Adoro esta expressão e sempre quis usá-la num post, nada melhor do que descrever o concerto numa só frase (que é, aliás, o título). O que é que acontece num concerto dele? Ele tem uma cena com botões para fazer entrar os samples (um qualquer coisa assim Roland SP-404), percussão (só me ocorre a palavra tambor e não me parece que seja profissional), uma pandeireta e um microfone. Ah, e o transe dele, que eu aposto que é um instrumento musical per si. As canções tornam-se mais longas porque ele improvisa mais, de maneira que até parece uma nova canção mas afinal é "aquela" do disco, cheia de acrescentos, com uma introdução maior, ainda mais psicadélica.
De resto, é aquilo que se sabe: a puta da loucura em quatro rodas. A incapacidade em estar quieto. (Os indies britânicos, até eles, mexiam-se lá para o final e eu digo-vos: que plateia mais difícil!)
O alinhamento foi ligeiramente diferente do Alegranza: Antillas Kalise Polca Mazurca Fata Morgana Palmitos Park Prez Lagarto Cuando Maravilla Fui Costa Paraíso
(Acho que não houve Buenos Matrimonios Ahi Fuera.)
Claro que eu só descobri as letras no myspace dele a dois dias de ir para lá, então usava a minha macarrónica interpretação para acompanhar. Ainda assim, acho que a malta à minha volta pensou que eu sabia aquilo tudo de cor - e estavam parados, na grande maioria, visto que só eu, as minhas quatro amigas e dois espanhóis não relacionados connosco é que dançávamos.
Os Mystery Jets, que tocaram a seguir, são completamente naquela, mas têm um hype tremendo. Toda a gente, à excepção dos sete que dançavam, estava lá por causa deles - era o concerto de lançamento do novo álbum. Só tinham uma música de jeito "Hand me down" e até estou a ser simpática, mas são produzidos pelo Erol Alkan e já foram remisturados pelo Switch e todos os blogs falam neles. A Time Out britânica deu uma estrela ao álbum - e eu confio em tipos que conseguem compilar a vida cultural londrina numa revista. Claro que a malta indie estava em completa euforia. Não se compreende.
O Rodrigo tem o Ladieslove há séculos (e antes disso já tinha tido o Clube de fãs do José Cid e e participado no Inimigo Musical - eram dele os posts que mais me faziam rir, como aquele dos gráficos do Jack Johnson e na altura não o conhecia e achava que ele devia ter para aí quase trinta anos). A Maria criou o Mariailoveyourtitties, porque é verdade, we all do love her titties e já era tempo de alguém ter um blog dedicado à mais delicada parte do corpo feminino e masculino sem ser ordinário mas sim witty como a Maria é. Entretanto fui a Londres (nunca será demais dizê-lo, meus caros) e quando voltei o Ilo também tinha o ///////////*(não sei se estão o número certo de barras) e o Mário acha que everything is fake.
Como a Maria achava que eu não tinha blog (porque nunca fiz share de posts meus) e eu até tenho este há 3 anos, pronto, não sei. A culpa de tudo isto é do Google Reader, tenho a certeza.
Londres está viva, respira, recomenda-se e beija-se com ardor e paixão. Apesar de ter alguns defeitos que nunca pensei encontrar lá - pensei encontrar outros defeitos que acabei por não encontrar e andar mais de quinze minutos numa zona extremamente concorrida (a rua paralela ao Tamisa entre a Abadia de Westminster e as Houses of Parliament) e não encontrar um caixotinho de lixo onde deitar a minha caneca descartável de coffee with milk please é uma vergonha para uma cidade dita civilizada - é uma cidade pensada até ao milímetro e é isso que é tão bom que é cansativo. Tudo vale a pena ver ali, menos Stockwell que é onde estão os 'tugas emigrantes e é feio como qualquer bairro social e dá aquela sensação de que se está a passear na Cova da Moura, o que é sempre chato. De resto, it's all plain love. Consigo perceber o fascínio. O meu próprio pai, que é um viajante assumido - só não é é caixeiro-viajante, é um caixeiro-sedentário, talvez, mais depressa - diz que Londres de tanta coisa que visitou continua a ter um lugar guardadinho no seu coração. E ele já esteve em quase todos os pontos do globo. Eu assino por baixo. Londres cidade pulsátil, vibrante, frenética, mas com a educação e a elegância de outrora. E vi neve, que é sempre uma coisa muito boa de se ver e sentir na ponta do nariz e ver acumular-se sobre as luvas e o casaco e a malha do cachecol, e torna qualquer passeio mais romântico e mais húmido. (Joana a enganar-se em Marble Arch ao ver o mapa "descemos esta" quando devíamos ter descido a perpendicular "oops é melhor apanhar o autocarro para não ficarmos um pingo").
Os autocarros! Double-deckers, people. Sempre a cantarolar "and if a double decker bus crushes into us" e depois procurava bem dentro de mim a ver se encontrava alguém que merecesse o "to die by your side is such a heavenly way to die" e por vezes encontrei, outras não. A propósito, mesmo sem lá estar "na falta de melhor, sim" foi a frase da viagem e passou a ser resposta para muita pergunta. E sim, tenho de confessar, aqueles 35 segundos de "oi tudo bem" que me souberam como um hot chocolate.
E as Tates! O reconhecimento do Turner como um homem de luz. O Duchamp como o maior artista dos nossos tempos. O British Museum como um lugar onde os ingleses mostram o resultado do seu saque de séculos (uma experiência valiosa).
Londres é uma idiossincrasia de si própria. Uma cidade moldada pela História, moldável pelo incrível cruzamento de povos, de gostos, de hábitos. Notting Hill, Camden, Covent Garden, Picadilly Circus, Oxford Street, tudo aquilo é amor.
Não tenho nada de inteligente para dizer. Hoje estive a vegetar, apesar de ter tentado estudar durante parte da manhã, e até ter conseguido durante uma hora, mas depois só consegui pensar na viagem e na roupa que vou levar e naquilo que vou ver e nessas merdas todas que não interessariam se eu não fosse visitar Londres amanhã. De qualquer forma, nada disto seria relevante senão tivesse visto este vídeo
que me fez lembrar porque raio venero eu a Cat Power em primeiro lugar. Quanto mais ouço os álbuns pré-you are free mais entendo quem acha o the greatest "nada de especial", mas hey! quero que se fodam. Adoro todos, sem excepção. A moça nunca fez um álbum que eu não amasse, é a triste realidade com que tenho de viver, que triste que é.
Pergunto-me que raio terá o Bill Callahan para ter andado com esta moça. Há dias vi o Luís Costa Branco - Deus, não me lembro se é mesmo assim o nome dele, o da SIC Notícias - e perguntei-me que raio tinha ele para andar com tudo quanto é manequim deste país. Às tantas são gays, ambos. Não me admirava nada.
A questão é: não podendo ir ao Primavera, vou vê-la ao Coliseu, outra vez. Vou desenhar um coração com os indicadores e os polegares, outra vez. Vou chorar, outra vez.
(Lembro-me do dia do concerto dela na Aula Magna e de como nós, eu e coiso,ficámos a conversar a tarde inteira sobre o quanto a Chan era adorável e quais os melhores álbuns e as melhores canções. A conversa entreteve-nos a tarde toda. Estar nas Doutorais, olhar para trás e ele acenar-me - eu na segunda fila, ele na última da plateia, tão longe. Ligava-lhe muito pouco, nessa altura.)
Não é uma promessa, mas devo ver a Cat Power em maio.
Desconfio que não seja inocente o facto do Lookout Mountain, Lookout Sea começar com a What is not but could be if
What is not but could be if We could be crossingthis abridged abyss Into beggining Failure's got you in its grasp And you're reaching for your very last It's just beggining. (...) What is not but could be if With all associated risk.
e acabar com a We could be looking for the same thing
We could be looking for the same thing If you're looking for someone We could be love to each other If you're not seeing anyone.
Julgo que é apenas a vida e o Bermanplaying their little tricks on me.
(Ou então é coincidência. Ou não é nada disto que estou a pensar, que raio de mania de transpôr a Arte para nós próprios.)
Because the pillow that I dream on is the threshold of a kingdom Is the threshold of a world where I'm with you Is a darkened snowy secret and it has to do with heaven And what looks like sleep is really hard pursue.
(...)
Because the pillow that I dream on leads to some fantastic glory Is the threshold of a world I can't ignore Like time on school from heaven Did you find me sleeping in your doorway? Now I'm here for good, I won't leave you anymore. Silver Jews :: My pillow is the threshold :: Lookout Mountain Lookout Sea
Agora o blogger oferece a possibilidade de, para quem, como eu, nada entende de códigos html, ter um blog customizado à sua imagem e semelhança. Ou pelo menos, um blog diferente dos 500 mil blogs que visitava e que tinham o mesmíssimo esquema de cores, tipo de letra, etc etc.
Agora temos Trebuchet (o meu segundo tipo de letra favorito), verde e rosa (as minhas cores favoritas) e os títulos a preto (que eu sempre quis). Já gosto mais um bocadinho do Desumanos outra vez.
Aparentemente, ele ia só afastar-se do mundano. Recolher-se a meio do nada, envolvido por si mesmo, algures entre a neve e o vento e o calor de uma lareira. Depois, as canções nasceram: a sua voz, suave e magoada, primeiro, os falsettos, a subidas angustiadas de tom, as entradas suspiradas, e posteriormente adicionadas as camadas de orquestrações (percussões desalinhadas, coros etéreos), tudo muito simples e sem confusões, porque quando se está só, não há nada nem ninguém a quem a canção se tenha de sobrepôr.
Quase podia ser mais um enfastiante cantautor que ouviu demasiado Bob Dylan e Neil Young no gira-discos dos pais. Quase podia ser um disco igual a tantos outros, musiquinha que se trauteia no imediato e depois tão facilmente se esquece.
Mas é na distância desse quase que residem as canções, autênticas, honestas, pungentes.
Bon Iver é um misspelling propositado de Bon Hiver. Bom (fim de) Inverno.
Gostava de ser ainda mais indie que os indies e de ter, por isso, odiado o Juno.
Mas não, nada disso. É tão bonito, tão depressa se chora aos soluços como se ri à gargalhada, a Ellen Page faz um papel sarcástico-doce que lhe assenta como uma luva (ou ela assenta bem nele, c'est possible), o Michael Cera é adorável, o Jason Bateman é um o músico contido pela mulher perfeccionista (adoro-o). E tem uma banda sonora que meu Deus!
"Sir! I've got a good mind to take you outside. Outside, outside."
Continuo a adorar o álbum novo dos Hot Chip. Cada vez mais, até. Tem uns seis ou sete momentos que são verdadeiros hinos, como esta Hold on, e que compensam em larga escala outros que são - confesso - verdadeiras xaropadas (mesmo que usar este termo seja um exagero, é preciso avisar os senhores do chip quente que ninguém consegue fazer uma Colours duas vezes na vida).
*Ou o meu teclado, neste caso.
Ah! E o Jamie Lidell é um senhor: o novo Jim está de lamber os beiços (como era, de resto, de esperar depois do Multiply.)
P'o raio qu'o parta mais as obras do vizinho de cima, foda-se. É tão alto que mais parece que sou eu quem está a fazer a puta do buraco na parede. Para além do mais, apartamentos não são para parecer favos de mel (esta furadeira parece que já está há mais de uma semana, pergunto-me se ainda há parede p'a esta gente furar).
*foge para a biblioteca*
Advogados que me visitam, não há nenhuma lei que proíba isto? É que é mesmo muito alto, é insuportável e dura há tanto tempo - e ninguém me pediu autorização.
2005: depois de afastada do hiphop por razões de variadíssima índole, oiço a Galang e rendo-me ao Arular da M.I.A. Vou por esses caminhos e regresso ao hiphop, torno-me então disponível, como nunca, para conhecer tudo o que lhe eram raízes e tudo o que lhe eram frutos.
2006: conheço os Buraka, via o-mais-energético-concerto-de-sempre no Mercado. Sai o From Buraka to the World, nesse Verão, que oiço exaustivamente. Assisto o tudo o que me é humanamemte possível em que os Buraka participem.
2007: os Buraka internacionalizam-se, a M.I.A. lança o Kala (discaço, ponto final). Danço ao som de Buraka no Alive com um jornalista da nossa praça (queria deixar isto registado, porque foi uma surpresa: diz que aprendeu com uma pretinha em festas kuduro hardcore em Odivelas.)
2008: a M.I.A. participa no single dos Buraka. Vicio-me: isto é como se os Buraka não quisessem agradar a ninguém (como quem diz, educaram o ouvido e a pista, ensaiaram o cu dos brancos, agora aguentem-se com esta).
Não há nada para concluir. Apeteceu-me fazer um apanhado biográfico em vez de apenas deixar por aqui o vídeo.
Isto é *****. AVÉ MARIA!
(Xé, dama! Não dá p'ra parar, não dá p'ra 'tar quieto.)
Sobreviveu mais uma vez, o blog. Tenho de deixar de o culpar sempre que algo de quase-cataclísmico me acontece.
(Estive, há coisa de duas semanas, a olhar fixamente para o Delete Blog. [Font = Georgia] Entretanto fui para o Alentejo e perdi a ideia que tinha para o meu post de closure (de apagar o blog passei a ter vontade de o deixar zombie, mais uma alma assombrada vagueando na blogosfera).
A ideia foi-se. E entretanto, tudo isto dentro de mim a querer sair sem ter maneira (a quantidade de leitura que faço é proporcional, na minha auto-avaliação, à má qualidade da minha escrita, isto é, quanto mais leio, pior julgo que escrevo). É difícil escrever um texto, depois de ter lido um capítulo do Roth, e achar que "sim, sim, está belíssimo, vou já dá-lo a ler."
Pressione Ctrl com P = Publicar. Estou viva, ao que parece.
E falar continua a ser uma coisa muitíssimo sobrevalorizada.
Tenho perfeita noção que os espaços entre as pedras da calçada são feitos de verdades negras e amorfas. Continuo a acreditar nisto, como talvez quem acredita que um dia houve uma explosão mesmo muito grande que rebentou com um ovo cósmico donde depois se soltaram montes de calhaus em forma de planetas e estrelas, e num deles a energia foi água e a água foi vida. É possível. É possível que os nossos passos pisem a verdade, às vezes indolentemente, outras tão depressa que quase nem a magoamos com o peso do corpo. É possível que passemos pela verdade vezes sem conta ao longo do dia, ao longo da vida, e nunca nos apercebamos dela, e ela depois doa (dói sempre). É possível que a verdade não seja verdade, ou não seja única, ou não seja só isso de não ser mentira. Só não chego a perceber porque raio se esconde a verdade no chão, quando estaria tão mais próxima de nós se andasse nas nossas mãos e fosse trocada todas as vezes que as nossas palmas tocassem outras. É que assim as verdades eram uma só, e se for mesmo verdade que cada um de nós está ligado a toda a gente do mundo, então um dia poderíamos ter tido como nossas tantas verdades quantas pessoas alcançássemos.
Um dia terei nas mãos mais verdades que mentiras e saberei distinguir as intenções das interjeições, e a estas duas poderei simplesmente marcá-las com a palavra lixo
(tenho uma caixa no quarto que serve para ir pondo lixo que não é bem lixo mas que um dia vai acabar por sê-lo, por enquanto é só um resto de coisas que foram ficando comigo e que, em abono da exactidão do discurso, nunca foram bem coisas, mas antes pessoas, emoções, receitas e bocados de músicas ou letras, algumas cartas de amor, aqui e ali, a maior parte delas nunca conheceram sequer viagem de ida)
guardá-las (às intenções e às interjeições) nessa caixa e deixá-las ali no canto do quarto, esquecidas por quem prefere sempre não esquecer.
Os bilhetes de concertos continuam fora da caixa. Como se os concertos - e a música, sempre a música - fossem mais verdade que tudo o que foi passando. Como se os concertos - e a música, outra vez - ficassem, enquanto o resto vai.
Nunca dançar numa discoteca com um braço no ar (e às vezes o dedo indicador espetado a fazer de extremidade) e o outro braço com o cotovelo espetado, como se meio corpo a dançar o doidas doidas doidas andam as galinhas e o restante numa imitação barata de Estátua da Liberdade robotizada, sem ritmo. Esta é uma das lições valiosas que se aprende na pista de dança. Outras há, tantas outras.
Ele não lhe tinha pedido nada, nem o afecto de outrora nem o silêncio de agora. Tão pouco precisava daqueles olhares crispados, dos lábios franzidos, dos braços cruzados e daquele corpo restrito, fugindo ao toque,voltando as costas às sua voz.
Por isso, hoje, mais uma vez como em todo aquele mês (se calhar, há mais tempo, mas também ele gelara e o tempo não corre sobre a pele fria), saltou da cama, sem fazer barulho, fez café que pousou, numa caneca, sobre a mesa de cabeceira dela, tomou banho, arranjou-se e saíu, sem bons dias e sem festas no cabelo. E no caminho para o trabalho
primeiro a pé e a chuva gélida como granizo, as gotas por dentro da gola do sobretudo, descendo costas abaixo, encharcando-lhe a cintura apertada
Estás tão gordo, nem te cabem as calças Mais para amar E a gargalhada pronta, como é que alguém tão estupidamente feliz se pode tornar tão ridiculamente amargo?
depois no autocarro, comprimido entre odores, pode apostar que o pescoço desta miúda excessivamente arranjada cheira a um perfume adocicado, como fruta demasiado madura, quase podre, e estes dois atrás dele, de mão na barra de segurança e axilas ao ar, ou estavam sem gás em casa - e com aquele frio, quem é que toma banho de água sem ser a escaldar?- ou são porcos, mesmo. Porcos imundos com as axilas sob o seu nariz, que óptima ideia para uma manhã feliz.
(É a segunda vez que rima hoje e pergunta-se se aquele provérbio "quem rima sem querer é amado sem saber" também se aplica quando o único diálogo que vai tendo ainda é consigo próprio. Pergunta-se, logo depois, se quando deixar de falar consigo próprio é porque perdeu o juízo de vez ou porque recuperou a sanidade.)
Afunda-se nos auscultadores do leitor de mp3, presente de Natal dela quando celebraram o primeiro Natal juntos, ela grávida. Ainda celebravam o Natal então. Ainda falta meia hora para chegar.
Uma vez, em conversa, coiso disse que namorar não era ir ao cinema ou ter companhia ao final do dia. A frase não me era dirigida, mas afinei o ouvido. Ele continuou: "namorar não é um telefonema de duas horas, nem oferecer presentes caros."
Reconhece-se-lhe o dogma característico de coiso - as suas típicas verdades absolutas e incontestáveis, sobre os pilares frágeis da sua credulidade -mas não consigo não concordar, se olhar para além dos detalhes, se ler nas entrelinhas: o que é afinal namorar?
Namorar é desfrutar, é providenciar felicidade, para depois recebê-la. É claro que tudo aquilo pode estar incluído (e tantas vezes está e é bem bom, não o nego) mas viver um namoro, estar-se apaixonado tem de ser mais. Quantas vezes a relação cai na monotonia do telefonema de duas horas antes de se encontrar depois do trabalho para ir ao cinema? (Nada contra desde que o programa não seja por comodismo barato.)
Tudo isto para acrescentar que não sei o que é namorar - vai-se definindo a cada dia, a dois, e se renovando a cada segundo mas permito-me acrescentar, hoje, dia 15 de Fevereiro de 2008, que:
Namorar também é não celebrar o dia de S.Valentim.
Dura alguns segundos mas acontece sempre: temos aquela maneira específica de nos colocarmos um em frente ao outro e olharmo-nos nos olhos, a sorrir muito - não fôssemos nós sorridentes. Durante esses breves instantes, cresce a certeza de que vai acontecer não tarda nada, mas não movemos nenhuma parte do corpo na direcção de, limitamo-nos a manter o rosto contraído de antecipação. E então acontece - e eu não sei se é pelas estrelas cadentes se pela Terra começar a girar mais depressa, mas nunca sei como começa. Quando sinto o corpo de novo, que é no momento em que a alma volta depois de levantar vôo, abro os olhos e estás a sorrir, apesar de ainda não te teres afastado, e abraçamo-nos.
Não podes entrar e sair, ficar e ir embora, voar e pousar consoante a tua vontade, raio de espécie de pássaro livre e desprendido que me encontrou.
Que encontraste em mim?
Pergunto-me que tipo de conforto terás dos nossos encontros e - espero sinceramente não soar a Amy Winehouse agora - mas lembro-me sempre de quando ela canta
I knew I hadn't met my match but every moment we could snatch I don't know why I got so attached
porque em cada momento que estamos juntos aquilo que trago para casa é o teu perfume no meu antebraço (sempre, sempre) e uma vontade gigante de amar o mundo - e é de tal maneira gigante que o mundo me parece pequeno e abraçável, se é que a palavra existe - e a ti.
Depois passa, como uma droga, e do sorriso inquebrável restam sempre dúvidas se é desta que pousaste ou se amanhã, como se nada fosse, me avisas que já vais e que até podias ficar por mim, mas tens de ir. E entretanto ficas e vais ficando e vamo-nos incluindo nos planos um do outro outra vez - porque isto de gostarmos de alguém cujos pés estão um palmo acima do chão e a cabeça um palmo abaixo das nuvens é também ter sapatinhos de veludo, como a barata, e dar passinhos lentos, sem ruídos nem ranger de soalhos, primeiro um em direcção do outro e finalmente um ao lado do outro.
É muito raro conseguir escrever sobre ti tal como é raro conseguir descrever-te sem parecer deslumbrada quando, na verdade, isto até nem é bem deslumbre mas vontade de decifrar o código, o teu código. E nós já vimos de longe juntos ou em ajuntamento e quando me puxas contra ti e fazes aquelas promessas todas, eu tenho dois anos de novo e estou a roubar Serenatas de amor da gaveta dos chocolates na casa da minha avó. Por isso é que te sorrio daquela maneira, fica já a saber.
Há coisa de um ano disse-te que não podíamos andar a nos beijar assim e tu deste uma daquelas tuas gargalhadas luminosas, daquelas que enchem uma sala. E perguntaste "Porquê?" e eu não soube responder, eu não gostava de ti o suficiente para ser tua namorada nem queria ainda acabar com os nossos momentos gulosos - e a gula é um dos sete pecados mortais - sem saber onde é que aquilo nos levava. Um ano depois, olho para trás e estou certa que nos demos dos melhores momentos da nossa vida e que isto tem sido divertido e giro e excitante, mas é também há um ano que não sei responder à pergunta "tens namorado?" - e é uma pergunta simples, de sim ou não - porque quer dê uma das duas respostas possíveis, estarei a mentir com os dentes todos que tenho na boca (incluindo os sisos que tirei o ano passado).
Sempre me pareceu cobardia escrever no Desumanos sobre ti, porque tu não vens aqui ler-me e seria injusto falar de ti nas tuas costas, mas ontem tivemos a conversar sobre estas coisas e correu bem, acho eu. Não sei como o fazes, mas dizes o que tens a dizer de forma tão convincente que eu volto a ganhar confiança em ti. Eu disse-te a verdade quando disse "já não acredito em ti" porque acredito mais no meu sexto sentido do que naquilo que prometes, mas macacos me mordam se ontem não foste, pela primeira vez (ou talvez segunda, não tenho a certeza), sincero comigo e - só por isso - voltei a acreditar em ti.
Isto está bastante mais auto-biográfico do que a maior parte dos posts que por aqui deixo e acabei de transformar o meu blog num daqueles blogs pessoais muito irritantes. A minha imaginação não tem sido grande parceira nestes últimos tempos porque só te imagina, só te crê, porque só nela te tornas presente. És desaconselhado por toda a gente, salvo raras excepções, e mesmo assim não me quero afastar de ti. "Tarde demais", diria.
O Desumanos fez três anos há dias. Parabéns para nós! :)
(Isto já funciona como aquelas relações muito longas, que a certa altura já nem se conta há quantos anos se namora. Qualquer dia casamos, eu e o meu blog.)
Já todos tínhamos saudades de um vídeo do youtube, eu sei, e como não quero que vos falte nada, cá está ele.
Se estiverem com um desgosto amoroso, NÃO oiçam isto pela vossa saúde, mesmo que esteja apenas no início, isto vai fazer-vos sentir ainda pior, a sério. É daquelas canções óptimas para nos mandarem ao chão, dar uns pontapés, fazer uns arranhões na cara e fazer cair grossas lágrimas de uma dor que está ainda mais para dentro do que as tripas e é maior que qualquer outra dor orgânica.
Por aqui, tudo bem, posso ouvir isto vezes sem conta sem verter uma gota - nem de choro nem de xixi, já agora, que ainda não estou incontinente. É tão linda, que canção tão filha de p*** de bonita, pá.
Noutra perspectiva, porque raio as músicas devem ser catalogadas como "txi vou chorar" ou "txi vou dançar"? Eu quando oiço "love me the way I love you" encho-me de uma alegria enorme, fico com o peito quase a rebentar de tanta alegria, mentalmente oiço uma cascata e água a correr - aqui sim, fico com vontade de um xixizinho que uma mulher não é de ferro - e o sol está a brilhar de uma maneira que tenho de franzir os olhos - como se eu tivesse miopia e me recusasse a usar óculos (olá, sim tu!) - e não há mais nada tão perfeito assim porque mentalmente oiço "I love you the way youuuu love me" e, honestamente, às vezes é só isso que precisamos de ouvir. E, se franzirmos tanto os olhos que as pálpebras chegam até a tocar-se, podemos adivinhar uma sombra que se aproxima da nossa cara e sentir, ao de leve, uns lábios molhados a tocar os nossos.
Bonnie 'Prince' Billy :: The Way
Winter comes and snow I can't marry you, you know Without you the winter grows I can't marry you, you know
Love me the way i love you Love me the way i love you
Take a year in your hands You can find another man Let your unloved parts get loved I will be your man
Love me the way i love you Love me the way i love you
Places you should be afraid Into the river we will wade
Love me the way i love you Love me the way i love you
Não vi o vídeo, mas ouvi a canção toda e é mesmo o original. Agora o vídeo não sei, só sei que começava com o sorriso de uma criança e que, a certa altura, tinha uma imagem de uma vaca, em que reparei quando ia fazer o copy-paste do embed.
Aparentemente fazer exercício físico e beber álcool moderadamente fazem mais pela nossa saúde do que o exercício por si só.
The combined influence of leisure-time physical activity and weekly alcohol intake on fatal ischaemic heart disease and all-cause mortality
Jane Østergaard Pedersen1,2,*, Berit Lilienthal Heitmann2, Peter Schnohr3 and Morten Grønbæk
Aims: To determine the combined influence of leisure-time physicalactivity and weekly alcohol intake on the risk of subsequentfatal ischaemic heart disease (IHD) and all-cause mortality.
Methods and results: Prospective cohort study of 11 914 Danes aged 20 years or olderand without pre-existing IHD. During 20 years of follow-up,1242 cases of fatal IHD occurred and 5901 died from all causes.Within both genders, being physically active was associatedwith lower hazard ratios (HR) of both fatal IHD and all-causemortality than being physically inactive. Further, weekly alcoholintake was inversely associated with fatal IHD and had a U-shapedassociation with all-cause mortality. Within level of physicalactivity, non-drinkers had the highest HR of fatal IHD, whereasboth non-drinkers and heavy drinkers had the highest HR of all-causemortality. Further, the physically inactive had the highestHR of both fatal IHD and all-cause mortality within each categoryof weekly alcohol intake. Thus, the HR of both fatal IHD andall-cause mortality were low among the physically active whohad a moderate alcohol intake.
Conclusion: Leisure-time physical activity and a moderate weekly alcoholintake are both important to lower the risk of fatal IHD andall-cause mortality.
Constantly Changing And when I see you constantly changing Never the same as, never remaining I cannot fix you in a position Where I would lose you out of my vision For you are movement And that is nothing
Nota de rodapé: Leitores bonitos: tudo a ver o The Darjeeling Limited. É o melhor Anderson que vi e isto não é dizer pouco, tendo em conta o que está para trás e o facto do Royal Tenenbaums ser um dos meus filmes preferidos de todos os filmes do mundo - só não vi o Bottle Rocket, o primeiro dele, por isso sobre esse não me pronuncio. Era giro ver e eu gostava, mas nunca encontrei num clube de vídeo nem na casa de ninguém para pedir emprestado. Eu se percebesse alguma coisa de cinema escrevia um texto sobre o Darjeeling (desatava a falar em planos, fotografia, cortes de película como quem faz um sumo cheio de fruta sem se preocupar em saber o que está a deitar lá dentro), mas não percebo, vão ver vocês e depois digam qualquer coisa.
Não gosto de não ter ideias novas. Fico mais ansiosa quando estou assim, sem ideias, sem um plano, sem algo para concretizar, do que quando tenho projectos a mais para as vinte e quatro horas de cada um dos sete dias da semana.
Vou a Londres, de 21 a 28 de Março. Já está tudo marcado e vai mesmo acontecer, o que é bom. É bom também não haver mais nada que justifique a minha ida a Londres se não a vontade de conhecer a cidade. (E agora também já posso voltar a dizer que quero fazer lá parte da especialidade sem que pensem "oh meu Deus, lá está ela a ser obsessiva de novo".) Inventei um slogan para a viagem, já agora: "L.O.J.J.A <3 LDN" (são as nossas iniciais e compõem a palavra loja).
Como era de esperar, e depois de algum tempo surpreendida a achar que não, há montes de concertos na semana que lá estou. Neil Young, The Sonics, Kristin Hersh, The Twilight Sad, e estou só a mencionar aqueles que gostava de ver. Vou ter de escolher dois, no máximo dois - ainda não sei quais.
Há montes de coisas para ver e fazer em Londres mas, quando penso nisso, aquilo que mais me apetece é "fundir". Fundir-me com os londrinos, como consegui em Barcelona. Acho que não quero ir ao Madame Tussaud's, as figuras de cera assustam-me um bocado. Quero ver as outras coisas todas, Big Ben, St. Paul's Cathedral, render da Guarda e Palácio de Buckingham, London Bridge (is falling down, falling down), Tower Bridge e o Tamisa, Picadilly Circus, Trafalgar Square. Gostava de ir ao Tate Modern. Passear, passear, passear e, ao final da tarde, beber umas pints no pub da esquina. Perfeito.
Uma das coisas que faz com que a H&M seja uma das minhas lojas favoritas é a banda sonora da loja. Esta canção chamou-me a atenção, estava eu a ver roupa na secção de crianças (para os meus irmãos, embora o 14 me fique bem) depois de ouvir Spoon, que dá sempre que lá vou, é impressionante. Chama-se Tomoko e é da Hafdis Huld (há-de haver aqui algum ¨ que me esteja a falhar), que faz parte dos GusGus (banda islandesa de techno-pop - uma espécie de Hot Chip dos anos 90, em pior - de quem até já me tinha esquecido da existência.)
Aposto que esta Tomoko é daquelas gajas que nos irritam apesar de serem irrepreensivelmente adoráveis. So hard to hang out with that kind of girl.
Podem ouvir aqui. She flies much faster Shouts much louder Looks much fresher And eats much less than you
There's nothing you can do It's just hard to hang out with Tomoko Tomoko
She doesn't gossip Her hair still shines Still has hope Is never broke Like you
Na astrologia chinesa, eu sou Rato. Se este ano se celebra o ano do Rato, devo esperar coisas boas, certo?
É bom que sim, é bom que sim.
Adenda, de um site qualquer:
É um ano próspero para o nativo do Rato. Poderá ser promovido ou atingir o auge da carreira. No campo da saúde não se terá que preocupar. Poderá esperar ganhos monetários e atingir vários objectivos.
Baby Huey teve uma vida demasiado curta e, como não começou a cantar mal saíu da barriga da mãe, uma carreira ainda mais curta, com apenas um álbum para a posterioridade, de seu nome The Baby Huey Story: The Living Legend. Senhor de grande porte, James Ramey decidiu ser conhecido pelo nome de um pato gordo de um desenho animado que fazia as delícias das crianças. A voz é como aqui se ouve, melosa, rouca, extremamente sensual e quente. Algures na década de '60, e porque felizmente estas vozes raramente ficam pelo canto durante o banho, juntou-se a outros músicos e formaram o conjunto Baby Huey and the Babysitters, que, após muitas e muitas actuações ao vivo, chamou à atenção da Curtom Records. Ora, reza a história que os Babysitters não encantaram o patrão da Curtom, Curtis Mayfield (estou a tentar não entrar em histeria, para isto não se tornar um post sobre o Curtis Mayfield), e que, por isso, o disco, produzido pelo GIGANTE CURTIS, só ficou com o nome dele, apesar da participação do resto da banda. Em 1970, Baby Huey, na altura com 26 anos, teve um enfarte do miocárdio (por acaso, tema de estudo este fim de semana e de trabalho a apresentar na sexta-feira, que coincidência) ao qual não sobreviveu.
Resta-nos o disco, assumidamente influência no hip-hop, e que foi só editado postumamente. Como se espera, é protagonizado pela voz de Baby Huey, mas Curtis - mesmo não gostando dos Babysitters - não deixou as orquestrações para trás, tornando-as dignas de um disco seu (ahahah) e é um encadear de emoções de um espectro enorme desde o blues ao funk, passando pelas baladas soul como esta que se mostra aqui, com ritmo para qualquer dia da nossa vida (desde a pista de dança ao amor com o(a) namorado(a), desde arrumar à casa a ir fazer exercício ou um trabalho para a faculdade).
The Baby Huey Story: The Living Legend é também, claro, obrigatório.
(Já toda a gente sabe desta, mas é uma das canções do ano e sampla de forma brilhante os Clash. Mais, a minha preferida do Kala talvez seja a Bamboo Banga, embora este seja daqueles discos de onde é impossível escolher uma sem estar a cometer uma injustiça do tamanho do mundo.)
Em assuntos relacionados, vejam, vejam o vídeo mais adorável de sempre. <3 (amor, meus espertinhos que pensaram nesse palavrão que rima com alho) para estes dois. É o Diplo e a própria, a cantar aquela que era a versão original da Paper Planes, que sampla outra coisa qualquer não me lembro o quê. Muito elucidativa, eu. Querem que vos fale de terapêutica com hidrocortisona no doente com choque séptico? Terei todo o gosto.
Eu sei que eles já acabaram, mas há ex-namorados que ficam para a vida - eu cá ando para prová-lo, e, se isto não é amor, não sei o que é o amor e provavelmente por isso raramente o encontro. Mas não. Algo me diz que isto é mesmo o amor. Coisa mais querida, meu Deus.
(Depois de ver o trailer umas quinhentas mil vezes, o cenário é novamente Londres (and it's actually ok, Woody's sarcasm and ironic twist go well with a british accent), há problemas financeiros e um crime, uma mulher perigosamente estonteante, o dilema da moralidade versus imoralidade e a família - e deve-se fazer tudo pela família, não é? Como se vê ali em cima, entra o Ewan McGregor (ora bem, vai ser giro de ver, acho eu) e o meu ódio de estimação chamado Colin Farrell (mas porque é que os poucos realizadores cuja carreira vou acompanhando - olá Terrence Mallick! - o escolhem para filmes seus, bolas?). Prometo que vou estar lá sem implicar: é a prova de fogo, se não gostar dele dirigido pelo Woody Allen, é provável que não venha nunca a gostar.
A má notícia é que não há Hugh Jackman. Tive esperança que sim, que ele repetisse como repetiu a Scarlett. Que pena.)
Com a devida humildade - e ignorando a ordem, excepto ali nos primeiros seis:
20. The Stars of the Lid :: And Their Refinement of The Decline 19. No Age :: Weirdo Ripper 18. The Clientele :: God save the Clientele 17. Battles :: Mirrored 16. Norberto Lobo :: Mudar de Bina 15. Akron/ Family :: Love is Simple 13. Animal Collective :: Strawberry Jam 12. Beirut :: The Flying Club Cup 11. Electrelane:: No shouts, no calls 10. Jens Lekman :: Night fall over Kortedala 9. Matthew Dear :: Asa Breed 8. LCD Soundsystem :: Sound of Silver 7. Le Loup :: The Throne of the Third Heaven of the Nations' Millenium General Assembly
6. Deerhunter :: Cryptograms
5. Panda Bear :: Person Pitch
4. Von Südenfed :: Tromatic Reflexxions
3. Burial :: Untrue
2. M.I.A. :: Kala
1. The National :: Boxer
Epílogo: Chega a esta altura e falta sempre ouvir imensa coisa, mas no que o ano passado era ansiedade, este ano é serenidade: tenho a certeza que, tirando uma ou outra falha mais ou menos grave a ser colmatada logo que possível, percorri os discos que mais me interessavam e aqueles que valeram mesmo segundo as críticas e mais não sei quem De salientar: muitos discos da categoria electrónica-pista de dança-whatever (é uma área por que me interesso cada vez mais por trazer lufadas de ar fresco), disquitos indie aqui e acolá (ouvi muito indie rock ai-as-minhas-guitarras-e-as-minhas-all-star-e-os-teus-ganchinhos, fiz uma selecção e ficaram estes, mas também podia ali estar o álbum de estreia dos Voxtrot, dos The Good, The Bad and the Queen - aliás, porque é que não está ali este álbum que eu tanto adorei? - ou o álbum dos Modest Mouse ou do Andrew Bird), coisas que nunca pensei gostar e afinal adoro (No Age, Battles, Stars of the Lid, e ficou a faltar, nesta categoria, o álbum dos Shining "Grindstone"). Mais, deixa-me cá ver: ah, falta muito hip-hop aqui, mas este ano os álbuns do género soaram-me muito a pastilha elástica (mastiga e deita fora). Fartei-me rápido deles todos, tirando uma canção aqui e acolá, a que regressava com prazer. Mais, mais, mais: ai é verdade, coisas que já ouvi, gostei e não estão aqui! O primeiro dos Justice, o segundo de Go! Team (Lux, sexta, can't wait) e o ésimo álbum dos Wilco, do Bill Callahan, dos !!!, do Neil Young (que para já adoro). E chega de cromice.
É que este ano nem me ia meter nisto das listas - afinal, quem quer mesmo saber quais os vinte discos que na minha opinião foram os mais inovadores, mais ground-breaking/mais partiram pedra, mais únicos, mais irrepetíveis, melhores amigos para todas as ocasiões? Só o Nuno, que me pediu encarecidamente para tentar alinhar estes nomes (ele queria trinta, aqui ficam vinte). De resto, mais ninguém quer saber: fica aqui registado que é para daqui a dois meses eu rir-me.
Quando é que se pára de desejar "Feliz ano Novo" às pessoas? A partir do dia 15 de Janeiro? Em Fevereiro? Quando nos apetecer? Porque é que não posso desejar bom ano em Agosto?
Deverei perguntar "é do seu agrado eu agora desejar-lhe bom ano ou, pelo contrário, isso incomodaria-o de forma extremamente séria?"?
"Passou por nós este tempo todo, a coisa ridícula do estão-a-tocar-a-nossa-canção desaba sobre nós como um trovão. Passa-nos uma coisa pela cabeça e lá vamos nós de cabeça meter-nos na boca do lobo, atirar ao próprio pé, meter um golo na própria baliza.
Mesmo ao ler duas linhas muito belas, com a sombra do candeeiro a dar-lhe em cheio, a breve palavra dos seus lábios era outra. A simples música dos seus lábios era outra. Essas linhas já não tinham, por assim dizer, lógica nenhuma. E eu, tonto, lá ia.
A coisa é de tal forma que ainda hoje lá vou, a esse rodeio de mistérios repetidos, força magnética e fatal, onde foste buscar tanto sangue para meter nas veias? Que, grossas, despontam sobre a ira das mãos assanhadas e assim te atraem.
Uma dança parada de costas duras, fasquia dobrável com truque de mão, alguma coisa que me prende aqui, quem sabe se nesta casa não descobri, sem querer, o eixo da terra, o equador de uma alma relativamente pobre."
Helder Moura Pereira, Segredos do Reino Animal (1949) O meu Poemário (um dos meus presentes preferidos deste Natal, daquelas surpresas não pedidas) é igual a todos os outros Poemários (implico com a palavra poemário e algo me diz que tal implicância terá a ver com as suas três últimas sílabas) da Assírio & Alvim, de 2008. Quando, por vezes, encontrar, por coincidência (ou não: já espreitei e o poema do dia 18 de Novembro - 24 anos - é um dos meus poemas preferidos de todos os tempos), poemas que goste muito, para aqui os trarei. Dia 2 já teve Cesariny e 3 o O'Neill, mas eu também não posso pôr aqui tudo. Escusado será dizer que, por nove euros e sessenta cêntimos (e com este poema como single de avanço) estes Segredos são um must-have absoluto.
Helder Moura Pereira nasceu em Setúbal, a 7 de Janeiro de 1949. Foi professor no Ensino Secundário e Assistente da Faculdade de Letras de Lisboa (Departamento de Estudos Anglo-Americanos). No King’s College da Universidade de Londres, como leitor, ensinou Literatura Portuguesa. Leccionou também Português e Técnicas de Expressão do Português nos cursos de Formação Profissional da Faculdade de Medicina Dentária de Lisboa. Ingressou no Ministério da Educação em 1986, tendo exercido funções técnicas na área da educação de adultos, nomeadamente em animação de leitura e nos grupos de planeamento e redacção da revista Forma e do jornal Viva Voz. Foi técnico superior do Ministério da Justiça, em funções no Estabelecimento Prisional de Lisboa. Em 1990 reuniu os seus livros de poesia publicados até à data em De Novo as Sombras e as Calmas, poesia de 1976 a 1990. Publicou depois outros livros de poesia (Em Cima do Acontecimento, Nem Por Sombras, O Horizonte Basta, Amor Carnalis e Um Raio de Sol) e um de contos para crianças (A Pensar Morreu um Burro e Outras Histórias). O seu livro de poesia, Lágrima, foi publicado em 2002, seguindo-se A Tua Cara Não Me É Estranha, editado em 2004. Tem traduzido regularmente autores como Ernest Hemingway, Jorge Luis Borges, Sylvia Plath, Charles e Mary Lamb, Sade, Guy Debord; e escrito sobre música no Jornal de Notícias.
Se soubesse o que sei hoje, em vez de escolher uma faixa do Blue (foi a Case of you, não foi? também se adequa, ainda assim) como fiz (só porque era o meu álbum preferido da Joni), punha na compilação que te ofereci esta do Court and Spark, porque dá-me a ideia que, mesmo em 1974, ela escreveu-a a pensar em ti e em nós.
Joni Mitchell :: Help me Help me. I think I'm falling in love again. When I get that crazy feeling, I know I'm in trouble again. I'm in trouble cause you're a rambler and a gambler And a sweet-talking-ladies man And you love your lovin, But not like you love your freedom.
Help me.
Help me. I think I'm falling In love too fast, It's got me hoping for the future And worrying about the past. cause I've seen some hot hot blazes Come down to smoke and ash. We love our lovin', But not like we love our freedom.
Didn't it feel good, We were sitting there talking, Or lying there not talking, Didn't it feel good? You dance with the lady, With the hole in her stocking, Didn't it feel good? Didn't it feel good?
Help me, I think I'm falling in love with you. Are you going to let me go there by myself, That's such a lonely thing to do. Both of us flirting around, Flirting and flirting, Hurting too. We love our lovin, But not like we love our freedom.
*O idiota que inventou o "longe da vista, longe do coração" devia ser torturado até à morte, de olhos vendados com um ferro com a ponta em brasa a queimar-lhe o peito, a ver se ele acha mesmo que o longe da vista significa realmente longe do coração.
Ando a ouvir A Tribe Called Quest (confesso: conhecia uma música aqui e acolá, de compilações ou assim), porque o Rodrigo me mostrou uma fonte para a discografia toda (sacar álbuns da net, eu? De todo!).
"Educa-te" disse ele. Ando a perceber o porquê a cada audição. Uma maravilha.
:: Electric Relaxation, Midnight Marauders, 1990.
:: Check the Rhyme, The Low End Theory, 1991.
:: Bonita Applebum, People's Instinctive Travels and the Paths of Rhythm, 1993.
Um dos meus discos preferidos de todo o sempre (há sempre um punk dentro de nós, e eu não sou excepção) está por lá disponível na íntegra em dois vídeos. Fica aqui, para quem não conhece.
O álbum é este e macacos me mordam se os Wire não são pais e avós e tios afastados de todas as bandas rock deste século. Foda-se (Ó P'RA MIM BUÉ PUNK), É DOS MELHORES DISCOS DE SEMPRE E ESTÁ NO YOUTUBE.
Creio que no decorrer da História Universal haverá, à semelhança do nascimento de Cristo (a propósito, passaram bem as festas?) uma época pré-youtube e uma época pós-youtube. Já estou mesmo a ver as datas de lançamento de um álbum seguidas do epíteto aY ou dY (ou, em inglês, bY - b, de before - e aY - a, de after). O Tempo virá a seu tempo, como é costume, e dará como certo aquilo que prevejo. Cá estaremos, deslumbrados.
(Deslumbrem-se mas é com um dos melhores álbuns de sempre. É por estas e por outras que só arranjo namorados esquisitos. Eu adoro os Clash (rai's parta a minha punk interior) mas quando falo em punk rock - é raro, mas pode acontecer - com um gajo só quero que ele me responda com o seu punk interior "Foda-se, estás a brincar? O Pink Flag é um dos álbuns da minha vida. Só me apetece mandar toda a gente p'o cara*o [N. da A.: haja decoro, um palavrão por post, foda-se] e partir esta m*rda toda!". Depois de recuperar da emoção - de mãos transpiradas, olhos brilhantes de lágrimas contidas e o coração na boca, batendo depressa - eu perguntaria "Casamos onde?".)
1. Sair da quase-depressão, ou lá o que aquilo foi. Conseguir desfrutar outra vez, aproveitar cada instante - o que torna este "momento" o mais importante de todos, porque sem ele nenhum dos momentos seguintes teria tido valor.
2. Ter cada vez mais certeza que quero fazer anestesiologia para o resto da minha vida. Relacionado com isto: o fim de semana em que fiz os cursos do INEM, que me recordaram porquê e para quê tinha ido eu estudar medicina.
3. Vir à Madeira matar saudades dos meus irmãos - e o Verão, em que eu e o André, após o nosso primeiro mês de contínua convivência, nos passámos a reconhecer como irmãos.
4. Namorar com o não-namorado: primeiro a surpresa do beijo, das trocas de olhares, das primeiras dores de barriga, dos entusiasmos de adolescente na expectativa do reencontro, depois a familiarização com os braços na minha cintura, o perfume no seu pescoço que se transferia para o meu antebraço, a cumplicidade sempre crescente e aqueles abraços serem as melhores horas da semana.
5. As tardes no Noobai, de olhos postos no rio e na paisagem industrial da margem sul, a receber os primeiros raios de sol da Primavera.
6. As noites, os concertos, as ruas do Bairro Alto e as entradas em grande no Left, em Santos, e os amigos que me iam acompanhando: Jenny, Dário, Catarina, Joana, Filipa. Todos os outros que iam lá ter depois.
7. O regresso da Lúcia de Berlim: a confirmação que não há machado que mate a raíz ao pensamento nem distância que aniquile uma amizade a valer.
8. Por falar em Left: os sets de CIMENTO., um atrás do outro, um pouco por todo o lado.
9. Por falar em CIMENTO.: eles os três, claro, e a amizade com o Rodrigo ("SEXO." em vez de "olá" e qualquer dia tenho de matá-lo por ele saber demais) e com o Ilo, a única pessoa com quem falo sobre amor e romance ao mesmo tempo que discutimos cortes de cabelo. Conhecer a Sara, a Joana Vooa. Dançar com o Ramos.
10. Encontrar-se com o Luís por tudo e por nada.
11. Por falar em sets: Bailarico Sofisticado (um pouco por todo o lado também, mas sobretudo em Sines). Uma hora de banghra. Born Slippy. A lua e o nascer do Sol. Estar presente e, melhor ainda, fazer parte daquilo tudo (acordar pela manhã a ouvi-los discutir o alinhamento).
12. Por falar em Sines: o FMM e, mais uma vez, os concertos e a famiglia. Carlos Bica, Azul e o DJ Illvibe. Trilok Gurtu. Descobrir o prazer de dançar ao som de big bands (l'Etruria Criminale Banda, Bellowhead). A famiglia - a partilha, os abraços, a felicidade conjunta, os copos, as danças, os pequenos almoços nos Galegos com o Vítor, a praia, os problemas postos de lado naquela semana abençoada.
14. Ver os The National na Sala Apollo. Ir a Barcelona passar o fim de semana do meu aniversário. Ficar rouca por saber as canções de cor, ir ao backstage confraternizar, chorar com a About Today sem conseguir recompôr-se. Passear, comer croissants, as Ramblas, o Barrí Gotic, o Born, o Passeig de Gracía, a Barceloneta. Dançar com o Diplo no Razz. A Tânia, a Ana. Rencontrar o André e a Isabel.
15.A semana no Porto Santo, com a família emprestada e o Pedro, o amigo de todas as horas, para o resto da vida.
16. Voltar a ler mais e melhor. Começar a ver cinema a sério, com o leitor de dvd novo. Comprar revistas, montes de revistas sobre tudo e mais alguma coisa, e devorá-las.
17. Rir. Sempre, sempre, sempre. Chorar. Sempre que preciso: a ver Grey's Anatomy, por exemplo.
"É para cortar direitinho atrás, sem este triângulo que aqui fica."
"E depois escadear?"
O pânico, o horror. Nâo sei a resposta. A minha mãe disse, depois de lhe mostrar quinhentas mil fotografias de cortes de cabelo, que eu queria desbastar. Será a mesma coisa?
"Sim.", respondo rapida e inconsequentemente. E então a cabeleireira escadeou (não que eu saiba, mas presumo que se ela disse que o faria, assim o fez).
Qual Sansão, tenho o cabelo, outrora pelo fim das omoplatas, pelos ombros. E uma faaaaaaaaaaaalta de forças.
Impossível não adorar a ironia. (Melhor ainda, é isto dar na MTV 2 que é tudo aquilo que ele desdiz.) Apesar dos Smiths, dos Beach Boys, dos LZ e dos Pixies não serem just a band, há por aqui grandes conselhos.
Thou shalt not steal if there is direct victim. Thou shalt not worship pop idols or follow lost prophets. Thou shalt not take the names of Johnny Cash, Joe Strummer, Johnny Hartman, Desmond Decker, Jim Morrison, Jimi Hendrix or Syd Barrett in vain. Thou shalt not think any male over the age of 30 that plays with a child that is not their own is a pedophile - Some people are just nice. Thou shalt not read NME. Thou shalt not stop likin' a band just 'cause they’ve 'come popular. Thou shalt not question Stephen Fry. Thou shalt not judge a book by its cover. Thou shalt not judge Lethal Weapon by Danny Glover. Thou shalt not buy Coca-Cola products, thou shalt not buy Nestle products. Thou shalt not go into the woods with your boyfriend’s best friend, take drugs and cheat on him. Thou shalt not fall in love so easily. Thou shalt not use poetry, art or music to get into girls’ pants - use it to get into their heads. Thou shalt not watch Hollyoaks. Thou shalt not attend an open mic and leave as soon as you done your shitty little poem or song, you self-righteous prick. Thou shalt not return to the same club or bar week in, week out, just ’cause you once saw a girl there that you fancied but you’re never gonna fucking talk to.
Thou shalt not put musicians and recording artists on ridiculous pedestals no matter how great they are or were.
The Beatles - Were just a band. Led Zeppelin - Just a band. The Beach Boys - Just a band. The Sex Pistols - Just a band. The Clash - Just a band. Crass - Just a band. Minor Threat - Just a band. The Cure - Were just a band. The Smiths - Just a band. Nirvana - Just a band. The Pixies - Just a band. Oasis - Just a band. Radiohead - They're just a band. Bloc Party - Just a band. The Arctic Monkeys - Just a band. The Next Big Thing - Just a band!
Thou shalt give equal worth to tragedies that occur in non-English speaking countries as to those that occur in English speaking countries. Thou shalt remember that guns, bitches and bling were never part of the four elements and never will be. Thou shalt not make repetitive generic music, thou shalt not make repetitive generic music, thou shalt not make repetitive generic music, thou shalt not make repetitive generic music. Thou shalt not pimp my ride. Thou shalt not scream if you wanna go faster. Thou shalt not move to the sound of the wickedness. Thou shalt not make some noise for Detroit. When I say “Hey” thou shalt not say “Ho.” When I say “Hip” thou shalt not say “Hop.” When I say, he say, she say, we say, make some noise - kill me.
[Ah, forgot where I was, hang on]
Thou shalt not quote Me Happy. Thou shalt not shake it like a Polaroid picture. Thou shalt not wish your girlfriend was a freak like me. Thou shalt spell the word “Phoenix” P-H-E-O-N-I-X, not P-H-O-E-N-I-X, regardless of what the Oxford English Dictionary tells you. Thou shalt not express your shock at the fact that Sharon got off with Brad at club last night by saying “Is it.” Thou shalt think for yourselves.
And thou shalt always, thou shalt always kill.
Dan Le Sac vs Scroobius Pip :: Thou shalt always kill
Uau, uau, uau. Pára tudo já! Não imaginam, meu Deus, vocês não fazem ideia:
O Francisco Rebelo (Cool Hipnoise, Spaceboys) fez um comentário no meu blog, a propósito disto. Está aqui.
Francisco, se algum dia se tornar premente a utilização de um sósia, conta com o Pedro! Não fundou uma banda tão cool como os Cool Hipnoise (por quem sinto profunda admiração e respeito desde os primórdios pela evolução, pelo assumir de riscos, pela boa onda) but he's got the looks.
(A propósito, vi-o nas Amoreiras sexta-feira e o meu amigo disse "olha lá vai o teu primo*".) *primo = Pedro
Quando és condescendente comigo - quase paternalista - como se a nossa mísera diferença de idades fizesse diferença, ou como se fosses imune a saudade, a tremeliques dos joelhos, a almas irrequietas, a canções lamechas (logo tu!), tenho que confessar que me irritas.
Se calhar o amor nunca nos apanhou em toda a sua propriedade por sermos mais fortes do que ele. Há a mania generalizada de que o amor é o sentimento mais poderoso, mais geograficamente instável - por se crer que move montanhas. Maior que o amor, julgo eu, é o ego - essa estranha habilidade humana em colocar-se no epicentro das emoções e dos factos. Convenhamos, tu e eu: egos demasiado grandes que, ou por isso ou por outra razão qualquer, se aproximaram. Nesse sentido, aquilo que tivemos foi e é um constante nutrir de auto-estima, um afagar de egos - eu o teu, tu o meu, eu o meu, tu o teu.
Estava a tentar perceber se é mesmo um comboio ou um helicóptero ou que diabo é aquele sample demoníaco e deparei-me com isto. Juro que ainda não tinha lido a crítica da Pitchfork ao Strawberry Jam.
"For Reverend Green" fades into the structurally similar but tonally different "Fireworks", arguably forming the greatest back-to-back in the Animal Collective's catalog. "Fireworks" is about the pleasure of simple things, but also about how hard they can be to appreciate: "A sacred night where we'll watch the fireworks/ The frightened babies poo/ They've got two flashing eyes and they're colored why/ They make me feel that I'm only all I see sometimes."
Animal Collective are never a band I listened to for lyrics-- on those early records, they were pretty hard to make out-- but the words in "Fireworks" match perfectly the song's complex mood: There's a romantic sense of longing, an air of celebration, but also tinges of doubt, loss, and acceptance. That it's all rendered so beautifully, with tempered banshee vocals, some spacey dub elements to kick off the middle break, and one of the band's best melodies-- and layered and varied enough to have had two or three good songs built from it-- reveals the band's mastery of complex, experimental pop songcraft.
Este ano, talvez pela primeira vez desde que penso nisso d' "os melhores discos do ano", tenho o primeiro, segundo e terceiro lugares bastante claros na minha cabeça (e em todo o lado do meu corpo que ouve música, que, desconfio, seja todo ele). Obviamente que, para manter o suspense (que até nem é muito, se o leitor se tratar de alguém das minhas lides quotidianas), não vou revelar os priveligiados desses lugares cimeiros.
A porca torce o rabo no que toca aos lugares seguintes - já pensei fazer uma lista com apenas três lugares e, desta forma simples, acabar com esta angústia. Doismilesete foi pródigo em óptimos discos (ou então eu é que ando a ouvir muita coisa boa - e pouca má, uma vez que o tempo é escasso e eu cada vez estou mais selectiva em relação àquilo a que sujeito os meus ouvidos).Como se o primeiro semestre do ano não tivesse sido suficientemente bom, também o fim do Verão/ início do Outono - considero-os coisas distintas, com o primeiro acabam as férias, com o segundo começa o frio - trouxe discos maravilhosos (ao meu computador e à minha estante). O frio, o aproximar desta melancolia que obriga a puxar dos casacos quentes, dos cachecóis (de cache - cou e pescoços que brincam às escondidas, surgindo de vez em quando para beijinhos e dentadas), do chocolate quente a qualquer hora do dia, do chá de menta à noite, toda a dolência que temperaturas inferiores a 20 graus Celsius implicam ao meu metabolismo (sou friorenta, e com muito gosto!) fazem-me ouvir música e querer - ainda mais - passar os dias envolta em mantinhas rodeada de discos atrás de discos.
Não há grande disco sem, pelo menos, uma grande canção. É o mínimo que se lhe exige: 2 a 10 minutos, ou coisa que o valha, de um clássico instantâneo. Não um otoverme nem um hit nem aquela canção que vamos ouvir na rádio até morrermos - não, não, nada disso. Clássico instantâneo, aqui, é a canção que mais nos toca, a que vai, como se de um passe livre trânsito se tratasse, da alma à mente aos pêlos dos braços para arrepiá-los e de volta ao coração, para lá ficar guardada. Muitas vezes, e isso acontece sobretudo nos discos maiores que a própria vida, nos discos que, durante um tempo indefinido, comandam a nossa biologia por fazerem coincidir os nossos ritmos com a sua própria cadência, o clássico instantâneo é flutuante e vai percorrendo todas as faixas (assim o foi - e o é - com o meu disco #1). Todos, todos os enormes, razoavelmente grandes, às-vezes-grandes-outras-vezes-mais-pequenos e médios discos de 2007 têm essa canção (a lista pode ficar para outra vez, pode?).
A canção que aqui interessa está alinhada no Strawberry Jam, dos Animal Collective - álbum que, por si, é talvez inferior à minha santíssima trindade da banda (registe-se, por ordem crescente de antiguidade: Feels, Sung Tongs e Here Comes the Indian). Deus sabe o quanto amo os Animal Collective - o quanto lhes estou grata, o quanto os admiro, o quanto eles fazem parte de mim como "musicalmente tolinha".
Fireworks pode ser incrivelmente desfeita em bocados, em vários momentos que fazem dos seus 6 minutos e 50 segundos os seis minutos e cinquenta segundos mais perfeitos do ano, como um coração que se parte ou uma história de amor feita de episódios vários - todos eles igualmente bonitos. Foi sempre isso que gostei nos Animal Collective: o facto de da decomposição, do recorte, da colagem, da edição resultar uma canção geralmente fascinante que é também dez canções mais pequeninas igualmente fantásticas.
Começa com um sample em loop do que me parece (e parecerá, para toda a eternidade) um comboio em rápida movimentação pelos carris. Diga-se que, mal isto se ouve, o coração começa a bater compassadamente com este comboio - que parte? que chega? que interessa? Sabe-se que este sample não abandona a canção em qualquer momento. Depois entra a pièce de resistance do primeiro episódio desta história de amor: os coros que cantam ú-ú-í-ú-ú-í-ú ou algo semelhante, como uivos de melancolia, de agonia, de sentimento de pertença- mas pertença a quem? - e isso, aqui, está por todo o lado: uma tristeza quase inacessível, mas ao mesmo tempo, a tristeza mais tranquila, mais segura de si, mais consciente, que algum dia dia vi numa canção. Instrumentalmente é ritmada, melódica, fluida ao longo de percussão gorda e repetitiva. As guitarras recortam-na, criam microclimas de êxtase, de desespero, de pacificação - os tais episódios da história de amor, os altos e baixos do romance, as mãos que se soltam e que se dão nas relações amorosas que nunca o foram. O mais surpreendente na Fireworks não é tudo isto, porque a coisas assim boas já nos têm habituado os Animal Collective. O que é absolutamente novo aqui é como a beleza da música coincide tão perfeitamente com a beleza das vozes, entoando letras que significam precisamente o mesmo que aquilo que os instrumentos e os samples transmitem. Não, nunca liguei grande coisa aos Animal Collective pelas letras - nem é coisa para a qual eles vivam, muitas vezes nem dá para perceber que raio estão eles para lá dizer. Não era suposto, de todo, reparar nas palavras escondidas, nos versos estranhos das suas canções. Até agora.
Fireworks é uma lição de compromisso, de saudade, de insatisfação, de dúvida, de conformismo, de serenidade, de pertença. Um portentoso épico sobre a vida e a ternura - como amar (entre tantas outras coisas) pode ser, ao mesmo tempo, a melhor e a mais fodida coisa do mundo. Sobre a perenidade e a fragilidade dos instantes - como o fogo de artifício, que sobe céu acima para logo rebentar e fim!, tudo começa, tudo acaba, e estar por aqui é uma sucessão de inícios e de fins (e do que a meio fica, tantas vezes o melhor e o mais esquecido.) Sobre esquecer, sobre lembrar, sobre desistir, sobre tentar de novo. Sobre mim, sobre ti, sobre todos nós.
Now it's day and I've been trying to get that taste off my tongue. I was dreaming of just you, now our cereal, it is warm. Attractive day in the rubble of the night from before. I can't walk in a vacuum, I feel ugly, feel my pores. It's the trees of this day that I do battle with for the light. Then I start to feel tragic, people greet me, I'm polite.
"What's the day?" "What are you doing?" "How's Your Mood?" "How's that song?"
Man it passes right by me, it's behind me, now it's gone. I can't lift you up cause my mind is tired. It's family beaches that I desire.
A sacred night,
Where we'll watch the fireworks.
The frightened babies poo.
They've got two flashing eyes and they're colored why. They make me feel that I'm only all I see sometimes.
I was eating with a good friend who said "A Genii made me out of the earth's skin" but in spite of her she is my birth kin, she spits me out in her surly blood rivers. All the people life lurking in dominions of a hot Turk dish. If elephants are reaching for our purses, then meet me after the world with the shivers.
"What's the day?" "What are you doing?" "How's your food?" "How's that song?"
Man it passes right by me it's behind me now it's gone. I can't lift you up cause my mind is tired, it's family beaches that I desire. That sacred night where we watched the fireworks. They frightened the babies and you know they've got two flashing eyes and if they are color blind, they make me feel, that you're only what I see sometimes.
Chegou Dezembro e o Natal e o fim do ano. A Baixa fica intransitável - valha-nos a transladação da maior árvore de Natal do mundo para o Porto (é de transladação que se trata, não?, visto aquele mamarracho não constar da lista de seres vivos criados por Deus Nosso Senhor), os supermercados com filas que percorrem os corredores onde é suposto estar a escolher as compras (a sério, com quanta antecedência se pode comprar um peru, um mês? dois?), as pessoas saem à rua para ir ver as luzinhas e as iluminações (atenção, por favor: saem à rua parair ver as luzinhas, não é que vão tomar café ou comer castanhas ou assim), os putos entram em túneis escuros que supostamente são a casinha do Pai Natal na Praça Central do Colombo, enquanto a mãe grita "Ó Zé Manel, despache-se que a mãe ainda tem de ir ali à Vista Alegre comprar presente para a Tia Tita" (a semelhança com factos reais não é coincidência, esta mãe e este filho e esta frase realmente aconteceram) e parece que todo o propósito do Natal é irritar-se e apressar-se e apanhar trânsito e esperar em filas e reclamar.
Comes with the business, I suppose. E a verdade é que toda a gente se queixa invariavelmente: do dinheiro que gastam, do tempo que ocupam, da esperança de vida desperdiçada. E isso não os leva a nada, porque continuam a focar o seu Natal nas coisas de somenos importância (lindo, sempre quis usar a palavra somenos num texto). Não pretendo salvar o mundo nem agitar consciências nem tão pouco dizer que a minha família é diferente de todas as outras - há o mesmo stress, a mesma ansiedade, as mesmas discussões.
Mas é impressão minha ou o Natal não é, de todo, suposto ser isto? Ah, longe vão os tempos da fraternidade e do amor ao próximo. Ou então, toda esta guerra civil do advento é só uma forma feia de se atingir uma noite perfeita. Mas não, não é bem isto. Até porque, diz-nos a wikipedia:
O Advento (do latimAdventus: "chegada", do verbo Advenire: "chegar a") é o primeiro tempo do Ano litúrgico, o qual antecede o Natal. É um tempo de preparação e alegria, de expectativa, onde os fiéis, esperando o Nascimento de Jesus Cristo, vivem o arrependimento e promovem a fraternidade e a Paz. No calendário religioso este tempo corresponde às quatro semanas que antecedem o Natal.
Ora bem, não vejo aqui nenhuma referência a "ei, eu vi isso primeiro, dê cá!" ou *buzinadela* "veja por onde anda, seu filisteu!". Para já, porque ninguém usa a palavra filisteu para insultar outra pessoa. Mas deviam, o mundo seria um lugar mais bonito.