"The build-up lasted for days, lasted for weeks, lasted too long.
Our hero withdrew, when there was two, he could not choose one, so there was none.
Worn into the vaguely announced.
The spinning top made a sound like a train across the valley,
Fading,
Oh so quiet but constant 'til it passed,
Over the ridge into the distances written on your ticket to remind you where to stop,
And when to get off."
Kings of Convenience
30.4.05
Já devia ter comprado este álbum há muito tempo
"Sorry or please
Five weeks in a prison, I made no friends.
There's more time to be done, but I've got a week to spend.
I didn't pay much attention first time around, but now you're hard not to notice, right here in my town.
Where the stage of my old life meets the cast of the new. Tonights actors: me and you.
Each day is taking us closer, while drawing the curtains to close.
This far, or further, I need to know.
Your increasingly long embraces, are they saying sorry or please?
I don't know what's happening - help me.
Through the streets, on the corners, there's a scent in the air.
I ask you out and I lead you.
I know my way around here.
There's a bench I remember,
And on the way there I find that the movements you're making, are mirrored in mine.
And your hand is held open, intentionally - or just what I want to see?
Your increasingly long embraces, are they saying sorry or please?
I don't know what's happening - help me.
I don't normally beg for assistance, I rely on my own eyes to see,
But right now they make no sense to me,
Right now you make no sense to me."
Kings of Convenience
Five weeks in a prison, I made no friends.
There's more time to be done, but I've got a week to spend.
I didn't pay much attention first time around, but now you're hard not to notice, right here in my town.
Where the stage of my old life meets the cast of the new. Tonights actors: me and you.
Each day is taking us closer, while drawing the curtains to close.
This far, or further, I need to know.
Your increasingly long embraces, are they saying sorry or please?
I don't know what's happening - help me.
Through the streets, on the corners, there's a scent in the air.
I ask you out and I lead you.
I know my way around here.
There's a bench I remember,
And on the way there I find that the movements you're making, are mirrored in mine.
And your hand is held open, intentionally - or just what I want to see?
Your increasingly long embraces, are they saying sorry or please?
I don't know what's happening - help me.
I don't normally beg for assistance, I rely on my own eyes to see,
But right now they make no sense to me,
Right now you make no sense to me."
Kings of Convenience
26.4.05
Volátil
Sei que és presunçoso e que tens a mania que és um génio. Sei que adoras tratar mal as pessoas. Sei que te fechas sobre ti numa cápsula isolada, que evitas contar seja o que for seja a quem for. Sei que és enigmático, misterioso. Sei que é impossível ver-te sorrir a um desconhecido, que só sabes fazer caras feias, torcer o nariz e grunhir monossílabas à frente de estranhos. Sei que és incapaz de olhar nos olhos de ninguém, de ser frontal, que só sabes dizer meias-palavras enquanto desvias o olhar para elementos de distracção.
Sei que me achas presunçosa e com a mania que sou um génio. Mas sabes que adoro tratar bem as pessoas, que me abro com facilidade aos meus amigos, que sou um livro aberto, que tenho sorriso fácil e gargalhada mais fácil ainda, que falo falo falo e não me calo, falo ainda mais, que te olho nos olhos e nos olhos daqueles que merecem a minha frontalidade, que digo tudo o que penso de dedo espetado no ar.
Nós sabemos isto tudo e por isso também sabemos que somos peças complementares neste puzzle de milhões de peças que é a vida. Sabemos que só precisamos de um dia encaixar (as mãos de uma criança? a destreza de um adolescente? a maturidade de um adulto?) para assim ficarmos juntos, as minhas curvas nas tuas reentrâncias, o meu azul que se continua no teu, os olhos de uma cara que está na tua peça.
Temos um mundo em comum, apesar das diferenças aparentes. Porque o essencial é invisível aos olhos, disse o Saint-Exupery, e reafirmo-o eu, aqui.
Já leste O Principezinho? É um livro intemporal, devias lê-lo, cada vez que eu o leio aprendo algo de novo, é tão bonito. Li-o a primeira vez quando tinha oito ou nove anos e agora releio-o todos os anos. Podia oferecer-te o livro. Talvez to ofereça um dia.
Por mais que tente, não consigo alhear-me de ti, da tua presença. Reconheço-a até nas opções que faço, nas grandes e nas pequenas, e pressinto que o nosso dia vai chegar mais cedo ou mais tarde. Como não poderá ele chegar se estás cada vez mais aqui, mais comigo. Não conheço o teu perfume, mas de olhos fechados sei onde estás porque estamos para além do mero estado físico.
Às vezes sinto-me volatilizar só para estar mais perto. Às vezes quero chorar e não o faço.
Sei que me achas presunçosa e com a mania que sou um génio. Mas sabes que adoro tratar bem as pessoas, que me abro com facilidade aos meus amigos, que sou um livro aberto, que tenho sorriso fácil e gargalhada mais fácil ainda, que falo falo falo e não me calo, falo ainda mais, que te olho nos olhos e nos olhos daqueles que merecem a minha frontalidade, que digo tudo o que penso de dedo espetado no ar.
Nós sabemos isto tudo e por isso também sabemos que somos peças complementares neste puzzle de milhões de peças que é a vida. Sabemos que só precisamos de um dia encaixar (as mãos de uma criança? a destreza de um adolescente? a maturidade de um adulto?) para assim ficarmos juntos, as minhas curvas nas tuas reentrâncias, o meu azul que se continua no teu, os olhos de uma cara que está na tua peça.
Temos um mundo em comum, apesar das diferenças aparentes. Porque o essencial é invisível aos olhos, disse o Saint-Exupery, e reafirmo-o eu, aqui.
Já leste O Principezinho? É um livro intemporal, devias lê-lo, cada vez que eu o leio aprendo algo de novo, é tão bonito. Li-o a primeira vez quando tinha oito ou nove anos e agora releio-o todos os anos. Podia oferecer-te o livro. Talvez to ofereça um dia.
Por mais que tente, não consigo alhear-me de ti, da tua presença. Reconheço-a até nas opções que faço, nas grandes e nas pequenas, e pressinto que o nosso dia vai chegar mais cedo ou mais tarde. Como não poderá ele chegar se estás cada vez mais aqui, mais comigo. Não conheço o teu perfume, mas de olhos fechados sei onde estás porque estamos para além do mero estado físico.
Às vezes sinto-me volatilizar só para estar mais perto. Às vezes quero chorar e não o faço.
Liberdade
Liberdade de pensar, escolher, dizer, encontrar, criar, gostar, detestar, desisitir, mudar de opinião, ouvir, criticar, debater, fazer, refazer, existir, sonhar, ser.
Sobretudo liberdade para construir, para empreender.
Liberdade de viver. Liberdade para dar aos outros liberdade.
Queria ver o mar,
os veleiros, os barcos sem amarras.
Pertencer às ondas, ser espuma,
e ela também,
envolver-me num enleio húmido,
na areia fria.
Olhar o horizonte e saber que posso.
25 DE ABRIL
Um bom 25 de Abril para todos (quando tiver um filho vou querer que ele nasça neste dia).
Post scriptum: Neste blogue a liberdade é celebrada em cada post que é publicado.
Sobretudo liberdade para construir, para empreender.
Liberdade de viver. Liberdade para dar aos outros liberdade.
Queria ver o mar,
os veleiros, os barcos sem amarras.
Pertencer às ondas, ser espuma,
e ela também,
envolver-me num enleio húmido,
na areia fria.
Olhar o horizonte e saber que posso.
25 DE ABRIL
"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo "
Sophia de Mello Breyner Andresen
Um bom 25 de Abril para todos (quando tiver um filho vou querer que ele nasça neste dia).
Post scriptum: Neste blogue a liberdade é celebrada em cada post que é publicado.
Em repeat
No meu leitor de CDs, toca Rufus Wainwright e a sua banda. Tudo para recordar o grande concerto de ontem, no Coliseu, onde a nudez (literalmente, por acaso) e a simplicidade tornaram as canções ainda mais bonitas, mais melódicas, mais imponentes do que quando ouvidas em casa. A sua belíssima voz preenchia espaços vazios dentro de nós e o facto de estarem sete pessoas em cima do palco não impediu um ambiente intimista, de profunda identidade entre cada um de nós e o que nos era oferecido.
(Incompreensivelmente, a sala estava semi-cheia, num país onde os bilhetes para concertos esgotam à velocidade da luz, mas para gáudio de todos nós, os presentes souberam fazer a festa e acho que o Rufus gostou de cá vir. Por isso quem não foi não fez muita falta.)
Uma nota para Joan as Police Woman, ou Joan Wasser, que fez a primeira parte do concerto ( e depois foi violinista, guitarrista e segunda voz do concerto do Rufus), tem uma voz muito sensual
e toca lindamente violino.
Quero mais concertos assim.
(Incompreensivelmente, a sala estava semi-cheia, num país onde os bilhetes para concertos esgotam à velocidade da luz, mas para gáudio de todos nós, os presentes souberam fazer a festa e acho que o Rufus gostou de cá vir. Por isso quem não foi não fez muita falta.)
Uma nota para Joan as Police Woman, ou Joan Wasser, que fez a primeira parte do concerto ( e depois foi violinista, guitarrista e segunda voz do concerto do Rufus), tem uma voz muito sensual
e toca lindamente violino.
Quero mais concertos assim.
18.4.05
As escadas
Eram umas escadas bolorentas, que emanavam bafio, esburacadas do caruncho, de corrimão pouco seguro. Entre a parede e o degrau, um rodapé marcado por buracos de ratazanas gordas, camuflados por vasos de plástico, com fetos e plantas de interior algures entre a vida e a morte, apenas alimentados pela humidade daquele corredor.
Às quatro horas, a mesma mulher, todos os dias, descia-as degrau a degrau, passo a passo, as duas mão sobre o corrimão instável, o corpo numa alucinação vertiginosa de queda iminente. Às sete horas, a mesma mulher, subindo-as, as duas mãos ocupadas com sacos do mercado, pretos e pequenos, o odor a sardinha chamando as ratazanas ao patamar. Depois, o borbulhar do óleo, as sardinhas fritas, o barulho dos talheres e dos pratos, primeiro na mesa, depois na pia.
Hora do terço. A mulher vinha à rua e deitava para o corredor as espinhas e as peles dos peixes, cantarolava "Ponha a mão na mão do meu Senhor", fechava a porta, ligava a telefonia.
Sentava-se na cadeira de baloiço, também ela corroída pela falta de cuidado, o rosário de prata entrelaçado entre os dedos, a Bíblia com os cantos roídos pelos ratos, tanto que as marcas visíveis dos seus dentes aguçados não deixavam ler o último parágrafo de todas as páginas do Novo Testamento.
Nove horas e o filho que não lhe ligava, há nove anos que assim era e, mesmo assim, todos os dias ela debruçava-se sobre o telefone preto, de olhos brilhantes, coração na mão. E o silêncio sepulcral na casa vazia, cada dia mais triste, mais só, mais morta.
Um dia, nas escadas, o cheiro a morte tornou-se insuportável. A vida perecera naquele corredor, de repente sem passos, sem óleo ou sardinhas, sem o ranger da madeira.
Sem um único telefonema do filho.
Às quatro horas, a mesma mulher, todos os dias, descia-as degrau a degrau, passo a passo, as duas mão sobre o corrimão instável, o corpo numa alucinação vertiginosa de queda iminente. Às sete horas, a mesma mulher, subindo-as, as duas mãos ocupadas com sacos do mercado, pretos e pequenos, o odor a sardinha chamando as ratazanas ao patamar. Depois, o borbulhar do óleo, as sardinhas fritas, o barulho dos talheres e dos pratos, primeiro na mesa, depois na pia.
Hora do terço. A mulher vinha à rua e deitava para o corredor as espinhas e as peles dos peixes, cantarolava "Ponha a mão na mão do meu Senhor", fechava a porta, ligava a telefonia.
Sentava-se na cadeira de baloiço, também ela corroída pela falta de cuidado, o rosário de prata entrelaçado entre os dedos, a Bíblia com os cantos roídos pelos ratos, tanto que as marcas visíveis dos seus dentes aguçados não deixavam ler o último parágrafo de todas as páginas do Novo Testamento.
Nove horas e o filho que não lhe ligava, há nove anos que assim era e, mesmo assim, todos os dias ela debruçava-se sobre o telefone preto, de olhos brilhantes, coração na mão. E o silêncio sepulcral na casa vazia, cada dia mais triste, mais só, mais morta.
Um dia, nas escadas, o cheiro a morte tornou-se insuportável. A vida perecera naquele corredor, de repente sem passos, sem óleo ou sardinhas, sem o ranger da madeira.
Sem um único telefonema do filho.
1.4.05
"É em nós que é tudo"
" Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do Sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali,
A vida é jovem e o amor sorri.
Talvez palmares inexistentes
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.
Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nesta terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.
Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri. "
Fernando Pessoa
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do Sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali,
A vida é jovem e o amor sorri.
Talvez palmares inexistentes
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.
Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nesta terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.
Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri. "
Fernando Pessoa
À espera de vida
"Levantava-se da cama com uma história no coração. Desejava sentar-se numa cadeira, agarrar numa caneta ou, ainda melhor, num lápis, para que nunca se lhe acabasse a tinta, porque sabia que, assim que começasse, as palavras brotariam, qual fonte termal, e se alinhariam no leito de uma folha branca."
"Foi sem pressa que te beijei, que aos poucos os meus lábios se afastaram dos teus, que o meu olhar se desviou para o horizonte, que dei três passos para trás.
Fiquei a remoer os teus argumentos de jovem ideólogo, porque desde o princípio de todas as coisas que me soubeste levar, convencer, deixar."
"Foi sem pressa que te beijei, que aos poucos os meus lábios se afastaram dos teus, que o meu olhar se desviou para o horizonte, que dei três passos para trás.
Fiquei a remoer os teus argumentos de jovem ideólogo, porque desde o princípio de todas as coisas que me soubeste levar, convencer, deixar."
30.3.05
Todos erramos
Por favor não me odeies pelo que fiz. Por favor pensa duas vezes antes de dizeres que não me desculpas. Tu sabes que preciso da tua amizade. Eu não queria estragar nada. Tenho a mania da verdade e da honestidade e agora tenho meio mundo chateado comigo.
Preferia nunca ter sabido de nada, assim também não tinha nada para contar. Mas agora o erro está feito e todos nós erramos.Por isso, desculpa-me.
Desculpa.
Preferia nunca ter sabido de nada, assim também não tinha nada para contar. Mas agora o erro está feito e todos nós erramos.Por isso, desculpa-me.
Desculpa.
29.3.05
Domingo de Páscoa
Ao almoço, em volta de um cabrito, reúne-se a família. Conversas e sorrisos, regados com um vinho tinto de boa casta.
Cada um fala mais alto que o outro, todos têm histórias por contar, gargalhadas por dar. Porque quando chega o silêncio, ou quando um assunto morre, morre também o sorriso e os olhos ficam enublados e turvos.
Tão felizes e cada um carrega a sua cruz. Quando uma conversa é interompida, todos olham para o alto, suspiram, limpam a primeira lágrima. São acorridos pelos seus fantasmas, aqueles que eles andam a ignorar sistematicamente enquanto riem e falam com a família.
Que a Páscoa tenha servido para nos libertarmos da nossas cruzes e proporcionado a nossa renovação. Porque todos nós podemos ressuscitar ao terceiro dia, basta termos vontade.
Cada um fala mais alto que o outro, todos têm histórias por contar, gargalhadas por dar. Porque quando chega o silêncio, ou quando um assunto morre, morre também o sorriso e os olhos ficam enublados e turvos.
Tão felizes e cada um carrega a sua cruz. Quando uma conversa é interompida, todos olham para o alto, suspiram, limpam a primeira lágrima. São acorridos pelos seus fantasmas, aqueles que eles andam a ignorar sistematicamente enquanto riem e falam com a família.
Que a Páscoa tenha servido para nos libertarmos da nossas cruzes e proporcionado a nossa renovação. Porque todos nós podemos ressuscitar ao terceiro dia, basta termos vontade.
24.3.05
Se eu te encontrei...
...Deve haver mais alguém como tu algures no mundo. As pessoas serão únicas?
Se existe alguém como tu, então não perco a esperança: ainda hei-de encontrar a minha outra metade, a única pessoa que me poderá fazer feliz neste mundo de infelizes.
Porque tu existes e eu conheço-te bem e sei que te encontrei, mas és um amor impossível. Demasiadas barreiras, e tu conheces-me. Há coisas que prezo mais do que uma história de amor. A amizade, por exemplo.
Tenho medo de estragar tudo por tua causa. Sabes, a minha vida é feita de pedacinhos e tu és o maior fragmento que a poderia compor. Só que se eu te juntasse com todos os outros fragmentos, todos eles se afastariam, partiriam, descolavam. Eu não quero estragar aquilo que fui construindo ao longo do tempo por tua causa.
Se bem que eu tenha a certeza que tu vales a pena.
Se existe alguém como tu, então não perco a esperança: ainda hei-de encontrar a minha outra metade, a única pessoa que me poderá fazer feliz neste mundo de infelizes.
Porque tu existes e eu conheço-te bem e sei que te encontrei, mas és um amor impossível. Demasiadas barreiras, e tu conheces-me. Há coisas que prezo mais do que uma história de amor. A amizade, por exemplo.
Tenho medo de estragar tudo por tua causa. Sabes, a minha vida é feita de pedacinhos e tu és o maior fragmento que a poderia compor. Só que se eu te juntasse com todos os outros fragmentos, todos eles se afastariam, partiriam, descolavam. Eu não quero estragar aquilo que fui construindo ao longo do tempo por tua causa.
Se bem que eu tenha a certeza que tu vales a pena.
A inadaptada
Hoje não ia beber café. Nem tocar num cigarro que fosse.
Hoje ia sentir o vento frio da Primavera, os primeiros raios preguiçosos de Sol, ouvir os pardais cantar enquanto lia o Jornal (mesmo as letras pequeninas). Ia pedir um chá, se calhar uma torrada.
Sabia-se dona da sua vida, do seu nariz. Reconhecia-se em controlo do seu pequeno mundo, livre de interferências, de pressões externas. Mas não conseguia encontrar uma razão que desse sentido ao que ela própria sacrificava. Em nome de quê?
Admitia poder mudar fosse o que fosse no jogo: os peões, as regras, os dados. Eliminaria jogadores se achasse necessário, erraria na contagem dos pontos dos dados se assim o entendesse, interpretaria as leis, as condutas como desejasse. Todo o seu poder parecia-lhe, no entanto, obsoleto, porque nessa noite não dormira, passara-a a ouvir Rodrigo Leão e a reflectir sobre as súbitas mudanças a que se tinha imposto no último mês.
De repente tudo lhe pareceu vazio; ela própria era apenas um saco de pele, músculos e ossos sem conteúdo.
Levantou-se da cama nessa manhã como agora se levantava da mesa do café, com lágrimas nos olhos, com um aperto no estômago, um formigueiro nos membros, os dedos das mãos a tremer. Fazia o que queria e, até então, tinha achado que isso era ser livre, mas arriscara demasiado as vidas de outras pessoas e agora arrependia-se.
Tinha-se esquecido que a liberdade própria acaba quando interfere com a liberdade do outro. Ela interferira demasiado e, agindo assim, ferira.
Chegara ao momento de se redimir, mas como? Sempre fora a inadaptada dentro do seu próprio jogo, uma mulher ocupada, atraente e interessante mas que, no interior, não encaixava em qualquer contexto onde se inserisse.
Hoje ia ouvir as histórias, os casos, os factos da vida- todos desde que não fossem seus. Ia ter em atenção os sonhos das crianças, dos jovens, dos adultos e dos velhos e não ia dizer "Bah! Utopias!" porque sabia que a ela sempre lhe faltou o sonho.
Sem o sonho e sem a capacidade de receber, era uma inadaptada.
"Tell me your name, tell me your story 'cause I'm into it, runnin' through life like a misfit" Elefant
Hoje ia sentir o vento frio da Primavera, os primeiros raios preguiçosos de Sol, ouvir os pardais cantar enquanto lia o Jornal (mesmo as letras pequeninas). Ia pedir um chá, se calhar uma torrada.
Sabia-se dona da sua vida, do seu nariz. Reconhecia-se em controlo do seu pequeno mundo, livre de interferências, de pressões externas. Mas não conseguia encontrar uma razão que desse sentido ao que ela própria sacrificava. Em nome de quê?
Admitia poder mudar fosse o que fosse no jogo: os peões, as regras, os dados. Eliminaria jogadores se achasse necessário, erraria na contagem dos pontos dos dados se assim o entendesse, interpretaria as leis, as condutas como desejasse. Todo o seu poder parecia-lhe, no entanto, obsoleto, porque nessa noite não dormira, passara-a a ouvir Rodrigo Leão e a reflectir sobre as súbitas mudanças a que se tinha imposto no último mês.
De repente tudo lhe pareceu vazio; ela própria era apenas um saco de pele, músculos e ossos sem conteúdo.
Levantou-se da cama nessa manhã como agora se levantava da mesa do café, com lágrimas nos olhos, com um aperto no estômago, um formigueiro nos membros, os dedos das mãos a tremer. Fazia o que queria e, até então, tinha achado que isso era ser livre, mas arriscara demasiado as vidas de outras pessoas e agora arrependia-se.
Tinha-se esquecido que a liberdade própria acaba quando interfere com a liberdade do outro. Ela interferira demasiado e, agindo assim, ferira.
Chegara ao momento de se redimir, mas como? Sempre fora a inadaptada dentro do seu próprio jogo, uma mulher ocupada, atraente e interessante mas que, no interior, não encaixava em qualquer contexto onde se inserisse.
Hoje ia ouvir as histórias, os casos, os factos da vida- todos desde que não fossem seus. Ia ter em atenção os sonhos das crianças, dos jovens, dos adultos e dos velhos e não ia dizer "Bah! Utopias!" porque sabia que a ela sempre lhe faltou o sonho.
Sem o sonho e sem a capacidade de receber, era uma inadaptada.
"Tell me your name, tell me your story 'cause I'm into it, runnin' through life like a misfit" Elefant
23.3.05
22.3.05
Na televisão
O Sporting ajuda o meu Benfica a ser campeão. Obrigada Sporting!:)
BENFICAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!
BENFICAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!
21.3.05
A não perder
Grandes concertos a acontecer em Lisboa esta Primavera:
- Feist no Fórum Lisboa dia 9 de Maio;
- Rufus Wainright dia 24 de Abril no Coliseu dos Recreios.
Recebem-se ofertas de bilhetes claro. Ah, e se houver alguém que queira vender o seu bilhete para o Jack Johnson dia 21 de Maio também no Coliseu, o negócio será fechado com urgência.
- Feist no Fórum Lisboa dia 9 de Maio;
- Rufus Wainright dia 24 de Abril no Coliseu dos Recreios.
Recebem-se ofertas de bilhetes claro. Ah, e se houver alguém que queira vender o seu bilhete para o Jack Johnson dia 21 de Maio também no Coliseu, o negócio será fechado com urgência.
Boas notícias para pessoas que adoram boa música
É o caso do álbum Good news for people who love bad news dos Modest Mouse. Tem um som de solidão feliz, que é como me ando a sentir ultimamente.
O single Float on é exactamente uma fonte de força, de energia, de dinamismo (por mais infinitamente preocupantes que pareçam os desfechos das nossas histórias, a verdade é que flutuaremos por eles e depois riremos do assunto- ao menos, eu espero que assim seja).
"Bad news comes-don't you worry even when it lands
Good news will work its way to all them plans
We both got fired on exactly the same day,
Well, we'll float on, good news is on the way
And we'll all float on OK And we'll all float on OK
And we'll all float on OK And we'll all float on
Alright already, we'll all float on
No, don't you worry, we'll all float on
Alright, already, we'll all float on
Alright, don't worry, we'll all float on and we'll all float on
Alright already, we'll all float on
Alright, don't worry even if things end up a bit too heavy
We'll all float on
Alright already, we'll all float on
Alright already, we'll all float on OK Don't worry, we'll all float on
Even if things get heavy, we'll all float on"
The good times are killing me aos poucos sem magoar, apenas asfixiando e absorvendo a vida.
"Jaws clenching tight we talked all night, oh but what the hell did we say? The good times are killing me."
A boa notícia é de facto existir ainda muito boa música. É preciso é saber procurá-la. (Ou mais simplesmente ouvir a Radar - 97.8).
Ou ir a casa dos primos.
O single Float on é exactamente uma fonte de força, de energia, de dinamismo (por mais infinitamente preocupantes que pareçam os desfechos das nossas histórias, a verdade é que flutuaremos por eles e depois riremos do assunto- ao menos, eu espero que assim seja).
"Bad news comes-don't you worry even when it lands
Good news will work its way to all them plans
We both got fired on exactly the same day,
Well, we'll float on, good news is on the way
And we'll all float on OK And we'll all float on OK
And we'll all float on OK And we'll all float on
Alright already, we'll all float on
No, don't you worry, we'll all float on
Alright, already, we'll all float on
Alright, don't worry, we'll all float on and we'll all float on
Alright already, we'll all float on
Alright, don't worry even if things end up a bit too heavy
We'll all float on
Alright already, we'll all float on
Alright already, we'll all float on OK Don't worry, we'll all float on
Even if things get heavy, we'll all float on"
The good times are killing me aos poucos sem magoar, apenas asfixiando e absorvendo a vida.
"Jaws clenching tight we talked all night, oh but what the hell did we say? The good times are killing me."
A boa notícia é de facto existir ainda muito boa música. É preciso é saber procurá-la. (Ou mais simplesmente ouvir a Radar - 97.8).
Ou ir a casa dos primos.
11.3.05
Uma pequena lição
“Se vais para Paris para encontrar pessoas iguais a ti, mais vale ficares por cá a olhar para o espelho. É bem mais fácil.” Maria (colega do Crime Passional)
Para P.
Ao teu lado descobri o que era amar. Descobri o prazer de passar uma tarde de Sábado, quando está um dia espantoso do outro lado da janela, sentada no sofá a comer salame de chocolate e a namorar. Descobri a satisfação de conversar enroscada numa manta, a receber beijinhos no pescoço, e a contar todos os pormenores da minha vida, de trás para a frente, da frente para trás, repetir histórias, contar novidades, retribuir beijinhos.
Ao teu lado conheci plenitude, como se, estando contigo, não precisasse de mais nada nem de ninguém. Parece lugar-comum mas é verdade, quando estamos juntos não precisamos de nada, podemos isolarmo-nos e assim ficar, porque quando estamos os dois não há necessidades para além desta, enorme, de estarmos um com o outro, de aproveitarmos as potencialidades de cada corpo, de cada mente, de cada risada, de cada vida.
Sobretudo, ao teu lado, aprendi muito. Cresci contigo. Apareceste quando eu mais precisava de um amigo, de um namorado, olhei à volta e vi-te, também tu carente, de braços abertos em busca de alguém. Estava numa fase da adolescência em que temos a certeza de tudo, até mesmo de nos conhecer a nós mesmos! Pois eu afinal ainda não me conheço nem sei tudo sobre tudo e estou a anos-luz de atingir tais feitos. Foi contigo que descobri as minhas fragilidades (algumas, pois tantas outras estão por descobrir), que resolvi alguns problemas existenciais e deparei-me com outros piores ainda por decifrar, que amadureci e me tornei esta rapariga que muitos rapazes julgam não estar comprometida e acham interessante – mal sabem eles que, ao se interessarem por mim, estão no fundo a se interessarem por ti, porque nós somos um e um só, “eu sou tu, tu és eu” podia ser o refrão de um morna mas não, é a nossa relação: feita de bocadinhos unidos, de lágrimas, de dúvidas, de sorrisos, de amor.
Há uma canção dos Air que se chama Playground Love (I’m a high school lover and you’re my favourite flavour”). Contigo sinto-me criança, ando no baloiço da vida sem peso nem altura, tenho-te ao meu lado para me amparar nas quedas e para festejar comigo nos saltos bem-sucedidos. Mas, às vezes, acho que este amor para sempre adolescente impede-me de crescer e evoluir, de seguir determinados rumos e escolhas.
É assim que, mesmo gostando de ti como gosto, tantas vezes sinto as pernas fraquejarem e a não quererem seguir aquele caminho que escolheste, que te culpo por ser o mais fácil. Sabes?, as minhas pernas têm vários quilómetros em cima e gostam de caminhos tortuosos.
Ao teu lado conheci plenitude, como se, estando contigo, não precisasse de mais nada nem de ninguém. Parece lugar-comum mas é verdade, quando estamos juntos não precisamos de nada, podemos isolarmo-nos e assim ficar, porque quando estamos os dois não há necessidades para além desta, enorme, de estarmos um com o outro, de aproveitarmos as potencialidades de cada corpo, de cada mente, de cada risada, de cada vida.
Sobretudo, ao teu lado, aprendi muito. Cresci contigo. Apareceste quando eu mais precisava de um amigo, de um namorado, olhei à volta e vi-te, também tu carente, de braços abertos em busca de alguém. Estava numa fase da adolescência em que temos a certeza de tudo, até mesmo de nos conhecer a nós mesmos! Pois eu afinal ainda não me conheço nem sei tudo sobre tudo e estou a anos-luz de atingir tais feitos. Foi contigo que descobri as minhas fragilidades (algumas, pois tantas outras estão por descobrir), que resolvi alguns problemas existenciais e deparei-me com outros piores ainda por decifrar, que amadureci e me tornei esta rapariga que muitos rapazes julgam não estar comprometida e acham interessante – mal sabem eles que, ao se interessarem por mim, estão no fundo a se interessarem por ti, porque nós somos um e um só, “eu sou tu, tu és eu” podia ser o refrão de um morna mas não, é a nossa relação: feita de bocadinhos unidos, de lágrimas, de dúvidas, de sorrisos, de amor.
Há uma canção dos Air que se chama Playground Love (I’m a high school lover and you’re my favourite flavour”). Contigo sinto-me criança, ando no baloiço da vida sem peso nem altura, tenho-te ao meu lado para me amparar nas quedas e para festejar comigo nos saltos bem-sucedidos. Mas, às vezes, acho que este amor para sempre adolescente impede-me de crescer e evoluir, de seguir determinados rumos e escolhas.
É assim que, mesmo gostando de ti como gosto, tantas vezes sinto as pernas fraquejarem e a não quererem seguir aquele caminho que escolheste, que te culpo por ser o mais fácil. Sabes?, as minhas pernas têm vários quilómetros em cima e gostam de caminhos tortuosos.
À primeira vista
Estava sentada num banco de jardim à espera de uma amiga quando ele passou e eu o vi pela primeira vez. Chamou-me a atenção o rosto agradável, o nariz perfeitamente desenhado, como numa escultura romana, a pele lisa, os olhos vivos, escuros como dois seixos mas muito brilhantes.
E o seu sorriso.
Tem um sorriso alegre, mas não pateta, ternurento, mas não ingénuo, traquinas, mas não demasiado infantil. Não é um sorriso de criança nem de adulto, talvez seja como o nosso devia ser quando nos manifestam carinho ou recebemos uma carta ou quando, depois de tantos dias de chuva, o Sol nasce inesperadamente e o céu fica azul. É isso. É um sorriso que me transporta para momentos bons, para lugares de felicidade.
Apanhou-me a olhar descaradamente e esboçou-me o seu sorriso, que eu retribuí, corando. E enquanto ele se afastava, eu, sem saber o seu nome ou idade, fiquei a construir castelos no ar, como o que aconteceria se ele tivesse deixado cair a carteira ou, pior!, tivesse sido atropelado ao passar a rua e eu fosse a única pessoa capaz e disponível para o ajudar (já viram o Closer?). A Teresa encontrou-me assim, absorta, e eu expliquei-lhe.
“Eu acho que acabou de passar por aqui a pessoa por quem me vou apaixonar.”
Ela já está mais que habituada a estes meus devaneios amorosos, por isso a resposta foi “’Tou cheia de sono… Vamos tomar café?”
Andámos até ao café de sempre de forma automática, quase sem falar. Quando nos sentámos, a pergunta: “E se ele for um psycho killer?”
“Com aquele sorriso? Nunca na vida. Ah! Eu quando vejo um sorriso vejo uma alma, minha cara. E aquele sorriso não engana ninguém. Era a minha alma gémea a passar e eu deixei-a ir.”
Ela riu e eu notei perfeitamente que ela não estava a acreditar numa palavra.
“Eu acredito, agora achei que essas coisas de alma gémea já te tivessem passado, francamente, já tens idade e experiência para teres aprendido que não acontecem cenas como ver um homem na rua e sermos felizes para sempre ao seu lado.”
“E se eu te dissesse que o homem da minha vida, o mesmo que passou por mim há pouco, está a entrar neste mesmo café? Acreditavas em amor à primeira vista?”
Ela de costas não o via, mas eu reconheci-o perfeitamente, ao seu sorriso sobretudo, mas também a todos os detalhes do rosto que ainda há pouco tinha achado giríssimo.
“Eu passava era a acreditar em pessoas que nascem com o rabo para a lua. Em coincidências enormes. Em sorte. Onde é que ele está?”
“Com casaco de cabedal castanho, atrás de ti às onze horas. Sê discreta que ele está a olhar para aqui.”
Foi quando a vi soltar uma gargalhada ruidosa “Disseste castanho? É o teu dia de sorte! Ele é meu amigo, Maria! Anda cá que eu já te vou apresentar ao homem da tua vida!”
“’Tás a brincar? Não faças isso, estou a ficar nervosa, isto vai correr pessimamente… Ah-oh! Ele está a vir para aqui, ele está a vir para aqui… Acalma-te Maria, respira fundo, é só um amigo da tua amiga, não é preciso ficares assim, respira Maria! Calma Maria!”
Eu queria acalmar-me mas ele dirigia-se cada vez mais rapidamente para a nossa mesa, com o mesmo sorriso, só um pouco mais triunfante, acenava à Teresa, acenava-me a mim, eu sentia suores frios por todo o corpo e a minha amiga gozava da minha aflição. Pareceu uma eternidade até ele chegar ao nosso pé.
“Olá Teresa, posso me sentar aqui convosco? Nunca tinha visto este café tão apinhado de gente… Desculpa, acho que nunca falámos, sou o Rodrigo.”
Fiquei com cara de parva a olhar para aquela mão branca estendida e não reagi. Acho que eu aí até envergonhei a Teresa.
“É a minha amiga, a Maria. Parece que perdeu a fala mas ela costuma ser uma pessoa normal.”
Acho que não vos disse que a Teresa é aquele tipo de amigas engraçadinhas que conversam muito e não se importam nada de ainda nos pôr mais envergonhadas em situações por si só embaraçosas.
“Pois sou, olá.”
“Boa tarde, Maria.”
Ao dizer isto, dissecou-me com o olhar (não preciso de vos repetir o quão vivos e brilhantes eram os seus olhos) e, de forma intensa, sorriu. Mas desta vez era um sorriso só para mim, não era para o mundo em geral.
Foi quando eu percebi que íamos mesmo ficar juntos para sempre. E ficámos.
E o seu sorriso.
Tem um sorriso alegre, mas não pateta, ternurento, mas não ingénuo, traquinas, mas não demasiado infantil. Não é um sorriso de criança nem de adulto, talvez seja como o nosso devia ser quando nos manifestam carinho ou recebemos uma carta ou quando, depois de tantos dias de chuva, o Sol nasce inesperadamente e o céu fica azul. É isso. É um sorriso que me transporta para momentos bons, para lugares de felicidade.
Apanhou-me a olhar descaradamente e esboçou-me o seu sorriso, que eu retribuí, corando. E enquanto ele se afastava, eu, sem saber o seu nome ou idade, fiquei a construir castelos no ar, como o que aconteceria se ele tivesse deixado cair a carteira ou, pior!, tivesse sido atropelado ao passar a rua e eu fosse a única pessoa capaz e disponível para o ajudar (já viram o Closer?). A Teresa encontrou-me assim, absorta, e eu expliquei-lhe.
“Eu acho que acabou de passar por aqui a pessoa por quem me vou apaixonar.”
Ela já está mais que habituada a estes meus devaneios amorosos, por isso a resposta foi “’Tou cheia de sono… Vamos tomar café?”
Andámos até ao café de sempre de forma automática, quase sem falar. Quando nos sentámos, a pergunta: “E se ele for um psycho killer?”
“Com aquele sorriso? Nunca na vida. Ah! Eu quando vejo um sorriso vejo uma alma, minha cara. E aquele sorriso não engana ninguém. Era a minha alma gémea a passar e eu deixei-a ir.”
Ela riu e eu notei perfeitamente que ela não estava a acreditar numa palavra.
“Eu acredito, agora achei que essas coisas de alma gémea já te tivessem passado, francamente, já tens idade e experiência para teres aprendido que não acontecem cenas como ver um homem na rua e sermos felizes para sempre ao seu lado.”
“E se eu te dissesse que o homem da minha vida, o mesmo que passou por mim há pouco, está a entrar neste mesmo café? Acreditavas em amor à primeira vista?”
Ela de costas não o via, mas eu reconheci-o perfeitamente, ao seu sorriso sobretudo, mas também a todos os detalhes do rosto que ainda há pouco tinha achado giríssimo.
“Eu passava era a acreditar em pessoas que nascem com o rabo para a lua. Em coincidências enormes. Em sorte. Onde é que ele está?”
“Com casaco de cabedal castanho, atrás de ti às onze horas. Sê discreta que ele está a olhar para aqui.”
Foi quando a vi soltar uma gargalhada ruidosa “Disseste castanho? É o teu dia de sorte! Ele é meu amigo, Maria! Anda cá que eu já te vou apresentar ao homem da tua vida!”
“’Tás a brincar? Não faças isso, estou a ficar nervosa, isto vai correr pessimamente… Ah-oh! Ele está a vir para aqui, ele está a vir para aqui… Acalma-te Maria, respira fundo, é só um amigo da tua amiga, não é preciso ficares assim, respira Maria! Calma Maria!”
Eu queria acalmar-me mas ele dirigia-se cada vez mais rapidamente para a nossa mesa, com o mesmo sorriso, só um pouco mais triunfante, acenava à Teresa, acenava-me a mim, eu sentia suores frios por todo o corpo e a minha amiga gozava da minha aflição. Pareceu uma eternidade até ele chegar ao nosso pé.
“Olá Teresa, posso me sentar aqui convosco? Nunca tinha visto este café tão apinhado de gente… Desculpa, acho que nunca falámos, sou o Rodrigo.”
Fiquei com cara de parva a olhar para aquela mão branca estendida e não reagi. Acho que eu aí até envergonhei a Teresa.
“É a minha amiga, a Maria. Parece que perdeu a fala mas ela costuma ser uma pessoa normal.”
Acho que não vos disse que a Teresa é aquele tipo de amigas engraçadinhas que conversam muito e não se importam nada de ainda nos pôr mais envergonhadas em situações por si só embaraçosas.
“Pois sou, olá.”
“Boa tarde, Maria.”
Ao dizer isto, dissecou-me com o olhar (não preciso de vos repetir o quão vivos e brilhantes eram os seus olhos) e, de forma intensa, sorriu. Mas desta vez era um sorriso só para mim, não era para o mundo em geral.
Foi quando eu percebi que íamos mesmo ficar juntos para sempre. E ficámos.
“You are the only person who’s completely certain”*
Sabes, amigo: és a única pessoa que tem completa certeza das coisas que está a fazer. Acho que toda a gente olha para ti e fica com inveja da determinação com que encaras cada passo da tua vida. Logo eu que faço confusão com cada decisão minha: com as que já tomei, com as que vou tomar, com as que tomarei, olho para ti e orgulho-me de ser tua amiga.
Gostava de ser como tu e achar que é tudo óbvio; acho que o meu defeito é ver detalhes onde eles não existem, ver obstáculos onde eles não estão.
Cada escolha que faço é como fumar um cigarro: rouba-me anos de vida. Tu não, com os teus vinte e tal anos, andas pelo mundo sem fardos nem consciência; és a descontracção em pessoa.
Quando te digo que estou com um dilema nas mãos, ris alto e a bom som, sabes bem do que falo mas não porque lá tenhas andado. Quase quase às gargalhadas (só não as soltas da garganta por respeito), respondes “Em vez de ler escritores tão ou mais problemáticos que tu, devias era ler um livro que eu li sobre mudança “Quem mexeu no meu queijo?””. Eu fico a pensar se esse livro valerá mesmo a pena e, quando olho para ti, tranquilo e satisfeito, acho que esse livro é o tratado de psicologia mais avançado que existe. Acabo por nunca lê-lo e por voltar sempre à mesma história – também acho que isto de ser problemática, como tu dizes, já está entranhado na minha maneira de ver a vida.
Mas não penses que ando triste, não. Até tenho andado bastante feliz. E se te estou a dizer isto hoje é mesmo porque não estou com problema nenhum entre mãos.
De qualquer maneira, faz-me confusão ser assim confusa.
* (Interpol, “PDA”)
Gostava de ser como tu e achar que é tudo óbvio; acho que o meu defeito é ver detalhes onde eles não existem, ver obstáculos onde eles não estão.
Cada escolha que faço é como fumar um cigarro: rouba-me anos de vida. Tu não, com os teus vinte e tal anos, andas pelo mundo sem fardos nem consciência; és a descontracção em pessoa.
Quando te digo que estou com um dilema nas mãos, ris alto e a bom som, sabes bem do que falo mas não porque lá tenhas andado. Quase quase às gargalhadas (só não as soltas da garganta por respeito), respondes “Em vez de ler escritores tão ou mais problemáticos que tu, devias era ler um livro que eu li sobre mudança “Quem mexeu no meu queijo?””. Eu fico a pensar se esse livro valerá mesmo a pena e, quando olho para ti, tranquilo e satisfeito, acho que esse livro é o tratado de psicologia mais avançado que existe. Acabo por nunca lê-lo e por voltar sempre à mesma história – também acho que isto de ser problemática, como tu dizes, já está entranhado na minha maneira de ver a vida.
Mas não penses que ando triste, não. Até tenho andado bastante feliz. E se te estou a dizer isto hoje é mesmo porque não estou com problema nenhum entre mãos.
De qualquer maneira, faz-me confusão ser assim confusa.
* (Interpol, “PDA”)
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