10.3.08
Sound of kuduro knocking at my door
2006: conheço os Buraka, via o-mais-energético-concerto-de-sempre no Mercado. Sai o From Buraka to the World, nesse Verão, que oiço exaustivamente. Assisto o tudo o que me é humanamemte possível em que os Buraka participem.
2007: os Buraka internacionalizam-se, a M.I.A. lança o Kala (discaço, ponto final). Danço ao som de Buraka no Alive com um jornalista da nossa praça (queria deixar isto registado, porque foi uma surpresa: diz que aprendeu com uma pretinha em festas kuduro hardcore em Odivelas.)
2008: a M.I.A. participa no single dos Buraka. Vicio-me: isto é como se os Buraka não quisessem agradar a ninguém (como quem diz, educaram o ouvido e a pista, ensaiaram o cu dos brancos, agora aguentem-se com esta).
Não há nada para concluir. Apeteceu-me fazer um apanhado biográfico em vez de apenas deixar por aqui o vídeo.
Isto é *****. AVÉ MARIA!
(Xé, dama! Não dá p'ra parar, não dá p'ra 'tar quieto.)
Os controlos do blogger (e a redenção virtual)
(Estive, há coisa de duas semanas, a olhar fixamente para o Delete Blog. [Font = Georgia] Entretanto fui para o Alentejo e perdi a ideia que tinha para o meu post de closure (de apagar o blog passei a ter vontade de o deixar zombie, mais uma alma assombrada vagueando na blogosfera).
A ideia foi-se. E entretanto, tudo isto dentro de mim a querer sair sem ter maneira (a quantidade de leitura que faço é proporcional, na minha auto-avaliação, à má qualidade da minha escrita, isto é, quanto mais leio, pior julgo que escrevo). É difícil escrever um texto, depois de ter lido um capítulo do Roth, e achar que "sim, sim, está belíssimo, vou já dá-lo a ler."
Pressione Ctrl com P = Publicar. Estou viva, ao que parece.
E falar continua a ser uma coisa muitíssimo sobrevalorizada.
Rather Lovely Thing.
Um dia terei nas mãos mais verdades que mentiras e saberei distinguir as intenções das interjeições, e a estas duas poderei simplesmente marcá-las com a palavra lixo
(tenho uma caixa no quarto que serve para ir pondo lixo que não é bem lixo mas que um dia vai acabar por sê-lo, por enquanto é só um resto de coisas que foram ficando comigo e que, em abono da exactidão do discurso, nunca foram bem coisas, mas antes pessoas, emoções, receitas e bocados de músicas ou letras, algumas cartas de amor, aqui e ali, a maior parte delas nunca conheceram sequer viagem de ida)
guardá-las (às intenções e às interjeições) nessa caixa e deixá-las ali no canto do quarto, esquecidas por quem prefere sempre não esquecer.
Os bilhetes de concertos continuam fora da caixa. Como se os concertos - e a música, sempre a música - fossem mais verdade que tudo o que foi passando. Como se os concertos - e a música, outra vez - ficassem, enquanto o resto vai.
24.2.08
So many lessons you still have to learn.
18.2.08
Diálogo
Por isso, hoje, mais uma vez como em todo aquele mês (se calhar, há mais tempo, mas também ele gelara e o tempo não corre sobre a pele fria), saltou da cama, sem fazer barulho, fez café que pousou, numa caneca, sobre a mesa de cabeceira dela, tomou banho, arranjou-se e saíu, sem bons dias e sem festas no cabelo. E no caminho para o trabalho
primeiro a pé e a chuva gélida como granizo, as gotas por dentro da gola do sobretudo, descendo costas abaixo, encharcando-lhe a cintura apertada
Estás tão gordo, nem te cabem as calças
Mais para amar
E a gargalhada pronta, como é que alguém tão estupidamente feliz se pode tornar tão ridiculamente amargo?
depois no autocarro, comprimido entre odores, pode apostar que o pescoço desta miúda excessivamente arranjada cheira a um perfume adocicado, como fruta demasiado madura, quase podre, e estes dois atrás dele, de mão na barra de segurança e axilas ao ar, ou estavam sem gás em casa - e com aquele frio, quem é que toma banho de água sem ser a escaldar?- ou são porcos, mesmo. Porcos imundos com as axilas sob o seu nariz, que óptima ideia para uma manhã feliz.
(É a segunda vez que rima hoje e pergunta-se se aquele provérbio "quem rima sem querer é amado sem saber" também se aplica quando o único diálogo que vai tendo ainda é consigo próprio. Pergunta-se, logo depois, se quando deixar de falar consigo próprio é porque perdeu o juízo de vez ou porque recuperou a sanidade.)
Afunda-se nos auscultadores do leitor de mp3, presente de Natal dela quando celebraram o primeiro Natal juntos, ela grávida. Ainda celebravam o Natal então. Ainda falta meia hora para chegar.
17.2.08
15.2.08
Honestamente, estou-me nas tintas para o dia dos namorados.
Reconhece-se-lhe o dogma característico de coiso - as suas típicas verdades absolutas e incontestáveis, sobre os pilares frágeis da sua credulidade -mas não consigo não concordar, se olhar para além dos detalhes, se ler nas entrelinhas: o que é afinal namorar?
Namorar é desfrutar, é providenciar felicidade, para depois recebê-la. É claro que tudo aquilo pode estar incluído (e tantas vezes está e é bem bom, não o nego) mas viver um namoro, estar-se apaixonado tem de ser mais. Quantas vezes a relação cai na monotonia do telefonema de duas horas antes de se encontrar depois do trabalho para ir ao cinema? (Nada contra desde que o programa não seja por comodismo barato.)
Tudo isto para acrescentar que não sei o que é namorar - vai-se definindo a cada dia, a dois, e se renovando a cada segundo mas permito-me acrescentar, hoje, dia 15 de Fevereiro de 2008, que:
Namorar também é não celebrar o dia de S.Valentim.
13.2.08
No lanche a meio da cirurgia, na sala de convívio do Bloco
Mais tarde, na mesma sala, reparo que o José Castelo Branco está com o mesmo corte de cabelo que ela.
Não fica bem a nenhum, diga-se.
12.2.08
6.2.08
O meu email está agora disponível neste post.
Não vale a pena adicionar no msn (uso outra conta) nem mandar parvoíces. Um abraço.
*Isto é por ter medo de aranhas. Quando enviarem coisas, ponham os caracteres como deve ser!
*
E é tão bom, caramba, só nós sabemos quão bom é.
Em relação ao post anterior, o epílogo em inglês para tentar ter piada
Que é como quem diz, talvez tenha validade limitada e desapareça em breve.
Bloqueio sentimental
Que encontraste em mim?
Pergunto-me que tipo de conforto terás dos nossos encontros e - espero sinceramente não soar a Amy Winehouse agora - mas lembro-me sempre de quando ela canta
I knew I hadn't met my match but every moment we could snatch
I don't know why I got so attached
porque em cada momento que estamos juntos aquilo que trago para casa é o teu perfume no meu antebraço (sempre, sempre) e uma vontade gigante de amar o mundo - e é de tal maneira gigante que o mundo me parece pequeno e abraçável, se é que a palavra existe - e a ti.
Depois passa, como uma droga, e do sorriso inquebrável restam sempre dúvidas se é desta que pousaste ou se amanhã, como se nada fosse, me avisas que já vais e que até podias ficar por mim, mas tens de ir. E entretanto ficas e vais ficando e vamo-nos incluindo nos planos um do outro outra vez - porque isto de gostarmos de alguém cujos pés estão um palmo acima do chão e a cabeça um palmo abaixo das nuvens é também ter sapatinhos de veludo, como a barata, e dar passinhos lentos, sem ruídos nem ranger de soalhos, primeiro um em direcção do outro e finalmente um ao lado do outro.
É muito raro conseguir escrever sobre ti tal como é raro conseguir descrever-te sem parecer deslumbrada quando, na verdade, isto até nem é bem deslumbre mas vontade de decifrar o código, o teu código. E nós já vimos de longe juntos ou em ajuntamento e quando me puxas contra ti e fazes aquelas promessas todas, eu tenho dois anos de novo e estou a roubar Serenatas de amor da gaveta dos chocolates na casa da minha avó. Por isso é que te sorrio daquela maneira, fica já a saber.
Há coisa de um ano disse-te que não podíamos andar a nos beijar assim e tu deste uma daquelas tuas gargalhadas luminosas, daquelas que enchem uma sala. E perguntaste "Porquê?" e eu não soube responder, eu não gostava de ti o suficiente para ser tua namorada nem queria ainda acabar com os nossos momentos gulosos - e a gula é um dos sete pecados mortais - sem saber onde é que aquilo nos levava. Um ano depois, olho para trás e estou certa que nos demos dos melhores momentos da nossa vida e que isto tem sido divertido e giro e excitante, mas é também há um ano que não sei responder à pergunta "tens namorado?" - e é uma pergunta simples, de sim ou não - porque quer dê uma das duas respostas possíveis, estarei a mentir com os dentes todos que tenho na boca (incluindo os sisos que tirei o ano passado).
Sempre me pareceu cobardia escrever no Desumanos sobre ti, porque tu não vens aqui ler-me e seria injusto falar de ti nas tuas costas, mas ontem tivemos a conversar sobre estas coisas e correu bem, acho eu. Não sei como o fazes, mas dizes o que tens a dizer de forma tão convincente que eu volto a ganhar confiança em ti. Eu disse-te a verdade quando disse "já não acredito em ti" porque acredito mais no meu sexto sentido do que naquilo que prometes, mas macacos me mordam se ontem não foste, pela primeira vez (ou talvez segunda, não tenho a certeza), sincero comigo e - só por isso - voltei a acreditar em ti.
Isto está bastante mais auto-biográfico do que a maior parte dos posts que por aqui deixo e acabei de transformar o meu blog num daqueles blogs pessoais muito irritantes. A minha imaginação não tem sido grande parceira nestes últimos tempos porque só te imagina, só te crê, porque só nela te tornas presente. És desaconselhado por toda a gente, salvo raras excepções, e mesmo assim não me quero afastar de ti. "Tarde demais", diria.
Pois aqui estou.
4.2.08
Rejubilai!
(Isto já funciona como aquelas relações muito longas, que a certa altura já nem se conta há quantos anos se namora. Qualquer dia casamos, eu e o meu blog.)
"Without you the winter grows."
Se estiverem com um desgosto amoroso, NÃO oiçam isto pela vossa saúde, mesmo que esteja apenas no início, isto vai fazer-vos sentir ainda pior, a sério. É daquelas canções óptimas para nos mandarem ao chão, dar uns pontapés, fazer uns arranhões na cara e fazer cair grossas lágrimas de uma dor que está ainda mais para dentro do que as tripas e é maior que qualquer outra dor orgânica.
Por aqui, tudo bem, posso ouvir isto vezes sem conta sem verter uma gota - nem de choro nem de xixi, já agora, que ainda não estou incontinente. É tão linda, que canção tão filha de p*** de bonita, pá.
Noutra perspectiva, porque raio as músicas devem ser catalogadas como "txi vou chorar" ou "txi vou dançar"? Eu quando oiço "love me the way I love you" encho-me de uma alegria enorme, fico com o peito quase a rebentar de tanta alegria, mentalmente oiço uma cascata e água a correr - aqui sim, fico com vontade de um xixizinho que uma mulher não é de ferro - e o sol está a brilhar de uma maneira que tenho de franzir os olhos - como se eu tivesse miopia e me recusasse a usar óculos (olá, sim tu!) - e não há mais nada tão perfeito assim porque mentalmente oiço "I love you the way youuuu love me" e, honestamente, às vezes é só isso que precisamos de ouvir. E, se franzirmos tanto os olhos que as pálpebras chegam até a tocar-se, podemos adivinhar uma sombra que se aproxima da nossa cara e sentir, ao de leve, uns lábios molhados a tocar os nossos.
I can't marry you, you know
Without you the winter grows
I can't marry you, you know
Love me the way i love you
Love me the way i love you
Take a year in your hands
You can find another man
Let your unloved parts get loved
I will be your man
Love me the way i love you
Love me the way i love you
Places you should be afraid
Into the river we will wade
Love me the way i love you
Love me the way i love you
Não vi o vídeo, mas ouvi a canção toda e é mesmo o original. Agora o vídeo não sei, só sei que começava com o sorriso de uma criança e que, a certa altura, tinha uma imagem de uma vaca, em que reparei quando ia fazer o copy-paste do embed.
SMOGgy weather
Justice aversion :: Smog :: Dongs of Sevotion
Posto isto: que cada um enfie a carapuça onde quiser.
3.2.08
O Google é fixe. O Google é bom. O Google é Deus.
Boas notícias!
The combined influence of leisure-time physical activity and weekly alcohol intake on fatal ischaemic heart disease and all-cause mortality
Jane Østergaard Pedersen1,2,* ,Berit Lilienthal Heitmann2 ,Peter Schnohr3 andMorten Grønbæk
Aims: To determine the combined influence of leisure-time physical activity and weekly alcohol intake on the risk of subsequent fatal ischaemic heart disease (IHD) and all-cause mortality.Methods and results: Prospective cohort study of 11 914 Danes aged 20 years or older and without pre-existing IHD. During
20 years of follow-up, 1242 cases of fatal IHD occurred and 5901 died from all causes. Within both genders, being physically active was associated with lower hazard ratios (HR) of both fatal IHD and all-cause mortality than being physically inactive. Further, weekly alcohol intake was inversely associated with fatal IHD and had a U-shaped association with all-cause mortality. Within level of physical activity, non-drinkers had the highest HR of fatal IHD, whereas both non-drinkers and heavy drinkers had the highest HR of all-cause mortality. Further, the physically inactive had the highest HR of both fatal IHD and all-cause mortality within each category of weekly alcohol intake. Thus, the HR of both fatal IHD and all-cause mortality were low among the physically active who had a moderate alcohol intake.
Conclusion: Leisure-time physical activity and a moderate weekly alcohol intake are both important to lower the risk of fatal IHD and all-cause mortality.
Key Words: Physical activity • Alcohol intake • Ischaemic heart disease • All-cause mortality • Survival analysis
European Heart Journal 2008 29(2):204-212; doi:10.1093/eurheartj/ehm574
Devo estar com uma saúde de ferro!
29.1.08
Um disco que se destaca sobre todos os outros e uma nota de rodapé
And when I see you constantly changing
Never the same as, never remaining
I cannot fix you in a position
Where I would lose you out of my vision
For you are movement
And that is nothing
Nota de rodapé:
Leitores bonitos: tudo a ver o The Darjeeling Limited. É o melhor Anderson que vi e isto não é dizer pouco, tendo em conta o que está para trás e o facto do Royal Tenenbaums ser um dos meus filmes preferidos de todos os filmes do mundo - só não vi o Bottle Rocket, o primeiro dele, por isso sobre esse não me pronuncio. Era giro ver e eu gostava, mas nunca encontrei num clube de vídeo nem na casa de ninguém para pedir emprestado. Eu se percebesse alguma coisa de cinema escrevia um texto sobre o Darjeeling (desatava a falar em planos, fotografia, cortes de película como quem faz um sumo cheio de fruta sem se preocupar em saber o que está a deitar lá dentro), mas não percebo, vão ver vocês e depois digam qualquer coisa.
28.1.08
27.1.08
I <3 LDN
Vou a Londres, de 21 a 28 de Março. Já está tudo marcado e vai mesmo acontecer, o que é bom. É bom também não haver mais nada que justifique a minha ida a Londres se não a vontade de conhecer a cidade. (E agora também já posso voltar a dizer que quero fazer lá parte da especialidade sem que pensem "oh meu Deus, lá está ela a ser obsessiva de novo".) Inventei um slogan para a viagem, já agora: "L.O.J.J.A <3 LDN" (são as nossas iniciais e compõem a palavra loja).
Como era de esperar, e depois de algum tempo surpreendida a achar que não, há montes de concertos na semana que lá estou. Neil Young, The Sonics, Kristin Hersh, The Twilight Sad, e estou só a mencionar aqueles que gostava de ver. Vou ter de escolher dois, no máximo dois - ainda não sei quais.
Há montes de coisas para ver e fazer em Londres mas, quando penso nisso, aquilo que mais me apetece é "fundir". Fundir-me com os londrinos, como consegui em Barcelona. Acho que não quero ir ao Madame Tussaud's, as figuras de cera assustam-me um bocado. Quero ver as outras coisas todas, Big Ben, St. Paul's Cathedral, render da Guarda e Palácio de Buckingham, London Bridge (is falling down, falling down), Tower Bridge e o Tamisa, Picadilly Circus, Trafalgar Square. Gostava de ir ao Tate Modern. Passear, passear, passear e, ao final da tarde, beber umas pints no pub da esquina. Perfeito.
Adoro viajar.
20.1.08
Ainda bem que falamos em Hot Chip
Ouvi na H&M, durante os saldos
Aposto que esta Tomoko é daquelas gajas que nos irritam apesar de serem irrepreensivelmente adoráveis. So hard to hang out with that kind of girl.
Podem ouvir aqui.
She flies much faster
Shouts much louder
Looks much fresher
And eats much less than you
There's nothing you can do
It's just hard to hang out with Tomoko
Tomoko
She doesn't gossip
Her hair still shines
Still has hope
Is never broke
Like you
O Rato
É bom que sim, é bom que sim.
Adenda, de um site qualquer:
É um ano próspero para o nativo do Rato. Poderá ser promovido ou atingir o auge da carreira. No campo da saúde não se terá que preocupar. Poderá esperar ganhos monetários e atingir vários objectivos.
Good for me.
19.1.08
A arte do sample V
A tribe called quest :: Can I kick it
Baby Huey :: Hard times
Baby Huey teve uma vida demasiado curta e, como não começou a cantar mal saíu da barriga da mãe, uma carreira ainda mais curta, com apenas um álbum para a posterioridade, de seu nome The Baby Huey Story: The Living Legend.
Senhor de grande porte, James Ramey decidiu ser conhecido pelo nome de um pato gordo de um desenho animado que fazia as delícias das crianças. A voz é como aqui se ouve, melosa, rouca, extremamente sensual e quente.
Algures na década de '60, e porque felizmente estas vozes raramente ficam pelo canto durante o banho, juntou-se a outros músicos e formaram o conjunto Baby Huey and the Babysitters, que, após muitas e muitas actuações ao vivo, chamou à atenção da Curtom Records.
Ora, reza a história que os Babysitters não encantaram o patrão da Curtom, Curtis Mayfield (estou a tentar não entrar em histeria, para isto não se tornar um post sobre o Curtis Mayfield), e que, por isso, o disco, produzido pelo GIGANTE CURTIS, só ficou com o nome dele, apesar da participação do resto da banda.
Em 1970, Baby Huey, na altura com 26 anos, teve um enfarte do miocárdio (por acaso, tema de estudo este fim de semana e de trabalho a apresentar na sexta-feira, que coincidência) ao qual não sobreviveu.
Resta-nos o disco, assumidamente influência no hip-hop, e que foi só editado postumamente. Como se espera, é protagonizado pela voz de Baby Huey, mas Curtis - mesmo não gostando dos Babysitters - não deixou as orquestrações para trás, tornando-as dignas de um disco seu (ahahah) e é um encadear de emoções de um espectro enorme desde o blues ao funk, passando pelas baladas soul como esta que se mostra aqui, com ritmo para qualquer dia da nossa vida (desde a pista de dança ao amor com o(a) namorado(a), desde arrumar à casa a ir fazer exercício ou um trabalho para a faculdade).
The Baby Huey Story: The Living Legend é também, claro, obrigatório.
17.1.08
A arte do sample IV
Rihanna :: Don't stop the music
Só Deus sabe o quanto adoro mexer as ancas com isto. Isto é bom, as palmas, a letra flirty
Do you know what you started?
I just came here to party
And now we're rockin' on the dance floor
Looking naughty.
e o mamasémamasámamacosá, ou lá o que é que ela diz no final. E que ele também diz aqui:
Michael Jackson :: Wanna be starting something
Maravilha, ou quê?
[Post inspirado pela Isilda Sanches, no O2 Hi-Fi de hoje, da Oxigénio.]
15.1.08
(entre parêntesis)
A arte do sample III
M.I.A. :: Paper Planes
The Clash :: Straight to Hell
(Já toda a gente sabe desta, mas é uma das canções do ano e sampla de forma brilhante os Clash. Mais, a minha preferida do Kala talvez seja a Bamboo Banga, embora este seja daqueles discos de onde é impossível escolher uma sem estar a cometer uma injustiça do tamanho do mundo.)
Em assuntos relacionados, vejam, vejam o vídeo mais adorável de sempre. <3 (amor, meus espertinhos que pensaram nesse palavrão que rima com alho) para estes dois. É o Diplo e a própria, a cantar aquela que era a versão original da Paper Planes, que sampla outra coisa qualquer não me lembro o quê. Muito elucidativa, eu. Querem que vos fale de terapêutica com hidrocortisona no doente com choque séptico? Terei todo o gosto.
Eu sei que eles já acabaram, mas há ex-namorados que ficam para a vida - eu cá ando para prová-lo, e, se isto não é amor, não sei o que é o amor e provavelmente por isso raramente o encontro. Mas não. Algo me diz que isto é mesmo o amor. Coisa mais querida, meu Deus.
13.1.08
Janeiro também é mês de...
...Estreia de um filme novo do Mestre. *vénia*
(Depois de ver o trailer umas quinhentas mil vezes, o cenário é novamente Londres (and it's actually ok, Woody's sarcasm and ironic twist go well with a british accent), há problemas financeiros e um crime, uma mulher perigosamente estonteante, o dilema da moralidade versus imoralidade e a família - e deve-se fazer tudo pela família, não é? Como se vê ali em cima, entra o Ewan McGregor (ora bem, vai ser giro de ver, acho eu) e o meu ódio de estimação chamado Colin Farrell (mas porque é que os poucos realizadores cuja carreira vou acompanhando - olá Terrence Mallick! - o escolhem para filmes seus, bolas?). Prometo que vou estar lá sem implicar: é a prova de fogo, se não gostar dele dirigido pelo Woody Allen, é provável que não venha nunca a gostar.
A má notícia é que não há Hugh Jackman. Tive esperança que sim, que ele repetisse como repetiu a Scarlett. Que pena.)
Os discos que marcaram o transacto ano
20. The Stars of the Lid :: And Their Refinement of The Decline
19. No Age :: Weirdo Ripper
18. The Clientele :: God save the Clientele
17. Battles :: Mirrored
16. Norberto Lobo :: Mudar de Bina
15. Akron/ Family :: Love is Simple
13. Animal Collective :: Strawberry Jam
12. Beirut :: The Flying Club Cup
11. Electrelane:: No shouts, no calls
10. Jens Lekman :: Night fall over Kortedala
9. Matthew Dear :: Asa Breed
8. LCD Soundsystem :: Sound of Silver
7. Le Loup :: The Throne of the Third Heaven of the Nations' Millenium General Assembly

Epílogo:
Chega a esta altura e falta sempre ouvir imensa coisa, mas no que o ano passado era ansiedade, este ano é serenidade: tenho a certeza que, tirando uma ou outra falha mais ou menos grave a ser colmatada logo que possível, percorri os discos que mais me interessavam e aqueles que valeram mesmo segundo as críticas e mais não sei quem
De salientar: muitos discos da categoria electrónica-pista de dança-whatever (é uma área por que me interesso cada vez mais por trazer lufadas de ar fresco), disquitos indie aqui e acolá (ouvi muito indie rock ai-as-minhas-guitarras-e-as-minhas-all-star-e-os-teus-ganchinhos, fiz uma selecção e ficaram estes, mas também podia ali estar o álbum de estreia dos Voxtrot, dos The Good, The Bad and the Queen - aliás, porque é que não está ali este álbum que eu tanto adorei? - ou o álbum dos Modest Mouse ou do Andrew Bird), coisas que nunca pensei gostar e afinal adoro (No Age, Battles, Stars of the Lid, e ficou a faltar, nesta categoria, o álbum dos Shining "Grindstone").
Mais, deixa-me cá ver: ah, falta muito hip-hop aqui, mas este ano os álbuns do género soaram-me muito a pastilha elástica (mastiga e deita fora). Fartei-me rápido deles todos, tirando uma canção aqui e acolá, a que regressava com prazer. Mais, mais, mais: ai é verdade, coisas que já ouvi, gostei e não estão aqui! O primeiro dos Justice, o segundo de Go! Team (Lux, sexta, can't wait) e o ésimo álbum dos Wilco, do Bill Callahan, dos !!!, do Neil Young (que para já adoro). E chega de cromice.
É que este ano nem me ia meter nisto das listas - afinal, quem quer mesmo saber quais os vinte discos que na minha opinião foram os mais inovadores, mais ground-breaking/mais partiram pedra, mais únicos, mais irrepetíveis, melhores amigos para todas as ocasiões? Só o Nuno, que me pediu encarecidamente para tentar alinhar estes nomes (ele queria trinta, aqui ficam vinte). De resto, mais ninguém quer saber: fica aqui registado que é para daqui a dois meses eu rir-me.
8.1.08
Constatações finais
I'm not liable to figure you out.
I wanted to figure you out.
I learnt to read minds, but in the case of yours, I couldn't read in the dark.
Sabes que mais? Paciência. Azarito. Fica p'a próxima.
Grant Lee Buffalo :: Honey don't think
Uma pergunta a sério
Deverei perguntar "é do seu agrado eu agora desejar-lhe bom ano ou, pelo contrário, isso incomodaria-o de forma extremamente séria?"?
7.1.08
Dia 7 de Janeiro de 2008, no meu Poemário
ridícula do estão-a-tocar-a-nossa-canção
desaba sobre nós como um trovão.
Passa-nos uma coisa pela cabeça e
lá vamos nós de cabeça meter-nos
na boca do lobo, atirar ao próprio pé,
meter um golo na própria baliza.
Mesmo ao ler duas linhas muito belas,
com a sombra do candeeiro a dar-lhe em cheio,
a breve palavra dos seus lábios era outra.
A simples música dos seus lábios era outra.
Essas linhas já não tinham, por assim dizer,
lógica nenhuma. E eu, tonto, lá ia.
A coisa é de tal forma que ainda hoje
lá vou, a esse rodeio de mistérios repetidos,
força magnética e fatal, onde foste buscar
tanto sangue para meter nas veias?
Que, grossas, despontam sobre a ira
das mãos assanhadas e assim te atraem.
Uma dança parada de costas duras, fasquia
dobrável com truque de mão, alguma coisa
que me prende aqui, quem sabe se nesta casa
não descobri, sem querer, o eixo da terra,
o equador de uma alma relativamente pobre."
Helder Moura Pereira, Segredos do Reino Animal (1949)
O meu Poemário (um dos meus presentes preferidos deste Natal, daquelas surpresas não pedidas) é igual a todos os outros Poemários (implico com a palavra poemário e algo me diz que tal implicância terá a ver com as suas três últimas sílabas) da Assírio & Alvim, de 2008. Quando, por vezes, encontrar, por coincidência (ou não: já espreitei e o poema do dia 18 de Novembro - 24 anos - é um dos meus poemas preferidos de todos os tempos), poemas que goste muito, para aqui os trarei. Dia 2 já teve Cesariny e 3 o O'Neill, mas eu também não posso pôr aqui tudo. Escusado será dizer que, por nove euros e sessenta cêntimos (e com este poema como single de avanço) estes Segredos são um must-have absoluto.
Helder Moura Pereira nasceu em Setúbal, a 7 de Janeiro de 1949. Foi professor no Ensino Secundário e Assistente da Faculdade de Letras de Lisboa (Departamento de Estudos Anglo-Americanos). No King’s College da Universidade de Londres, como leitor, ensinou Literatura Portuguesa. Leccionou também Português e Técnicas de Expressão do Português nos cursos de Formação Profissional da Faculdade de Medicina Dentária de Lisboa. Ingressou no Ministério da Educação em 1986, tendo exercido funções técnicas na área da educação de adultos, nomeadamente em animação de leitura e nos grupos de planeamento e redacção da revista Forma e do jornal Viva Voz. Foi técnico superior do Ministério da Justiça, em funções no Estabelecimento Prisional de Lisboa. Em 1990 reuniu os seus livros de poesia publicados até à data em De Novo as Sombras e as Calmas, poesia de 1976 a 1990. Publicou depois outros livros de poesia (Em Cima do Acontecimento, Nem Por Sombras, O Horizonte Basta, Amor Carnalis e Um Raio de Sol) e um de contos para crianças (A Pensar Morreu um Burro e Outras Histórias). O seu livro de poesia, Lágrima, foi publicado em 2002, seguindo-se A Tua Cara Não Me É Estranha, editado em 2004. Tem traduzido regularmente autores como Ernest Hemingway, Jorge Luis Borges, Sylvia Plath, Charles e Mary Lamb, Sade, Guy Debord; e escrito sobre música no Jornal de Notícias.
Biografia retirada do site da Assírio & Alvim.
30.12.07
Ó caramba, porque estás tão longe?*
Joni Mitchell :: Help me
Help me.
I think I'm falling in love again.
When I get that crazy feeling, I know
I'm in trouble again.
I'm in trouble
cause you're a rambler and a gambler
And a sweet-talking-ladies man
And you love your lovin,
But not like you love your freedom.
Help me.
I think I'm falling
In love too fast,
It's got me hoping for the future
And worrying about the past.
cause I've seen some hot hot blazes
Come down to smoke and ash.
We love our lovin',
But not like we love our freedom.
Didn't it feel good,
We were sitting there talking,
Or lying there not talking,
Didn't it feel good?
You dance with the lady,
With the hole in her stocking,
Didn't it feel good?
Didn't it feel good?
Help me,
I think I'm falling in love with you.
Are you going to let me go there by myself,
That's such a lonely thing to do.
Both of us flirting around,
Flirting and flirting,
Hurting too.
We love our lovin,
But not like we love our freedom.
*O idiota que inventou o "longe da vista, longe do coração" devia ser torturado até à morte, de olhos vendados com um ferro com a ponta em brasa a queimar-lhe o peito, a ver se ele acha mesmo que o longe da vista significa realmente longe do coração.
Tenham calma, ando a educar-me.
"Educa-te" disse ele. Ando a perceber o porquê a cada audição. Uma maravilha.
:: Electric Relaxation, Midnight Marauders, 1990.
:: Check the Rhyme, The Low End Theory, 1991.
:: Bonita Applebum, People's Instinctive Travels and the Paths of Rhythm, 1993.
Ah, que engraçado!
Fica para uma próxima. Os meus cumprimentos.
(O disco, foda-se, oiçam o disco.)
O youtube é uma invenção GENIAL.
O álbum é este
e macacos me mordam se os Wire não são pais e avós e tios afastados de todas as bandas rock deste século. Foda-se (Ó P'RA MIM BUÉ PUNK), É DOS MELHORES DISCOS DE SEMPRE E ESTÁ NO YOUTUBE.
Creio que no decorrer da História Universal haverá, à semelhança do nascimento de Cristo (a propósito, passaram bem as festas?) uma época pré-youtube e uma época pós-youtube. Já estou mesmo a ver as datas de lançamento de um álbum seguidas do epíteto aY ou dY (ou, em inglês, bY - b, de before - e aY - a, de after). O Tempo virá a seu tempo, como é costume, e dará como certo aquilo que prevejo. Cá estaremos, deslumbrados.
(Deslumbrem-se mas é com um dos melhores álbuns de sempre. É por estas e por outras que só arranjo namorados esquisitos. Eu adoro os Clash (rai's parta a minha punk interior) mas quando falo em punk rock - é raro, mas pode acontecer - com um gajo só quero que ele me responda com o seu punk interior "Foda-se, estás a brincar? O Pink Flag é um dos álbuns da minha vida. Só me apetece mandar toda a gente p'o cara*o [N. da A.: haja decoro, um palavrão por post, foda-se] e partir esta m*rda toda!". Depois de recuperar da emoção - de mãos transpiradas, olhos brilhantes de lágrimas contidas e o coração na boca, batendo depressa - eu perguntaria "Casamos onde?".)
22.12.07
10 + 7 momentos do ano
2. Ter cada vez mais certeza que quero fazer anestesiologia para o resto da minha vida. Relacionado com isto: o fim de semana em que fiz os cursos do INEM, que me recordaram porquê e para quê tinha ido eu estudar medicina.
3. Vir à Madeira matar saudades dos meus irmãos - e o Verão, em que eu e o André, após o nosso primeiro mês de contínua convivência, nos passámos a reconhecer como irmãos.
4. Namorar com o não-namorado: primeiro a surpresa do beijo, das trocas de olhares, das primeiras dores de barriga, dos entusiasmos de adolescente na expectativa do reencontro, depois a familiarização com os braços na minha cintura, o perfume no seu pescoço que se transferia para o meu antebraço, a cumplicidade sempre crescente e aqueles abraços serem as melhores horas da semana.
5. As tardes no Noobai, de olhos postos no rio e na paisagem industrial da margem sul, a receber os primeiros raios de sol da Primavera.
6. As noites, os concertos, as ruas do Bairro Alto e as entradas em grande no Left, em Santos, e os amigos que me iam acompanhando: Jenny, Dário, Catarina, Joana, Filipa. Todos os outros que iam lá ter depois.
7. O regresso da Lúcia de Berlim: a confirmação que não há machado que mate a raíz ao pensamento nem distância que aniquile uma amizade a valer.
8. Por falar em Left: os sets de CIMENTO., um atrás do outro, um pouco por todo o lado.
9. Por falar em CIMENTO.: eles os três, claro, e a amizade com o Rodrigo ("SEXO." em vez de "olá" e qualquer dia tenho de matá-lo por ele saber demais) e com o Ilo, a única pessoa com quem falo sobre amor e romance ao mesmo tempo que discutimos cortes de cabelo. Conhecer a Sara, a Joana Vooa. Dançar com o Ramos.
10. Encontrar-se com o Luís por tudo e por nada.
11. Por falar em sets: Bailarico Sofisticado (um pouco por todo o lado também, mas sobretudo em Sines). Uma hora de banghra. Born Slippy. A lua e o nascer do Sol. Estar presente e, melhor ainda, fazer parte daquilo tudo (acordar pela manhã a ouvi-los discutir o alinhamento).
12. Por falar em Sines: o FMM e, mais uma vez, os concertos e a famiglia. Carlos Bica, Azul e o DJ Illvibe. Trilok Gurtu. Descobrir o prazer de dançar ao som de big bands (l'Etruria Criminale Banda, Bellowhead). A famiglia - a partilha, os abraços, a felicidade conjunta, os copos, as danças, os pequenos almoços nos Galegos com o Vítor, a praia, os problemas postos de lado naquela semana abençoada.
14. Ver os The National na Sala Apollo. Ir a Barcelona passar o fim de semana do meu aniversário. Ficar rouca por saber as canções de cor, ir ao backstage confraternizar, chorar com a About Today sem conseguir recompôr-se. Passear, comer croissants, as Ramblas, o Barrí Gotic, o Born, o Passeig de Gracía, a Barceloneta. Dançar com o Diplo no Razz. A Tânia, a Ana. Rencontrar o André e a Isabel.
15.A semana no Porto Santo, com a família emprestada e o Pedro, o amigo de todas as horas, para o resto da vida.
16. Voltar a ler mais e melhor. Começar a ver cinema a sério, com o leitor de dvd novo. Comprar revistas, montes de revistas sobre tudo e mais alguma coisa, e devorá-las.
17. Rir. Sempre, sempre, sempre. Chorar. Sempre que preciso: a ver Grey's Anatomy, por exemplo.
E escadear: é o mesmo que desbastar?
"E depois escadear?"
O pânico, o horror. Nâo sei a resposta. A minha mãe disse, depois de lhe mostrar quinhentas mil fotografias de cortes de cabelo, que eu queria desbastar. Será a mesma coisa?
"Sim.", respondo rapida e inconsequentemente. E então a cabeleireira escadeou (não que eu saiba, mas presumo que se ela disse que o faria, assim o fez).
Qual Sansão, tenho o cabelo, outrora pelo fim das omoplatas, pelos ombros. E uma faaaaaaaaaaaalta de forças.
17.12.07
Em grande, outra vez.
Hot Chip :: Ready for the floor
(Já anda aí o disco Made in the dark, com umas interrupções típicas de promo. Ainda não ouvi, mas ando viciadíssima nesta.)
16.12.07
The next best thing: just a band.
Thou shalt not steal if there is direct victim.
Thou shalt not worship pop idols or follow lost prophets.
Thou shalt not take the names of Johnny Cash, Joe Strummer, Johnny Hartman, Desmond Decker, Jim Morrison, Jimi Hendrix or Syd Barrett in vain.
Thou shalt not think any male over the age of 30 that plays with a child that is not their own is a pedophile - Some people are just nice.
Thou shalt not read NME.
Thou shalt not stop likin' a band just 'cause they’ve 'come popular.
Thou shalt not question Stephen Fry.
Thou shalt not judge a book by its cover.
Thou shalt not judge Lethal Weapon by Danny Glover.
Thou shalt not buy Coca-Cola products, thou shalt not buy Nestle products.
Thou shalt not go into the woods with your boyfriend’s best friend, take drugs and cheat on him.
Thou shalt not fall in love so easily.
Thou shalt not use poetry, art or music to get into girls’ pants - use it to get into their heads.
Thou shalt not watch Hollyoaks.
Thou shalt not attend an open mic and leave as soon as you done your shitty little poem or song, you self-righteous prick.
Thou shalt not return to the same club or bar week in, week out, just ’cause you once saw a girl there that you fancied but you’re never gonna fucking talk to.
Thou shalt not put musicians and recording artists on ridiculous pedestals no matter how great they are or were.
The Beatles - Were just a band.
Led Zeppelin - Just a band.
The Beach Boys - Just a band.
The Sex Pistols - Just a band.
The Clash - Just a band.
Crass - Just a band.
Minor Threat - Just a band.
The Cure - Were just a band.
The Smiths - Just a band.
Nirvana - Just a band.
The Pixies - Just a band.
Oasis - Just a band.
Radiohead - They're just a band.
Bloc Party - Just a band.
The Arctic Monkeys - Just a band.
The Next Big Thing - Just a band!
Thou shalt give equal worth to tragedies that occur in non-English speaking countries as to those that occur in English speaking countries.
Thou shalt remember that guns, bitches and bling were never part of the four elements and never will be.
Thou shalt not make repetitive generic music, thou shalt not make repetitive generic music, thou shalt not make repetitive generic music, thou shalt not make repetitive generic music.
Thou shalt not pimp my ride.
Thou shalt not scream if you wanna go faster.
Thou shalt not move to the sound of the wickedness.
Thou shalt not make some noise for Detroit.
When I say “Hey” thou shalt not say “Ho.”
When I say “Hip” thou shalt not say “Hop.”
When I say, he say, she say, we say, make some noise - kill me.
[Ah, forgot where I was, hang on]
Thou shalt not quote Me Happy.
Thou shalt not shake it like a Polaroid picture.
Thou shalt not wish your girlfriend was a freak like me.
Thou shalt spell the word “Phoenix” P-H-E-O-N-I-X, not P-H-O-E-N-I-X, regardless of what the Oxford English Dictionary tells you.
Thou shalt not express your shock at the fact that Sharon got off with Brad at club last night by saying “Is it.”
Thou shalt think for yourselves.
And thou shalt always, thou shalt always kill.
Dan Le Sac vs Scroobius Pip :: Thou shalt always kill
ÉLÁ! UM INTERVALINHO NOS POSTS SEMI-DEPRESSIVOS
O Francisco Rebelo (Cool Hipnoise, Spaceboys) fez um comentário no meu blog, a propósito disto. Está aqui.
Francisco, se algum dia se tornar premente a utilização de um sósia, conta com o Pedro! Não fundou uma banda tão cool como os Cool Hipnoise (por quem sinto profunda admiração e respeito desde os primórdios pela evolução, pelo assumir de riscos, pela boa onda) but he's got the looks.
(A propósito, vi-o nas Amoreiras sexta-feira e o meu amigo disse "olha lá vai o teu primo*".)
*primo = Pedro
Sempre que agora falar em ti, vou lembrar-me desta canção.
The buildings aren't going anywhere.
But don't they look lonely from here,
Street lit twin domes.
Long time no see
And God you look better now.
Just my luck.
The Zephyrs :: The buildings aren't going anywhere*
*disponível neste link, por cortesia dos próprios Zephyrs.
15.12.07
Sempre que quero falar em ti, não me sai um texto estruturado.
Sempre que quero falar em ti, nunca sei por onde começar.
4.12.07
A pitchfork acha o mesmo
"For Reverend Green" fades into the structurally similar but tonally different "Fireworks", arguably forming the greatest back-to-back in the Animal Collective's catalog. "Fireworks" is about the pleasure of simple things, but also about how hard they can be to appreciate: "A sacred night where we'll watch the fireworks/ The frightened babies poo/ They've got two flashing eyes and they're colored why/ They make me feel that I'm only all I see sometimes."Animal Collective are never a band I listened to for lyrics-- on those early records, they were pretty hard to make out-- but the words in "Fireworks" match perfectly the song's complex mood: There's a romantic sense of longing, an air of celebration, but also tinges of doubt, loss, and acceptance. That it's all rendered so beautifully, with tempered banshee vocals, some spacey dub elements to kick off the middle break, and one of the band's best melodies-- and layered and varied enough to have had two or three good songs built from it-- reveals the band's mastery of complex, experimental pop songcraft.
The sacred night where we watched fireworks
A porca torce o rabo no que toca aos lugares seguintes - já pensei fazer uma lista com apenas três lugares e, desta forma simples, acabar com esta angústia. Doismilesete foi pródigo em óptimos discos (ou então eu é que ando a ouvir muita coisa boa - e pouca má, uma vez que o tempo é escasso e eu cada vez estou mais selectiva em relação àquilo a que sujeito os meus ouvidos).Como se o primeiro semestre do ano não tivesse sido suficientemente bom, também o fim do Verão/ início do Outono - considero-os coisas distintas, com o primeiro acabam as férias, com o segundo começa o frio - trouxe discos maravilhosos (ao meu computador e à minha estante). O frio, o aproximar desta melancolia que obriga a puxar dos casacos quentes, dos cachecóis (de cache - cou e pescoços que brincam às escondidas, surgindo de vez em quando para beijinhos e dentadas), do chocolate quente a qualquer hora do dia, do chá de menta à noite, toda a dolência que temperaturas inferiores a 20 graus Celsius implicam ao meu metabolismo (sou friorenta, e com muito gosto!) fazem-me ouvir música e querer - ainda mais - passar os dias envolta em mantinhas rodeada de discos atrás de discos.
Não há grande disco sem, pelo menos, uma grande canção. É o mínimo que se lhe exige: 2 a 10 minutos, ou coisa que o valha, de um clássico instantâneo. Não um otoverme nem um hit nem aquela canção que vamos ouvir na rádio até morrermos - não, não, nada disso. Clássico instantâneo, aqui, é a canção que mais nos toca, a que vai, como se de um passe livre trânsito se tratasse, da alma à mente aos pêlos dos braços para arrepiá-los e de volta ao coração, para lá ficar guardada. Muitas vezes, e isso acontece sobretudo nos discos maiores que a própria vida, nos discos que, durante um tempo indefinido, comandam a nossa biologia por fazerem coincidir os nossos ritmos com a sua própria cadência, o clássico instantâneo é flutuante e vai percorrendo todas as faixas (assim o foi - e o é - com o meu disco #1). Todos, todos os enormes, razoavelmente grandes, às-vezes-grandes-outras-vezes
A canção que aqui interessa está alinhada no Strawberry Jam, dos Animal Collective - álbum que, por si, é talvez inferior à minha santíssima trindade da banda (registe-se, por ordem crescente de antiguidade: Feels, Sung Tongs e Here Comes the Indian). Deus sabe o quanto amo os Animal Collective - o quanto lhes estou grata, o quanto os admiro, o quanto eles fazem parte de mim como "musicalmente tolinha".
Fireworks pode ser incrivelmente desfeita em bocados, em vários momentos que fazem dos seus 6 minutos e 50 segundos os seis minutos e cinquenta segundos mais perfeitos do ano, como um coração que se parte ou uma história de amor feita de episódios vários - todos eles igualmente bonitos. Foi sempre isso que gostei nos Animal Collective: o facto de da decomposição, do recorte, da colagem, da edição resultar uma canção geralmente fascinante que é também dez canções mais pequeninas igualmente fantásticas.
Começa com um sample em loop do que me parece (e parecerá, para toda a eternidade) um comboio em rápida movimentação pelos carris. Diga-se que, mal isto se ouve, o coração começa a bater compassadamente com este comboio - que parte? que chega? que interessa? Sabe-se que este sample não abandona a canção em qualquer momento. Depois entra a pièce de resistance do primeiro episódio desta história de amor: os coros que cantam ú-ú-í-ú-ú-í-ú ou algo semelhante, como uivos de melancolia, de agonia, de sentimento de pertença- mas pertença a quem? - e isso, aqui, está por todo o lado: uma tristeza quase inacessível, mas ao mesmo tempo, a tristeza mais tranquila, mais segura de si, mais consciente, que algum dia dia vi numa canção. Instrumentalmente é ritmada, melódica, fluida ao longo de percussão gorda e repetitiva. As guitarras recortam-na, criam microclimas de êxtase, de desespero, de pacificação - os tais episódios da história de amor, os altos e baixos do romance, as mãos que se soltam e que se dão nas relações amorosas que nunca o foram.
O mais surpreendente na Fireworks não é tudo isto, porque a coisas assim boas já nos têm habituado os Animal Collective. O que é absolutamente novo aqui é como a beleza da música coincide tão perfeitamente com a beleza das vozes, entoando letras que significam precisamente o mesmo que aquilo que os instrumentos e os samples transmitem. Não, nunca liguei grande coisa aos Animal Collective pelas letras - nem é coisa para a qual eles vivam, muitas vezes nem dá para perceber que raio estão eles para lá dizer. Não era suposto, de todo, reparar nas palavras escondidas, nos versos estranhos das suas canções. Até agora.
Fireworks é uma lição de compromisso, de saudade, de insatisfação, de dúvida, de conformismo, de serenidade, de pertença. Um portentoso épico sobre a vida e a ternura - como amar (entre tantas outras coisas) pode ser, ao mesmo tempo, a melhor e a mais fodida coisa do mundo. Sobre a perenidade e a fragilidade dos instantes - como o fogo de artifício, que sobe céu acima para logo rebentar e fim!, tudo começa, tudo acaba, e estar por aqui é uma sucessão de inícios e de fins (e do que a meio fica, tantas vezes o melhor e o mais esquecido.) Sobre esquecer, sobre lembrar, sobre desistir, sobre tentar de novo. Sobre mim, sobre ti, sobre todos nós.
Now it's day and I've been trying to get that taste off my tongue.
I was dreaming of just you, now our cereal, it is warm.
Attractive day in the rubble of the night from before.
I can't walk in a vacuum, I feel ugly, feel my pores.
It's the trees of this day that I do battle with for the light.
Then I start to feel tragic, people greet me, I'm polite.
"What's the day?" "What are you doing?"
"How's Your Mood?" "How's that song?"
Man it passes right by me, it's behind me, now it's gone.
I can't lift you up cause my mind is tired.
It's family beaches that I desire.
They make me feel that I'm only all I see sometimes.
I was eating with a good friend who said
"A Genii made me out of the earth's skin"
but in spite of her she is my birth kin,
she spits me out in her surly blood rivers.
All the people life lurking in
dominions of a hot Turk dish.
If elephants are reaching for our purses,
then meet me after the world with the shivers.
"What's the day?" "What are you doing?"
"How's your food?" "How's that song?"
Man it passes right by me
it's behind me now it's gone.
I can't lift you up cause my mind is tired,
it's family beaches that I desire.
That sacred night where we watched the fireworks.
They frightened the babies and you know
they've got two flashing eyes and
if they are color blind, they make me feel,
that you're only what I see sometimes.
1.12.07
Calendário do Advento
Comes with the business, I suppose. E a verdade é que toda a gente se queixa invariavelmente: do dinheiro que gastam, do tempo que ocupam, da esperança de vida desperdiçada. E isso não os leva a nada, porque continuam a focar o seu Natal nas coisas de somenos importância (lindo, sempre quis usar a palavra somenos num texto). Não pretendo salvar o mundo nem agitar consciências nem tão pouco dizer que a minha família é diferente de todas as outras - há o mesmo stress, a mesma ansiedade, as mesmas discussões.
Mas é impressão minha ou o Natal não é, de todo, suposto ser isto? Ah, longe vão os tempos da fraternidade e do amor ao próximo. Ou então, toda esta guerra civil do advento é só uma forma feia de se atingir uma noite perfeita. Mas não, não é bem isto. Até porque, diz-nos a wikipedia:
O Advento (do latim Adventus: "chegada", do verbo Advenire: "chegar a") é o primeiro tempo do Ano litúrgico, o qual antecede o Natal. É um tempo de preparação e alegria, de expectativa, onde os fiéis, esperando o Nascimento de Jesus Cristo, vivem o arrependimento e promovem a fraternidade e a Paz. No calendário religioso este tempo corresponde às quatro semanas que antecedem o Natal.
Ora bem, não vejo aqui nenhuma referência a "ei, eu vi isso primeiro, dê cá!" ou *buzinadela* "veja por onde anda, seu filisteu!". Para já, porque ninguém usa a palavra filisteu para insultar outra pessoa. Mas deviam, o mundo seria um lugar mais bonito.
25.11.07
Son(h)o
Também acontecem sonhos na fase IV do sono não-REM: são sonhos mais profundos, tranquilizantes, com actividade neuronal vestigial.
Durante a fase I e II do sono não-REM e em todo o sono REM, a probabilidade de acordar é grande. A fase I - já todos devemos ter passado por isto - acontece quando estamos calmamente a adormecer e de repente vemo-nos a cair sem rede. Às vezes, pontapeia-se o ar (ou a pessoa que está ao nosso lado). Dormir profundamente significa estar na fase III ou IV do sono não-REM.
Sonhar pode, portanto, ser mau. Acordar com dores de cabeça, fatigado ou mesmo exausto, ansioso, deprimido - tudo isto pode acontecer se o sono não for o suficiente para entrarmos na fase III não-REM. Na vida, também: ter sonhos, projectos claros e precisos daquilo que queremos que nos aconteça, daquilo que teremos de fazer para que as coisas ocorram, de tudo o que temos de construir para atingir certos patamares, pode vir a ser prejudicial, impedindo que esses mesmo sonhos se tornem realidade.
Toda, toda a vida sonhei demasiado: sonhei alto, todos os dias, sem esconder qur o fazia. Ir ali, viver acolá, ficar aqui, fazer isto, conseguir aquilo, tentar aqueloutro, conseguir tudo isto. Projectos, planos, expectativas - em demasia. "Ter expectativas é meio caminho andado para a desilusão" disseram-me há algum tempo, e eu, optimista, não concordei.
É muito mais simples não planear e viver ao sabor da corrente (irra! frase irritante!). Não esperar nada de nada, de ninguém, viver por viver simplesmente. Em vez de viver em pulgas, em acções de rápida movimentação dos olhos, desfrutar um dia de cada vez, sem grandes ideias sobre o amanhã. Pensar primeiro no que se vai jantar hoje antes de pensar no que se vai cozinhar amanhã. Fazer o que tem de ser feito hoje, em vez de programar minuciosamente as actividades do dia seguinte. Ler um capítulo de cada vez, em vez de pensar "acabo de ler este livro depois de amanhã".
Uma vida tranquila para batimentos cardíacos mais tranquillos. Com sonhos (o direito ao sonho é o direito à vida e pumba! mais um cliché!), mas dos apaziguadores, dos profundos, dos realmente importantes. Viver em fase IV não-REM - calmamente, sem pressas, sem exigências irreais. Nada mais interessa se formos grandes na vida.
24.11.07
Falar
Falar, hoje em dia, está sobrevalorizado. Repito-o porque tenho a certeza disto.
"Já falaram?". Merda para esta pergunta. Que se foda esta pergunta. Quero lá saber. Eu não quero saber se já falámos, eu não preciso de falar porque eu já sei. Não preciso de ouvir aquilo que já sei e que já sei porque o mundo gira há muito mais tempo (mas mesmo muito mais) do que aquele que por cá ando. O que me acontece já aconteceu a outras pessoas antes, está a acontecer a muita gente agora e vai acontecer a muita gente depois de mim.
Falar está completamente sobrevalorizado. Para que preciso de ouvir outra vez o que já sei. Ou, pior, muito pior, para quê falar se me vão mentir? Ou então vão me baralhar porque se vão contradizer, vão usar palavras diferentes para encher chouriços de frases, parágrafos, discursos vazios que nada dizem, para quê ouvi-los mais uma vez? Para além do mais, tenho muito medo daquilo que poderia ouvir. A sério. Mais vale viver sem palavras, sem essas verdades absolutas que se dizem quando se abre a boca.
Há tanto para dizer sem palavras. Ouvir para além da voz, perceber-se num olhar, num abraço, num sorriso, no desespero de um telefonema. Nesse sentido, já ouvi tudo o que tenho de ouvir.
As pessoas andam demasiado taxativas: ou se fez ou não se fez, ou se disse ou não se disse, ou se quis ou se foi embora. Para quê?
Quem me pergunta se já falámos (a mesma porra repetida durante um ano inteiro, é que cansa, caramba!) nunca parou para pensar. Porque, se o fizesse, saberia - olharia para nós, aqueles que deviam falar - sem precisar que eu o dissesse. Toda a gente já o sabe. Eu já o sei.
Saber é completamente diferente de assumir. Como um cancro. A pessoa sabe que tem um cancro, sabe o que é um cancro - um monte de células estúpidas que, um dia, por não terem mais nada para fazer e por assim estar inscrito no seu código genético, desatam a multiplicar-se, sabe quem tem de fazer tratamentos (tirar cirurgicamente um cancro, radiação, químicos), sabe que, se não se tratar, ou se já for tarde demais, o cancro estará metastizado - esse monte de células estúpido decidiu emigrar e fixar-se noutros sítios do corpo. Sabe que pode ficar mal. Sabe que pode morrer. Sabe, mas não precisa necessariamente de o assumir. Nem essa pessoa nem quem a rodeia, contornando a situação com "vais ficar bem" ou "vai resultar".
Ao mesmo tempo, não assumir é diferente de estar em negação. Porque a negação implica estar dormente, a verdade rolar sobre nós como se alisasse alcatrão e não nos afectar. Negar não é fingir que não sabe. Negar é não só fingir que não sabe mas também fingir que está tudo óptimo, nunca se esteve melhor, ó para mim tão feliz. Não assumir é, simplesmente, ainda não ter desistido. É saber que há mais, muito mais, do que aquilo que falam.
Vejamos o que poderia acontecer se tivéssemos, como toda a gente quer, falado - vejamos a coisa de uma forma generalista. Eu ouviria o que queria ouvir, independentemente daquilo que tivesse ouvido, mas o que me seria dito seria também dito de forma a contornar um monte de perguntas. Perguntas que eu nunca faria porque estaria mais do que satisfeita com o que estaria a ouvir.
Por favor, párem de me perguntar se já falámos. Não falámos - falámos uma vez, e de que me serviu? - nem vamos falar.
Era criar uma coima para quem falasse quando não há nada para dizer. Era ver este mundo em silêncio. Como ia saber bem!
Learn to say the same thing
What defeats people is a double confession.
One time they will confess one thing, on the next they will confess something else.
Talk to them, they will say:
Learn to say the same thing
Let us hope fast to saying the same thing.
Never give up, no never give up
If you're looking for something easy then you might as well give it up.*
* Cat Power "Say"
19.10.07
A Baixa, tão cheia de luz e de pedintes romenas
Hoje, 16 de Outubro, é o Dia Mundial da Nutrição mas na Baixa parecia o Dia Mundial da Pobreza. Fico sempre triste e incomoda-me - não o pedido desesperado, mas saber que há pessoas em condições tão precárias, mas sou de uma hipocrisia atroz. Hipócrita, é como me sinto.
O grande mistério das refeições pré-congeladas do Metro.
Como Ofélia terá uma dia escrito a Fernando
Penso nisso - em como começaria essa carta (o coloquial "Olá, como estás?", o afectuoso "Querido indivíduo" ou o directo "Indivíduo" seguido de uma vírgula e de uma mudança de parágrafo e, aqui, substituir indivíduo pelo teu nome, cada letra desenhada com a caneta a forçar a folha, sem rasgar). Penso nisso e penso em como começar isto (seja lá o que isto for).
15.10.07
Auto-biografia
Ali, mais nada era preciso: nem o amor por um outro, nem a superação cultural, nem a necessidade de valorização (própria e pelos outros), nem o sexo. Podia ser ingenuidade, por si só – não conhecer mais nada significava não querer mais nada e o mar limítrofe daquele rectângulo isolado ser suficiente para aquilo que se conhecia. Os carrinhos de choque no Natal, o fogo de artifício no fim do ano, os disfarces no Carnaval, as flores e os passeios ao Parque de Santa Catarina na Primavera, a praia, o mar e Ponta Delgada no Verão. Os primos que iam e vinham, cruzando o mar de avião para passar as férias, os tios afastados que vinham por longas temporadas, que eu nunca reconhecia como tais (e de quem, durante os anos de distância, acabava por me esquecer), as férias de quinze dias num país a nove horas de distância.
Nunca ninguém tentou esconder-me nada, muito pelo contrário: empurraram-me para a estante da minha mãe desde cedo e eu li. Li muito, de luz quase apagada, o corpo quase a fazer o pino, os braços a doer por estarem a agarrar o livro, li em todo o lado, a qualquer hora, e li de tudo. Escolhi ler muito livro horrível na vida (que eu própria arranjava, raramente eram da estante da minha mãe), e até gostava por contarem uma bela história de amor lamechas e piegas e estúpida, sobretudo estúpida. Tem graça pensar nisto assim porque, à distância, todos os livros que me custaram mais a ler quando era miúda (O Principezinho, Papalagui, Robinson Crusoé, os livros do Dickens, por exemplo), são os livros que agora me trazem uma saudade enorme e uma imensa vontade de redescobri-los. Por volta dos dez anos, ou lá o que foi, li A Tulipa Negra do Dumas e A Volta ao Mundo em 80 Dias do Júlio Verne e comecei a ler outros livros deles, e dizia, quase inocentemente – nunca se é inocente em nada, nem aos dez anos – que eram os meus escritores favoritos. E, a partir daí, reconheço-o, comecei a ler a sério, mais por vontade de ser uma melhor leitora do que pelo livro em si. Ou, por outra, lia mais pelo prazer de ler do que pela fruição do livro.
No fundo, sempre quis imaginar. Criar um mundo e outro dentro do meu mundo, criar uma ilha sobre a minha ilha. Conceber um espaço que fosse para além do mar que rodeava os quatro pontos cardeais. Ser mais do que um ilhéu em contínuo contentamento com o que estava diante dos seus olhos. Talvez por isso tenha crescido e me tornado tão complicada, tão preocupada com as minudências da vida que quase que não me consigo encantar com o que vejo.
Mas não, é provavelmente errado pensar isso de mim. Nada me faz mais feliz do que as pequenas coisas da vida, aquelas que me fazem regressar a essa infância. Essas pequenas coisas que vejo, todos os dias, e que me lembram sempre que sou eu mas, na essência, sou eu e o mundo inteiro dentro de mim, pronto a implodir e a precipitar em instantes.
Raramente me satisfaço com a satisfação e nunca consegui ser feliz no contentamento. Por isso tantas vezes escrevi que a minha felicidade é um momento, breve, frágil, perene - quanto mais o agarro, menos o possuo.
É como se nem todos os seres humanos tivessem vindo à Terra para serem felizes, e com isso lido eu muito bem.
1.10.07
Sapos
E como pulavam, os estuporezinhos, olhando-nos de lado como a desafiar-nos.
Apanhávamo-los com copos, roubados à sucapa da cozinha, e acabávamos a caça - num sentido figurativo, pois obviamente soltávamos as pobres criaturas quando nos chamavam para o lanche, hora oficial para o fim das brincadeiras na fazenda - com as calças ou collants tornadas castanhas pelo menos até ao joelho e os bibes enlameados, os sapos em copos virados ao contrário, alinhados no muro que separava o casario da quinta ao lado
com terrenos a perder de vista e os telhados da casa grande entre a copa das árvores
e depois - como se ganhássemos asco repentino àquela pele lisa e húmida ou aos olhos esbugalhados dos sapos - jogávamos ao par ou ímpar para decidir quem soltava os sapos na levada.
Uma vez, em que estavam oito sapos à espera da liberdade, fiquei eu responsável por os soltar. Tudo correra bem até ao sétimo sapo, quando o último
e eu que estava com a cabeça distraída, com a cabeça no chocolate quente e no pão-de-ló que me esperava sobre a toalha aos quadrados da mesa da cozinha, e que, por cada sapo que soltava, pensava o quanto preferia estar a ouvir os gritos da mãe enquanto nos encontrava, a mim e aos meus irmãos, naquela figura, que todos os dias se repetia - como a gritaria, os castigos, os banhos antes de lanchar (quando a fome era mais que muita)
quando o último sapo, assustado, dá um salto pequeno e cai-me no pé e depois salta-me para a saia e para o bibe, e todos fugindo em crescente berreiro, os mais novos choravam - sem eu perceber bem se pelo sapo atarantado se pelo meu infortúnio - e as mães saíram, pensando que algum de nós já devia ter que ir ao hospital.
A minha mãe encontrou-me sem roupa, com os olhos dos primos postos em mim, apenas de cuecas, meias e botins, e o meu corpo esguio, com os mamilos que os miúdos nunca tinham visto antes, escorrendo água e o diabo do sapo saltando sobre o bibe.
Nunca dantes o percebera, só agora o percebi, porque é que nessa noite não lanchei com a família toda nem jantei nem fui mais apanhar sapos para o poço da fazenda.
Um corpo de criança quer-se plano como uma folha de videira e o meu, nessa tarde, mostrava claramente que deixava de o ser.
Como disse a minha avó, quando lá foi a costureira dias depois "a gente nem dá por elas, mas quando vai ver estão feitas mulheres". Juro que pensei que ela estava a falar na minha prima que se ia casar.