27.12.06

Long distance calls

"Hoje estava a andar a pé e reparei que sei de cor a Summertime do Gershwin." [entusiasmo]

"Qual é essa." [desinteresse]

"Aquela do Porgy and Bessy, "summertime and the wheather is easy"." [faz voz de cantora de jazz]

"Já sei. Sabes de cor?" [espanto]

"Sei. E no regresso apercebi-me que também já quase sei a Poetas do karaoke toda." [alegria]

"És uma pessoa muito desocupada, Joana." [sarcasmo]

Mundo Feminino, edição século XXI

Já não é a primeira vez que temas femininos são abordados neste blog. Não quero tornar isto uma versão barata de uma revista feminina (se bem que às vezes conto aqui coisas dignas de figurar nas páginas do consultório da Maria), mas há certas coisas de tal maneira intrincadas nisto de ser mulher (ou miúda, conforme o caso)que eu preciso de abordá-las aqui.

Uma dessas coisas é a depilação. A depilação é um acto íntimo. Há filosofia na depilação: sujeitar-se a dor, física, real, em prol de um bem estético. Aliás os noems das senhoras dizem isso mesmo: são esteticistas. Há também sociologia na depilação: a partilha daquele momento íntimo mas doloroso torna vítima e agressor cúmplices, uma espécie de síndrome de Estocolmo versão quanto-mais-te-bato-mais-gostas-de-mim.

Eu era já amiga da minha esteticista (e já vão perceber porque estou a usar o pretérito imperfeito). Chamava-se Cristina, tinha uma filha de 6 anos, um namorado que não era o pai da filha, morava numa casinha junto à casa da mãe. Eu também lhe contava parte da minha vida, aulas, amores, desamores, saídas à noite. Sobretudo expunha-lhe as minhas dúvidas "devia fazer as sobrancelhas?", "o que fazer perante uma borbulha" ou "como resolver pêlos encravados" eram temáticas profundamente debatidas entre mim e a minha esteticista.

Uma semana antes de vir para a Madeira os pêlos estavam a precisar de uma camada de cera mas aguentei para poder visitar a Cristina. Pois marquei a depilação e qual não é o meu espanto quando lá apareço e quem me recebe é uma menina loura, com mais de metro e meio e que nunca me viu mais gorda.

Com a pergunta "costumava vir aqui?" começou então uma série de constrangimentos entre mim e a que vim a saber chamar-se Daniela, passando pelo silêncio praticamente sepulcral. Pensei que ia seguir a Cristina onde quer que ela estivesse, várias vezes na depilação das pernas. Pensei que a Sónia não tinha nada que trocar a Cristina só porque ela não tinha curso de esteticista. Afinal o que ensinam no tal curso que uma mulher não saiba por instinto? Pensei que a Cristina não tinha o direito de me abandonar desta maneira.

Mas quando me apercebi que a coisa estava feita e que não me tinha doído nada de especial, limpinhas que estavam as virilhas e as axilas, percebi a utilidade de um curso de esteticismo ou de seja lá o que for que esta malta estuda. E a Daniela disse mesmo "isto se lhe doía asim tanto antes é porque a rapariga não sabia fazer isto." Meio cabra, a Daniela, apesar de jeitosa para o seu trabalho.

23.12.06

Natal, Christmas, Nöel, Navidad, Weinachten

Amazing Grace | Sufjan Stevens

Amazing grace, how sweet the sound,
That saved a wretch like me!
I once was lost, but now am found,
Was blind, but now I see.

'Twas grace that taught my heart to fear,
And grace my fears relieved;
How precious did that grace appear,
The hour I first believed!

Through many dangers, toils and snares,
We have already come;
'Tis grace has brought me safe thus far,
And grace will lead me home.

When we've been there ten thousand years,
Bright shining as the sun,
We've no less days to sing God's praise
Than when we'd first begun.

(Talvez das canções de Natal mais bonitas de sempre - são tantas que rejeito aqui títulos absolutos - porque canta o meu Natal: época de reflexão, de remissão, dias de benção e de encontro comigo mesma e em que a fé não se questiona pois é sentida em cada sorriso, em cada doçaria, em cada missa, em cada cumplicidade, em cada beijo.)

O meu presente. (clicar e seguir o link para download.)

FELIZ NATAL!

Para um Natal feliz



(ou até para quem não celebra o Natal, na verdade.)

22.12.06

Alquimia

Princípio um: a transformação de metais vulgares em ouro.
Seres um indivíduo absolutamente igual aos outros. E eu também.

Princípio dois: a descoberta - ou a chegada- a uma cura universal, a panaceia que cura todos os males.
Eu ser feita de mágoa e o sangue que corre em mim ser lágrimas e ter-te olhado triste, um rio a quem uma barragem roubou fulgor, e tu mesmo assim me teres dado a mão sem fazeres perguntas e como em cada vez que a palma da tua mão encontrou a minha, foste super-cola para fragmentos de mim, que são de nada.

Princípio três: a criação de vida humana artificial.
Uma vida que já não era vida e é vivida apenas quando te despediste de mim com um beijo. E esse brilho no olhar ser mais eficaz que mil ventiladores no que toca à minha ressuscitação.

Perco palavras

Perco palavras por não escrevê-las. Perco palavras porque não tas digo e olho-te em silêncio e reconheço em cada traço teu as palavras que perdi.

És tu, apesar de não o assumires, és tu em mim. É o teu sorriso no meu quando sorrio.

Sabes, podias voltar. Meter a chave à porta de casa (deixei de fechar a porta com a corrente para que possas sempre entrar), trazer na mão o saco do pão e dizer-me, sem mais delongas

Voltei.

e pousares o pão na mesa e lancharmos juntos como se tivesses ido embora só há cinco minutos para ir à padaria. Sem conversas desnecessárias, sem pedidos de desculpa, sem arrependimentos. Não te quero ouvir dizer o quanto sentiste a minha falta ou o quanto és estúpido por me ter deixado assim.

Por favor, não.

Por favor, finge que esteve sempre tudo bem.

Não quero que me mostres que mais uma vez estás comigo por carência. Foi por carência que nos juntámos, duas almas em perfeita sintonia, dois coraçães que batiam compassadamente, duas pessoas magoadas com o amor. Que perfeito que foi, ver-te em mim pela primeira vez, mal nos conhecemos: olhar para ti e seres a minha imagem em espelho, face simétrica de uma vida desalinhada e perdida.

Quero que me abraces porque nunca mais fui abraçada como tu me abraçavas, quero que apontes, quando estivermos a ler deitados sobre o tapete da sala, para aquele poema que te acabou de comover, que pouses os óculos e esfregues o nariz e digas

estou cansado, vou para a cama

e eu pergunte

já?


e tu respondas com risos e me pegues ao colo e transformes o cansaço em amor pela madrugada a dentro.

Desisto de chamar o teu nome mas nunca de ti porque desistir de ti seria desistir de mim. O meu corpo pede-me que te deixe ir mas todo o pouco que restou de mim depois do nosso amor não me deixa abandonar-te.

Perco palavras porque as digo em demasia. Sempre falei demais.

20.12.06

Prevendo já a melancolia de 2007

Eles voltaram com mais canções delicodoces. Encostem-se ao sofá, de chocolate quente na mão e sorriam - mesmo que às vezes saia uma lagrimita ou outra.



The Shins | Phantom Limb
(Wincing the night away)

19.12.06

Melancolia recuperada ao ano 2001



The Shins > New slang

"Turn me back into the pet I was when we met.
I was happier then with no mind-set. "

15.12.06

Ninguém sai por cima ou por baixo e mais cedo ou mais tarde estamos todos mal.

13.12.06

E já agora, um pedido de desculpas

Lamento nunca mais ter escrito histórias sobre vidas paralelas à minha. Como imaginam, a maior parte dessas histórias acaba por beber da minha realidade, o que exige de mim um esforço suplementar - um quase sacrifício - e eu ando a dar férias às emoções demasiado fortes.

Inspirada no meu velho amigo Ricardo Reis, deixo os sentimentos à flor da pele para outros e passo pela vida silenciosamente e sem desasossegos grandes, de mãos desenlaçadas.

Não sinto vontade de abrir a arca dos desejos e das frustrações e encontro o prazer em cada coisa que me é apresentada. Talvez estes últimos meses tenham sido, apesar de tudo, aqueles em que mais disfrutei de mim própria como ser único, individual e independente.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!

E como são prazeirosas as coisas mínimas! Libertar-se - aos poucos, é certo - do caos modernista álvaro-camposiano em que a minha vida se tinha tornado, em que as sensações se sobrepunham aos medos, em que o ruído se sobrepunha à música, e ser Lídia, à beira do charco sentada vendo as rosas, deixando que corra vida pelo riacho invés de ser ela a correr pela vida.

Parece desistir, mas não o é na verdade: desistir seria demasiado fácil e acessível. Leio Ricardo Reis - que sempre foi o meu heterónimo preferido - e aprendo a existir, isso sim. E existir está nos antípodas de desistir.

Existo de forma perfeitamente lúcida. Recuso-me a ser mais uma na carneirada dos vazios, mas também rejeito um lugar no grupo dos que sentem demasiado acabando por desperdiçar também demasiado. Come what may.

Ah a ataraxia: como uma forma de vida resumida numa palavra vai evitar que recorra a anti-depressivos e coisas que tais. Imperturbável e estóica, assim sigo, conduzida por linhas tranquilas.

Lembro-me de Epicuro e de como Reis escreveu

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.

Andava a exagerar e a excluir. Mas com o frio e estes dias de luz intensa, chegou esta paz morna e esta nova percepção de ser eu toda, por inteiro, nada a mais nem a menos, eu. Porque só na ilusão da liberdade / A liberdade existe.

"I'm better than fine"

O shuffle do iTunes levou-me a ouvir isto - já não ouvia a Fiona há uns tempos - enquanto bebia um chá de menta (personal fave) e recuperava do Monte Velho bebido no jantar de turma. E é isto mesmo: aproveitar cada potencialidade, cada instante, cada dom, porque por mais que se peçam outras coisas no sapatinho (ah a graçola natalícia!) aquilo que já temos pode e deve ser usufruido.

"If you don't have a song to sing you're okay
You know how to get along
Humming
(Hmmm)

If you don't have a date,
Celebrate
Go out and sit on the lawn
And do nothing
'Cause it's just what you must do
And nobody does it anymore.

No, I don't believe in the wasting of time,
But I don't believe that I'm wasting mine.

If you don't have a point to make
Don't sweat it
You'll make a sharp one being so kind
And I'd sure appreciate it
Everyone else's goal's to get big headed
Why should I follow that beat being that
I'm better than fine."

Fiona Apple Waltz (Better than fine)

E sim, para variar, I'm better than fine. Meeeesmo bem. E quis que isso ficasse aqui registado porque sim.

5.12.06

Cat Power @ Aula Magna, 04.12.2006

Não se lembra de quando começou a beber. Nem porquê. Sabe, isso sim, que primeiro achou graça ao facto de toda a gente a abraçar e socorrer quando estava bêbeda. Gosta de ser o centro de atenções desde que nasceu, já em miúda tinha as atenções todas do pai.

I go to some bar room
And drink with my friends
If women and men would come to follow
To see what I might spend God bless them handsome men
I wish they was mine

É bonita. Magra, longilínea, lábios carnudos. Pinta os olhos com sombra negra esfumada e os olhos quase que parecem (ou serão?) verdes.

Depois chegaram as ressacas: e toda a gente sabe que a melhor maneira de combater a ressaca é bebendo um grande gole do que se bebeu na noite anterior. Quando deu por si, sem saber como, bebia a toda a hora. Deixou de ter fome ou sono. Nas festas também já não se divertia.

I spent all my money on whisky and beer

Ainda por cima o outro sacana deixou-a. Foi-se embora. Não porque gostasse de outra pessoa, não, afirmou mesmo que ainda a amava. Simplesmente foi. Ele e outros.

All that is left is an empty shell
Of my heart that is crushed
I don't never wanna see
What my mind has seen
When you loved me
Every night every night alone with you
Every night alone now

Noutras vezes foi ela quem partiu. Relações que adulteram as pessoas, tal como os sofrimentos. Sentir-se uma pessoa pior porque ama outra. Ou mais ainda do que sentir, ser-se. O coração ganhar calo cicatricial e já não bater como batia.

I don’t want be a bad woman
And I can’t stand to see you be a bad man
I will miss your heart so tender
And I will love
This love forever
And this is why I am leaving
And this is why I can’t see you no more
This is why I am lying when I say
That I don’t love you no more

Por isso quando o conheceu achou que a sua vida mudaria. Não se lembra do primeiro copo mas lembra-se do sorriso dele, ocupando a cara toda, enchendo Nova Iorque de uma esperança suave. Lembra-se de como os seus olhos fechavam e de como a língua humedecia os lábios, isto tudo antes de sorrir. De como ele não párava de sorrir. Ou dos seus olhos, profundamente verdes, melancólicos, naquele tom pantanoso do musgo. Só que nada disso lhe interessava realmente, porque o que a fez perder a cabeça foi aquele seu jeito miúdo de cantar as palavras enquanto falava, aquela traquinice - apesar de tudo - madura de encarar o mundo, de lhe mostrar caminhos e trajectos sem imposições.

It's not your face
Or the color of your hair
Or the sound of your voice my dear
That's got me dragged in here
It's the ice in the seam, the scheme of you
You're supposed to have the answer
You're supposed to have living proof

Deixou-se afundar no pântano dos seus olhos. Sabe que foi feliz. Ainda hoje o é, quando se recorda de cada passeio no Central Park, de cada concerto na Blue Note (ali entre a 6ª Ave. e a MacDougal St.) , de cada amanhecer sobre a Brooklyn Bridge erigido sobre conversas e risos.

Could we
Take a walk
Could we
Have us a talk alone
In the afternoon
(...)
What a dream
In the grass
We kissed
Fell in love too fast too soon
Love full bloom

Os encontros sucederam-se na proporção do amor que sentia. Na proporção dos copos de whisky que bebia. Ele não resolvera o problema dela com o alcoól. Ele não resolvia problemas, ele apenas podia ajudar no que ela quisesse mudar. Ela tinha que querer a mudança.

Enquanto se afundava no pantâno dele, afundava-se também em bebida, todos os dias mais um copo do que a conta do dia anterior. Ele não pedira aquilo. Nem tão pouco o prevera. Ele também queria mais, todos os dias mais descontente.

When you give half of you
I want all of you

Acabou por deixá-la como todos os anteriores tinham feito. E ela caíu na dormência fácil de quem perdeu a vontade para dar um passo em frente. A bebida era um óptimo aliado, os anti-depressivos, os ansiolíticos, as misturas explosivas, a cabeça que pesava mais que o corpo, que acabava por se manter recolhido em concha.

I don't want no heavy diamonds
And pearls crush my teeth
I just want my sailor
To sail back to me

(...)
But if you're not coming back
I will sleep eternally

Ninguém dorme para sempre sem morrer primeiro. E ela acabou por acordar um dia e percebeu que até ali era apenas argila moldada por quem a rodeava - os mesmos que pacientemente esperavam que ela acabasse por adormecer. Que a única vontade que era realmente sua era a de ser mais do que a própria vida, mesmo que isso significasse sacrificá-la.

Once I wanted to be the greatest
No wind or waterfall could stall me
And then came the rush of the flood
Stars of night turned deep to dust
(...)
Once I wanted to be the greatest
Two fists of solid rock
With brains that could explain
Any feeling

E porque uma ponte suspensa, por melhores que sejam os cabos que a sustentam ou os nós que a seguram, nunca deixa de ser desequilibrada, também ela ainda o é. Mas está mais feliz e gosta de si, por isso sorri enquanto dança. Pelo palco, pela vida, passos pequenos em passeios largos que lhe ensinam que para ser mulher não precisa de um homem, para ser mulher precisa de uma mulher dentro de si.

30.11.06

"Devias ouvir stephen malkmus, em vez de gostares da vida"*

"go back to those gold soundz
and keep my advent to your self
because it's nothing i don't like
is it a crisis or a boring change?
when it's central, so essential,
it has a nice ring when you laugh
at the low life opinions
and they're coming to the chorus now...
i keep your address to myself
'cause we need secrets
we need secrets (crets crets crets crets crets) back right now

(...)

so drunk in the august sun
and you're the kind of girl i like
because you're empty
and i'm empty
and you can never quarantine the past
did you remember in december
that i won''t eat you when i'm gone
and if i go there, i won't stay there
because i'm sitting here too long
i've been sitting here too long
and i've been wasted
advocating that word for the last word
last words come up all you've got to waste"

*conselho com direitos de autor

29.11.06

A verdadeira cicatriz da infância é esta

[volta ao infantário]

"OLHA OS NAMORADOS, PRIMOS E CASAAAADOS!!!!!"

*corre atrás do tolinho que está a dizer isso, de seu nome joão maria*

*ele corre mais depressa*

"eu não sou namorada dele!" grita, ofendida.

*correm ainda mais depressa*

"és, és que estavam a dar beijinhos!"

"não estávamos nada! és mentiroso! vai-te crescer o nariz!"

*mais depressa*

"Tu é que és porque vocês são namorados que eu vi e eu vou dizer à Eugénia [a educadora]!"

*muuuuito mais depressa*

"Vou-te apanhar!"

*tropeça em mini-degrau*

Faz ferida gigante no cotovelo com cicatriz que se mantém aos 22 anos.

[/volta ao infantário]

26.11.06

Árvores de Natal, galochas e croissants de chocolate (e mais, muito mais)

Irritam-me casaizinhos aos beijos sob as luzinhas da Rua Augusta. Iritam-me alfacinhas em romaria para ver a árvore do Millenium (sim, deixem-se de merdas, é a árvore de um banco, não a que decoraram com os vossos filhos ou assim).

Chateia-me de morte que o preço das castanhas asssadas aumente todos os anos. Poucas coisas me dão tanto prazer do que comer uma dúzia de castanhas sentada num banquinho. Estou-me bem nas tintas para quem me ache deprimente. Eu também me acho deprimente e não é por aí que fico triste. (Eu sou deprimente mas não sou triste.)

Outra coisa óptima para se fazer quando o frio aperta é comer um croissant com chocolate na Bénard. São tão bons! Fico toda lambuzada em chocolate, nos dedos, na boca, no queixo. algum nas bochechas, mas é tão bom! Nunca me lembro de lá ir quando estamos no Verão, mas mal o frio aperta ou começa a chuva, é poiso certo.

É engraçado sentar-se na esplanada da Bénard - ou da Brasileira, se bem que nesta não se comem croissants - e ver/observar/estudar a fauna e flora que por lá anda. Gosto da Baixa por muitas razões e esta é certamente uma delas: hippies, rastas, punks, betos, tiazonas, indies, mitras, malta-do-ghetto, ciganos, alunos-de-belas-artes (sim, é um grupo social), fashioneers, gays, por lá se encontra de tudo um pouco e sempre em salutar convivência. É interessante - e interessante é uma palavra que quer, na sua essência, dizer muito pouco.

É extremamente vaga a palavra interessante. É uma boa palavra de recurso, poder-se-ia dizer "acho interessante" seguido de um "mas não me interessa muito" que ninguém se surpreenderia. É raro qualquer coisa que seja verdadeiramente interessante nos fazer dizer "É interessante". Geralmente acabamos por mostrar mais entusiasmo, alguns gritos de satisfação, "espectacular" entoado com muitos pontos de exclamação. Agora ninguém diz "é interessante"!
Por exemplo, quando vi Animal Collective ao vivo há um ano e picos - excelente concerto, já agora - não usei nunca a palavra interessante para descrevê-los, apesar de efectivamente achar interessante a forma como distorcem a pop. Lembro-me de ter usado "genial", "brilhante", "sublime", mas nunca interessante!

Os Animal Collective já voltavam cá para mais um concerto. Ainda há dias pensei nisto e pensei também "fixe era virem cá os Death Cab for Cutie". Não era inusitado? Eu ia vê-los de certeza. Lembro-me que antes achava-os um guilty pleasure. Já me apercebi que there's no such thing. Ontem dancei Nelly Furtado, Kelis, Justin Timberlake, como se nada fosse. Pérolas indie era o que pareciam.

Desmistifique-se a pop - quando é bem-feita - tal como se desmistifica a pouco e pouco a moda de outros anos, revivendo-a - ou revisitando-a. A propósito, a pressão social sugere-me que compre umas galochas. Parece que são a grande tendência de calçado no Bairro Alto. Eu gosto, por mais que me lembrem botas de pisar uvas nas vindimas (porque de facto são botas de pisar uvas). Se calhar não vou comprar galochas nenhumas. Mas preciso de umas botas pretas. E de umas skinny jeans.

Gosto daqules casacos Adidas de há 30 anos atrás. São tão estilosos. E de calças Carhartt. Streetwear no seu melhor, sem nunca ficar desactualizada. Investimento, diria eu, para convencer a minha mãe.

Por falar em Adidas surgiu a hipótese de voltar a jogar andebol. Treinar três vezes por semana e ter um jogo por fim de semana, tudo no Liceu Camões. É uma hipótese que estou a considerar com carinho. Tenho muitas saudades de jogar. Julgo que os primeiros treinos correriam pessimamente mas depois o jeito voltaria - não que alguma vez tenha tido muito jeito. Não, não tive. Já não jogo há 5 anos.

Se calhar é do que preciso, mesmo. Rematar dos nove metros quatro vezes por semana para voltar a ser menos picuinhas. Organizar jogadas quatro vezes por semanas para deixar de andar a organizar a minha vida de cinco em cinco minutos. Gastar cerca de sete horas por semana com o andebol - serão menos sete horas a pensar na vida.

É, se calhar é disso que preciso. Acho que vou fazer um treino à experiência.

25.11.06

[A beleza nem sempre é relativa]

Quando se vêem mulheres assim, em que os astros, o magma e as marés se juntaram para criar a perfeição:




Conseguimos abstrair-nos por segundos do senhor com hemorragia digestiva alta a quem temos de fazer um diagnóstico provisório para a faculdade para ficar de Havaiana no pé a passear por Búzios, como ela, há quarenta anos.

Disseram -me há dias que eu era parecida com ela. Só se for pelo espaço entre os dentes.

No Shopping Day

E eu preciso de pão e cêgripe.

E agora?

Get that ass tight

Tenho para mim que o que me falta é a minha ida ao ginásio.

19.11.06

Manias (muito pensei e de uma vasta selecção escolhi estas)

"Cada bloguista participante tem de enunciar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue."

1. Não consigo adormecer se a minha almofada estiver quente.

Isto é mesmo verdade. Seja Inverno ou Verão, só consigo adormecer se a minha almofada estiver geladinha. Tenho sérios problemas em hotéis com fronhas de algodão manhoso porque não arrefecem como deve ser.

2. Não consigo ver um papel sem o dobrar até ficar mais pequeno que um selo, ter uma caneta e não escrevinhar em algum lado, uma tesoura e não fazer trabalho de recorte.

Ou seja, não consigo estar quieta. Quando estou numa mesa de café com amigos, o mais natural é que o cinzeiro esteja cheio de papelinhos, a mesa cheia de papelinhos, haja guardanapos com assinaturas, bonecada, mais assinaturas. Se houver caricas, também faço pequenas esculturas. Aceito encomendas pelos contactos do costume. :D

3. Escolho fios de cabelo com texturas esquisitas e passo os dedos por eles até alguém me mandar parar.

A mania mais estranha e também a mais irritante para as outras pessoas, sem dúvida. E para mim também. Mas é um vício do caramba. Começou quando deixei de roer as unhas e fiquei a precisar de ter alguma coisa para ocupar as mãos quando as manias enunciadas em 2 não fossem possíveis. Esta minha mania é levada ao extremo em horas de estudo e a conduzir. Irritante p'ra cacete, a sério.

4. Conto o número de doses de vegetais e frutas que ingiro por dia.

A OMS recomenda que sejam no mínimo 5 para reduzir o risco cardiovascular. E eu cumpro. Às vezes também conto o número de doses de hidratos de carbono ou lacticínios. Não tenho tendência a achar-me gorda porque a minha constituição física é mesmo muito próxima da magreza, mas tenho a mania da alimentação saudável. Detesto pratos sem vestígios de vegetais. Adoro sopa. Como fruta depois da refeição. Bebo chá a rodos.

5. Quando conheço as músicas que passam na rádio enquanto estou a conduzir, apresento-as como se fosse locutora de rádio.

Sonho desde miúda com ter um programa meu numa estação. Um espaço onde mostrasse as canções que gosto. O que eu faço habitualmente é qualquer coisa como "São 14 horas e dz minutos, o meu nome é joana batista e vou estar convosco até às 16 aqui na Oxigénio. A música que vai passar a seguir é I'm thankful, da Spanky Wilson com a Quantic Soul Orchestra. Vamos poder ver esta pandilha deliciosa no Arena Lounge do Casino Lisboa em breve. I'm thankful, na Oxigénio. Boa tarde."

Decidi não incluir a mania dos discos e dos concertos e de andar à cata de música ou a mania de escrever no Desumanos, porque essas são óbvias para quem lê o meu blogue.

Conclusão: sou doida, pois.

E agora, vítimas *esfregas as mãos com malícia*:

Raras vezes
Horas negras
Balão d'Ar
Inominável
Cuspo com bolor

Há dois anos atrás, era este o espírito

"Pois não tem! Acabei de entrar na terceira década... Tenho 20 anos. Queria ter vindo escrever sobre isto mais cedo (no dia de anos teria sido giro), mas honestamente não há nada a dizer. Como há para aí dez anos toda a gente pergunta "Então, como é ter x anos?", sendo x a idade que celebro nesse ano, há muito que me habituei a dizer "Bom, é igual a ter x-1 anos", sendo x-1, claro, a idade que teria feito no ano anterior.
Ora, isso faz-me pensar. Se ter a idade que tenho é sempre igual a ter a anterior e há dez anos que isto é assim, será que eu ainda não mudei???

Sinto-me grande. Cheia de vontade de viver. De morar alguns meses na Europa- pelo menos a candidatura para Erasmus começa a ser uma realidade. De ser uma óptima médica, cheia de conhecimentos e de cuidado com o doente. De sair, beber e dançar ao som da música do Incógnito durante a noite inteira. De conversar com a Vitória. De ler mais e melhor. De escrever mais e melhor. De saber dizer não ao que não quero. De ir à procura daquilo que acho que mereço. De ouvir música até que os ouvidos me doam. De conhecer mais países, mais teatro, mais museus, mais músicas. De não desperdiçar pessoas, acordes, gargalhadas, raios de Sol, estados de espírito. De não desperdiçar nada. De reciclar: companhias, papéis, sentimentos, ocupações, vidros, hábitos. De reciclar tudo. De ler poesia. De não ter a prepotência que sei tudo sobre tudo. De aprender a ouvir opiniões totalmente diferentes, um pouco diferentes, mais ou menos idênticas ou totalmente iguais à minha. De não julgar as pessoas à primeira. De encontrar satisfação. De viver insatisfeita.
Cristina"

In Crime Passional