado juntos para um ponto distante e indeterminado que ninguém desconfiaria da veracidade do nosso vôo.
Perguntaste-me se podias ficar por ali comigo, eu respondi que sim, algo indiferente, e continuei a conversar com as outras pessoas que por lá estavam. Passaste grande parte do sonho a olhar-me furtivamente, como se não fosse tua intenção que eu reparasse. Falhaste, bom, pelo menos ali no sonho, e eu reparei.
Por isso não sei se quando me levantei da cadeira se estava só a provocar-te para que me seguisses, se tinha mesmo que ir embora para outro sonho qualquer. Sei que, já longe da vista das pessoas que estavam comigo antes de chegares, me beijaste as pálpebras superiores, a ponta do nariz, o queixo, me pediste desculpa e me beijaste a boca com mais vontade do que nunca.
Acordei depressa, com medo de voltar a magoar-me.
"I have weird memories of you" ou at least I have something to cling to.
Estavam mais pessoas, que conversavam comigo. Ignoravam-te ali no plâteau dos sonhos, mas não é suposto ninguém estranhar nada por ali. Aliás poderíamos ter voado juntos para um ponto distante e indeterminado que ninguém desconfiaria da veracidade do nosso vôo.
Perguntaste-me se podias ficar por ali comigo, eu respondi que sim, algo indiferente, e continuei a conversar com as outras pessoas que por lá estavam. Passaste grande parte do sonho a olhar-me furtivamente, como se não fosse tua intenção que eu reparasse. Falhaste, bom, pelo menos ali no sonho, e eu reparei.
Por isso não sei se quando me levantei da cadeira se estava só a provocar-te para que me seguisses, se tinha mesmo que ir embora para outro sonho qualquer. Sei que, já longe da vista das pessoas que estavam comigo antes de chegares, me beijaste as pálpebras superiores, a ponta do nariz, o queixo, me pediste desculpa e me beijaste a boca com mais vontade do que nunca.
Acordei depressa, com medo de voltar a magoar-me.
"I have weird memories of you" ou at least I have something to cling to.
11.4.07
A propósito d' "Os Grandes Portugueses" e da grande palhaçada que foi a vitória de Salazar
Não ia sequer tocar no assunto por aqui até ler, este fim de semana, a opinião mais acertada que jáli sobre isso. É do historiador José Mattoso (recomendo a leitura de toda a entrevista na Única, revista do Expresso, dia 06.04.07). Citando:
"[o resultado] Revela a perpetuação da mediocridade. Salazar surge como uma espécie de Messias, uma personagem capaz de resolver os problemas. Não nos sentíamos bem, não era isto que esperávamos da democracia. Precisamos de um chefe novo, então escolhemos um messias. É a mesma reacção que tivemos durante o período filipino com a figura de D. Sebastião. Hoje as pessoas projectam no Estado Novo questões como segurança, estabilidade ou a resolução dos seus problemas, e encontram na figura de Salazar a salvação."
Fez-me lembrar o Pessoa e aquela que, das obras portuguesas que conheço , é aquela que melhor transmite o "ser português" - a Mensagem, claro, onde o Messias, o Encoberto, o D. Sebastião, nomes diferentes para a mesma personagem, para a mesma esperança, é profusamente referido.
Portugal vai estar continuamente à espera do seu Salvador e, enquanto ele não chega - nunca chegará -, estará enterrado no lodo onde, a pouco e pouco, vai submergindo até que já nada reste.
[Tenho dias em que sou mais patriótica que o Viriato Lusitano, outros assim, pessimista.]
Talvez isto também ajude a explicar o sucesso do Alberto João Jardim na minha ilha. Ele surge como o Salvador, o responsável maior pela autonomia madeirense, o grande promotor e fundador da "Madeira Nova" - a região "livre" (este "livre" dá azo a mais um post), tranquila (onde não se viveu a conturbada época pós- 25 de Abril como no Continente), próspera.
Os madeirenses têm o seu Messias no poder, porque hão-de eles escolher qualquer outro para o seu lugar?
"[o resultado] Revela a perpetuação da mediocridade. Salazar surge como uma espécie de Messias, uma personagem capaz de resolver os problemas. Não nos sentíamos bem, não era isto que esperávamos da democracia. Precisamos de um chefe novo, então escolhemos um messias. É a mesma reacção que tivemos durante o período filipino com a figura de D. Sebastião. Hoje as pessoas projectam no Estado Novo questões como segurança, estabilidade ou a resolução dos seus problemas, e encontram na figura de Salazar a salvação."
Fez-me lembrar o Pessoa e aquela que, das obras portuguesas que conheço , é aquela que melhor transmite o "ser português" - a Mensagem, claro, onde o Messias, o Encoberto, o D. Sebastião, nomes diferentes para a mesma personagem, para a mesma esperança, é profusamente referido.
Portugal vai estar continuamente à espera do seu Salvador e, enquanto ele não chega - nunca chegará -, estará enterrado no lodo onde, a pouco e pouco, vai submergindo até que já nada reste.
[Tenho dias em que sou mais patriótica que o Viriato Lusitano, outros assim, pessimista.]
Talvez isto também ajude a explicar o sucesso do Alberto João Jardim na minha ilha. Ele surge como o Salvador, o responsável maior pela autonomia madeirense, o grande promotor e fundador da "Madeira Nova" - a região "livre" (este "livre" dá azo a mais um post), tranquila (onde não se viveu a conturbada época pós- 25 de Abril como no Continente), próspera.
Os madeirenses têm o seu Messias no poder, porque hão-de eles escolher qualquer outro para o seu lugar?
8.4.07
Kimiko Yoshida :: “Tudo o que não seja eu”, mas sejamos todos nós
O corpo de Kimiko não é lascivo nem causa arrepios de prazer. É uma mulher de largos ossos, cujas mamas não resistiram aos efeitos do tempo e da gravidade. O rosto, porém, é harmonioso, com lábios carnudos, olhos finamente delineados, traços estereotipicamente japoneses. A primeira vista de olhos sobre a exposição, arrumada em dois andares, um deles disposto em mezzanine sobre o outro, é difuso e divide-se entre a atracção e a repulsa – a vontade, confesso, foi de ignorar a sobrecarga de retratos e seguir para a sala seguinte.
Mas há algo neles que nos prende. Mais que prender, envolve-nos: à segunda vista de olhos, estamos irremediavelmente atraídos por aquelas imagens aparentemente iguais, de mulheres parecidas (irmãs?), cujo rosto, pescoço e decote (por vezes seios) estão pintados de preto ou de branco contra um fundo respectivamente preto ou branco. O visitante desprevenido, que desconhece a arte com que acaba de se deparar – eu -, aproxima-se e lê as legendas, também elas muito parecidas umas com as outras “The Bride of ...” ou “The ... Bride”. A curiosidade aguça o espírito e o espírito aguça a curiosidade, e o corpo senta-se confortavelmente para que a curiosidade seja minimamente satisfeita com o vídeo The Birth of a Geisha: a própria Kimiko desnudada a usar um pincel largo para daí a uns minutos, muita tinta branca e algum batôn vermelho depois, tornar-se quase irreconhecível como geisha.
Não há vontade explícita de nos sentirmos desconfortáveis mas também não se procura oferecer conforto. O rosto, que é sempre da mesma pessoa – da própria Kimiko - torna-se menos importante naquela sucessão de fotos e o destaque vai para os acessórios e as máscaras, sempre diferentes entre eles, sempre com algo em comum: a sua utilização identifica a noiva que é encarnada na imagem. E há acessórios dos quatro cantos do mundo, aliás, houvesse mais cantos do mundo e eles também estariam ali representados. Representados não, vividos. Kimiko não está apenas a mostrar aquelas noivas, está a encarná-las. A própria di-lo: “chamam ao meu trabalho auto-retratos, mas a arte é encarnação e eu estou a encarnar personagens, não sou eu nos retratos que faço” (transcrição não literal de uma sua citação). Para além dos países, encontramos Kimiko usando máscaras que são idiossincrasias do nosso tempo, Mao Tsé- Tung, Picatchu, Mickey, também eles se transformam em noivas ou são, no mínimo, noivos. E há também uma sequência que é, pelo menos, alusiva ao Japão em que são usados andrajos, em oposição ao corpo nú ou tapado por uma burka que víramos até então, e o fundo é colorido. O fundo é também colorido na noiva que é a Estátua da Liberdade – é encarnado. Volta a ser negro na recordação/ homenagem a Picasso – na noiva que é Toureira e na noiva de Guernica, angustiada sob uma lâmpada negra (existirá luz negra?) e fotografada de perfil.
Ser praticamente abalroada pela crueza daquelas noivas, tão díspares e ainda assim tão unidas pelo propósito de um suposto matrimónio, fez-me questionar qual o verdadeiro peso de uma cultura, de uma identidade, de uma nação, questões para as quais não obtive respostas imediatas; não pude, no entanto, deixar de reconhecer-me em cada uma daquelas noivas, apesar de não constar do catálogo uma “The Portuguese Bride”, ali estamos, nós mulheres, nós humanidade, unidas pela agitação, pelo medo, pela repressão, pela juvenilidade, pela alegria, pela serenidade, pela graça, pelo amor.
A verdadeira intenção de Kimiko? Desconheço-a. A noiva, ou melhor, a Noiva é Kimiko e deixa de o ser para mostrar, com toques de humor e ironia e com uma enorme sensibilidade, que pode ser geisha ou negra, pode ser oprimida ou livre, pode ser antiga ou contemporânea, pode viver na guerra ou na paz. Uma noiva pode mesmo ser um homem. Feminismo ou feminilidade?
Os dois: um nunca sobreviverá sem o outro.
Kimiko Yoshida, no Centro de Arte Moderna Casa das Mudas (Calheta, Madeira):
“TUDO O QUE NÃO SEJA EU” [a solo show - retrospective exhibition] - de 16. Mar a 26. Ago de 2007
[Texto escrito a pedido do Entrelinhas.]
Mas há algo neles que nos prende. Mais que prender, envolve-nos: à segunda vista de olhos, estamos irremediavelmente atraídos por aquelas imagens aparentemente iguais, de mulheres parecidas (irmãs?), cujo rosto, pescoço e decote (por vezes seios) estão pintados de preto ou de branco contra um fundo respectivamente preto ou branco. O visitante desprevenido, que desconhece a arte com que acaba de se deparar – eu -, aproxima-se e lê as legendas, também elas muito parecidas umas com as outras “The Bride of ...” ou “The ... Bride”. A curiosidade aguça o espírito e o espírito aguça a curiosidade, e o corpo senta-se confortavelmente para que a curiosidade seja minimamente satisfeita com o vídeo The Birth of a Geisha: a própria Kimiko desnudada a usar um pincel largo para daí a uns minutos, muita tinta branca e algum batôn vermelho depois, tornar-se quase irreconhecível como geisha.
Não há vontade explícita de nos sentirmos desconfortáveis mas também não se procura oferecer conforto. O rosto, que é sempre da mesma pessoa – da própria Kimiko - torna-se menos importante naquela sucessão de fotos e o destaque vai para os acessórios e as máscaras, sempre diferentes entre eles, sempre com algo em comum: a sua utilização identifica a noiva que é encarnada na imagem. E há acessórios dos quatro cantos do mundo, aliás, houvesse mais cantos do mundo e eles também estariam ali representados. Representados não, vividos. Kimiko não está apenas a mostrar aquelas noivas, está a encarná-las. A própria di-lo: “chamam ao meu trabalho auto-retratos, mas a arte é encarnação e eu estou a encarnar personagens, não sou eu nos retratos que faço” (transcrição não literal de uma sua citação). Para além dos países, encontramos Kimiko usando máscaras que são idiossincrasias do nosso tempo, Mao Tsé- Tung, Picatchu, Mickey, também eles se transformam em noivas ou são, no mínimo, noivos. E há também uma sequência que é, pelo menos, alusiva ao Japão em que são usados andrajos, em oposição ao corpo nú ou tapado por uma burka que víramos até então, e o fundo é colorido. O fundo é também colorido na noiva que é a Estátua da Liberdade – é encarnado. Volta a ser negro na recordação/ homenagem a Picasso – na noiva que é Toureira e na noiva de Guernica, angustiada sob uma lâmpada negra (existirá luz negra?) e fotografada de perfil.
Ser praticamente abalroada pela crueza daquelas noivas, tão díspares e ainda assim tão unidas pelo propósito de um suposto matrimónio, fez-me questionar qual o verdadeiro peso de uma cultura, de uma identidade, de uma nação, questões para as quais não obtive respostas imediatas; não pude, no entanto, deixar de reconhecer-me em cada uma daquelas noivas, apesar de não constar do catálogo uma “The Portuguese Bride”, ali estamos, nós mulheres, nós humanidade, unidas pela agitação, pelo medo, pela repressão, pela juvenilidade, pela alegria, pela serenidade, pela graça, pelo amor.
A verdadeira intenção de Kimiko? Desconheço-a. A noiva, ou melhor, a Noiva é Kimiko e deixa de o ser para mostrar, com toques de humor e ironia e com uma enorme sensibilidade, que pode ser geisha ou negra, pode ser oprimida ou livre, pode ser antiga ou contemporânea, pode viver na guerra ou na paz. Uma noiva pode mesmo ser um homem. Feminismo ou feminilidade?
Os dois: um nunca sobreviverá sem o outro.
Kimiko Yoshida, no Centro de Arte Moderna Casa das Mudas (Calheta, Madeira):
“TUDO O QUE NÃO SEJA EU” [a solo show - retrospective exhibition] - de 16. Mar a 26. Ago de 2007
[Texto escrito a pedido do Entrelinhas.]
2.4.07
Someone great
Não sei porque é que gosto tanto do O.C. : a música (lembro-me bem do episódio da primeira época em que dava a Float On dos Modest Mouse quando a Marissa estava em casa da Theresa, a banda preferida do Seth Cohen serem os Death Cab for Cutie, os Beastie Boys terem escolhido lançar o Ch-Check it out no episódio passado em Las Vegas, entre tantas outras bandas e tantas outras canções), a Mischa Barton, por ser a desequilibrada de quem se é incapaz de não se sentir ternura e por ser tão incrivelmente bonita e por usar roupas Marc Jacobs e clutches da Chanel como mais nenhuma miúda nascida em '87 (ou mesmo antes), o Seth Cohen, a personagem mais namorado perfeito da história da televisão com as suas parvoíces, o sarcasmo doce, a maneira esquisita de enrolar as palavras, o interesse desmesurado em BD e vela, o cavalinho de plástico, a indiezice, as camisolas às riscas.Não faço ideia porque gosto tanto do O.C. quando a verdade é que gosto, que vejo (e revejo) com todo o prazer os episódios em que a trama se adensa e o drama se intens[ific]a, e os momentos violentos são descontraídos por piadas, algum humor negro ("It's too early for that, even for a Cohen") e trocadilhos com palavras.
A Marissa morreu no último episódio da terceira época, nos braços do homem da vida dela, o Ryan. Na quarta época, agora a ser transmitida na Fox (long live Fox!), as personagens Ryan, Julie e Summer (sobretudo) aprendem a melhor forma para lidar com o luto pela perda de: a mulher da vida dele, a filha e a melhor amiga de sempre, respectivamente. Enquanto isso, na vida real, os produtores tiveram que aprender a melhor forma para lidar com o insucesso televisivo de um O.C. sem Marissa: encurtaram a série para 16 episódios, em vez dos tradicionais 25 ou 26. Ou isso ou o formato esgotou-se, hipótese com grande probabilidade de ser a correcta.
O episódio de hoje contou com a Black Swan do Thom Yorke e foi isso que me motivou a vir aqui, a esta hora da madrugada, escrever sobre o O.C.. The Eraser é o segundo melhor disco de 2006 em 2007 (o primeiro foi o Be He Me dos Annuals, cujo texto está prometido e surgirá em breve). O ano passado não tive paciência herética de ir ouvir a voz arrastada do Camões inglês, mas quando ouvi a Analyse nos créditos finais do The Prestige (é uma coisa muito dvd-like dizer créditos finais e é pior ainda escrevê-lo), percebi que aquele ficheiro zip ia servir para alguma coisa. Belíssimo álbum.
A Summer hoje confessou que, por ter que lidar com a morte da Marissa, não estava a conseguir amar o Seth. Já ouvi desculpas piores, portanto acredito nela: ela tem que lidar com aquilo sozinha. Ela perdeu a pessoa que está com ela desde criança e, provavelmente, quando a Marissa morreu a Summer perdeu parte de si. E com isso de perder parte de si estou eu familiarizada.
Ter que se levantar e erguer imediatamente quando nos cortaram os pés e nos partiram os joelhos é impossível. Não há ses, é realmente impossível e não acontece. O processo é mais longo do que isso e exige manter-se deitada, enrolada sobre si mesma, durante o tempo que levar o crescimento de novos pés e a consolidação das peças dos joelhos. Quando os membros estão finalmente recompostos, ter que pôr-se de pé e voltar a andar são reaquisições igualmente morosas e sacrificantes. Nesta fase, a fragilidade é tal que qualquer movimento brusco, impensado ou imprevisto nos faz regressar exactamente ao ponto inicial. Tudo isto leva o seu tempo e envolve muito medo. Um medo aterrador que surge a qualquer momento, perante qualquer situação. Um medo incapacitante, o mesmo que, mais tarde, impede que se salte e se mergulhe e faz com que se viva na obscuridade, no receio de voltar a perder os pés (em última análise, voltar a perder as asas).
O medo co-habita com a saudade. Não sei qual deles é mais nociceptivo para as vísceras. Para vos ser sincera, não tenho a certeza se isto de olhar à volta e perceber que pessoa X estaria completamente enquadrada em determinado contexto era realmente saudade, se era apenas teimosia. E como doeu a teimosia! Como doeu andar por Lisboa a dar com a cabeça nas paredes por cada burrice que cometia, completamente centrada em mim própria. Em mim e na minha estupidez.
What are the options when someone great is gone?
As opções não são opções. Não há opções de qualquer espécie, porque só há uma saída, diametralmente oposta à espiral de medo/saudade/teimosia/angústia em que se entrou. A saída é exactamente sair pela porta em que se entrou (e isto colocado desta forma parece a coisa mais óbvia e simples do mundo, mais-epá-és-burra-por-não-te-teres-afastado-antes). Só que essa saída é um desmame, é gradual e vai acontecendo. Um dia damos por nós e puf! fez-se o Chocapic e somos nós outra vez, mas com uma grande, uma enorme cicatriz no ventrículo esquerdo.
When someone great is gone. We're safe for the moment. Saved for the moment.
O James Murphy é genial e o Sound of Silver é melhor que o anterior e é melhor que aquela yeah yeah yeah yeah (a melhor música do disco ausente do alinhamento desse disco de sempre). E discos dos LCD fazem falta a todos os anos, sobretudo os ímpares (só porque me apetece, espero que compreendam, ainda estou um pouco zonza da espiral de onde saí).
2007 já é um bom ano porque existe o Sound of Silver, a Someone great, a Get innocuous e a All my friends. Tornou-se ainda melhor (ia falar disto noutro post, mas que se lixe, já que vou lançada aqui vai) porque o Johnny Marr juntou-se aos Modest Mouse para o We were dead before the ship even sank, o novo álbum dos MM. Eu explico: o guitarrista responsável pela forma como soavam os Smiths (e a prova disso é o Morrissey nunca ter soado da mesma forma a solo)- e, sem receios porque até na rádio já o disse, os Smiths são a minha banda sobre todas as bandas - juntou-se a uma das minhas bandas indie preferidas.
O Rodrigo (outro feliz com a contratação da época pelos MM) disse que já ninguém vê o O.C. em 2007. Nunca percebi porque gosto tanto do O.C., mas na verdade passa por lá tudo o que gosto. Até lá estou eu, se bem que disfarçada. E eu gosto muito de mim, como já deu para ver.
A Marissa morreu no último episódio da terceira época, nos braços do homem da vida dela, o Ryan. Na quarta época, agora a ser transmitida na Fox (long live Fox!), as personagens Ryan, Julie e Summer (sobretudo) aprendem a melhor forma para lidar com o luto pela perda de: a mulher da vida dele, a filha e a melhor amiga de sempre, respectivamente. Enquanto isso, na vida real, os produtores tiveram que aprender a melhor forma para lidar com o insucesso televisivo de um O.C. sem Marissa: encurtaram a série para 16 episódios, em vez dos tradicionais 25 ou 26. Ou isso ou o formato esgotou-se, hipótese com grande probabilidade de ser a correcta.
O episódio de hoje contou com a Black Swan do Thom Yorke e foi isso que me motivou a vir aqui, a esta hora da madrugada, escrever sobre o O.C.. The Eraser é o segundo melhor disco de 2006 em 2007 (o primeiro foi o Be He Me dos Annuals, cujo texto está prometido e surgirá em breve). O ano passado não tive paciência herética de ir ouvir a voz arrastada do Camões inglês, mas quando ouvi a Analyse nos créditos finais do The Prestige (é uma coisa muito dvd-like dizer créditos finais e é pior ainda escrevê-lo), percebi que aquele ficheiro zip ia servir para alguma coisa. Belíssimo álbum.
A Summer hoje confessou que, por ter que lidar com a morte da Marissa, não estava a conseguir amar o Seth. Já ouvi desculpas piores, portanto acredito nela: ela tem que lidar com aquilo sozinha. Ela perdeu a pessoa que está com ela desde criança e, provavelmente, quando a Marissa morreu a Summer perdeu parte de si. E com isso de perder parte de si estou eu familiarizada.
Ter que se levantar e erguer imediatamente quando nos cortaram os pés e nos partiram os joelhos é impossível. Não há ses, é realmente impossível e não acontece. O processo é mais longo do que isso e exige manter-se deitada, enrolada sobre si mesma, durante o tempo que levar o crescimento de novos pés e a consolidação das peças dos joelhos. Quando os membros estão finalmente recompostos, ter que pôr-se de pé e voltar a andar são reaquisições igualmente morosas e sacrificantes. Nesta fase, a fragilidade é tal que qualquer movimento brusco, impensado ou imprevisto nos faz regressar exactamente ao ponto inicial. Tudo isto leva o seu tempo e envolve muito medo. Um medo aterrador que surge a qualquer momento, perante qualquer situação. Um medo incapacitante, o mesmo que, mais tarde, impede que se salte e se mergulhe e faz com que se viva na obscuridade, no receio de voltar a perder os pés (em última análise, voltar a perder as asas).
O medo co-habita com a saudade. Não sei qual deles é mais nociceptivo para as vísceras. Para vos ser sincera, não tenho a certeza se isto de olhar à volta e perceber que pessoa X estaria completamente enquadrada em determinado contexto era realmente saudade, se era apenas teimosia. E como doeu a teimosia! Como doeu andar por Lisboa a dar com a cabeça nas paredes por cada burrice que cometia, completamente centrada em mim própria. Em mim e na minha estupidez.
What are the options when someone great is gone?
As opções não são opções. Não há opções de qualquer espécie, porque só há uma saída, diametralmente oposta à espiral de medo/saudade/teimosia/angústia em que se entrou. A saída é exactamente sair pela porta em que se entrou (e isto colocado desta forma parece a coisa mais óbvia e simples do mundo, mais-epá-és-burra-por-não-te-teres-afastado-antes). Só que essa saída é um desmame, é gradual e vai acontecendo. Um dia damos por nós e puf! fez-se o Chocapic e somos nós outra vez, mas com uma grande, uma enorme cicatriz no ventrículo esquerdo.
When someone great is gone. We're safe for the moment. Saved for the moment.
O James Murphy é genial e o Sound of Silver é melhor que o anterior e é melhor que aquela yeah yeah yeah yeah (a melhor música do disco ausente do alinhamento desse disco de sempre). E discos dos LCD fazem falta a todos os anos, sobretudo os ímpares (só porque me apetece, espero que compreendam, ainda estou um pouco zonza da espiral de onde saí).
2007 já é um bom ano porque existe o Sound of Silver, a Someone great, a Get innocuous e a All my friends. Tornou-se ainda melhor (ia falar disto noutro post, mas que se lixe, já que vou lançada aqui vai) porque o Johnny Marr juntou-se aos Modest Mouse para o We were dead before the ship even sank, o novo álbum dos MM. Eu explico: o guitarrista responsável pela forma como soavam os Smiths (e a prova disso é o Morrissey nunca ter soado da mesma forma a solo)- e, sem receios porque até na rádio já o disse, os Smiths são a minha banda sobre todas as bandas - juntou-se a uma das minhas bandas indie preferidas.
O Rodrigo (outro feliz com a contratação da época pelos MM) disse que já ninguém vê o O.C. em 2007. Nunca percebi porque gosto tanto do O.C., mas na verdade passa por lá tudo o que gosto. Até lá estou eu, se bem que disfarçada. E eu gosto muito de mim, como já deu para ver.
30.3.07
Mazzy Star
Para J.B.
A tarde desceu sobre o bairro (bem frequentado e habitado, em Lisboa) como uma cortina para morrer nos braços das suas ruas inclinadas. Desceu sem se dar por isso, enquanto os dois dançavam, de olhos postos no chão por timidez. E porque dançavam e porque ouviam os discos que ela não conhecia (e passava a gostar) e porque ele redescobria aquelas canções nos olhos dela (e nas suas costas, confessaria ele mais tarde), deixaram-se ficar, cada um virado para si mesmo tentando acreditar no outro.
Conversou-se de tudo. Fez-lhes falta um telescópio que lhes confirmasse a beleza da lua que, naquela noite, se fazia clara. Ela foi-se expandindo naquela casa, acomodando-se ao sofá e ao tapete, ampliando o espaço que ocupava.
Ela gostava de conhecer aqueles discos todos. Conhecê-los como ele, cantá-los e seguir-lhes os ritmos, antecipar-lhes as inflexões e as ternuras.
Hoje ela ouve Sparks
This town ain't big enough for the both of us
(...)
Heartbeat, increasing heartbeat,
não sabe se ele gosta dos Sparks e não sabe se isso lhe interessa.
Naquele dia despediram-se ao som de Mazzy Star. So tonight that I might see. O olhar perigosamente cúmplice e fundente, as mãos cruzadas uma na outra com medo de se agarrarem, os lábios mordendo-se (e a língua que os humedecia, nervosa). Talvez esta noite eu visse dois seres banhados pela lua se intersectarem, deixando a vida correr na rua, por ela abaixo até ao rio.
Não se chegariam a beijar à luz de nenhuma ciência ou estrela. Nunca se chegariam a beijar apesar de tão próximos.
Fade into you. Talvez noutra noite, noutra rua, noutra vida, ela deixasse de ser a ela que o olhava e ele fosse sempre ele, e ela fosse ele e ele fosse ela.
A ouvir, Mazzy Star :: Fade into you
28.3.07
A Primavera
Apercebo-me que não escrevo há muito, há demasiado tempo. Que diferença, supõem vocês, existe entre o demasiado e o muito? Ponho-me a pensar nisso, penso nisso e noutras coisas. Há tantos poucos que são demasiados.
O pouco sabe sempre a pouco, por muitas voltas que o mundo dê. O muito nem sempre é demasiado, aliás às vezes o muito não chega a ser suficiente, quanto mais ser acima da conta.
Penso nestas parvoíces. Penso na Primavera e na palermice que é toda a gente dizer é da Primavera quando alguém diz que está apaixonado. Desde que já tenha passado o dia 21 de Março, é da Primavera.
É da Primavera. penso eu, para me convencer. Se for só da Primavera, chega-se ao dia 21 de Junho e passa, acaba, finito, over. Não me parece, portanto párem lá com essa desculpa idiota da Primavera.
Da Primavera ou não, há qualquer coisa diferente no ar. Sim, brilha o sol, regressam as andorinhas, as flores desabrocham, os passarinhos fazem os ninhos e as árvores ganham novas e verdejantes roupagens. Sim, na Primavera há isso tudo, mas isso já escrevíamos nós nas redacções da quarta classe.
(Redacções essas que invariavelmente acabam com Eu gosto muito da Primavera.)
Do que eu mais gosto da Primavera é da surpresa diária. Bom, eu gosto de ser surpreendida todos os dias, em qualquer estação do ano, mas a Primavera é, de todas as estações, a que tem doutoramento em surpresa. Ora é uma árvore que recuperou a sua folhagem, ora é um novo ninho, ora um casal de passarinhos que namoram, ora um canteiro florido. Isto do canteiro florido é uma forma bem parva de reduzir aquilo que mais gosto na Primavera a um canteiro florido: como é bom olhar para os cantos da cidade que nos rodeia ou ir passear de carro por estradas recônditas e descobrir as flores e deliciar-se com a forma como ocupam o seu espaço, às vezes um quadrado de terra, às vezes os ramos de árvores ou arbustos, às vezes muros de quintais. Comover-se com a organização irrepreensível das cores, as amarelas, as brancas, as rosas, as liláses.
Ah, como eu gosto da Primavera.
(Peço desculpa se não estou deprimente/ deprimida mas a vida não me tem dado razões para isso, muito pelo contrário. Aliás, acho que escrevo pior quando estou assim mais tranquila. É no que dá escrever para expulsar fantasmas.)
O pouco sabe sempre a pouco, por muitas voltas que o mundo dê. O muito nem sempre é demasiado, aliás às vezes o muito não chega a ser suficiente, quanto mais ser acima da conta.
Penso nestas parvoíces. Penso na Primavera e na palermice que é toda a gente dizer é da Primavera quando alguém diz que está apaixonado. Desde que já tenha passado o dia 21 de Março, é da Primavera.
É da Primavera. penso eu, para me convencer. Se for só da Primavera, chega-se ao dia 21 de Junho e passa, acaba, finito, over. Não me parece, portanto párem lá com essa desculpa idiota da Primavera.
Da Primavera ou não, há qualquer coisa diferente no ar. Sim, brilha o sol, regressam as andorinhas, as flores desabrocham, os passarinhos fazem os ninhos e as árvores ganham novas e verdejantes roupagens. Sim, na Primavera há isso tudo, mas isso já escrevíamos nós nas redacções da quarta classe.
(Redacções essas que invariavelmente acabam com Eu gosto muito da Primavera.)
Do que eu mais gosto da Primavera é da surpresa diária. Bom, eu gosto de ser surpreendida todos os dias, em qualquer estação do ano, mas a Primavera é, de todas as estações, a que tem doutoramento em surpresa. Ora é uma árvore que recuperou a sua folhagem, ora é um novo ninho, ora um casal de passarinhos que namoram, ora um canteiro florido. Isto do canteiro florido é uma forma bem parva de reduzir aquilo que mais gosto na Primavera a um canteiro florido: como é bom olhar para os cantos da cidade que nos rodeia ou ir passear de carro por estradas recônditas e descobrir as flores e deliciar-se com a forma como ocupam o seu espaço, às vezes um quadrado de terra, às vezes os ramos de árvores ou arbustos, às vezes muros de quintais. Comover-se com a organização irrepreensível das cores, as amarelas, as brancas, as rosas, as liláses.
Ah, como eu gosto da Primavera.
(Peço desculpa se não estou deprimente/ deprimida mas a vida não me tem dado razões para isso, muito pelo contrário. Aliás, acho que escrevo pior quando estou assim mais tranquila. É no que dá escrever para expulsar fantasmas.)
23.3.07
As canções da minha vida IV
Harry Nilsson :: The Moonbeam Song
Have you ever watched a moonbeam
As it slid across your windowpane
Or struggled with a bit of rain
Or danced about the weathervane
Or sat along a moving train
And wondered where the train has been
Or on a fence with bits of crap
Around its bottom
Blown there by a windbeam
Who searches for the moonbeam
Who was last seen
looking at the tracks
Of the careless windbeam
Or moving to the clacks
Of the tireless freight train
And lighting up the sides
Of the weathervane
And the bits of rain
And the windowpane
And the eyes of those
Who think they saw what happened...
Have you ever watched a moonbeam
As it slid across your windowpane
Or struggled with a bit of rain
Or danced about the weathervane
Or sat along a moving train
And wonder where the train has been?
Looking at the tracks
Of the careless windbeam
Or moving to the clacks
Of the tireless freight train
And lighting up the sides
Of the weathervane
And the bits of rain
And the windowpane
And the eyes of those
Who think they saw what happened?
"Esta é a última de hoje. O critério tem sido escolher aquelas que me vêm à cabeça imediatamente, sem pensar muito. Ou mesmo sem pensar nada. Todas estas são músicas que me enchem o coração. Hoje só me lembrei de oldies e, a continuar com este exercício, provavelmente mais canções pré-anos oitenta (isto é, pré-o meu nascimento) terão aqui o seu lugar. Que isto não vos aborreça de morte é o meu único desejo (bom, e já agora que sirva para alguns "ah!oh!" de exclamação, porque são canções letalmente bonitas. A forma como me esmagam devia levar a prisão perpétua. Ou não, ou não.) E, já devem saber, se clicarem nesta frase podem ouvir a mais bonita canção alguma vez escrita sobre o luar."
Have you ever watched a moonbeam
As it slid across your windowpane
Or struggled with a bit of rain
Or danced about the weathervane
Or sat along a moving train
And wondered where the train has been
Or on a fence with bits of crap
Around its bottom
Blown there by a windbeam
Who searches for the moonbeam
Who was last seen
looking at the tracks
Of the careless windbeam
Or moving to the clacks
Of the tireless freight train
And lighting up the sides
Of the weathervane
And the bits of rain
And the windowpane
And the eyes of those
Who think they saw what happened...
Have you ever watched a moonbeam
As it slid across your windowpane
Or struggled with a bit of rain
Or danced about the weathervane
Or sat along a moving train
And wonder where the train has been?
Looking at the tracks
Of the careless windbeam
Or moving to the clacks
Of the tireless freight train
And lighting up the sides
Of the weathervane
And the bits of rain
And the windowpane
And the eyes of those
Who think they saw what happened?
"Esta é a última de hoje. O critério tem sido escolher aquelas que me vêm à cabeça imediatamente, sem pensar muito. Ou mesmo sem pensar nada. Todas estas são músicas que me enchem o coração. Hoje só me lembrei de oldies e, a continuar com este exercício, provavelmente mais canções pré-anos oitenta (isto é, pré-o meu nascimento) terão aqui o seu lugar. Que isto não vos aborreça de morte é o meu único desejo (bom, e já agora que sirva para alguns "ah!oh!" de exclamação, porque são canções letalmente bonitas. A forma como me esmagam devia levar a prisão perpétua. Ou não, ou não.) E, já devem saber, se clicarem nesta frase podem ouvir a mais bonita canção alguma vez escrita sobre o luar."
(Mais uma d') As canções da minha vida III
Curtis Mayfield :: Move on up
Hush now child,
and don't you cry
Your folks might understand you
by and by
Just move on up
towards your destination
Though you may find
from time to time
A complication
Bite your lip
and take a trip
Though there may be
wet road ahead
You cannot slip
So move on up
and peace you will find
Into the steeple
of beautiful people
Where there's only one kind
So hush now child
and don't you cry
Your folks might understand you
by and by
Move on up
and keep on wishing
Remember your dreams
are your only scheme
So keep on pushing.
Take nothing less -
not even second best
And do not obey -
you must have your say
You can past the test
MOVE ON UP!
"Há lá música mais uplifting do que esta? Não há, meu Deus. Música para ser feliz, mesmo quando o tempo ou a vida estão chuvosos. O sol também pode brilhar na vossa vida, ao clicar nesta frase, claro. Música para dançar, para fechar os olhos, para sorrir por dentro e por fora, música para amar e ser amado. Viva o Curtis Mayfield, é o maior."
Hush now child,
and don't you cry
Your folks might understand you
by and by
Just move on up
towards your destination
Though you may find
from time to time
A complication
Bite your lip
and take a trip
Though there may be
wet road ahead
You cannot slip
So move on up
and peace you will find
Into the steeple
of beautiful people
Where there's only one kind
So hush now child
and don't you cry
Your folks might understand you
by and by
Move on up
and keep on wishing
Remember your dreams
are your only scheme
So keep on pushing.
Take nothing less -
not even second best
And do not obey -
you must have your say
You can past the test
MOVE ON UP!
"Há lá música mais uplifting do que esta? Não há, meu Deus. Música para ser feliz, mesmo quando o tempo ou a vida estão chuvosos. O sol também pode brilhar na vossa vida, ao clicar nesta frase, claro. Música para dançar, para fechar os olhos, para sorrir por dentro e por fora, música para amar e ser amado. Viva o Curtis Mayfield, é o maior."
As canções da minha vida II
Billie Holiday :: Blue Moon
Blue moon,
you saw me standing alone
without a dream in my heart
without a love of my own.
Blue moon,
you knew just what I was there for
you heard me saying a prayer for
someone I really could care for.
And then there suddenly appeared before me,
the only one my arms will ever hold
I heard somebody whisper, "Please adore me."
and when I looked,
the moon had turned to gold.
Blue moon,
now I'm no longer alone
without a dream in my heart
without a love of my own.
"Espero que estejam a gostar desta tontice. Esta miúda é egocêntrica p'ra caramba, não é? De qualquer maneira, é aqui que devem clicar para ouvir a canção. Já desconfiavam, não? Pois."
Blue moon,
you saw me standing alone
without a dream in my heart
without a love of my own.
Blue moon,
you knew just what I was there for
you heard me saying a prayer for
someone I really could care for.
And then there suddenly appeared before me,
the only one my arms will ever hold
I heard somebody whisper, "Please adore me."
and when I looked,
the moon had turned to gold.
Blue moon,
now I'm no longer alone
without a dream in my heart
without a love of my own.
"Espero que estejam a gostar desta tontice. Esta miúda é egocêntrica p'ra caramba, não é? De qualquer maneira, é aqui que devem clicar para ouvir a canção. Já desconfiavam, não? Pois."
As canções da minha vida I
Al Green :: Let's stay together
I, I'm so in love with you
Whatever you want to do
Is all right with me
'Cause you make me feel so brand new
And I want to spend my life with you
They say since, since we've been together
Loving you forever
Is what I need
Let me be the one you come running to
I'll never be untrue
Let's, let's stay together
Lovin' you whether, whether
Times are good or bad, happy or sad
Whether times are good or bad, happy or sad
Why, why some people break up
Then turn around and make up
I just can't see
You'd never do that to me (would you, baby)
Staying around you is all I see
(Here's what I want us to do)
Let's, we oughta stay together
Loving you whether, whether
Times are good or bad, happy or sad
"Olá, é nesta frase que devem clicar para ouvir uma das músicas da vida da Joana."
I, I'm so in love with you
Whatever you want to do
Is all right with me
'Cause you make me feel so brand new
And I want to spend my life with you
They say since, since we've been together
Loving you forever
Is what I need
Let me be the one you come running to
I'll never be untrue
Let's, let's stay together
Lovin' you whether, whether
Times are good or bad, happy or sad
Whether times are good or bad, happy or sad
Why, why some people break up
Then turn around and make up
I just can't see
You'd never do that to me (would you, baby)
Staying around you is all I see
(Here's what I want us to do)
Let's, we oughta stay together
Loving you whether, whether
Times are good or bad, happy or sad
"Olá, é nesta frase que devem clicar para ouvir uma das músicas da vida da Joana."
O ciclo: "As canções da minha vida"
Não pretendo, de maneira nenhuma, mostrar-vos novidades musicais. Aposto até que as canções que aqui vos vou dar acesso já as conhecem de cor e salteado. Muitas delas fazem parte de bandas-sonoras de filmes, no entanto o importante aqui é que fazem parte da banda sonora da minha vida.
Posso ouvi-las repetidamente durante um dia inteiro (já aconteceu, por dias a fio, com todas elas) que não me saturam nem nunca deixam de fazer sentido (como a palavra que se repete tanta vez que a certa altura perde qualquer significado). Estas canções não. Ouvi-las-ei para sempre. Aninhar-me-ei nelas para sempre também.
À falta de ideia para posts bonitos, ficam com algumas das canções mais bonitas deste mundo e do outro (para citar uma pessoa muito muito especial).
(E a palavra "canções" e "canção" tão em desuso, quando é uma palavra tão cheia de sabor?)
Posso ouvi-las repetidamente durante um dia inteiro (já aconteceu, por dias a fio, com todas elas) que não me saturam nem nunca deixam de fazer sentido (como a palavra que se repete tanta vez que a certa altura perde qualquer significado). Estas canções não. Ouvi-las-ei para sempre. Aninhar-me-ei nelas para sempre também.
À falta de ideia para posts bonitos, ficam com algumas das canções mais bonitas deste mundo e do outro (para citar uma pessoa muito muito especial).
(E a palavra "canções" e "canção" tão em desuso, quando é uma palavra tão cheia de sabor?)
21.3.07
Here it comes: a better version of me
I am likely to miss the main event
If I stop to cry or complain again
So I will keep a deliberate pace
Let the damned breeze dry my face
Oh, mister, wait until you see
What I'm gonna be
I've got a plan, a demand and it just began
And if you're right, you'll agree
Here's coming a better version of me.
Here it comes a better version of me.
Fiona Apple
É o futuro, Fiona, e estende-se à nossa frente.
If I stop to cry or complain again
So I will keep a deliberate pace
Let the damned breeze dry my face
Oh, mister, wait until you see
What I'm gonna be
I've got a plan, a demand and it just began
And if you're right, you'll agree
Here's coming a better version of me.
Here it comes a better version of me.
Fiona Apple
É o futuro, Fiona, e estende-se à nossa frente.
18.3.07
Missa dominical
Le Tigre :: Deceptacon
The Streets :: Let's Push Things Forward
The Streets :: Don't Mug Yourself
(isto é, o Original Pirate Material do Skinner: papei-o todo hoje)
Aretha Franklin :: Respect
(que é como quem diz, o disco 2 da compilação Atlantic Gold)
*vénia*
16.3.07
Afinal há uma coisa pior que Céline Dion
E essa coisa é Céline Dion em canto gregoriano enquanto se faz [nos fazem] a depilação.
Joana, em directo para o Fórum Sons
Enquanto ouvia pela primeira vez o novo disco dos Arcade Fire, teci umas considerações acerca do que ia ouvindo no Fórum Sons. Não quero que o texto se perca, portanto aqui fica para mim e para os eventuais interessados. [e assim o blogue sempre é actualizado.]

Arcade Fire :: Neon Bible
"A minha 1ª audição do Neon Bible, em directo para o Forum Sons:
Black Mirror:
começa baixinho e espera-se uma explosão (sim à Funeral), mas a canção mantém-se assim baixinho. Ouve-se de novo a ver se se nos escapou alguma coisa. Afinal a canção tem uma certa raiva contida que a valoriza e as cordas trazem não a explosão mas o libertar suave da raiva.
Keep the car running:
gosto muito, gente. classe. dançável e ao mesmo tempo introspectiva (how they do it, i don't know).
Palminhas, não posso ouvir canções com palminhas que gosto logo.
Neon Bible:
não gostei muito. O início promete mas a canção fica aquém daquilo que o seu início promete. Esta canção mais trabalhada seria um tesourinho. Se calhar, daqui a três horas vou gostar da sua simplicidade, quem sabe?
Ou se calhar não preciso de duas horas, melhorou um pouco ao meu ouvido agora mesmo. Mas acho o refrão um bocado pateta "neon bible" vezes mil torna-se quase enfadonho de tão repetitivo. Adiante.
Intervention:
esta não vale. Gosto muito desta desde que a ouvi há algum tempo. Épica, sim. Doce, sim. Quando ouvia, não percebia porque havia tanta gente a dizer mal do disco. Isto é arcade fire vintage.
Black Wave / Bad vibrations:
também já tinha ouvido. gosto da progressão desta canção, de como começa de alguma forma sorridente (a voz feminina ajuda, claro) e de como se torna tão rica, um lamento em forma de orquestração intensa. gosto.
Ocean of Noise:
é aqui que está a maior referência ao bruce springsteen, certo? [devo avisar que já me tinha esquecido da discussão do antigo forum e quando pensei "elá isto parece springsteen" é que me lembrei do aceso debate.] esta música é uma pausa no disco, mas não a acho minimamente extraordinária. digam-me que esta faixa só está para encher chouriços, digam-me que os próprios arcade fire o disseram. por favor, digam.
The well and the lighthouse:
Ah aqui estão eles de volta (acho que uns ETs tomaram o lugar deles quando estavam a gravar a Ocean of Noise). Mas esperem lá, isto agora está mais chatinho, este final. A partir dos 2 minutos e picos de canção, isto fica arrastado, parece que mais valia ter acabado ali. chega.
Antichrist blues television:
Punham umas palminhas aqui e eu destava aos pulos, só para gastar a energia final desta semana. por um lado, ainda bem que não tem palmas, que o fim de semana vai ser daqueles. mas gosto desta canção, é electrizante. e sempre posso bater eu as palminhas, para ficar ainda melhor. "now i'm overcome"
ENA GOSTO MESMO DESTA MÚSICA, BOA P'RA MIM! : ) AFINAL TEM PALMAS, ESTA CENA. PORRA! A MELHOR CANÇÃO ATÉ AGORA. como é que é possível que ainda ninguém tenha falado nesta canção? Foda-se, linda, linda. <3
Windowswill:
esta também é extremamente bonita. Pungente e desolada. Gosto muito.
(Guardaram o melhor para o fim?)
No cars go:
oiço agora a melhor canção do disco, não é o que dizem? está a começar. olha afinal também já a tinha ouvido. parece que sim, que as melhores faixas ficaram para o fim. esta é linda. de repente pareceu-me go! team, mas só durante uns segundos - deve ter sido ali um HEY! qualquer. depois, torna-se uma canção em que os arcade fire vão directos ao assunto e deixam-se de tretas.
[é que até agora, ainda não disse, tenho achado que eles andam à roda das canções, como quando se espreme uma laranja e depois quando já não há polpa, ainda se gira o pobre citrino para ver se o sumo dura. parece que querem fazer render o peixe.]
mas nesta faixa não, todos os instantes são necessários e igualmente bonitos. e o crescendo final, arrepiante.
my body is a cage: esta faixa = rubor[= joanamaria, uma querida que conheci através do forum], estava desejosa de ouvir por causa do tdi que ela lhe fez. o que se calhar foi mau, porque criei expectativas e não estava à espera que a faixa fosse assim. acho que até já tinha musicado alguns versos, depois de ter lido o tdi.
de qualquer forma, há uma coordenação muito boa com a letra e a canção, dolente. c'um raio, o corpo dele é uma gaiola que o impede de dançar com quem ele ama. isso deve ser horrível.
Conclusão: estão aqui uns Arcade Fire que não estavam no Funeral, seja isso bom ou mau.
Nota: de A a Z, um P.
Melhores faixas do disco, para mim: no cars go, black wave/bad vibrations, antichrist blues television e intervention.
Feels [eu], em directo de Lisboa, a ouvir o Neon Bible.
*fim de emissão*"
Arcade Fire :: Neon Bible
"A minha 1ª audição do Neon Bible, em directo para o Forum Sons:
Black Mirror:
começa baixinho e espera-se uma explosão (sim à Funeral), mas a canção mantém-se assim baixinho. Ouve-se de novo a ver se se nos escapou alguma coisa. Afinal a canção tem uma certa raiva contida que a valoriza e as cordas trazem não a explosão mas o libertar suave da raiva.
Keep the car running:
gosto muito, gente. classe. dançável e ao mesmo tempo introspectiva (how they do it, i don't know).
Palminhas, não posso ouvir canções com palminhas que gosto logo.
Neon Bible:
não gostei muito. O início promete mas a canção fica aquém daquilo que o seu início promete. Esta canção mais trabalhada seria um tesourinho. Se calhar, daqui a três horas vou gostar da sua simplicidade, quem sabe?
Ou se calhar não preciso de duas horas, melhorou um pouco ao meu ouvido agora mesmo. Mas acho o refrão um bocado pateta "neon bible" vezes mil torna-se quase enfadonho de tão repetitivo. Adiante.
Intervention:
esta não vale. Gosto muito desta desde que a ouvi há algum tempo. Épica, sim. Doce, sim. Quando ouvia, não percebia porque havia tanta gente a dizer mal do disco. Isto é arcade fire vintage.
Black Wave / Bad vibrations:
também já tinha ouvido. gosto da progressão desta canção, de como começa de alguma forma sorridente (a voz feminina ajuda, claro) e de como se torna tão rica, um lamento em forma de orquestração intensa. gosto.
Ocean of Noise:
é aqui que está a maior referência ao bruce springsteen, certo? [devo avisar que já me tinha esquecido da discussão do antigo forum e quando pensei "elá isto parece springsteen" é que me lembrei do aceso debate.] esta música é uma pausa no disco, mas não a acho minimamente extraordinária. digam-me que esta faixa só está para encher chouriços, digam-me que os próprios arcade fire o disseram. por favor, digam.
The well and the lighthouse:
Ah aqui estão eles de volta (acho que uns ETs tomaram o lugar deles quando estavam a gravar a Ocean of Noise). Mas esperem lá, isto agora está mais chatinho, este final. A partir dos 2 minutos e picos de canção, isto fica arrastado, parece que mais valia ter acabado ali. chega.
Antichrist blues television:
Punham umas palminhas aqui e eu destava aos pulos, só para gastar a energia final desta semana. por um lado, ainda bem que não tem palmas, que o fim de semana vai ser daqueles. mas gosto desta canção, é electrizante. e sempre posso bater eu as palminhas, para ficar ainda melhor. "now i'm overcome"
ENA GOSTO MESMO DESTA MÚSICA, BOA P'RA MIM! : ) AFINAL TEM PALMAS, ESTA CENA. PORRA! A MELHOR CANÇÃO ATÉ AGORA. como é que é possível que ainda ninguém tenha falado nesta canção? Foda-se, linda, linda. <3
Windowswill:
esta também é extremamente bonita. Pungente e desolada. Gosto muito.
(Guardaram o melhor para o fim?)
No cars go:
oiço agora a melhor canção do disco, não é o que dizem? está a começar. olha afinal também já a tinha ouvido. parece que sim, que as melhores faixas ficaram para o fim. esta é linda. de repente pareceu-me go! team, mas só durante uns segundos - deve ter sido ali um HEY! qualquer. depois, torna-se uma canção em que os arcade fire vão directos ao assunto e deixam-se de tretas.
[é que até agora, ainda não disse, tenho achado que eles andam à roda das canções, como quando se espreme uma laranja e depois quando já não há polpa, ainda se gira o pobre citrino para ver se o sumo dura. parece que querem fazer render o peixe.]
mas nesta faixa não, todos os instantes são necessários e igualmente bonitos. e o crescendo final, arrepiante.
my body is a cage: esta faixa = rubor[= joanamaria, uma querida que conheci através do forum], estava desejosa de ouvir por causa do tdi que ela lhe fez. o que se calhar foi mau, porque criei expectativas e não estava à espera que a faixa fosse assim. acho que até já tinha musicado alguns versos, depois de ter lido o tdi.
de qualquer forma, há uma coordenação muito boa com a letra e a canção, dolente. c'um raio, o corpo dele é uma gaiola que o impede de dançar com quem ele ama. isso deve ser horrível.
Conclusão: estão aqui uns Arcade Fire que não estavam no Funeral, seja isso bom ou mau.
Nota: de A a Z, um P.
Melhores faixas do disco, para mim: no cars go, black wave/bad vibrations, antichrist blues television e intervention.
Feels [eu], em directo de Lisboa, a ouvir o Neon Bible.
*fim de emissão*"
12.3.07
Minha teimosia é uma arma p'ra txi conquistá
A minha teimosia é uma arma pra te conquistar
Eu vou vencer pelo cansaço
Até você gostar de mim, mulher, mulher
Mulher graciosa, alcança a honra
Você alcançou, mulher
Minha amada, minha querida, minha formosa
Vem e me fala que eu sou o seu lírio
E você é minha rosa
Mostra-me teu rosto
Fazei-me ouvir a tua voz
Põe estrelas em meus olhos
Músicas em meus ouvidos
Põe alegria em meu corpo
Junto com amor de você
Mulher, mulher
La, la, la, la
Mulher, mulher
Por que você não pensa
E volta pra mim
Por que você não vem?
Jorge Ben Jor :: Minha teimosia, uma arma para te conquistar
Eu vou vencer pelo cansaço
Até você gostar de mim, mulher, mulher
Mulher graciosa, alcança a honra
Você alcançou, mulher
Minha amada, minha querida, minha formosa
Vem e me fala que eu sou o seu lírio
E você é minha rosa
Mostra-me teu rosto
Fazei-me ouvir a tua voz
Põe estrelas em meus olhos
Músicas em meus ouvidos
Põe alegria em meu corpo
Junto com amor de você
Mulher, mulher
La, la, la, la
Mulher, mulher
Por que você não pensa
E volta pra mim
Por que você não vem?
Jorge Ben Jor :: Minha teimosia, uma arma para te conquistar
8.3.07
Sycamore [O Plátano]
Sacudiu os tapetes e as colchas da casa velha. Abriu as portadas das janelas, de par em par, como escreviam nos livros da primária e nos contos que a mãe lhe lia ao deitar
e de par em par como ela andava, desorientada, como uma borboleta de flor em flor, de pólen em pólen, procurando o pólen mais doce e a flor mais suculenta
e a frescura da serra invadiu a casa, percorreu corredores e quartos e ajeitou-se nos cantos, no soalho, nos candeeiros, nas esquinas.
A mobília estava coberta por lençóis, tão esburacados e translúcidos que deixavam antever móveis empoeirados, madeiras escuras, gavetas pesadas. Passou os dedos pelos móveis e escreveu através do pó, a madeira de repente brilhante adivinhando-se entre as letras, entre os ácaros. A água podre de uma jarra vazia sobre a mesa da sala difundia pela sala o odor fétido e acre que abandonara na cidade,
na sua velha vida.
Abriu a porta da frente - entrara para a casa velha pela porta das traseiras,
entrara radiante na sua vida nova a recomeçar ali na casa velha
e o verde da montanha que adiante se erguia entrou pelos seus olhos a dentro. Se do vento, se do medo, se da alegria, se da comoção, não sabe, mas arrepiou-se e abraçou o peito, de repente frio e quieto, para logo se lançar em batimentos acelerados.
Afastou com os pés as folhas que escondiam o chão do alpendre, mas o manto insistia em permanecer, teimoso. Com uma vassoura quase careca arrastou para um canteiro de jardim, todas aquelas folhas, sinal óbvio de ausências longas e (demasiado?) prolongadas.
Tudo naquele lugar permanecia inquietantemente igual. O som surdo do riacho - daqueles sons que podemos nem dar por eles, mas estão sempre presentes - correndo não muito longe, o vento suave e frio movendo continuamente os ramos e as folhas, pelo chão e pelo ar e o mover do mar e das marés rolando pedras de calhau pela praia.
Tudo naquele lugar lhe parecia tranquilamente igual. O verde da montanha - ou os verdes, os vários tons se confundindo encosta acima, vencendo rochas e ar rarefeito. O amarelo e rosa-pálido das flores, algumas delas plantadas pelo avô, outras que ali cresceram, silvestres, em terra fértil de amor e húmus. O azul do mar, feito de profundezas e dias brilhantes, de algas, sargaço e desconhecido.
Tudo ali lhe era familiar. A casa de cal e o seu varandim de ferro verde e tapa-sóis de madeira rangente, o alpendre e a cadeira de baloiço, as anoneiras e as camas de rede, as fechaduras e as dobradiças enferrujadas pela maresia e a imobilidade. As vinhas, os cachos de uvas podres ou secas como passas ao sol e o perfume doce, quase enjoativo que o tempo fizera grudar às paredes da casa e à terra do quintal. E o velho plátano, mais velho que as vigas que sustentavam a casa e mais velho que as pedras dos muros que a rodeavam, o velho plátano, que se erguia do lado esquerdo da casa, as suas folhas recortadas como cada episódio da vida, como cada fotografia mental tirada em cada dor e em cada alegria. Como o avô desejara cortar aquele plátano, serrar o tronco desenhado a lascas de madeira, tingido a dois tons, sólido e imponente como uma ilha, e como, no último minuto, sempre desistira, de lágrimas nos olhos. O plátano alto e assustador, o plátano acolhedor e vibrante.
A ele regressaria. Sempre o soube. Àquele plátano, que a vira crescer sob a sua sombra. Àquele lugar, que era seu por direito e dever.
Ali regressou para finalmente ficar.
"And you won't get hurt
If you just
Keep your hands up
And stand tall
Like sycamore."
Bill Callahan
e de par em par como ela andava, desorientada, como uma borboleta de flor em flor, de pólen em pólen, procurando o pólen mais doce e a flor mais suculenta
e a frescura da serra invadiu a casa, percorreu corredores e quartos e ajeitou-se nos cantos, no soalho, nos candeeiros, nas esquinas.
A mobília estava coberta por lençóis, tão esburacados e translúcidos que deixavam antever móveis empoeirados, madeiras escuras, gavetas pesadas. Passou os dedos pelos móveis e escreveu através do pó, a madeira de repente brilhante adivinhando-se entre as letras, entre os ácaros. A água podre de uma jarra vazia sobre a mesa da sala difundia pela sala o odor fétido e acre que abandonara na cidade,
na sua velha vida.
Abriu a porta da frente - entrara para a casa velha pela porta das traseiras,
entrara radiante na sua vida nova a recomeçar ali na casa velha
e o verde da montanha que adiante se erguia entrou pelos seus olhos a dentro. Se do vento, se do medo, se da alegria, se da comoção, não sabe, mas arrepiou-se e abraçou o peito, de repente frio e quieto, para logo se lançar em batimentos acelerados.
Afastou com os pés as folhas que escondiam o chão do alpendre, mas o manto insistia em permanecer, teimoso. Com uma vassoura quase careca arrastou para um canteiro de jardim, todas aquelas folhas, sinal óbvio de ausências longas e (demasiado?) prolongadas.
Tudo naquele lugar permanecia inquietantemente igual. O som surdo do riacho - daqueles sons que podemos nem dar por eles, mas estão sempre presentes - correndo não muito longe, o vento suave e frio movendo continuamente os ramos e as folhas, pelo chão e pelo ar e o mover do mar e das marés rolando pedras de calhau pela praia.
Tudo naquele lugar lhe parecia tranquilamente igual. O verde da montanha - ou os verdes, os vários tons se confundindo encosta acima, vencendo rochas e ar rarefeito. O amarelo e rosa-pálido das flores, algumas delas plantadas pelo avô, outras que ali cresceram, silvestres, em terra fértil de amor e húmus. O azul do mar, feito de profundezas e dias brilhantes, de algas, sargaço e desconhecido.
Tudo ali lhe era familiar. A casa de cal e o seu varandim de ferro verde e tapa-sóis de madeira rangente, o alpendre e a cadeira de baloiço, as anoneiras e as camas de rede, as fechaduras e as dobradiças enferrujadas pela maresia e a imobilidade. As vinhas, os cachos de uvas podres ou secas como passas ao sol e o perfume doce, quase enjoativo que o tempo fizera grudar às paredes da casa e à terra do quintal. E o velho plátano, mais velho que as vigas que sustentavam a casa e mais velho que as pedras dos muros que a rodeavam, o velho plátano, que se erguia do lado esquerdo da casa, as suas folhas recortadas como cada episódio da vida, como cada fotografia mental tirada em cada dor e em cada alegria. Como o avô desejara cortar aquele plátano, serrar o tronco desenhado a lascas de madeira, tingido a dois tons, sólido e imponente como uma ilha, e como, no último minuto, sempre desistira, de lágrimas nos olhos. O plátano alto e assustador, o plátano acolhedor e vibrante.
A ele regressaria. Sempre o soube. Àquele plátano, que a vira crescer sob a sua sombra. Àquele lugar, que era seu por direito e dever.
Ali regressou para finalmente ficar.
"And you won't get hurt
If you just
Keep your hands up
And stand tall
Like sycamore."
Bill Callahan
5.3.07
Juntar palavras ao som do Bill Callahan (provavelmente I)
Parece tontice, mas de palavras fazes pedras que partem vidros e corações. E com pequenos passos enfrentas grandes caminhadas: nunca sabes onde terminarás, mas sabes onde começaste.
Não preciso de mais nada.
Não preciso de mais nada.
Eu só quero ler um livro sob o calor de um abrasante sol.
"Porquê, diga-me porquê. Diga-me porque é que quando adormecemos a pensar num dia de sol e num livro sob os seus raios, num banco de jardim, numa esplanada, na relva, acordamos e ainda de olhos fechados escolhemos o que ler e onde ir, e quando finalmente abrimos os olhos e espreitamos à janela
com as persianas sempre abertas para deixar entrar a claridade logo pela aurora
a estratosfera é um manto único de nuvens, em que não se vê réstias de azul e o céu perde a sua altura atmosférica e fica muito baixinho, a roçar as nossas cabeças. E cada rajada de vento o manto liberta-se de si mesmo e chove e as ruas ficam molhadas e as mesas e os bancos de jardim e a relva, tudo fica molhado? Sim, diga-me porquê.
Porque isso é suficiente para me estragar o dia, minha senhora. Isso é como acordar de manhã com uma enxaqueca, não sei se me entende. Gostava de acordar de manhã com uma enxaqueca, minha senhora? Não gostava, não é? Tenho a certeza que não gostava. Então, simplesmente, responda-me: porque é que a Primavera ameaça ficar e quando eu dou por garantida que desta é que é, ela vai-se embora?"
com as persianas sempre abertas para deixar entrar a claridade logo pela aurora
a estratosfera é um manto único de nuvens, em que não se vê réstias de azul e o céu perde a sua altura atmosférica e fica muito baixinho, a roçar as nossas cabeças. E cada rajada de vento o manto liberta-se de si mesmo e chove e as ruas ficam molhadas e as mesas e os bancos de jardim e a relva, tudo fica molhado? Sim, diga-me porquê.
Porque isso é suficiente para me estragar o dia, minha senhora. Isso é como acordar de manhã com uma enxaqueca, não sei se me entende. Gostava de acordar de manhã com uma enxaqueca, minha senhora? Não gostava, não é? Tenho a certeza que não gostava. Então, simplesmente, responda-me: porque é que a Primavera ameaça ficar e quando eu dou por garantida que desta é que é, ela vai-se embora?"
28.2.07
Hip-hop de raízes e folhas
No meio de tanta música, às vezes não há nada que eu oiça e que me encha as medidas. Nada, nada. As audições tipo cultura intensiva, em que nenhuma parcela de terreno é deixada em pousio, e o mesmo disco gira ininterruptamente (não sejam preciosistas e pensem "hey mas tu não tens gira-discos!", que eu sei nem um cd gira nem há mp3s que andem aí à roda dentro do disco rígido, mas para o caso pouco interessa), ... Onde é que eu ia? Ah, isso. O disco gira ininteruptamente e eu ou saturo ou deixo de me identificar com o disco a certa altura (uma forma mais elaborada de saturação, na verdade). Nesses dias estou tão musicalmente descomprometida (e com tanto tempo livre em mãos -- viva as férias de Carnaval!) que viajo pela internet a fora a ouvir as quatro faixas que cada artista com quem me cruzo disponibiliza no seu myspace.
(Introdução caótica para dizer que hoje trouxe ao Desumanos um artista que apenas conheço de faixas no myspace e no youtube.)
E o que é que me encheu as medidas depois de dois meses a ouvir folk e cantautores e bandas indie? O quê, meus amigos? Hip-hop vindo de Toronto com cheiro a África. (A prova que o Canadá não morreu com os Arcade Fire.)
K'Naan não é novidade para muita gente e o nome não me era estranho, porque esteve presente no belíssimo, enorme, genial, sublime e outras hipérboles que tais Festival de Músicas do Mundo de Sines - edição de 2006, onde eu tive o prazer (juntar aqui hipérboles não utilizadas na expressão acima) de estar presente a um só dia de concertos para ver o Toumani Diabaté, tendo acabado a noite apaixonada pelos Gaiteiros de Lisboa (ADIANTE! chiça, que isto da verborreia é patológico!). Sinceramente não me lembro se os meus amigos que lá estiveram gostaram (ou não) do concerto do K'Naan.
A música de K'Naan não cheira só a África, como vos disse primeiro. A música fede a África, transpira África, é um bocadinho de África. O rap, não sei se sabem, tem origem numa ancestral tradição de contar histórias através da poesia entre pais e filhos (ao menos, foi isso que eu li e é uma origem bonita, por isso, se não for, who cares?). O que o K'Naan faz em todas as canções que já ouvi dele é transpôr essa tradição e fazer poesia sobre música quase tradicional. Ouvem-se cordas, guitarras, palmas e percussões. A voz - e a poesia - é usada como instrumento musical, ou seja o flow (acho eu, não percebo nada disto) é ferpeito.
Poderíamos estar algures na África Central numa celebração de uma tribo que isso não nos provocaria a mínima estranheza (mas provocaria a máxima comoção, o que é assunto para outro post), mas não, estamos numa cidade, onde há trânsito, pessoas a mais, companhia muitas vezes a menos.
Numa altura em que o hip-hop que oiço é urbano e contém os contornos da cidade, a profundidade das estações do metro e velocidade dos passos na calçada, foi bom descobrir que o hip-hop pode regressar à música que mais o influenciou para criar canções mais terra e menos betão. Há festa na In the beggining (música do camandro), os pés e as ancas não conseguem evitar mexer-se mal começa e o corpo perde todo e qualquer peso aos 57 segundos.
A conferir aqui.
A pedido de várias famílias, vídeos do youtube! :D
K'Naan conta a sua história (depois de ver isto, não é preciso ler mais nada!)
K'Naan :: Struggling (esta canção não está no myspace)
K'Naan :: Soobax (tãããããããão bom)
(Introdução caótica para dizer que hoje trouxe ao Desumanos um artista que apenas conheço de faixas no myspace e no youtube.)
E o que é que me encheu as medidas depois de dois meses a ouvir folk e cantautores e bandas indie? O quê, meus amigos? Hip-hop vindo de Toronto com cheiro a África. (A prova que o Canadá não morreu com os Arcade Fire.)
K'Naan não é novidade para muita gente e o nome não me era estranho, porque esteve presente no belíssimo, enorme, genial, sublime e outras hipérboles que tais Festival de Músicas do Mundo de Sines - edição de 2006, onde eu tive o prazer (juntar aqui hipérboles não utilizadas na expressão acima) de estar presente a um só dia de concertos para ver o Toumani Diabaté, tendo acabado a noite apaixonada pelos Gaiteiros de Lisboa (ADIANTE! chiça, que isto da verborreia é patológico!). Sinceramente não me lembro se os meus amigos que lá estiveram gostaram (ou não) do concerto do K'Naan.
A música de K'Naan não cheira só a África, como vos disse primeiro. A música fede a África, transpira África, é um bocadinho de África. O rap, não sei se sabem, tem origem numa ancestral tradição de contar histórias através da poesia entre pais e filhos (ao menos, foi isso que eu li e é uma origem bonita, por isso, se não for, who cares?). O que o K'Naan faz em todas as canções que já ouvi dele é transpôr essa tradição e fazer poesia sobre música quase tradicional. Ouvem-se cordas, guitarras, palmas e percussões. A voz - e a poesia - é usada como instrumento musical, ou seja o flow (acho eu, não percebo nada disto) é ferpeito.
Poderíamos estar algures na África Central numa celebração de uma tribo que isso não nos provocaria a mínima estranheza (mas provocaria a máxima comoção, o que é assunto para outro post), mas não, estamos numa cidade, onde há trânsito, pessoas a mais, companhia muitas vezes a menos.
Numa altura em que o hip-hop que oiço é urbano e contém os contornos da cidade, a profundidade das estações do metro e velocidade dos passos na calçada, foi bom descobrir que o hip-hop pode regressar à música que mais o influenciou para criar canções mais terra e menos betão. Há festa na In the beggining (música do camandro), os pés e as ancas não conseguem evitar mexer-se mal começa e o corpo perde todo e qualquer peso aos 57 segundos.
A conferir aqui.
A pedido de várias famílias, vídeos do youtube! :D
K'Naan conta a sua história (depois de ver isto, não é preciso ler mais nada!)
K'Naan :: Struggling (esta canção não está no myspace)
K'Naan :: Soobax (tãããããããão bom)
Em boca fechada não entra mosca nem sai asneira
A Joana alertou-me "tem cuidado!". Lembro-me de ter olhado para ela, espantada.
"Tem cuidado contigo", repetiu.
Eu não tive nenhum. Agora eu que me aguente.
(Que fique bem claro, e isto sou eu a falar comigo, que só cometo o mesmo erro uma vez. Não sou pessoa para andar a bater com a cabeça na parede sempre pela mesma coisa.)
"Tem cuidado contigo", repetiu.
Eu não tive nenhum. Agora eu que me aguente.
(Que fique bem claro, e isto sou eu a falar comigo, que só cometo o mesmo erro uma vez. Não sou pessoa para andar a bater com a cabeça na parede sempre pela mesma coisa.)
17.2.07
À tarde
Para o Sebastião
Tinham deixado de discutir. Ou melhor, tinham deixado de discutir pelo que interessava, e por ora debatiam qual o melhor lote de Nespresso, onde ir jantar fora, as cuecas no chão, a tampa da sanita, a hora do despertador. Ele por quase nada levantava a voz; ela por quase tudo contrariava-o.
O apartamento num bairro típico qualquer ou a mudança para outra cidade ou país já não os fazia conversar. Ele respondia "hmhm depois vemos." e ela também já não puxava o assunto, farta que estava de ouvir aquela resposta, mas bem se lembra da primeira vez que ele falara nisso, num miradouro com vista para o rio.
Podíamos morar juntos e adormecer e acordar a ver o rio.
E ela na altura não soube o que lhe responder e hoje não sabe porque raio não lhe disse que sim, que também o amava, em vez da festa desajeitada no cabelo que realmente acabou por fazer. Porque ela olhava para ele e encolhia os ombros, mas sabia que nada daquilo era indiferença.
Mas também desde aquela festa no cabelo que ele deixara de tentar percebê-la. Desistira de fazê-la acreditar neles, porque no fundo era isso que ele achava: que ela não sabia o que estava a fazer com ele. E ele deixara de saber o que estava a fazer com ela.
Hoje, combinaram almoçar. Ele chegou mais cedo que o habitual (nestas coisas, o cliché é ela chegar tarde e assim foi), escolheu uma mesa à janela; pela rua atravessava-se o eléctrico, para cima para baixo, para cima para baixo. Ele não fuma, mas nesse dia precisou de o fazer e pediu ao empregado que lhe trouxesse um maço para a mesa. Hesitou na marca, teve que pedir isqueiro.
Ele tinha a certeza: ela fartou-se. E o medo, que até então nunca sentira por nada nem ninguém, apoderou-se dele e a mão direita ocupada fazia-o sentir-se mais seguro. A falsa sensação de que se acalmava a cada passa inebriou-o e ele ria agora, sozinho, naquela mesa. E cantarolava o JP Simões, que vinha a ouvir no carro, a caminho.
Tinha-te a ti e tinha paz num país que era ainda sonho
Onde a tristeza não tinha lugar
Pois era uma canção que não te ouvi cantar
No tempo das crianças não se pode chorar
Ela não chegava e ele cantarolava e ria, tão triste, ali só.
Ela chegou e desfez-se em desculpas. E mal estava sentada, perguntou-lhe "desde quando é que fumas?".
"Desde hoje" e ele não viu para além daquela crítica em forma de pergunta; não leu no vislumbre doce do maço sobre a mesa o "amo-te tanto, e se fumares podes ficar doente e eu não quero." A comunicação sem palavras que só existe se for comunicação com atenção. As trocas de olhares equívocas, ele ouvia
Já não te amo.
quando ela teria dito
Amo-te tanto, meu tolo.
Ele usou as palavras para:
- Bom, ambos sabemos porque me trouxeste até aqui. Porque não queres ir para além daqui. Nada que nunca me tenha passado pela cabeça. Sobretudo ultimamente. Passou. Escusamos de almoçar juntos e de à sobremesa me dizeres que acabou tudo, que não sou eu, és tu, para eu ficar com a mousse de chocolate entalada na garganta, que depois a mousse não sobe nem desce e isso não pode fazer bem à minha esofagite. E, já agora, eu sei que sou eu e não és tu.
Ela não retorquiu logo. Enfiou a cabeça dentro de um saco e tirou de lá prospectos de uma imobiliária. Apartamentos para comprar com obra por concluir, recém-acabados, restaurados. Ele apagou o terceiro cigarro e levou com aquilo no prato vazio, as folhas pousaram sobre o guardanapo de pano dobrado em quatro, não usado. Ela não retorquiu, aliás. Levantou-se, os olhos bem abertos para não chorar em frente dele, a pele num arrepio (de frio? de ofensa?). E foi-se embora.
*******************
Não acendera as luzes desde que chegara a casa. Tirou o cinzeiro de dentro do armário e sentou-se no chão, mas encostado ao sofá, olhos postos no vazio da janela por onde só se via o entardecer cinzento e pantanoso.
E a alma dele, cinzenta e pantanosa.
Ela chegou, na breve desculpa de tirar de casa dele o pouco que levara. A conjuntiva sanguinolenta na certeza de só ter parado de chorar já no corredor do prédio.
Perguntou-lhe "Ficamos assim?": ele não desviou o olhar da janela e não disse palavra, solenemente fumando o cigarro. Ela fingiu ter perguntado aquilo por descarga de consciência com um encolher de ombros e um revirar das íris e foi para o quarto encher a mochila que trouxera, vazia, a tornar-se pesada.
E a alma dela, pesada e vazia.
Pôs a mochila às costas e dirigiu-se para a porta.
"A chave está aqui na mesa."
"Espera."
Espera.
"Não vás."
Não entres tão depressa nessa noite escura. E a mão dela sobre a maçaneta da porta, a mochila que pesava sobre os ombros.
"Vamos ao Rio, os dois. Comprei os bilhetes de avião, o vôo é daqui a nada, vamos."
"Isso não se faz. Há quatro horas disseste-me que acabou. Isto não se faz."
"Por favor, vem."
O olhar dele invadiu-a por dentro como quando se apaixonaram e ele estendeu-lhe a mão. "Anda."
Ela pousou a mochila e toda ela tremia de entusiasmo, de medo, de risco. Deu-lhe a mão.
Deram as mãos.
15.2.07
Acontece que tomei clonix...
...Para a dor de dentes e fiquei a pensar na dor de corno, por isso resolvi oferecer-vos esta canção dos The Shins. O álbum novo - Wincing the night away - já saíu. Não consigo dar uma opinião imparcial, nem estou com grande paciência para escrever. Tenho a cabeça em água e o exame de Medicina aí à porta (tipo, amanhã). E uma puta de dor de dentes que só passa mesmo com clonix, rai's parta - os sisos, cabrões.
O álbum é muito, muito bom. Dá um vício danado. Como com qualquer álbum que eu goste, as canções que vou ouvindo vão batendo uma por uma. Lá para inícios deste mês, era esta que hoje vos mostro. No fim de Janeiro, outra (a Girl Sailor, acho). Meados do mesmo mês, outra (Sea Legs). E a primeira vez que ouvi foi a Phantom Limb (mostrei-vos o vídeo aqui).
Por acaso agora tenho andado a ouvir mais outras coisas (por exemplo, Annuals, uma paixão recente de que vos hei-de falar assim que tiver tempo, cabeça e disponibilidade), mas hoje ouvi isto, tomei clonix e pronto, chega de paleio, tomem lá:
The Shins :: Turn on me
(é só clicar para ouvir directamente, a página tem um leitor integrado)
Encontrei esta letra, agora sim para efeitos de karaoke (e de recado lá p'ra casa):
You can fake it for a while,
Bite your tongue and smile,
Like every mother does an ugly child.
But the stars are leaking out,
Like spittle from a cloud,
Amassed resentment counting ounce and pound.
You're entertaining any doubt,
Because you had to know that I was fond of you,
Fond of Y-O-U,
Though I knew you masked your disdain.
I can see that change was just too hard for us,
Hard for us.
You always had to hold the reigns,
But where I'm headed, you just don't know the way.
So affections fade away,
And do adults just learn to play
The most ridiculous, repulsive games?
On the faith of ruddy sons,
And the double-barreled guns,
You better hurry,
Rabbit, run, run, run.
'Cause meeting you was fun,
And there's a lot of hungry howlers in this one cell.
We’re taking it over,
Their brittle, thorny stems,
They break before they bend,
And neither one of us is one of them.
And the tails will never mend,
‘Cause you had it in for me so long ago.
Boy, I still don't know,
I don't know why and I don't care,
You don't hide me anymore,
If you'd only seen yourself hating me.
Hating me,
When I've been so much more than fair.
But then you had to lay those feelings bare,
One thing I know still got you scared,
You're all that cold iron,
And never once aired of our dead.
You had to know that I was fond of you,
Fond of Y-O-U.
So I took your lips at the time,
And to change like that is just so hard to do,
Hard to do.
Don't let it whip-crack your life,
And bow out from the fight,
‘Cause oh, how your sisters will write.
The worst part is over,
Now, get back on that horse and ride.
O álbum é muito, muito bom. Dá um vício danado. Como com qualquer álbum que eu goste, as canções que vou ouvindo vão batendo uma por uma. Lá para inícios deste mês, era esta que hoje vos mostro. No fim de Janeiro, outra (a Girl Sailor, acho). Meados do mesmo mês, outra (Sea Legs). E a primeira vez que ouvi foi a Phantom Limb (mostrei-vos o vídeo aqui).
Por acaso agora tenho andado a ouvir mais outras coisas (por exemplo, Annuals, uma paixão recente de que vos hei-de falar assim que tiver tempo, cabeça e disponibilidade), mas hoje ouvi isto, tomei clonix e pronto, chega de paleio, tomem lá:
The Shins :: Turn on me
(é só clicar para ouvir directamente, a página tem um leitor integrado)
Encontrei esta letra, agora sim para efeitos de karaoke (e de recado lá p'ra casa):
You can fake it for a while,
Bite your tongue and smile,
Like every mother does an ugly child.
But the stars are leaking out,
Like spittle from a cloud,
Amassed resentment counting ounce and pound.
You're entertaining any doubt,
Because you had to know that I was fond of you,
Fond of Y-O-U,
Though I knew you masked your disdain.
I can see that change was just too hard for us,
Hard for us.
You always had to hold the reigns,
But where I'm headed, you just don't know the way.
So affections fade away,
And do adults just learn to play
The most ridiculous, repulsive games?
On the faith of ruddy sons,
And the double-barreled guns,
You better hurry,
Rabbit, run, run, run.
'Cause meeting you was fun,
And there's a lot of hungry howlers in this one cell.
We’re taking it over,
Their brittle, thorny stems,
They break before they bend,
And neither one of us is one of them.
And the tails will never mend,
‘Cause you had it in for me so long ago.
Boy, I still don't know,
I don't know why and I don't care,
You don't hide me anymore,
If you'd only seen yourself hating me.
Hating me,
When I've been so much more than fair.
But then you had to lay those feelings bare,
One thing I know still got you scared,
You're all that cold iron,
And never once aired of our dead.
You had to know that I was fond of you,
Fond of Y-O-U.
So I took your lips at the time,
And to change like that is just so hard to do,
Hard to do.
Don't let it whip-crack your life,
And bow out from the fight,
‘Cause oh, how your sisters will write.
The worst part is over,
Now, get back on that horse and ride.
P.S. Os Shins têm letras com uma ambiguidade grande, que dá azo a múltiplas interpretações. A minha interpretação desta letra é minha. E a vossa é vossa. Façamos como em fóruns de música por essa internet a fora e debatamos em espaço próprio (a caixa dos comentários, ora essa) qual o sentido desta canção para vocemecêzes. Eu começo. Esta canção parece-me uma conversa entre um rapaz e uma rapariga, uma espécie de Father and son do Cat Stevens versão eu-gostava-de-ti-ó-estúpida-e-tu-nada. Bom dia*
13.2.07
O meu vizinho de cima...
Está a ouvir a Evil dos Interpol a altos berros. Ele é giro, tem um cocker preto e branco e eu também pus a tocar a Evil a altos berros. Estamos a estabelecer comunicação.
Mas não, não estou a tentar engatá-lo. Só quero que ele perceba que a musiquinha a altos berros está a incomodar-me um bocado.
E, vá lá, eu gosto mesmo muito de Interpol. Mas preciso de estudar, porra.
Mas não, não estou a tentar engatá-lo. Só quero que ele perceba que a musiquinha a altos berros está a incomodar-me um bocado.
E, vá lá, eu gosto mesmo muito de Interpol. Mas preciso de estudar, porra.
Eu e a métrica, hã?
Dos versos. Isto deve ser uma corrente estilística ainda por criar. Corrente estilística as in bad poetry.
Do paradoxo.
Que nada te cale
Na última hora ou no primeiro momento.
Nem o cantar de um pássaro,
Nem o voar do vento.
Que sejas
Pedra sem peso,
Borboleta sem asas,
Dor sem tormento.
Sê quem queres ser
Sê quem és
Se da primeira hora ao último momento
Te ergueste pelos teus pés.
Na última hora ou no primeiro momento.
Nem o cantar de um pássaro,
Nem o voar do vento.
Que sejas
Pedra sem peso,
Borboleta sem asas,
Dor sem tormento.
Sê quem queres ser
Sê quem és
Se da primeira hora ao último momento
Te ergueste pelos teus pés.
Da solidão.
Viver.
Viver por inteiro.
Jogar aquele jogo que se joga a dois,
Sozinha. E depois,
Pelas pedras da calçada,
Pelos becos, pelas ruas,
Ser eu, ser só, ser mais nenhuma.
Viver por inteiro.
Jogar aquele jogo que se joga a dois,
Sozinha. E depois,
Pelas pedras da calçada,
Pelos becos, pelas ruas,
Ser eu, ser só, ser mais nenhuma.
12.2.07
Songs for the dawn of a new day II
Avey Tare (Animal Collective) & Kristín Valtýsdóttir(ex- Múm) :: I've got mine
11.2.07
Essa coisa chamada last fm...
Uma canção. De madrugada.
Há uma vontade de chorar, amarga, como todas as vontades de chorar. Vem pela madrugada a dentro e parece cortante como uma lâmina afiada há pouco a tempo. (Por um afiador. Que é feito dos afiadores, com o seu assobio triste?)
O coração jaz pequeno, num tórax que enche de ar e de dor a cada inspiração. O coração. Não sabe se bate ou se cessa a sua batida constante e pensa nisso com regularidade. Ou será ela quem pensa nisso? Sentir as extremidades do corpo frias e a alma dissociar-se da pele que a prende. Sem saber se corre sangue por todas as artérias - será circulação desnecessária?
Um corpo tão grande, que ocupa tanto espaço útil da superfície terrestre, e tão vazio. Retumbam imagens como fotografias antigas - e, ainda assim, não tão antigas quanto isso - pelas suas paredes; retumba a angústia que nunca o abandona. A ter alguma coisa, este corpo, será a sua angústia. A mágoa por todas as coisas serem efémeras. A mágoa por todas as coisas serem efémeras e se ter consciência disso. E isso a apoquentar.
Há uma vontade de chorar e uma alma cansada. Há uma canção que alguém lhe canta mentalmente, quando fecha os olhos. Já há muito tempo que não ouve, mas percorre a estante em busca daquele álbum. Tanta coisa nova que ouve todos os dias, mas só esta canção a aninha em seus braços, pelo menos hoje. Envolve-a num abraço e cada palavra faz sentido, mesmo após tê-la ouvido cinquenta vezes. Só este início calmo balança o seu corpo hoje; só esta ponte fá-la reconsiderar as alternativas; só este final subitamente agressivo fá-la libertar-se de alguma revolta. E hoje, só esta canção lhe beija o pescoço e suspira, melosa, "Está tudo bem." Porque está.
dEUS :: Instant Street
You're probably right, seen from your side, that I've been lucky
but I've been meaning to crack all week.
Yes I've been involved, it never resolved into anything shocking.
And pain's playing yoyo in my body as we speak.
And now I found something to look for, but I can't decide,
'Cause I might find that to stroll behind is better than to score.
Just like I did before.
It wouldn't be true, not towards you, to say that I'm staying.
When on every single impulse, on every other move I react.
'Cause in any old creek, with changing technique, you'll see me playing.
After any old motherfucking blow I'll be back.
We turned away from instant stuff
Our cracking codes were breaking up
Our words were sucked out, it made them clean.
And after lowness say it
And after more let it be known
Our codes are grown into something mean.
You're probably right, as for tonight, you're making me nervous.
What is it you want me to be thinking of?
I'll put on a movie, I'll play something groovy
as a matter of service
And I'll chuckle when you smile as a matter of love.
'Cause you know it's not my style to be giving up now.
And this pain in my side, I had enough.
This time I go for Instant Street
This life's a soulless excuse for all abuse and parenthesis.
The flyspecked windows and the stinking lobbies
they'll remain all the same, all the same.
This time I go. This time I go...
(Desta vez, a letra não é um fait-divers nem está aqui para propósitos de karaoke. Está aqui porque completa o texto. Por favor leiam, para que mais coisas façam sentido.)
O coração jaz pequeno, num tórax que enche de ar e de dor a cada inspiração. O coração. Não sabe se bate ou se cessa a sua batida constante e pensa nisso com regularidade. Ou será ela quem pensa nisso? Sentir as extremidades do corpo frias e a alma dissociar-se da pele que a prende. Sem saber se corre sangue por todas as artérias - será circulação desnecessária?
Um corpo tão grande, que ocupa tanto espaço útil da superfície terrestre, e tão vazio. Retumbam imagens como fotografias antigas - e, ainda assim, não tão antigas quanto isso - pelas suas paredes; retumba a angústia que nunca o abandona. A ter alguma coisa, este corpo, será a sua angústia. A mágoa por todas as coisas serem efémeras. A mágoa por todas as coisas serem efémeras e se ter consciência disso. E isso a apoquentar.
Há uma vontade de chorar e uma alma cansada. Há uma canção que alguém lhe canta mentalmente, quando fecha os olhos. Já há muito tempo que não ouve, mas percorre a estante em busca daquele álbum. Tanta coisa nova que ouve todos os dias, mas só esta canção a aninha em seus braços, pelo menos hoje. Envolve-a num abraço e cada palavra faz sentido, mesmo após tê-la ouvido cinquenta vezes. Só este início calmo balança o seu corpo hoje; só esta ponte fá-la reconsiderar as alternativas; só este final subitamente agressivo fá-la libertar-se de alguma revolta. E hoje, só esta canção lhe beija o pescoço e suspira, melosa, "Está tudo bem." Porque está.
dEUS :: Instant Street
You're probably right, seen from your side, that I've been lucky
but I've been meaning to crack all week.
Yes I've been involved, it never resolved into anything shocking.
And pain's playing yoyo in my body as we speak.
And now I found something to look for, but I can't decide,
'Cause I might find that to stroll behind is better than to score.
Just like I did before.
It wouldn't be true, not towards you, to say that I'm staying.
When on every single impulse, on every other move I react.
'Cause in any old creek, with changing technique, you'll see me playing.
After any old motherfucking blow I'll be back.
We turned away from instant stuff
Our cracking codes were breaking up
Our words were sucked out, it made them clean.
And after lowness say it
And after more let it be known
Our codes are grown into something mean.
You're probably right, as for tonight, you're making me nervous.
What is it you want me to be thinking of?
I'll put on a movie, I'll play something groovy
as a matter of service
And I'll chuckle when you smile as a matter of love.
'Cause you know it's not my style to be giving up now.
And this pain in my side, I had enough.
This time I go for Instant Street
This life's a soulless excuse for all abuse and parenthesis.
The flyspecked windows and the stinking lobbies
they'll remain all the same, all the same.
This time I go. This time I go...
(Desta vez, a letra não é um fait-divers nem está aqui para propósitos de karaoke. Está aqui porque completa o texto. Por favor leiam, para que mais coisas façam sentido.)
9.2.07
Dizer coisa com coisa
Não sei se me pretendes cansar, mas aviso-te já que quem corre por gosto não cansa. Tenho exame amanhã e quando te foste embora, disseste-me que voltavas. Disseste "volto já". Já acabei de estudar e por isso deixei-me pensar em ti. Não voltaste e eu fiquei à tua espera à noite toda. Que exagero, não foi a noite toda. Eu até sei que te deitas cedo.
Não sei muito mais sobre ti, de qualquer maneira. Onde foste hoje? Também não sei se quero saber. Parece que quando finalmente eu decido dar-me realmente a conhecer a uma pessoa e a seta também percorre o trajecto contrário e alguém dá-se-me a conhecer - não faço ideia se este português está correcto, "dá-se-me"? - dá sempre asneira. Há sempre uma desilusão qualquer à espreita.
É um raio de uma regra que nem tem excepção para confirmá-la. É mesmo assim, pronto.
Tenho medo que te desapontes comigo por alguma razão. Acho que pensas que tenho a maior auto-estima do mundo e que sou a rapariga mais confiante de sempre, mas não. Não sei onde falho mas acho que falho sempre algures e acabo por afastar as pessoas. Os rapazes. Ou homens. Consideras-te um homem? Tens cara de puto, mas tens uma serenidade que não se adequa nada ao teu sorriso malandro. Como se fosses adulto por dentro e miúdo por fora.
Estou cansada. Estou a ouvir Phoenix. Agora lembro-me de ti quando oiço este álbum. Antes não (até me lembrava de outra pessoa) mas agora és sempre tu.
Aliás ultimamente tens sido sempre tu, mesmo quando não estou a ouvir Phoenix. E tenho um bocado de medo disso.
Não sei muito mais sobre ti, de qualquer maneira. Onde foste hoje? Também não sei se quero saber. Parece que quando finalmente eu decido dar-me realmente a conhecer a uma pessoa e a seta também percorre o trajecto contrário e alguém dá-se-me a conhecer - não faço ideia se este português está correcto, "dá-se-me"? - dá sempre asneira. Há sempre uma desilusão qualquer à espreita.
É um raio de uma regra que nem tem excepção para confirmá-la. É mesmo assim, pronto.
Tenho medo que te desapontes comigo por alguma razão. Acho que pensas que tenho a maior auto-estima do mundo e que sou a rapariga mais confiante de sempre, mas não. Não sei onde falho mas acho que falho sempre algures e acabo por afastar as pessoas. Os rapazes. Ou homens. Consideras-te um homem? Tens cara de puto, mas tens uma serenidade que não se adequa nada ao teu sorriso malandro. Como se fosses adulto por dentro e miúdo por fora.
Estou cansada. Estou a ouvir Phoenix. Agora lembro-me de ti quando oiço este álbum. Antes não (até me lembrava de outra pessoa) mas agora és sempre tu.
Aliás ultimamente tens sido sempre tu, mesmo quando não estou a ouvir Phoenix. E tenho um bocado de medo disso.
8.2.07
Disse, diria ou havia de dizer.
Conheceram-se numa festa.
Ela não ia, a princípio; o namorado ia estar a viajar - e ela perdera a paciência para festas e celebrações que não incluíssem celebrar o amor. Coisas entre amigos, copos, danças estúpidas, já nada disso lhe interessava. Estaria velha? Não sabe, mas ao menos foi isso que disse a Tânia, nessa manhã, ao telefone
Estás a ficar velha. Qualquer dia estás desdentada.
e ela chamou-a de cruel, que aquilo não era velhice.
Querida, se isso não é velhice, é pelo menos acomodação.
Joana preferiu não responder. Desligou o telefone e sentou-se de sofá. Ligou a televisão e aprendeu a fazer uns biscoitos e uns acepipes. Desligou a televisão e foi experimentar as receitas para a cozinha. Pensou
Se o Tiago cá estivesse, levávamos isto para casa da Tânia.
mas também pensou que ali sozinha ao menos estava sossegada, sem ninguém a chatear. Levou o bule de chá para a sala e sentou-se a ver um filme. Viu um, dois, três filmes. Telefonou ao Tiago.
- Onde estás?
- Estou a entrar no Museu do Prado.
- Está bom tempo?
- Esteve sol a manhã toda, agora está a ficar mais frio. Daqui a nada chove.
- Aqui está calor.
- Já chego amanhã.
- Eu sei. Já almoçaste?
- Já. Não foi nada de especial.
- Tapas?
- Não. Olha, tenho de desligar.
- Beijinhos.
- Adeus.
Agarrou num livro. Que aborrecimento.
De nada lhe servia aquele amor. Para Madame Peyroux o amor proibido era apenas um passatempo. Um passatempo nada divertido, diria Madame Gaulleix, se a ouvisse. Que outro passatempo - ou jogo voluntário - implicaria tanto desgosto, tanta cabeça cortada?
Como tantas vezes afirmara François Duchamp, alta figura da nobreza parisiense, "as mulheres julgam que a caça é um desporto violento; pois, para um homem, nada é mais violento que o jogo do amor".
Que seca de livro. E o chá que arrefecera na chávena. Ficou com vontade de sair e beber umas cervejas. Ligou à Tânia.
Vou aí ter, estou a sair de casa.
Conduziu até Mora e a viagem passou num instante. Mal chegou foi recebida com garrafas de vinho, abraços, comboios pelo jardim. A noite estava quente e húmida, noite de mosquitos como dizia a avó, e a bebida escorregava palato abaixo, apressada.
Olá, sou o Francisco.
Ela olhou-o, ergueu o olhar (e a nuca) para cima, bem para cima, porque ele era alto. Ao fazer este movimento, sentiu a cabeça a andar a roda e agarrou-se a um braço dele.
Desculpa, é do calor.
Ele riu-se. Ou do vinho, talvez?
Riram-se os dois.
Francisco levou-a para o alpendre. Sentaram-se numa cadeira de baloiço, encostados, a conversar. A madrugada ia perdendo a música e ganhando os sons dos grilos e da barragem. Quando se apercebeu do que estava a fazer, Joana estava a beijá-lo porque ele já a beijara e os seus lábios tremiam de prazer. Quando se apercebeu do que estava a fazer, Joana pensou em Tiago, em chá frio, em Madrid onde antes estava sol e agora chuva e não deixou que nada disso a impedisse de beijar aquele semi-desconhecido, de agarrar-lhe a mão.
No dia seguinte deixou Francisco conduzir o carro para Lisboa. Podia ter deixado as coisas como estão e nada daquilo ter passado de uma alucinação alcoólica. Ninguém os vira, ninguém soubera de nada. Não quis.
Disse ao Tiago, no aeroporto,
Apaixonei-me.
e voltou a entrar no carro.
Para grandes males, grandes remédios, havia de lhe dizer a Tânia, quando daí a uns tempos lhe contou tudo.
Ela não ia, a princípio; o namorado ia estar a viajar - e ela perdera a paciência para festas e celebrações que não incluíssem celebrar o amor. Coisas entre amigos, copos, danças estúpidas, já nada disso lhe interessava. Estaria velha? Não sabe, mas ao menos foi isso que disse a Tânia, nessa manhã, ao telefone
Estás a ficar velha. Qualquer dia estás desdentada.
e ela chamou-a de cruel, que aquilo não era velhice.
Querida, se isso não é velhice, é pelo menos acomodação.
Joana preferiu não responder. Desligou o telefone e sentou-se de sofá. Ligou a televisão e aprendeu a fazer uns biscoitos e uns acepipes. Desligou a televisão e foi experimentar as receitas para a cozinha. Pensou
Se o Tiago cá estivesse, levávamos isto para casa da Tânia.
mas também pensou que ali sozinha ao menos estava sossegada, sem ninguém a chatear. Levou o bule de chá para a sala e sentou-se a ver um filme. Viu um, dois, três filmes. Telefonou ao Tiago.
- Onde estás?
- Estou a entrar no Museu do Prado.
- Está bom tempo?
- Esteve sol a manhã toda, agora está a ficar mais frio. Daqui a nada chove.
- Aqui está calor.
- Já chego amanhã.
- Eu sei. Já almoçaste?
- Já. Não foi nada de especial.
- Tapas?
- Não. Olha, tenho de desligar.
- Beijinhos.
- Adeus.
Agarrou num livro. Que aborrecimento.
De nada lhe servia aquele amor. Para Madame Peyroux o amor proibido era apenas um passatempo. Um passatempo nada divertido, diria Madame Gaulleix, se a ouvisse. Que outro passatempo - ou jogo voluntário - implicaria tanto desgosto, tanta cabeça cortada?
Como tantas vezes afirmara François Duchamp, alta figura da nobreza parisiense, "as mulheres julgam que a caça é um desporto violento; pois, para um homem, nada é mais violento que o jogo do amor".
Que seca de livro. E o chá que arrefecera na chávena. Ficou com vontade de sair e beber umas cervejas. Ligou à Tânia.
Vou aí ter, estou a sair de casa.
Conduziu até Mora e a viagem passou num instante. Mal chegou foi recebida com garrafas de vinho, abraços, comboios pelo jardim. A noite estava quente e húmida, noite de mosquitos como dizia a avó, e a bebida escorregava palato abaixo, apressada.
Olá, sou o Francisco.
Ela olhou-o, ergueu o olhar (e a nuca) para cima, bem para cima, porque ele era alto. Ao fazer este movimento, sentiu a cabeça a andar a roda e agarrou-se a um braço dele.
Desculpa, é do calor.
Ele riu-se. Ou do vinho, talvez?
Riram-se os dois.
Francisco levou-a para o alpendre. Sentaram-se numa cadeira de baloiço, encostados, a conversar. A madrugada ia perdendo a música e ganhando os sons dos grilos e da barragem. Quando se apercebeu do que estava a fazer, Joana estava a beijá-lo porque ele já a beijara e os seus lábios tremiam de prazer. Quando se apercebeu do que estava a fazer, Joana pensou em Tiago, em chá frio, em Madrid onde antes estava sol e agora chuva e não deixou que nada disso a impedisse de beijar aquele semi-desconhecido, de agarrar-lhe a mão.
No dia seguinte deixou Francisco conduzir o carro para Lisboa. Podia ter deixado as coisas como estão e nada daquilo ter passado de uma alucinação alcoólica. Ninguém os vira, ninguém soubera de nada. Não quis.
Disse ao Tiago, no aeroporto,
Apaixonei-me.
e voltou a entrar no carro.
Para grandes males, grandes remédios, havia de lhe dizer a Tânia, quando daí a uns tempos lhe contou tudo.
3.2.07
Chega de saudade
"Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela
Não pode ser, diz-lhe numa prece
Que ela regresse,
Porque eu não posso mais sofrer.
Chega de saudade,
A realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai."
João & Bebel Gilberto | Chega de Saudade
"Mas se ela voltar, se ela voltar,
Que coisa linda, que coisa louca,
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca.
Dentro dos meus braços,
Os abraços hão-de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim,
Qu'é p'ra acabar com esse negócio de viver longe de mim.
Não quero mais esse negócio de você viver assim.
Vamos deixar esse negócio de você viver sem mim."
E diz a ela que sem ela
Não pode ser, diz-lhe numa prece
Que ela regresse,
Porque eu não posso mais sofrer.
Chega de saudade,
A realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai."
João & Bebel Gilberto | Chega de Saudade
"Mas se ela voltar, se ela voltar,
Que coisa linda, que coisa louca,
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca.
Dentro dos meus braços,
Os abraços hão-de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim,
Qu'é p'ra acabar com esse negócio de viver longe de mim.
Não quero mais esse negócio de você viver assim.
Vamos deixar esse negócio de você viver sem mim."
2.2.07
SHARK INFESTED WATER :: MESSAGE IN A BOTTLE
Antipop Consortium | Tragic Epilogue
Houve uma altura da minha adolescência em que torcia o nariz a tudo o que fosse hip-hop e não fosse Beastie Boys. Este álbum, ouvido no ano 2000 (ou 2001? algures por aí), foi um estalo de luva branca. Cria atmosferas sinistras, negras, com melodias minor-key e linhas de baixo soturnas. Hoje fui buscá-lo e ouvi-o de novo, de fio a pavio, e descobri que aquilo que o dubstep anda a fazer já este album começara a fazer há 7 anos. Incrível como em termos de produção este álbum podia ter sido lançado ontem.
1.2.07
Tesão de mijo (e depois desta vou mesmo dormir)
Desde o início deste ano (já passou um mês desde que começou 2007, meodeos!) que ouvi pelo menos cinco vezes uma expressão de que nunca dantes tinha ouvido falar: tesão de mijo. Já percebi que tem uma certa conotação negativa e que quem tem tal coisa (i.e. quem tem tesão de mijo) é menosprezado por quem o diz. Eu própria, num fórum público, afirmei sarcasticamente que "tinha tesão de mijo". Sarcasticamente por três razões:
1) Tinham acabado de dizer que as bandas que eu gostava davam tesão de mijo.
2) Não gosto que digam mal das bandas que gosto.
3) Já nessa altura não sabia o que queria dizer tesão de mijo.
Se eu for a decompor a expressão e a pensar no que é tesão de mijo, claro que consigo perceber que é qualquer coisa que entusiasma mas que afinal não era nada de especial, tal como os homens que ficam com o seu órgão sexual erecto por uma mera vontade de de ir à casa de banho fazer uma micção (sim, também sei dizer isto de outra maneira: os homens ficam com tesão só porque têm vontade de mijar).Mas em que circuntâncias é que eu devo usar esta expressão? E é demasiado ofensiva (as in levo uma chapada depois de afirmar que alguém tem tesão de mijo) ou até se riem se eu a usar? As mulheres também têm tesão de mijo? Não há tesão de mijo que acabe em verdadeira ejaculação?
E este blog: está cheínho de tesão de mijo?
Questões, caros amigos, que urge responder.
1) Tinham acabado de dizer que as bandas que eu gostava davam tesão de mijo.
2) Não gosto que digam mal das bandas que gosto.
3) Já nessa altura não sabia o que queria dizer tesão de mijo.
Se eu for a decompor a expressão e a pensar no que é tesão de mijo, claro que consigo perceber que é qualquer coisa que entusiasma mas que afinal não era nada de especial, tal como os homens que ficam com o seu órgão sexual erecto por uma mera vontade de de ir à casa de banho fazer uma micção (sim, também sei dizer isto de outra maneira: os homens ficam com tesão só porque têm vontade de mijar).Mas em que circuntâncias é que eu devo usar esta expressão? E é demasiado ofensiva (as in levo uma chapada depois de afirmar que alguém tem tesão de mijo) ou até se riem se eu a usar? As mulheres também têm tesão de mijo? Não há tesão de mijo que acabe em verdadeira ejaculação?
E este blog: está cheínho de tesão de mijo?
Questões, caros amigos, que urge responder.
31.1.07
"Eu hoje sinto nos ossos que o tempo está a mudar"
Que o que era, deixará de o ser.
Que o que nunca o foi, talvez o seja agora.
Currently listening to: Andrew Bird | Armchair Apocrypha
Que o que nunca o foi, talvez o seja agora.
Currently listening to: Andrew Bird | Armchair Apocrypha
30.1.07
Raio de remistura viciante
Só podia dar boa cena...
Os Hot Chip remisturaram a Rehab, da Amy Winehouse, e fizeram um óptimo trabalho, na minha modesta opinião.
A voz continua com a sua adorável cadência, mas há uma espécie de palminhas e uma secção de sopros... Groovy.
A ouvir aqui, gente.
(E dancem pá, não fiquem aí parados.)
Os Hot Chip remisturaram a Rehab, da Amy Winehouse, e fizeram um óptimo trabalho, na minha modesta opinião.
A voz continua com a sua adorável cadência, mas há uma espécie de palminhas e uma secção de sopros... Groovy.
A ouvir aqui, gente.
(E dancem pá, não fiquem aí parados.)
29.1.07
O que é que acabei de escrever?
Cala-te e foge. Não confesses o crime que não cometeste. Não ofereças o teu corpo, tens que ter um preço: deixa que te chamem de puta, mas não deixes que ignorem a tua luta. Quem só vê a puta, não merece ver mais nada. Cala-te e foge.
Deixa que te arranjem um nome, um defeito, um palavrão. Já sabes como é que eles são: prontos para arranjar etiquetas, catálogos de futilidades e tretas, enchem as ruas com o que não interessa, enchem os olhos com fogo de vista, essa é que é essa.
E agora fala-se do sim e do não, mas não encontro causas nobres: onde é que elas estão?
Deixa que te arranjem um nome, um defeito, um palavrão. Já sabes como é que eles são: prontos para arranjar etiquetas, catálogos de futilidades e tretas, enchem as ruas com o que não interessa, enchem os olhos com fogo de vista, essa é que é essa.
E agora fala-se do sim e do não, mas não encontro causas nobres: onde é que elas estão?
28.1.07
23.1.07
E a música?
Em 2004, um ano antes do Desumanos ter sido criado, JP Simões e Sérgio Costa juntaram um Quinteto - que afinal ao vivo era um sexteto - e apelidaram-no de Tati. Escreveram um disco chamado Exílio que me inspirou a escrever muitos textos, não só aqui, como no extinto Crime Passional. Canções que constroem cenários, que esboçam histórias a giz, que guiam os meus dedos através do teclado.
Em 2007, JP Simões, depois dos Belle Chase Hotel e dos Quinteto Tati, lançou um álbum a solo chamado 1970. Ontem ouvi a apresentação do álbum na FNAC e logo me apeteceu ter direito a um concerto à séria, com os coros que preenchem o disco de uma forma especial. As canções de 1970 são, de forma nada supreendente, lindas. A influência é nitidamente buarquiana ( a palavra não deve existir) mas a vivência é portuguesa - e há a Inquietação, do José Mário Branco, cuja letra foi aqui publicada a propósito, já há um ano - desta versão do JP.
Os textos de Parabéns foram todos escritos ao som deste disco. Oiçam-no.
Em 2007, JP Simões, depois dos Belle Chase Hotel e dos Quinteto Tati, lançou um álbum a solo chamado 1970. Ontem ouvi a apresentação do álbum na FNAC e logo me apeteceu ter direito a um concerto à séria, com os coros que preenchem o disco de uma forma especial. As canções de 1970 são, de forma nada supreendente, lindas. A influência é nitidamente buarquiana ( a palavra não deve existir) mas a vivência é portuguesa - e há a Inquietação, do José Mário Branco, cuja letra foi aqui publicada a propósito, já há um ano - desta versão do JP.
Os textos de Parabéns foram todos escritos ao som deste disco. Oiçam-no.
Quinze coisas que poderiam fazer nos quinze minutos que gastam a ler o Desumanos:
1. Ver, pelo menos, cinco sketches dos Monty Phyton.
2. Fazer uma tosta, comê-la e limpar a tostadeira (por causa do queijo derretido).
3. Ouvir as faixas Retrospectiva de um amor profundo e 16/12/95 do Pratica(mente) e ter atenção absoluta à letra.
4. Aspirar uma divisória da vossa casa, ou duas ou três, ou mesmo a casa toda (dependendo do tamanho da casa).
5. Pôr um disco do Marvin Gaye a tocar e deixar a criatividade apontar o caminho para o sexo.
6. Dar uma rapidinha (ou uma queca a sério, caso sofram/o vosso namorado sofra de ejaculação precoce).
7. Ver três intervalos publicitários seguidos dos três canais generalistas principais (a 2: não conta para o caso porque só passa publicidade institucional).
8. Fazer a massa para um pão-de-ló (mais dez minutos e teriam o pão-de-ló no forno).
9. Pegar no carro e ir ver o mar, se o trânsito estiver de feição.
10.Ler os "Castelos" d' A Mensagem do Pessoa.
11.Ler uma página de um livro e mesmo assim não a perceberem e terem que a reler (se isto nunca vos aconteceu, lamento, andam a ler os livros errados).
12.Namorar.
13.Telefonar a uma amiga que não vêem há duas semanas (mais tempo do que isto sem se verem resultará numa conversa maior que quinze minutos).
14. Beber uma bica e ler as letras gordas do jornal.
15. Não fazer absolutamente nada e pensar na morte da bezerra.
Por isto tudo, e muito mais, aos que cá vêm o meu
muito obrigado.
2. Fazer uma tosta, comê-la e limpar a tostadeira (por causa do queijo derretido).
3. Ouvir as faixas Retrospectiva de um amor profundo e 16/12/95 do Pratica(mente) e ter atenção absoluta à letra.
4. Aspirar uma divisória da vossa casa, ou duas ou três, ou mesmo a casa toda (dependendo do tamanho da casa).
5. Pôr um disco do Marvin Gaye a tocar e deixar a criatividade apontar o caminho para o sexo.
6. Dar uma rapidinha (ou uma queca a sério, caso sofram/o vosso namorado sofra de ejaculação precoce).
7. Ver três intervalos publicitários seguidos dos três canais generalistas principais (a 2: não conta para o caso porque só passa publicidade institucional).
8. Fazer a massa para um pão-de-ló (mais dez minutos e teriam o pão-de-ló no forno).
9. Pegar no carro e ir ver o mar, se o trânsito estiver de feição.
10.Ler os "Castelos" d' A Mensagem do Pessoa.
11.Ler uma página de um livro e mesmo assim não a perceberem e terem que a reler (se isto nunca vos aconteceu, lamento, andam a ler os livros errados).
12.Namorar.
13.Telefonar a uma amiga que não vêem há duas semanas (mais tempo do que isto sem se verem resultará numa conversa maior que quinze minutos).
14. Beber uma bica e ler as letras gordas do jornal.
15. Não fazer absolutamente nada e pensar na morte da bezerra.
Por isto tudo, e muito mais, aos que cá vêm o meu
muito obrigado.
Parabéns, Desumanos.
É o teu segundo aniversário.
Obrigada por guardares dentro de ti aquilo que sou.
Obrigada por me deixares ser mais ainda por tua causa.
Obrigada por todos os espaços em branco que me obrigaste a preencher.
Obrigada por me ouvires.
Obrigada por teres sido a minha tábua de flutuação quando estava atolada em pântano viscoso.
Obrigada pelos discos que ouviste, pelas letras que cantaste.
Obrigada por seres mais do que um blogue, obrigada por seres eu e eu ser tu e tu assim o permitires.
Obrigada por todas as vezes em que limpaste as lágrimas derramadas de dentro de mim.
Obrigada pela tua paciência quando não tenho nada para te dizer.
Obrigada pelos textos em que deixaste, propositadamente, que a realidade a ficção fossem uma e uma só identidade, fusão terapêutica de chá, sorrisos e choro.
Obrigada por quando me fizeste rir.
Obrigada por me aturares as esquisitices, as manias, as insónias.
Obrigada por te deixares adormecer e obrigada por nunca teres morrido, mesmo nas vezes que tentei matar-te, assassina impiedosa.
Obrigada por acolheres textos feios, mal-escritos, desdenhosos.
Obrigada por reconheceres quando estou demasiado feliz para falar de desgraças.
Obrigada por ainda me deixares sonhar.
Obrigada por cada sílaba, cada palavra, cada frase, cada post.
Ainda és tu quem se mantém mais ou menos o mesmo, dois anos depois. Eu já não sou a mesma e também a ti o devo. Obrigada.
Obrigada por guardares dentro de ti aquilo que sou.
Obrigada por me deixares ser mais ainda por tua causa.
Obrigada por todos os espaços em branco que me obrigaste a preencher.
Obrigada por me ouvires.
Obrigada por teres sido a minha tábua de flutuação quando estava atolada em pântano viscoso.
Obrigada pelos discos que ouviste, pelas letras que cantaste.
Obrigada por seres mais do que um blogue, obrigada por seres eu e eu ser tu e tu assim o permitires.
Obrigada por todas as vezes em que limpaste as lágrimas derramadas de dentro de mim.
Obrigada pela tua paciência quando não tenho nada para te dizer.
Obrigada pelos textos em que deixaste, propositadamente, que a realidade a ficção fossem uma e uma só identidade, fusão terapêutica de chá, sorrisos e choro.
Obrigada por quando me fizeste rir.
Obrigada por me aturares as esquisitices, as manias, as insónias.
Obrigada por te deixares adormecer e obrigada por nunca teres morrido, mesmo nas vezes que tentei matar-te, assassina impiedosa.
Obrigada por acolheres textos feios, mal-escritos, desdenhosos.
Obrigada por reconheceres quando estou demasiado feliz para falar de desgraças.
Obrigada por ainda me deixares sonhar.
Obrigada por cada sílaba, cada palavra, cada frase, cada post.
Ainda és tu quem se mantém mais ou menos o mesmo, dois anos depois. Eu já não sou a mesma e também a ti o devo. Obrigada.
Parabéns ao Desumanos.
Um piano toca dolente e enche a tarde, ao longe. As chaves - um molho enorme, com chaves de todos os formatos - está a um canto da entrada, talvez deixadas cair por alguém que entrou à pressa.
Há um bilhete sobre a mesinha da sala, a única mesa de todo o apartamento. Vazio.
Segura o bilhete entre os lábios, já em miúda a mãe lhe dizia que aquilo era pouco higiénico mas criara essa mania. Habituara-se a fazer tudo ao mesmo tempo, jantar enquanto estudava, ver televisão enquanto fazia a depilação, falar ao telefone enquanto se arranjava. Sempre com o bilhete nos lábios, e ainda sem o ler, abre as cortinas e as persianas dos grandes janelões da sala. Já não precisa de acender a luz, porque o sol ocupa o espaço deixado livre pela ausência dos móveis. Ilumina o grande armário dos discos, onde vinis alinham-se com cds em estantes oblíquas. Decide ouvir música antes de seja o que for. Antes de pousar a mala, a pasta com a papelada do escritório, o saco do supermercado.
Levantou o braço do gira-discos ainda antes de escolher o que queria ouvir. Apetecia-lhe ouvir qualquer coisa onde se sobrepusesse o trompete. Apetecia-lhe dançar para que a felicidade que sentia inundasse aquelas paredes vazias, como se de quadros de Magritte se tratasse.
Ceci n'est pas une pipe. C'est seulement joie de vivre.
Já ouve Donald Byrd enquanto pousa tudo o que havia para pousar. Finalmente o bilhete passa para as suas mãos.
Volto logo. Logo. O mais rápido que puder. Está um dia lindo, parecia que ia chover e começou o sol a brilhar desta maneira, viste? Fui buscar coisas a casa. Trago jantar. Ou vamos jantar fora. Ou ficamos por casa na cama. Ia escrever "a comer-nos" mas achei demasiado porco. Vais guardar este bilhete? "O primeiro bilhete que ele me deixou na nossa casa nova"? Se soubesses o quanto te amo. Já temos gás e internet. Quero-te encontrar a dançar. Ou dentro de um banho. Prometo juntar-me a ti, independemente do que estiveres a fazer quando eu chegar. Mesmo que estejas a lavar os dentes. Temos internet, já disse? Eu amo-te muito. Até já, num já que são horas que serão séculos.
Guardou o papel no bolso e agora rodopia pela sala. Há pó que se eleva com os seus passos. Sabe que é delicada e que dança bem, sobretudo agora que ninguém a vê. Os olhos estão abertos porque pôs-se a imaginar cada canto daquela sala com os móveis e as fotografias que deseja trazer. Gradualmente deixa de ser ela quem dança, uma força que se move para além dela mas que não a força a nada. Tem que arrumar alguns dos caixotes que lhe ocupam aquele lado da - ou melhor, pensa imediatamente, os caixotes que lhe ocupam a zona do escritório. É talvez a última dança que fará sozinha naquela sala vazia. Amanhã chegará um sofá, uma estante, as molduras de fotografias.
Fecha os olhos e sente nos seus lábios as bocas de quem já beijou. O rosto abre-se em alegria. Agora beija quem sempre quis beijar. Como se já o conhecesse do útero e tivesse que ter andado à procura cá fora. Contorce-se de prazer, o trompete sobe, sob ele há batida funk, quente. Sob ele há uma viagem.
Empilha dois caixotes diante da janela e vai mudar de disco. Escolhe o Chico Buarque, escolhe o Brasil como ponto de partida. Senta-se nos caixotes e aproveita aquele final de tarde absurdo. Absurdo de tão bonito. O céu estende-se na potencialidade infinita de ser feliz. Aqui, agora.
Há um bilhete sobre a mesinha da sala, a única mesa de todo o apartamento. Vazio.
Segura o bilhete entre os lábios, já em miúda a mãe lhe dizia que aquilo era pouco higiénico mas criara essa mania. Habituara-se a fazer tudo ao mesmo tempo, jantar enquanto estudava, ver televisão enquanto fazia a depilação, falar ao telefone enquanto se arranjava. Sempre com o bilhete nos lábios, e ainda sem o ler, abre as cortinas e as persianas dos grandes janelões da sala. Já não precisa de acender a luz, porque o sol ocupa o espaço deixado livre pela ausência dos móveis. Ilumina o grande armário dos discos, onde vinis alinham-se com cds em estantes oblíquas. Decide ouvir música antes de seja o que for. Antes de pousar a mala, a pasta com a papelada do escritório, o saco do supermercado.
Levantou o braço do gira-discos ainda antes de escolher o que queria ouvir. Apetecia-lhe ouvir qualquer coisa onde se sobrepusesse o trompete. Apetecia-lhe dançar para que a felicidade que sentia inundasse aquelas paredes vazias, como se de quadros de Magritte se tratasse.
Ceci n'est pas une pipe. C'est seulement joie de vivre.
Já ouve Donald Byrd enquanto pousa tudo o que havia para pousar. Finalmente o bilhete passa para as suas mãos.
Volto logo. Logo. O mais rápido que puder. Está um dia lindo, parecia que ia chover e começou o sol a brilhar desta maneira, viste? Fui buscar coisas a casa. Trago jantar. Ou vamos jantar fora. Ou ficamos por casa na cama. Ia escrever "a comer-nos" mas achei demasiado porco. Vais guardar este bilhete? "O primeiro bilhete que ele me deixou na nossa casa nova"? Se soubesses o quanto te amo. Já temos gás e internet. Quero-te encontrar a dançar. Ou dentro de um banho. Prometo juntar-me a ti, independemente do que estiveres a fazer quando eu chegar. Mesmo que estejas a lavar os dentes. Temos internet, já disse? Eu amo-te muito. Até já, num já que são horas que serão séculos.
Guardou o papel no bolso e agora rodopia pela sala. Há pó que se eleva com os seus passos. Sabe que é delicada e que dança bem, sobretudo agora que ninguém a vê. Os olhos estão abertos porque pôs-se a imaginar cada canto daquela sala com os móveis e as fotografias que deseja trazer. Gradualmente deixa de ser ela quem dança, uma força que se move para além dela mas que não a força a nada. Tem que arrumar alguns dos caixotes que lhe ocupam aquele lado da - ou melhor, pensa imediatamente, os caixotes que lhe ocupam a zona do escritório. É talvez a última dança que fará sozinha naquela sala vazia. Amanhã chegará um sofá, uma estante, as molduras de fotografias.
Fecha os olhos e sente nos seus lábios as bocas de quem já beijou. O rosto abre-se em alegria. Agora beija quem sempre quis beijar. Como se já o conhecesse do útero e tivesse que ter andado à procura cá fora. Contorce-se de prazer, o trompete sobe, sob ele há batida funk, quente. Sob ele há uma viagem.
Empilha dois caixotes diante da janela e vai mudar de disco. Escolhe o Chico Buarque, escolhe o Brasil como ponto de partida. Senta-se nos caixotes e aproveita aquele final de tarde absurdo. Absurdo de tão bonito. O céu estende-se na potencialidade infinita de ser feliz. Aqui, agora.
19.1.07
Scoop
Pela primeira vez, saí do cinema desconsolada depois de ver um filme do Woody Allen. Eu que até agora tinha gostado de todos os filmes dele, mesmo aqueles apelidados de "lixo cinematográfico".
A história merecia mais, o Hugh Jackman merecia mais, a Scarlett Johansson talvez não mereça tanto.
Mas vão ver, em termos de gargalhadas descomprometidas, o filme é um sucesso - e é do Woody Allen, só não é uma obra-prima. Falta-lhe um twist qualquer no enredo. Falta sarcasmo aos acontecimentos. Falta aquele humor negro, que o Match Point teve (o anel que podia cair no rio ou no chão, tal como a bola num jogo de ténis.) Não há ali nada disso. Há até uma história bem clara, demasiado clara, arriscaria mesmo a usar o termo previsível.

Sempre são duas horinhas bem passadas no cinema - e na companhia dele.

Peço-vos que reparem na cana do nariz deste senhor. Rectilínea, afilada, ligiramente inclinada para baixo (cada uma gosta do que gosta, a mim são narizes, que hei-de fazer?). O nariz mais perfeito que tive oportunidade de observar. A cara, magra, que se desdobra em rugas expressivas quando sorri, a testa grande, imediatamente cima de uns olhos sinceramente castanhos e vivaços. E é o Hugh Jackman que faz com que a melhor cena do filme seja exactamente a melhor cena do filme - para não falar do efeito de pólos, ainda por cima verdes, no meu coração fraquito:
A história merecia mais, o Hugh Jackman merecia mais, a Scarlett Johansson talvez não mereça tanto.
Mas vão ver, em termos de gargalhadas descomprometidas, o filme é um sucesso - e é do Woody Allen, só não é uma obra-prima. Falta-lhe um twist qualquer no enredo. Falta sarcasmo aos acontecimentos. Falta aquele humor negro, que o Match Point teve (o anel que podia cair no rio ou no chão, tal como a bola num jogo de ténis.) Não há ali nada disso. Há até uma história bem clara, demasiado clara, arriscaria mesmo a usar o termo previsível.
Sempre são duas horinhas bem passadas no cinema - e na companhia dele.
Peço-vos que reparem na cana do nariz deste senhor. Rectilínea, afilada, ligiramente inclinada para baixo (cada uma gosta do que gosta, a mim são narizes, que hei-de fazer?). O nariz mais perfeito que tive oportunidade de observar. A cara, magra, que se desdobra em rugas expressivas quando sorri, a testa grande, imediatamente cima de uns olhos sinceramente castanhos e vivaços. E é o Hugh Jackman que faz com que a melhor cena do filme seja exactamente a melhor cena do filme - para não falar do efeito de pólos, ainda por cima verdes, no meu coração fraquito:
Três canções para ter uma filha chamada Madalena
Uma. Madalena, Elis Regina
Duas. Magdalena, dEUS
Três. Magdalina's dance, Bert Jansch
Duas. Magdalena, dEUS
Três. Magdalina's dance, Bert Jansch
18.1.07
16.1.07
Crítica televisiva a um programa defunto
Os pés levaram-me para o sofá e os dedos, encostados à borracha dos botões do comando, levaram-me até à RTP Memória, onde estava a ser transmitido o Parabéns, com Herman José.
Há várias considerações a tecer quando se vê o Parabéns com Herman José (nunca tinham reparado que o nome é assim mesmo? é para isso que aqui estou). Uma delas é francamente óbvia: o Herman José nesta altura não era loiro. E afinal nesta altura também já não tinha assim tanta piada quanto isso - recordo-me que o humor voltou aos programas do Herman com as rábulas da Maria Rueff no Herman'98, não com o próprio Herman. O Parabéns com Herman José era, já nesta altura, um chorrilho de amizades e de queridas e queridos e de grandes amigos para todo o lado. Talvez com menos pompa do que o actual Herman SIC (programa que não assisto há coisa de dois anos e meio ou mesmo mais), mas ainda assim uma chatice.
A roupa das criaturas que aparecem no programa é digna de nota. O Parabéns com Herman José é dos anos noventa, meodeos. Eu já estava minimamente acordada para a vida nesta década e não me lembro de n i n g u é m na minha família se vestir assim - God forbid! No jogo das idades, em que os dois concorrentes seleccionados para jogar com o Herman escolhem aniversariantes do público, uma miúda tinha a minha idade actual - 22 anos, para os poucos que não sabem - e eu dava-lhe, na boa, 30 anos ou mais. Ou mais. Que ar tão pesadão. Que coisa é aquela de vestir um tailleur cinzento escuro para ir a um programa de televisão de entretenimento? Se ainda fosse falar sobre microeconomia, aceitava-se o ar - literalmente - cinzentão. Agora ali há dados que rebolam sobre as cabeças do público, chaves com cores berrantes em que só uma abre o cofre do banco Fonsecas e Burnay (que é feito do banco Fonsecas e Burnay, anyway?), há a Ana Bola e o Vítor de Sousa para o momento humorístico da noite. E no programa que assisti (apenas parcialmente, confesso), o aniversariante VIP era o Artur Albarran. (E a mulher por quem estava apaixonado na altura - e casado, acho - não era a Lisa que alegadamente levou pancada, para verem como o mundo dá voltas.) Não é programa para alguém ir vestido daquela maneira. Adiante.
Claro que assistir a este programa, Parabéns com Herman José, deixou-me um pouco nostálgica. Os meus sábados à noite em miúda eram exactamente a ver aquilo: a aguardar ansiosamente que acabasse o Telejornal, depois de comer creme de ervilhas e ovo estrelado com arroz, em casa da minha avó - para que começasse o Parabéns com Herman José. Eu vibrava com aquilo. Sonhava com o dia em que eu pudesse participar para ir ali, na semana do dia 18 de Novembro, pôr as mãos naqueles dados que me pareciam tão fofinhos. (Ainda hoje quando vejo dados grandes, daqueles de esponja para as crianças brincarem, agarro-me a eles com convicção e faço-os rolar com um rufar de tambores - Joana, the human beatbox - , tal como no Parabéns com Herman José.) Escolhia as cores das chaves com fervor para abrir o tal cofre do banco Fonsecas e Burnay, que continha setecentos e cinquenta mil escudos, os presentes com pistas muito idênticas - mas em que os pequenos detalhes distinguiam um micro-ondas de um simples púcaro. E havia a banda. E eu gostava daquilo tudo e lembro-me que toda a gente lá em casa via aquele programa comigo.
Bem vistas as coisas, faz falta um programa assim à actual televisão-floribella-morangos-related. Apesar de tudo, a entrevista com o Albarran estava a aborrecer-me desliguei a televisão. Já há muito tempo que não via tanto tempo de televisão de seguida, ainda assim.
Há várias considerações a tecer quando se vê o Parabéns com Herman José (nunca tinham reparado que o nome é assim mesmo? é para isso que aqui estou). Uma delas é francamente óbvia: o Herman José nesta altura não era loiro. E afinal nesta altura também já não tinha assim tanta piada quanto isso - recordo-me que o humor voltou aos programas do Herman com as rábulas da Maria Rueff no Herman'98, não com o próprio Herman. O Parabéns com Herman José era, já nesta altura, um chorrilho de amizades e de queridas e queridos e de grandes amigos para todo o lado. Talvez com menos pompa do que o actual Herman SIC (programa que não assisto há coisa de dois anos e meio ou mesmo mais), mas ainda assim uma chatice.
A roupa das criaturas que aparecem no programa é digna de nota. O Parabéns com Herman José é dos anos noventa, meodeos. Eu já estava minimamente acordada para a vida nesta década e não me lembro de n i n g u é m na minha família se vestir assim - God forbid! No jogo das idades, em que os dois concorrentes seleccionados para jogar com o Herman escolhem aniversariantes do público, uma miúda tinha a minha idade actual - 22 anos, para os poucos que não sabem - e eu dava-lhe, na boa, 30 anos ou mais. Ou mais. Que ar tão pesadão. Que coisa é aquela de vestir um tailleur cinzento escuro para ir a um programa de televisão de entretenimento? Se ainda fosse falar sobre microeconomia, aceitava-se o ar - literalmente - cinzentão. Agora ali há dados que rebolam sobre as cabeças do público, chaves com cores berrantes em que só uma abre o cofre do banco Fonsecas e Burnay (que é feito do banco Fonsecas e Burnay, anyway?), há a Ana Bola e o Vítor de Sousa para o momento humorístico da noite. E no programa que assisti (apenas parcialmente, confesso), o aniversariante VIP era o Artur Albarran. (E a mulher por quem estava apaixonado na altura - e casado, acho - não era a Lisa que alegadamente levou pancada, para verem como o mundo dá voltas.) Não é programa para alguém ir vestido daquela maneira. Adiante.
Claro que assistir a este programa, Parabéns com Herman José, deixou-me um pouco nostálgica. Os meus sábados à noite em miúda eram exactamente a ver aquilo: a aguardar ansiosamente que acabasse o Telejornal, depois de comer creme de ervilhas e ovo estrelado com arroz, em casa da minha avó - para que começasse o Parabéns com Herman José. Eu vibrava com aquilo. Sonhava com o dia em que eu pudesse participar para ir ali, na semana do dia 18 de Novembro, pôr as mãos naqueles dados que me pareciam tão fofinhos. (Ainda hoje quando vejo dados grandes, daqueles de esponja para as crianças brincarem, agarro-me a eles com convicção e faço-os rolar com um rufar de tambores - Joana, the human beatbox - , tal como no Parabéns com Herman José.) Escolhia as cores das chaves com fervor para abrir o tal cofre do banco Fonsecas e Burnay, que continha setecentos e cinquenta mil escudos, os presentes com pistas muito idênticas - mas em que os pequenos detalhes distinguiam um micro-ondas de um simples púcaro. E havia a banda. E eu gostava daquilo tudo e lembro-me que toda a gente lá em casa via aquele programa comigo.
Bem vistas as coisas, faz falta um programa assim à actual televisão-floribella-morangos-related. Apesar de tudo, a entrevista com o Albarran estava a aborrecer-me desliguei a televisão. Já há muito tempo que não via tanto tempo de televisão de seguida, ainda assim.
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