6.2.08

*

Dura alguns segundos mas acontece sempre: temos aquela maneira específica de nos colocarmos um em frente ao outro e olharmo-nos nos olhos, a sorrir muito - não fôssemos nós sorridentes. Durante esses breves instantes, cresce a certeza de que vai acontecer não tarda nada, mas não movemos nenhuma parte do corpo na direcção de, limitamo-nos a manter o rosto contraído de antecipação. E então acontece - e eu não sei se é pelas estrelas cadentes se pela Terra começar a girar mais depressa, mas nunca sei como começa. Quando sinto o corpo de novo, que é no momento em que a alma volta depois de levantar vôo, abro os olhos e estás a sorrir, apesar de ainda não te teres afastado, e abraçamo-nos.

E é tão bom, caramba, só nós sabemos quão bom é.

Em relação ao post anterior, o epílogo em inglês para tentar ter piada

"I'll go all a causa foi modificada on it."

Que é como quem diz, talvez tenha validade limitada e desapareça em breve.

Bloqueio sentimental

Não podes entrar e sair, ficar e ir embora, voar e pousar consoante a tua vontade, raio de espécie de pássaro livre e desprendido que me encontrou.

Que encontraste em mim?

Pergunto-me que tipo de conforto terás dos nossos encontros e - espero sinceramente não soar a Amy Winehouse agora - mas lembro-me sempre de quando ela canta

I knew I hadn't met my match but every moment we could snatch
I don't know why I got so attached

porque em cada momento que estamos juntos aquilo que trago para casa é o teu perfume no meu antebraço (sempre, sempre) e uma vontade gigante de amar o mundo - e é de tal maneira gigante que o mundo me parece pequeno e abraçável, se é que a palavra existe - e a ti.

Depois passa, como uma droga, e do sorriso inquebrável restam sempre dúvidas se é desta que pousaste ou se amanhã, como se nada fosse, me avisas que já vais e que até podias ficar por mim, mas tens de ir. E entretanto ficas e vais ficando e vamo-nos incluindo nos planos um do outro outra vez - porque isto de gostarmos de alguém cujos pés estão um palmo acima do chão e a cabeça um palmo abaixo das nuvens é também ter sapatinhos de veludo, como a barata, e dar passinhos lentos, sem ruídos nem ranger de soalhos, primeiro um em direcção do outro e finalmente um ao lado do outro.

É muito raro conseguir escrever sobre ti tal como é raro conseguir descrever-te sem parecer deslumbrada quando, na verdade, isto até nem é bem deslumbre mas vontade de decifrar o código, o teu código. E nós já vimos de longe juntos ou em ajuntamento e quando me puxas contra ti e fazes aquelas promessas todas, eu tenho dois anos de novo e estou a roubar Serenatas de amor da gaveta dos chocolates na casa da minha avó. Por isso é que te sorrio daquela maneira, fica já a saber.

Há coisa de um ano disse-te que não podíamos andar a nos beijar assim e tu deste uma daquelas tuas gargalhadas luminosas, daquelas que enchem uma sala. E perguntaste "Porquê?" e eu não soube responder, eu não gostava de ti o suficiente para ser tua namorada nem queria ainda acabar com os nossos momentos gulosos - e a gula é um dos sete pecados mortais - sem saber onde é que aquilo nos levava. Um ano depois, olho para trás e estou certa que nos demos dos melhores momentos da nossa vida e que isto tem sido divertido e giro e excitante, mas é também há um ano que não sei responder à pergunta "tens namorado?" - e é uma pergunta simples, de sim ou não - porque quer dê uma das duas respostas possíveis, estarei a mentir com os dentes todos que tenho na boca (incluindo os sisos que tirei o ano passado).

Sempre me pareceu cobardia escrever no Desumanos sobre ti, porque tu não vens aqui ler-me e seria injusto falar de ti nas tuas costas, mas ontem tivemos a conversar sobre estas coisas e correu bem, acho eu. Não sei como o fazes, mas dizes o que tens a dizer de forma tão convincente que eu volto a ganhar confiança em ti. Eu disse-te a verdade quando disse "já não acredito em ti" porque acredito mais no meu sexto sentido do que naquilo que prometes, mas macacos me mordam se ontem não foste, pela primeira vez (ou talvez segunda, não tenho a certeza), sincero comigo e - só por isso - voltei a acreditar em ti.

Isto está bastante mais auto-biográfico do que a maior parte dos posts que por aqui deixo e acabei de transformar o meu blog num daqueles blogs pessoais muito irritantes. A minha imaginação não tem sido grande parceira nestes últimos tempos porque só te imagina, só te crê, porque só nela te tornas presente. És desaconselhado por toda a gente, salvo raras excepções, e mesmo assim não me quero afastar de ti. "Tarde demais", diria.

Pois aqui estou.

4.2.08

Rejubilai!

O Desumanos fez três anos há dias. Parabéns para nós! :)

(Isto já funciona como aquelas relações muito longas, que a certa altura já nem se conta há quantos anos se namora. Qualquer dia casamos, eu e o meu blog.)

"Without you the winter grows."

Já todos tínhamos saudades de um vídeo do youtube, eu sei, e como não quero que vos falte nada, cá está ele.

Se estiverem com um desgosto amoroso, NÃO oiçam isto pela vossa saúde, mesmo que esteja apenas no início, isto vai fazer-vos sentir ainda pior, a sério. É daquelas canções óptimas para nos mandarem ao chão, dar uns pontapés, fazer uns arranhões na cara e fazer cair grossas lágrimas de uma dor que está ainda mais para dentro do que as tripas e é maior que qualquer outra dor orgânica.

Por aqui, tudo bem, posso ouvir isto vezes sem conta sem verter uma gota - nem de choro nem de xixi, já agora, que ainda não estou incontinente. É tão linda, que canção tão filha de p*** de bonita, pá.

Noutra perspectiva, porque raio as músicas devem ser catalogadas como "txi vou chorar" ou "txi vou dançar"? Eu quando oiço "love me the way I love you" encho-me de uma alegria enorme, fico com o peito quase a rebentar de tanta alegria, mentalmente oiço uma cascata e água a correr - aqui sim, fico com vontade de um xixizinho que uma mulher não é de ferro - e o sol está a brilhar de uma maneira que tenho de franzir os olhos - como se eu tivesse miopia e me recusasse a usar óculos (olá, sim tu!) - e não há mais nada tão perfeito assim porque mentalmente oiço "I love you the way youuuu love me" e, honestamente, às vezes é só isso que precisamos de ouvir. E, se franzirmos tanto os olhos que as pálpebras chegam até a tocar-se, podemos adivinhar uma sombra que se aproxima da nossa cara e sentir, ao de leve, uns lábios molhados a tocar os nossos.



Bonnie 'Prince' Billy :: The Way

Winter comes and snow
I can't marry you, you know
Without you the winter grows
I can't marry you, you know

Love me the way i love you
Love me the way i love you

Take a year in your hands
You can find another man
Let your unloved parts get loved
I will be your man

Love me the way i love you
Love me the way i love you

Places you should be afraid
Into the river we will wade

Love me the way i love you
Love me the way i love you

Não vi o vídeo, mas ouvi a canção toda e é mesmo o original. Agora o vídeo não sei, só sei que começava com o sorriso de uma criança e que, a certa altura, tinha uma imagem de uma vaca, em que reparei quando ia fazer o copy-paste do embed.

SMOGgy weather

"It's just this justice aversion to the improper manner things are done today."

Justice aversion :: Smog :: Dongs of Sevotion

Posto isto: que cada um enfie a carapuça onde quiser.

3.2.08

O Google é fixe. O Google é bom. O Google é Deus.

A MELHOR INVENÇÃO DO SÉCULO É O iGOOGLE E O GOOGLE READER E NÃO SE FALA MAIS NISTO, ESTÁ BEM?

Boas notícias!

Aparentemente fazer exercício físico e beber álcool moderadamente fazem mais pela nossa saúde do que o exercício por si só.

The combined influence of leisure-time physical activity and weekly alcohol intake on fatal ischaemic heart disease and all-cause mortality

Jane Østergaard Pedersen1,2,*, Berit Lilienthal Heitmann2, Peter Schnohr3 and Morten Grønbæk

Aims: To determine the combined influence of leisure-time physical activity and weekly alcohol intake on the risk of subsequent fatal ischaemic heart disease (IHD) and all-cause mortality.

Methods and results: Prospective cohort study of 11 914 Danes aged 20 years or older and without pre-existing IHD. During ~20 years of follow-up, 1242 cases of fatal IHD occurred and 5901 died from all causes. Within both genders, being physically active was associated with lower hazard ratios (HR) of both fatal IHD and all-cause mortality than being physically inactive. Further, weekly alcohol intake was inversely associated with fatal IHD and had a U-shaped association with all-cause mortality. Within level of physical activity, non-drinkers had the highest HR of fatal IHD, whereas both non-drinkers and heavy drinkers had the highest HR of all-cause mortality. Further, the physically inactive had the highest HR of both fatal IHD and all-cause mortality within each category of weekly alcohol intake. Thus, the HR of both fatal IHD and all-cause mortality were low among the physically active who had a moderate alcohol intake.

Conclusion: Leisure-time physical activity and a moderate weekly alcohol intake are both important to lower the risk of fatal IHD and all-cause mortality.

Key Words: Physical activity • Alcohol intake • Ischaemic heart disease • All-cause mortality • Survival analysis

European Heart Journal 2008 29(2):204-212; doi:10.1093/eurheartj/ehm574

Devo estar com uma saúde de ferro!

29.1.08

Um disco que se destaca sobre todos os outros e uma nota de rodapé

Constantly Changing
And when I see you constantly changing
Never the same as, never remaining
I cannot fix you in a position
Where I would lose you out of my vision
For you are movement
And that is nothing

Nota de rodapé:
Leitores bonitos: tudo a ver o The Darjeeling Limited. É o melhor Anderson que vi e isto não é dizer pouco, tendo em conta o que está para trás e o facto do Royal Tenenbaums ser um dos meus filmes preferidos de todos os filmes do mundo - só não vi o Bottle Rocket, o primeiro dele, por isso sobre esse não me pronuncio. Era giro ver e eu gostava, mas nunca encontrei num clube de vídeo nem na casa de ninguém para pedir emprestado. Eu se percebesse alguma coisa de cinema escrevia um texto sobre o Darjeeling (desatava a falar em planos, fotografia, cortes de película como quem faz um sumo cheio de fruta sem se preocupar em saber o que está a deitar lá dentro), mas não percebo, vão ver vocês e depois digam qualquer coisa.

28.1.08

Porque...

Aos Sonics já tinha decidido ir há mais tempo. E o Neil Young esgotou.

27.1.08

Decisões rápidas

Vou ver os Twilight Sad.

I <3 LDN

Não gosto de não ter ideias novas. Fico mais ansiosa quando estou assim, sem ideias, sem um plano, sem algo para concretizar, do que quando tenho projectos a mais para as vinte e quatro horas de cada um dos sete dias da semana.

Vou a Londres, de 21 a 28 de Março. Já está tudo marcado e vai mesmo acontecer, o que é bom. É bom também não haver mais nada que justifique a minha ida a Londres se não a vontade de conhecer a cidade. (E agora também já posso voltar a dizer que quero fazer lá parte da especialidade sem que pensem "oh meu Deus, lá está ela a ser obsessiva de novo".) Inventei um slogan para a viagem, já agora: "L.O.J.J.A <3 LDN" (são as nossas iniciais e compõem a palavra loja).

Como era de esperar, e depois de algum tempo surpreendida a achar que não, há montes de concertos na semana que lá estou. Neil Young, The Sonics, Kristin Hersh, The Twilight Sad, e estou só a mencionar aqueles que gostava de ver. Vou ter de escolher dois, no máximo dois - ainda não sei quais.

Há montes de coisas para ver e fazer em Londres mas, quando penso nisso, aquilo que mais me apetece é "fundir". Fundir-me com os londrinos, como consegui em Barcelona. Acho que não quero ir ao Madame Tussaud's, as figuras de cera assustam-me um bocado. Quero ver as outras coisas todas, Big Ben, St. Paul's Cathedral, render da Guarda e Palácio de Buckingham, London Bridge (is falling down, falling down), Tower Bridge e o Tamisa, Picadilly Circus, Trafalgar Square. Gostava de ir ao Tate Modern. Passear, passear, passear e, ao final da tarde, beber umas pints no pub da esquina. Perfeito.

Adoro viajar.

20.1.08

A doença do beijo

Será a hipérbole uma doença contagiosa, como a mononucleose?

Ainda bem que falamos em Hot Chip

Já ouvi o novo álbum e é tão bom que viciou. Até fui buscar o The Warning para ver se eles já eram assim tão fixes na altura.

A boa notícia é que sim, já eram. Vão-se tornar das minhas bandas favoritas de sempre, estou mesmo a ver.

Ouvi na H&M, durante os saldos

Uma das coisas que faz com que a H&M seja uma das minhas lojas favoritas é a banda sonora da loja. Esta canção chamou-me a atenção, estava eu a ver roupa na secção de crianças (para os meus irmãos, embora o 14 me fique bem) depois de ouvir Spoon, que dá sempre que lá vou, é impressionante. Chama-se Tomoko e é da Hafdis Huld (há-de haver aqui algum ¨ que me esteja a falhar), que faz parte dos GusGus (banda islandesa de techno-pop - uma espécie de Hot Chip dos anos 90, em pior - de quem até já me tinha esquecido da existência.)

Aposto que esta Tomoko é daquelas gajas que nos irritam apesar de serem irrepreensivelmente adoráveis. So hard to hang out with that kind of girl.

Podem ouvir aqui.

She flies much faster
Shouts much louder
Looks much fresher
And eats much less than you

There's nothing you can do
It's just hard to hang out with Tomoko
Tomoko

She doesn't gossip
Her hair still shines
Still has hope
Is never broke
Like you

O Rato

Na astrologia chinesa, eu sou Rato. Se este ano se celebra o ano do Rato, devo esperar coisas boas, certo?

É bom que sim, é bom que sim.

Adenda, de um site qualquer:
É um ano próspero para o nativo do Rato. Poderá ser promovido ou atingir o auge da carreira. No campo da saúde não se terá que preocupar. Poderá esperar ganhos monetários e atingir vários objectivos.

Good for me.

19.1.08

A arte do sample V


A tribe called quest :: Can I kick it


Baby Huey :: Hard times

Baby Huey teve uma vida demasiado curta e, como não começou a cantar mal saíu da barriga da mãe, uma carreira ainda mais curta, com apenas um álbum para a posterioridade, de seu nome The Baby Huey Story: The Living Legend.
Senhor de grande porte, James Ramey decidiu ser conhecido pelo nome de um pato gordo de um desenho animado que fazia as delícias das crianças. A voz é como aqui se ouve, melosa, rouca, extremamente sensual e quente.
Algures na década de '60, e porque felizmente estas vozes raramente ficam pelo canto durante o banho, juntou-se a outros músicos e formaram o conjunto Baby Huey and the Babysitters, que, após muitas e muitas actuações ao vivo, chamou à atenção da Curtom Records.
Ora, reza a história que os Babysitters não encantaram o patrão da Curtom, Curtis Mayfield (estou a tentar não entrar em histeria, para isto não se tornar um post sobre o Curtis Mayfield), e que, por isso, o disco, produzido pelo GIGANTE CURTIS, só ficou com o nome dele, apesar da participação do resto da banda.
Em 1970, Baby Huey, na altura com 26 anos, teve um enfarte do miocárdio (por acaso, tema de estudo este fim de semana e de trabalho a apresentar na sexta-feira, que coincidência) ao qual não sobreviveu.

Resta-nos o disco, assumidamente influência no hip-hop, e que foi só editado postumamente. Como se espera, é protagonizado pela voz de Baby Huey, mas Curtis - mesmo não gostando dos Babysitters - não deixou as orquestrações para trás, tornando-as dignas de um disco seu (ahahah) e é um encadear de emoções de um espectro enorme desde o blues ao funk, passando pelas baladas soul como esta que se mostra aqui, com ritmo para qualquer dia da nossa vida (desde a pista de dança ao amor com o(a) namorado(a), desde arrumar à casa a ir fazer exercício ou um trabalho para a faculdade).



The Baby Huey Story: The Living Legend é também, claro, obrigatório.

17.1.08

A arte do sample IV

Na categoria de melhor guilty pleasure de 2007, fica esta canção:


Rihanna :: Don't stop the music


Só Deus sabe o quanto adoro mexer as ancas com isto. Isto é bom, as palmas, a letra flirty

Do you know what you started?
I just came here to party
And now we're rockin' on the dance floor
Looking naughty.


e o mamasémamasámamacosá, ou lá o que é que ela diz no final. E que ele também diz aqui:



Michael Jackson :: Wanna be starting something


Maravilha, ou quê?

[Post inspirado pela Isilda Sanches, no O2 Hi-Fi de hoje, da Oxigénio.]

15.1.08

(entre parêntesis)

Esta minha mania de escrever parágrafos inteiros dentro de parêntesis vai ter de acabar. Já me irrita.

A arte do sample III



M.I.A. :: Paper Planes




The Clash :: Straight to Hell


(Já toda a gente sabe desta, mas é uma das canções do ano e sampla de forma brilhante os Clash. Mais, a minha preferida do Kala talvez seja a Bamboo Banga, embora este seja daqueles discos de onde é impossível escolher uma sem estar a cometer uma injustiça do tamanho do mundo.)

Em assuntos relacionados, vejam, vejam o vídeo mais adorável de sempre. <3 (amor, meus espertinhos que pensaram nesse palavrão que rima com alho) para estes dois. É o Diplo e a própria, a cantar aquela que era a versão original da Paper Planes, que sampla outra coisa qualquer não me lembro o quê. Muito elucidativa, eu. Querem que vos fale de terapêutica com hidrocortisona no doente com choque séptico? Terei todo o gosto.



Eu sei que eles já acabaram, mas há ex-namorados que ficam para a vida - eu cá ando para prová-lo, e, se isto não é amor, não sei o que é o amor e provavelmente por isso raramente o encontro. Mas não. Algo me diz que isto é mesmo o amor. Coisa mais querida, meu Deus.