Recentes estudos sugerem que um sono sem sonhos - ou, pelo menos, aqueles em que de manhã não nos lembramos do enredo que o subconsciente criou - são os sonos mais recompensadores. Não ter sonhos precisos significa menos tempo em sono REM "Rapid Eye Movement" - aquele em que a actividade neuronal encefálica é igual à da vigília. No fundo, o sono REM é o que têm as pessoas que "mesmo a dormir, estão acordadas".
Também acontecem sonhos na fase IV do sono não-REM: são sonhos mais profundos, tranquilizantes, com actividade neuronal vestigial.
Durante a fase I e II do sono não-REM e em todo o sono REM, a probabilidade de acordar é grande. A fase I - já todos devemos ter passado por isto - acontece quando estamos calmamente a adormecer e de repente vemo-nos a cair sem rede. Às vezes, pontapeia-se o ar (ou a pessoa que está ao nosso lado). Dormir profundamente significa estar na fase III ou IV do sono não-REM.
Sonhar pode, portanto, ser mau. Acordar com dores de cabeça, fatigado ou mesmo exausto, ansioso, deprimido - tudo isto pode acontecer se o sono não for o suficiente para entrarmos na fase III não-REM. Na vida, também: ter sonhos, projectos claros e precisos daquilo que queremos que nos aconteça, daquilo que teremos de fazer para que as coisas ocorram, de tudo o que temos de construir para atingir certos patamares, pode vir a ser prejudicial, impedindo que esses mesmo sonhos se tornem realidade.
Toda, toda a vida sonhei demasiado: sonhei alto, todos os dias, sem esconder qur o fazia. Ir ali, viver acolá, ficar aqui, fazer isto, conseguir aquilo, tentar aqueloutro, conseguir tudo isto. Projectos, planos, expectativas - em demasia. "Ter expectativas é meio caminho andado para a desilusão" disseram-me há algum tempo, e eu, optimista, não concordei.
É muito mais simples não planear e viver ao sabor da corrente (irra! frase irritante!). Não esperar nada de nada, de ninguém, viver por viver simplesmente. Em vez de viver em pulgas, em acções de rápida movimentação dos olhos, desfrutar um dia de cada vez, sem grandes ideias sobre o amanhã. Pensar primeiro no que se vai jantar hoje antes de pensar no que se vai cozinhar amanhã. Fazer o que tem de ser feito hoje, em vez de programar minuciosamente as actividades do dia seguinte. Ler um capítulo de cada vez, em vez de pensar "acabo de ler este livro depois de amanhã".
Uma vida tranquila para batimentos cardíacos mais tranquillos. Com sonhos (o direito ao sonho é o direito à vida e pumba! mais um cliché!), mas dos apaziguadores, dos profundos, dos realmente importantes. Viver em fase IV não-REM - calmamente, sem pressas, sem exigências irreais. Nada mais interessa se formos grandes na vida.
25.11.07
24.11.07
Falar
Creio que falar, hoje em dia, está absolutamente sobrevalorizado. Toda a gente tem uma opinião a dar, toda a gente tem sempre algo a dizer sobre alguma coisa, qualquer coisa, tudo. Algo a acrescentar mesmo quando tudo já foi dito antes por outras pessoas. O mundo não é uma coisa nova, já cá está há milhões de anos e, mesmo assim, quem vive nele e sobre ele, julga que pode mandar bitaites sobre tudo.
Falar, hoje em dia, está sobrevalorizado. Repito-o porque tenho a certeza disto.
"Já falaram?". Merda para esta pergunta. Que se foda esta pergunta. Quero lá saber. Eu não quero saber se já falámos, eu não preciso de falar porque eu já sei. Não preciso de ouvir aquilo que já sei e que já sei porque o mundo gira há muito mais tempo (mas mesmo muito mais) do que aquele que por cá ando. O que me acontece já aconteceu a outras pessoas antes, está a acontecer a muita gente agora e vai acontecer a muita gente depois de mim.
Falar está completamente sobrevalorizado. Para que preciso de ouvir outra vez o que já sei. Ou, pior, muito pior, para quê falar se me vão mentir? Ou então vão me baralhar porque se vão contradizer, vão usar palavras diferentes para encher chouriços de frases, parágrafos, discursos vazios que nada dizem, para quê ouvi-los mais uma vez? Para além do mais, tenho muito medo daquilo que poderia ouvir. A sério. Mais vale viver sem palavras, sem essas verdades absolutas que se dizem quando se abre a boca.
Há tanto para dizer sem palavras. Ouvir para além da voz, perceber-se num olhar, num abraço, num sorriso, no desespero de um telefonema. Nesse sentido, já ouvi tudo o que tenho de ouvir.
As pessoas andam demasiado taxativas: ou se fez ou não se fez, ou se disse ou não se disse, ou se quis ou se foi embora. Para quê?
Quem me pergunta se já falámos (a mesma porra repetida durante um ano inteiro, é que cansa, caramba!) nunca parou para pensar. Porque, se o fizesse, saberia - olharia para nós, aqueles que deviam falar - sem precisar que eu o dissesse. Toda a gente já o sabe. Eu já o sei.
Saber é completamente diferente de assumir. Como um cancro. A pessoa sabe que tem um cancro, sabe o que é um cancro - um monte de células estúpidas que, um dia, por não terem mais nada para fazer e por assim estar inscrito no seu código genético, desatam a multiplicar-se, sabe quem tem de fazer tratamentos (tirar cirurgicamente um cancro, radiação, químicos), sabe que, se não se tratar, ou se já for tarde demais, o cancro estará metastizado - esse monte de células estúpido decidiu emigrar e fixar-se noutros sítios do corpo. Sabe que pode ficar mal. Sabe que pode morrer. Sabe, mas não precisa necessariamente de o assumir. Nem essa pessoa nem quem a rodeia, contornando a situação com "vais ficar bem" ou "vai resultar".
Ao mesmo tempo, não assumir é diferente de estar em negação. Porque a negação implica estar dormente, a verdade rolar sobre nós como se alisasse alcatrão e não nos afectar. Negar não é fingir que não sabe. Negar é não só fingir que não sabe mas também fingir que está tudo óptimo, nunca se esteve melhor, ó para mim tão feliz. Não assumir é, simplesmente, ainda não ter desistido. É saber que há mais, muito mais, do que aquilo que falam.
Vejamos o que poderia acontecer se tivéssemos, como toda a gente quer, falado - vejamos a coisa de uma forma generalista. Eu ouviria o que queria ouvir, independentemente daquilo que tivesse ouvido, mas o que me seria dito seria também dito de forma a contornar um monte de perguntas. Perguntas que eu nunca faria porque estaria mais do que satisfeita com o que estaria a ouvir.
Por favor, párem de me perguntar se já falámos. Não falámos - falámos uma vez, e de que me serviu? - nem vamos falar.
Era criar uma coima para quem falasse quando não há nada para dizer. Era ver este mundo em silêncio. Como ia saber bem!
Learn to say the same thing
What defeats people is a double confession.
One time they will confess one thing, on the next they will confess something else.
Talk to them, they will say:
Learn to say the same thing
Let us hope fast to saying the same thing.
Never give up, no never give up
If you're looking for something easy then you might as well give it up.*
* Cat Power "Say"
Falar, hoje em dia, está sobrevalorizado. Repito-o porque tenho a certeza disto.
"Já falaram?". Merda para esta pergunta. Que se foda esta pergunta. Quero lá saber. Eu não quero saber se já falámos, eu não preciso de falar porque eu já sei. Não preciso de ouvir aquilo que já sei e que já sei porque o mundo gira há muito mais tempo (mas mesmo muito mais) do que aquele que por cá ando. O que me acontece já aconteceu a outras pessoas antes, está a acontecer a muita gente agora e vai acontecer a muita gente depois de mim.
Falar está completamente sobrevalorizado. Para que preciso de ouvir outra vez o que já sei. Ou, pior, muito pior, para quê falar se me vão mentir? Ou então vão me baralhar porque se vão contradizer, vão usar palavras diferentes para encher chouriços de frases, parágrafos, discursos vazios que nada dizem, para quê ouvi-los mais uma vez? Para além do mais, tenho muito medo daquilo que poderia ouvir. A sério. Mais vale viver sem palavras, sem essas verdades absolutas que se dizem quando se abre a boca.
Há tanto para dizer sem palavras. Ouvir para além da voz, perceber-se num olhar, num abraço, num sorriso, no desespero de um telefonema. Nesse sentido, já ouvi tudo o que tenho de ouvir.
As pessoas andam demasiado taxativas: ou se fez ou não se fez, ou se disse ou não se disse, ou se quis ou se foi embora. Para quê?
Quem me pergunta se já falámos (a mesma porra repetida durante um ano inteiro, é que cansa, caramba!) nunca parou para pensar. Porque, se o fizesse, saberia - olharia para nós, aqueles que deviam falar - sem precisar que eu o dissesse. Toda a gente já o sabe. Eu já o sei.
Saber é completamente diferente de assumir. Como um cancro. A pessoa sabe que tem um cancro, sabe o que é um cancro - um monte de células estúpidas que, um dia, por não terem mais nada para fazer e por assim estar inscrito no seu código genético, desatam a multiplicar-se, sabe quem tem de fazer tratamentos (tirar cirurgicamente um cancro, radiação, químicos), sabe que, se não se tratar, ou se já for tarde demais, o cancro estará metastizado - esse monte de células estúpido decidiu emigrar e fixar-se noutros sítios do corpo. Sabe que pode ficar mal. Sabe que pode morrer. Sabe, mas não precisa necessariamente de o assumir. Nem essa pessoa nem quem a rodeia, contornando a situação com "vais ficar bem" ou "vai resultar".
Ao mesmo tempo, não assumir é diferente de estar em negação. Porque a negação implica estar dormente, a verdade rolar sobre nós como se alisasse alcatrão e não nos afectar. Negar não é fingir que não sabe. Negar é não só fingir que não sabe mas também fingir que está tudo óptimo, nunca se esteve melhor, ó para mim tão feliz. Não assumir é, simplesmente, ainda não ter desistido. É saber que há mais, muito mais, do que aquilo que falam.
Vejamos o que poderia acontecer se tivéssemos, como toda a gente quer, falado - vejamos a coisa de uma forma generalista. Eu ouviria o que queria ouvir, independentemente daquilo que tivesse ouvido, mas o que me seria dito seria também dito de forma a contornar um monte de perguntas. Perguntas que eu nunca faria porque estaria mais do que satisfeita com o que estaria a ouvir.
Por favor, párem de me perguntar se já falámos. Não falámos - falámos uma vez, e de que me serviu? - nem vamos falar.
Era criar uma coima para quem falasse quando não há nada para dizer. Era ver este mundo em silêncio. Como ia saber bem!
Learn to say the same thing
What defeats people is a double confession.
One time they will confess one thing, on the next they will confess something else.
Talk to them, they will say:
Learn to say the same thing
Let us hope fast to saying the same thing.
Never give up, no never give up
If you're looking for something easy then you might as well give it up.*
* Cat Power "Say"
19.10.07
A Baixa, tão cheia de luz e de pedintes romenas
É tão relativo o que e quanto se quer. Uma moeda, um tecto, uns sapatos, um livro, uma viagem, um avião particular, uma ida à Lua.
Hoje, 16 de Outubro, é o Dia Mundial da Nutrição mas na Baixa parecia o Dia Mundial da Pobreza. Fico sempre triste e incomoda-me - não o pedido desesperado, mas saber que há pessoas em condições tão precárias, mas sou de uma hipocrisia atroz. Hipócrita, é como me sinto.
Hoje, 16 de Outubro, é o Dia Mundial da Nutrição mas na Baixa parecia o Dia Mundial da Pobreza. Fico sempre triste e incomoda-me - não o pedido desesperado, mas saber que há pessoas em condições tão precárias, mas sou de uma hipocrisia atroz. Hipócrita, é como me sinto.
O grande mistério das refeições pré-congeladas do Metro.
É só isso, é para mim um grande mistério. Aquela máquina, com um vidro através do qual se vê uma espécie de distribuidor, ou dispensador, as fotografias de esparguete à bolonhesa com péssimo aspecto, o fundo azul piscina, o slogan "Leve a sua refeição num minuto" ou "O seu jantar no Metro": é tudo para mim demasiado confuso e incógnito.
Como Ofélia terá uma dia escrito a Fernando
Gostava de escrever-te uma carta. Manuscrita, na caligrafia mais bonita que conseguisse fazer, em papel pardo, para pintar com aguarela umas flores nos cantos ou fazer um friso no cabeçalho.
Penso nisso - em como começaria essa carta (o coloquial "Olá, como estás?", o afectuoso "Querido indivíduo" ou o directo "Indivíduo" seguido de uma vírgula e de uma mudança de parágrafo e, aqui, substituir indivíduo pelo teu nome, cada letra desenhada com a caneta a forçar a folha, sem rasgar). Penso nisso e penso em como começar isto (seja lá o que isto for).
Penso nisso - em como começaria essa carta (o coloquial "Olá, como estás?", o afectuoso "Querido indivíduo" ou o directo "Indivíduo" seguido de uma vírgula e de uma mudança de parágrafo e, aqui, substituir indivíduo pelo teu nome, cada letra desenhada com a caneta a forçar a folha, sem rasgar). Penso nisso e penso em como começar isto (seja lá o que isto for).
É bom conhecer-te - e é bom quando te dás a conhecer. Da mesma maneira, sabe bem ouvir as tuas confissões, os teus receios, as tuas dúvidas, as tuas crises de auto-estima, mesmo que não faças por mas contar: eu topo-as, eu leio em cada palavra tua a verdade por trás escondida. Conheço-te melhor do que toda a gente que julga conhecer-te. Sei que não tem sido fácil. Que a vida abandonou-te demasiadas vezes para que acredites nela - ou melhor, que a morte desatou demasiados laços e agora não te apetece encontrar novas fitas. Que, por vezes, olhas à volta e estás só tu, só, por tua culpa - e nesses dias, sentes-te a pior pessoa do mundo, tão nojento quanto uma barata (e, ainda assim, não sobreviverias a um ataque nuclear). Que tens medo de não estar à altura daquilo que te propões - e, provavelmente por isso, não te propões a nada.
15.10.07
Auto-biografia
Às vezes, nas pequenas coisas, regresso à infância, a uma era em que o mundo era uma ilha, uma praia, uma família e se estava tão bem assim.
Ali, mais nada era preciso: nem o amor por um outro, nem a superação cultural, nem a necessidade de valorização (própria e pelos outros), nem o sexo. Podia ser ingenuidade, por si só – não conhecer mais nada significava não querer mais nada e o mar limítrofe daquele rectângulo isolado ser suficiente para aquilo que se conhecia. Os carrinhos de choque no Natal, o fogo de artifício no fim do ano, os disfarces no Carnaval, as flores e os passeios ao Parque de Santa Catarina na Primavera, a praia, o mar e Ponta Delgada no Verão. Os primos que iam e vinham, cruzando o mar de avião para passar as férias, os tios afastados que vinham por longas temporadas, que eu nunca reconhecia como tais (e de quem, durante os anos de distância, acabava por me esquecer), as férias de quinze dias num país a nove horas de distância.
Nunca ninguém tentou esconder-me nada, muito pelo contrário: empurraram-me para a estante da minha mãe desde cedo e eu li. Li muito, de luz quase apagada, o corpo quase a fazer o pino, os braços a doer por estarem a agarrar o livro, li em todo o lado, a qualquer hora, e li de tudo. Escolhi ler muito livro horrível na vida (que eu própria arranjava, raramente eram da estante da minha mãe), e até gostava por contarem uma bela história de amor lamechas e piegas e estúpida, sobretudo estúpida. Tem graça pensar nisto assim porque, à distância, todos os livros que me custaram mais a ler quando era miúda (O Principezinho, Papalagui, Robinson Crusoé, os livros do Dickens, por exemplo), são os livros que agora me trazem uma saudade enorme e uma imensa vontade de redescobri-los. Por volta dos dez anos, ou lá o que foi, li A Tulipa Negra do Dumas e A Volta ao Mundo em 80 Dias do Júlio Verne e comecei a ler outros livros deles, e dizia, quase inocentemente – nunca se é inocente em nada, nem aos dez anos – que eram os meus escritores favoritos. E, a partir daí, reconheço-o, comecei a ler a sério, mais por vontade de ser uma melhor leitora do que pelo livro em si. Ou, por outra, lia mais pelo prazer de ler do que pela fruição do livro.
No fundo, sempre quis imaginar. Criar um mundo e outro dentro do meu mundo, criar uma ilha sobre a minha ilha. Conceber um espaço que fosse para além do mar que rodeava os quatro pontos cardeais. Ser mais do que um ilhéu em contínuo contentamento com o que estava diante dos seus olhos. Talvez por isso tenha crescido e me tornado tão complicada, tão preocupada com as minudências da vida que quase que não me consigo encantar com o que vejo.
Mas não, é provavelmente errado pensar isso de mim. Nada me faz mais feliz do que as pequenas coisas da vida, aquelas que me fazem regressar a essa infância. Essas pequenas coisas que vejo, todos os dias, e que me lembram sempre que sou eu mas, na essência, sou eu e o mundo inteiro dentro de mim, pronto a implodir e a precipitar em instantes.
Raramente me satisfaço com a satisfação e nunca consegui ser feliz no contentamento. Por isso tantas vezes escrevi que a minha felicidade é um momento, breve, frágil, perene - quanto mais o agarro, menos o possuo.
É como se nem todos os seres humanos tivessem vindo à Terra para serem felizes, e com isso lido eu muito bem.
Ali, mais nada era preciso: nem o amor por um outro, nem a superação cultural, nem a necessidade de valorização (própria e pelos outros), nem o sexo. Podia ser ingenuidade, por si só – não conhecer mais nada significava não querer mais nada e o mar limítrofe daquele rectângulo isolado ser suficiente para aquilo que se conhecia. Os carrinhos de choque no Natal, o fogo de artifício no fim do ano, os disfarces no Carnaval, as flores e os passeios ao Parque de Santa Catarina na Primavera, a praia, o mar e Ponta Delgada no Verão. Os primos que iam e vinham, cruzando o mar de avião para passar as férias, os tios afastados que vinham por longas temporadas, que eu nunca reconhecia como tais (e de quem, durante os anos de distância, acabava por me esquecer), as férias de quinze dias num país a nove horas de distância.
Nunca ninguém tentou esconder-me nada, muito pelo contrário: empurraram-me para a estante da minha mãe desde cedo e eu li. Li muito, de luz quase apagada, o corpo quase a fazer o pino, os braços a doer por estarem a agarrar o livro, li em todo o lado, a qualquer hora, e li de tudo. Escolhi ler muito livro horrível na vida (que eu própria arranjava, raramente eram da estante da minha mãe), e até gostava por contarem uma bela história de amor lamechas e piegas e estúpida, sobretudo estúpida. Tem graça pensar nisto assim porque, à distância, todos os livros que me custaram mais a ler quando era miúda (O Principezinho, Papalagui, Robinson Crusoé, os livros do Dickens, por exemplo), são os livros que agora me trazem uma saudade enorme e uma imensa vontade de redescobri-los. Por volta dos dez anos, ou lá o que foi, li A Tulipa Negra do Dumas e A Volta ao Mundo em 80 Dias do Júlio Verne e comecei a ler outros livros deles, e dizia, quase inocentemente – nunca se é inocente em nada, nem aos dez anos – que eram os meus escritores favoritos. E, a partir daí, reconheço-o, comecei a ler a sério, mais por vontade de ser uma melhor leitora do que pelo livro em si. Ou, por outra, lia mais pelo prazer de ler do que pela fruição do livro.
No fundo, sempre quis imaginar. Criar um mundo e outro dentro do meu mundo, criar uma ilha sobre a minha ilha. Conceber um espaço que fosse para além do mar que rodeava os quatro pontos cardeais. Ser mais do que um ilhéu em contínuo contentamento com o que estava diante dos seus olhos. Talvez por isso tenha crescido e me tornado tão complicada, tão preocupada com as minudências da vida que quase que não me consigo encantar com o que vejo.
Mas não, é provavelmente errado pensar isso de mim. Nada me faz mais feliz do que as pequenas coisas da vida, aquelas que me fazem regressar a essa infância. Essas pequenas coisas que vejo, todos os dias, e que me lembram sempre que sou eu mas, na essência, sou eu e o mundo inteiro dentro de mim, pronto a implodir e a precipitar em instantes.
Raramente me satisfaço com a satisfação e nunca consegui ser feliz no contentamento. Por isso tantas vezes escrevi que a minha felicidade é um momento, breve, frágil, perene - quanto mais o agarro, menos o possuo.
É como se nem todos os seres humanos tivessem vindo à Terra para serem felizes, e com isso lido eu muito bem.
1.10.07
Sapos
No Outono lembro-me de apanhar sapos (pequenos como besouros) junto às fontes e aos bebedouros. O primo António, miúdo catita de ideias rápidas e sorriso expressivo, ficava sempre muito desiludido porque os tais anfíbios tinham um ar mais ternurento do que nojento e ele não conseguia assustar-nos com os bicharocos. Ainda assim, meninas como éramos, soltávamos gritinhos de excitação, enquanto chapinhávamos nas poças lodacentas para tentar apanhá-los.
E como pulavam, os estuporezinhos, olhando-nos de lado como a desafiar-nos.
Apanhávamo-los com copos, roubados à sucapa da cozinha, e acabávamos a caça - num sentido figurativo, pois obviamente soltávamos as pobres criaturas quando nos chamavam para o lanche, hora oficial para o fim das brincadeiras na fazenda - com as calças ou collants tornadas castanhas pelo menos até ao joelho e os bibes enlameados, os sapos em copos virados ao contrário, alinhados no muro que separava o casario da quinta ao lado
com terrenos a perder de vista e os telhados da casa grande entre a copa das árvores
e depois - como se ganhássemos asco repentino àquela pele lisa e húmida ou aos olhos esbugalhados dos sapos - jogávamos ao par ou ímpar para decidir quem soltava os sapos na levada.
Uma vez, em que estavam oito sapos à espera da liberdade, fiquei eu responsável por os soltar. Tudo correra bem até ao sétimo sapo, quando o último
e eu que estava com a cabeça distraída, com a cabeça no chocolate quente e no pão-de-ló que me esperava sobre a toalha aos quadrados da mesa da cozinha, e que, por cada sapo que soltava, pensava o quanto preferia estar a ouvir os gritos da mãe enquanto nos encontrava, a mim e aos meus irmãos, naquela figura, que todos os dias se repetia - como a gritaria, os castigos, os banhos antes de lanchar (quando a fome era mais que muita)
quando o último sapo, assustado, dá um salto pequeno e cai-me no pé e depois salta-me para a saia e para o bibe, e todos fugindo em crescente berreiro, os mais novos choravam - sem eu perceber bem se pelo sapo atarantado se pelo meu infortúnio - e as mães saíram, pensando que algum de nós já devia ter que ir ao hospital.
A minha mãe encontrou-me sem roupa, com os olhos dos primos postos em mim, apenas de cuecas, meias e botins, e o meu corpo esguio, com os mamilos que os miúdos nunca tinham visto antes, escorrendo água e o diabo do sapo saltando sobre o bibe.
Nunca dantes o percebera, só agora o percebi, porque é que nessa noite não lanchei com a família toda nem jantei nem fui mais apanhar sapos para o poço da fazenda.
Um corpo de criança quer-se plano como uma folha de videira e o meu, nessa tarde, mostrava claramente que deixava de o ser.
Como disse a minha avó, quando lá foi a costureira dias depois "a gente nem dá por elas, mas quando vai ver estão feitas mulheres". Juro que pensei que ela estava a falar na minha prima que se ia casar.
E como pulavam, os estuporezinhos, olhando-nos de lado como a desafiar-nos.
Apanhávamo-los com copos, roubados à sucapa da cozinha, e acabávamos a caça - num sentido figurativo, pois obviamente soltávamos as pobres criaturas quando nos chamavam para o lanche, hora oficial para o fim das brincadeiras na fazenda - com as calças ou collants tornadas castanhas pelo menos até ao joelho e os bibes enlameados, os sapos em copos virados ao contrário, alinhados no muro que separava o casario da quinta ao lado
com terrenos a perder de vista e os telhados da casa grande entre a copa das árvores
e depois - como se ganhássemos asco repentino àquela pele lisa e húmida ou aos olhos esbugalhados dos sapos - jogávamos ao par ou ímpar para decidir quem soltava os sapos na levada.
Uma vez, em que estavam oito sapos à espera da liberdade, fiquei eu responsável por os soltar. Tudo correra bem até ao sétimo sapo, quando o último
e eu que estava com a cabeça distraída, com a cabeça no chocolate quente e no pão-de-ló que me esperava sobre a toalha aos quadrados da mesa da cozinha, e que, por cada sapo que soltava, pensava o quanto preferia estar a ouvir os gritos da mãe enquanto nos encontrava, a mim e aos meus irmãos, naquela figura, que todos os dias se repetia - como a gritaria, os castigos, os banhos antes de lanchar (quando a fome era mais que muita)
quando o último sapo, assustado, dá um salto pequeno e cai-me no pé e depois salta-me para a saia e para o bibe, e todos fugindo em crescente berreiro, os mais novos choravam - sem eu perceber bem se pelo sapo atarantado se pelo meu infortúnio - e as mães saíram, pensando que algum de nós já devia ter que ir ao hospital.
A minha mãe encontrou-me sem roupa, com os olhos dos primos postos em mim, apenas de cuecas, meias e botins, e o meu corpo esguio, com os mamilos que os miúdos nunca tinham visto antes, escorrendo água e o diabo do sapo saltando sobre o bibe.
Nunca dantes o percebera, só agora o percebi, porque é que nessa noite não lanchei com a família toda nem jantei nem fui mais apanhar sapos para o poço da fazenda.
Um corpo de criança quer-se plano como uma folha de videira e o meu, nessa tarde, mostrava claramente que deixava de o ser.
Como disse a minha avó, quando lá foi a costureira dias depois "a gente nem dá por elas, mas quando vai ver estão feitas mulheres". Juro que pensei que ela estava a falar na minha prima que se ia casar.
23.9.07
Cinquenta cêntimos vs Oeste
Que eu gosto do Kanye West é uma fava contada, portanto é com alegria que recebo a notícia das vendas do Graduation terem sido maiores do que as do Curtis, álbum do gajo-que-foi-baleado-nove-vezes-e-sobreviveu. Polémicas (e necessidade de protagonismo) à parte, ambos têm mais em comum do que a cor da pele e a secção da loja de discos onde se encontram os seus álbuns.
Não consigo deixar de fazer-vos notar que "I'm tired of using technology, won't you come sit on top of me", versos de AYO Technology, um dos singles que 50 Cent lançou, e em que partilha o papel principal com o Justin Timberlake, e "I need you to hurry up now 'cause I can't wait much longer", do single Stronger, do Kanye, têm em comum a temática - autoritarismo e desejo sexual, mas partilham também oportunismo. 50 aproveitou-se do Justin Timberlake, cantor pop de quem tem sido permitido gostar e comprar disco (o que o deve, não só ao seu falsete, mas também a Timbaland - ó-ó, devo falar de oportunismo outra vez?). Kanye aproveitou a onda French Kiss, com os Justice a pôrem o nome Daft Punk na boca do mundo mesmo que estes nem tenham lançado nada de novo - ok, a ver se me faço compreender agora: os Daft Punk não precisam que ninguém fale neles, bastou-lhes fazerem discos memoráveis e terem um dos melhores vídeos de sempre (Around the World, do Gondry) para jamais serem olvidados, mas já os Justice precisam de ter um nome como os Daft Punk por trás para que alguém fale neles (hm, e um bom vídeo também). Stronger sampla a Harder, better, faster, stronger, num ano em que anda toda a gente com saudades dos Daft Punk, e segue, criteriosa e detalhadamente, a linha estética gaulesa da Ed Banger.
Nada de novo, portanto. O Graduation é um disco bom, apenas bom. O Curtis não ouvi, mas aposto que é pior.
Não consigo deixar de fazer-vos notar que "I'm tired of using technology, won't you come sit on top of me", versos de AYO Technology, um dos singles que 50 Cent lançou, e em que partilha o papel principal com o Justin Timberlake, e "I need you to hurry up now 'cause I can't wait much longer", do single Stronger, do Kanye, têm em comum a temática - autoritarismo e desejo sexual, mas partilham também oportunismo. 50 aproveitou-se do Justin Timberlake, cantor pop de quem tem sido permitido gostar e comprar disco (o que o deve, não só ao seu falsete, mas também a Timbaland - ó-ó, devo falar de oportunismo outra vez?). Kanye aproveitou a onda French Kiss, com os Justice a pôrem o nome Daft Punk na boca do mundo mesmo que estes nem tenham lançado nada de novo - ok, a ver se me faço compreender agora: os Daft Punk não precisam que ninguém fale neles, bastou-lhes fazerem discos memoráveis e terem um dos melhores vídeos de sempre (Around the World, do Gondry) para jamais serem olvidados, mas já os Justice precisam de ter um nome como os Daft Punk por trás para que alguém fale neles (hm, e um bom vídeo também). Stronger sampla a Harder, better, faster, stronger, num ano em que anda toda a gente com saudades dos Daft Punk, e segue, criteriosa e detalhadamente, a linha estética gaulesa da Ed Banger.
Nada de novo, portanto. O Graduation é um disco bom, apenas bom. O Curtis não ouvi, mas aposto que é pior.
[Lisbowood]
Poderia começar: Imagino um filme em transe e por trás música trance, luzes, efeitos de luzes e fumos, o corpo descontrolado num corredor onde pessoas, homens e mulheres, mulheres e mulheres, homens e homens se beijam. Beijos molhados à la Shortbus, beijos com o corpo todo - as mãos, as víseceras, os pénis e clítoris, roupas que caem pelo chão, uma por uma, peça a peça, depressa.
Poucas expressões me irritam tanto como à la. Acabei de usá-la, bem sei. É um estrangeirismo incomodativo: ó sim, a crítica de estrangeirismos que passa metade da vida a falar em francês, inglês ou castelhano. Não posso criticar ninguém porque eu própria faço tudo aquilo que me irrita. E continuo a criticar, o que é surpreendente.
VOltando ao filme. Afinal não passa música trance, mas passa Von Südenfed na discoteca de paredes sujas. A rapariga que circula - um autêntico lugar-comum, numa má trip, aliás, numa péssima trip, a miúda de franja e cabelo castanho claro, cortado a direito nos ombros, o corpo ossudo e longilíneo - dá encontrões aos casais encostados à parede (alguns nem casais são, são grupos de três ou quatro pessoas, de afectos misturados). Falta-lhe nitidamente alguém - como se tivesse alimentado o corpo e faltasse alimentar o espírito. Um rapaz agarra-a, tem grande parte dos dentes podres mas uns olhos extremamente profundos e tenta beijá-la. Ela nem o vê nem o sente imediatamente, quando o faz, só a boca está ao alcance do olhar - os dentes negros, a halitose, os buracos pela falta de peças dentárias. Ela contrai-se num espasmo - primeiro pensa-se que é a dançar, como que a provocá-lo, depois não, é um espasmo emético, um vómito biliar, de dentro de si para o chão [agora ainda mais] imundo, para logo ser pisado por pés e espalhar-se pelo pavimento, em pegadas progressivamente mais finas, até se diluir com o visco que cobre a alcatifa.
Poderia começar assim, e continuar, com um olho nos últimos filmes que vi, e os dedos no últimos livros que li. Os ouvidos certamente presos às Tromatic Reflexxions, que me fazem pensar em sub-woofers e na necessidade imperiosa de ter, em Lisboa, um sistema de som decente, onde se oiça cada som, cada vibração, para que as paredes dancem, estalem e caiam objectos ao chão e toda a casa me persiga e, em vez de uma discoteca suja, onde há suor e droga a mais, por onde passeio o corpo e abano os membros - também eu longilínea e ossuda, embora sem franja e com o cabelo escadeado. A casa cada vez mais estreita contraindo-se em meu redor, para logo asfixiar-me em tinta branca e betão armado. A casa impecavelmente limpa, arrumada, numa organização sem par em qualquer outra área da minha vida - o resto é sempre o caos, com as ideias por arrumar, os amores por perceber, os laços por atar.
Os posts grandes onde alinho ideias que só fazem sentido agora - as ideias, boas ou más, só aparecem uma vez. Também é assim com tudo o resto: a vida é uma metáfora de si mesma; o simbolismo dos exemplos são sentidos práticos de factos acontecidos ou por acontecer. Uma má trip - ou um mau dia, se é que eles existem. Tromatic Reflexxions: faz-me sorrir, parece que hoje tudo encaixa, tudo se encadeia. Finalmente. Não há coisas más, nem acontecimentos maus nem más trips, nem nada. Há lugares traumáticos (lugares, num sentido lato, de tive este momento, estive ali, com tal pessoa, a fazer tal coisa) e lugares agradáveis, a que- nem que seja com a memória - queremos voltar.
Poderia acabar: ela deitou-se, ou caíu, e acabou por adormecer (ou ficar inconsciente). Foi um final feliz.
Poucas expressões me irritam tanto como à la. Acabei de usá-la, bem sei. É um estrangeirismo incomodativo: ó sim, a crítica de estrangeirismos que passa metade da vida a falar em francês, inglês ou castelhano. Não posso criticar ninguém porque eu própria faço tudo aquilo que me irrita. E continuo a criticar, o que é surpreendente.
VOltando ao filme. Afinal não passa música trance, mas passa Von Südenfed na discoteca de paredes sujas. A rapariga que circula - um autêntico lugar-comum, numa má trip, aliás, numa péssima trip, a miúda de franja e cabelo castanho claro, cortado a direito nos ombros, o corpo ossudo e longilíneo - dá encontrões aos casais encostados à parede (alguns nem casais são, são grupos de três ou quatro pessoas, de afectos misturados). Falta-lhe nitidamente alguém - como se tivesse alimentado o corpo e faltasse alimentar o espírito. Um rapaz agarra-a, tem grande parte dos dentes podres mas uns olhos extremamente profundos e tenta beijá-la. Ela nem o vê nem o sente imediatamente, quando o faz, só a boca está ao alcance do olhar - os dentes negros, a halitose, os buracos pela falta de peças dentárias. Ela contrai-se num espasmo - primeiro pensa-se que é a dançar, como que a provocá-lo, depois não, é um espasmo emético, um vómito biliar, de dentro de si para o chão [agora ainda mais] imundo, para logo ser pisado por pés e espalhar-se pelo pavimento, em pegadas progressivamente mais finas, até se diluir com o visco que cobre a alcatifa.
Poderia começar assim, e continuar, com um olho nos últimos filmes que vi, e os dedos no últimos livros que li. Os ouvidos certamente presos às Tromatic Reflexxions, que me fazem pensar em sub-woofers e na necessidade imperiosa de ter, em Lisboa, um sistema de som decente, onde se oiça cada som, cada vibração, para que as paredes dancem, estalem e caiam objectos ao chão e toda a casa me persiga e, em vez de uma discoteca suja, onde há suor e droga a mais, por onde passeio o corpo e abano os membros - também eu longilínea e ossuda, embora sem franja e com o cabelo escadeado. A casa cada vez mais estreita contraindo-se em meu redor, para logo asfixiar-me em tinta branca e betão armado. A casa impecavelmente limpa, arrumada, numa organização sem par em qualquer outra área da minha vida - o resto é sempre o caos, com as ideias por arrumar, os amores por perceber, os laços por atar.
Os posts grandes onde alinho ideias que só fazem sentido agora - as ideias, boas ou más, só aparecem uma vez. Também é assim com tudo o resto: a vida é uma metáfora de si mesma; o simbolismo dos exemplos são sentidos práticos de factos acontecidos ou por acontecer. Uma má trip - ou um mau dia, se é que eles existem. Tromatic Reflexxions: faz-me sorrir, parece que hoje tudo encaixa, tudo se encadeia. Finalmente. Não há coisas más, nem acontecimentos maus nem más trips, nem nada. Há lugares traumáticos (lugares, num sentido lato, de tive este momento, estive ali, com tal pessoa, a fazer tal coisa) e lugares agradáveis, a que- nem que seja com a memória - queremos voltar.
Poderia acabar: ela deitou-se, ou caíu, e acabou por adormecer (ou ficar inconsciente). Foi um final feliz.
6.9.07
A roupa da Kate Moss
Este Verão andei completamente desligada do computador (uma benção, digo eu), mas sempre que vinha ver os mails tinha um mail da Topshop, porque estou inscrita na mailing list. A Topshop é uma cadeia de lojas inglesa, com lojas por muito lado excepto Portugal e com colecções do melhor que existe - roupas com carisma, distintas e cheias de estilo.
Como era a minha correspondente virtual mais assídua, acho que posso considerar a Topshop a minha melhor amiga virtual de Agosto de 2007. Entretanto, chegou a colecção da Kate Moss para o frio que se avizinha - honestamente, e pondo de parte o que ela usa no nariz, a Kate Moss é uma czar dos trapinhos.
A ver aqui!!!
Quem me dera: o cachecol às riscas, o vestido azul, a camisola às riscas rosa e preta com remates cinzento.
E saibam que o meu apreciado cinzento é a cor da estação.
P.S. Desumanos goes Vogue.
Como era a minha correspondente virtual mais assídua, acho que posso considerar a Topshop a minha melhor amiga virtual de Agosto de 2007. Entretanto, chegou a colecção da Kate Moss para o frio que se avizinha - honestamente, e pondo de parte o que ela usa no nariz, a Kate Moss é uma czar dos trapinhos.
A ver aqui!!!
Quem me dera: o cachecol às riscas, o vestido azul, a camisola às riscas rosa e preta com remates cinzento.
E saibam que o meu apreciado cinzento é a cor da estação.
P.S. Desumanos goes Vogue.
28.8.07
Quizás (ou uma conversa numa canção)
Maybe the sun will shine today
The clouds will blow away
Maybe I won't feel so afraid
I will try to understand either way
Maybe you still love me maybe you don't
Either you will or you won't
Maybe you just need some time alone
I will try to understand
Everything has its plan
Either way I'm going to stay right for you
Maybe the sun will shine today
The clouds will roll away
Maybe I won't be so afraid
I will understand
Everything has its plan either way
:)
Wilco :: Either way :: Sky Blue Sky
The clouds will blow away
Maybe I won't feel so afraid
I will try to understand either way
Maybe you still love me maybe you don't
Either you will or you won't
Maybe you just need some time alone
I will try to understand
Everything has its plan
Either way I'm going to stay right for you
Maybe the sun will shine today
The clouds will roll away
Maybe I won't be so afraid
I will understand
Everything has its plan either way
:)
Wilco :: Either way :: Sky Blue Sky
Como é bom, como é bom.
Como é bom não ter palavras para descrever nada disto, nem a minha cabeça no teu colo, nem as tuas mãos no meu cabelo, nem os nossos beijos ou sorrisos sincronizados. Como é bom estar tranquilamente a ver isto acontecer-nos de novo.
Como diz o Jeff Tweedy, happenstances have changed my plans so many times e como é bom não ter sabido nem conseguido prever nada disto, como é bom, como é bom.

i will live in you
or you will live in me
until we disappear
together in a dream
(...)
on and on and on
we'll be together yeah
on and on and on
on and on and on
we're going to try
(...)
you and i
we'll stay together yeah
you and i will try
to make it better yeah
Wilco :: Sky Blue Sky
Como diz o Jeff Tweedy, happenstances have changed my plans so many times e como é bom não ter sabido nem conseguido prever nada disto, como é bom, como é bom.
i will live in you
or you will live in me
until we disappear
together in a dream
(...)
on and on and on
we'll be together yeah
on and on and on
on and on and on
we're going to try
(...)
you and i
we'll stay together yeah
you and i will try
to make it better yeah
Wilco :: Sky Blue Sky
8.8.07
Caruncho e uma recuperação da madrugada
Às vezes penso seriamente se tenho caruncho na cabeça. Ando a mil, mesmo em férias, e o sistema não pára nunca de carburar, de apagar, de inserir - até me dá para fazer analogias com informática.
Falei dela aqui. E hoje, depois de um burguês passeio de veleiro, é esta canção que não me deixa em paz e o maldito verso "ooh are you the one i've been waiting for?", uma merda de pergunta que me tenho feito mil vezes de há uns tempos para cá, uma pergunta tão simples que imediatamente se complica quando custa ao questionado dar uma resposta como deve ser.
Às vezes penso seriamente que tenho caruncho na cabeça - mas o pior é que não estou sozinha, andamos todos cheios de caruncho. Que o nosso cérebro não se desfaça dos furos.
Falei dela aqui. E hoje, depois de um burguês passeio de veleiro, é esta canção que não me deixa em paz e o maldito verso "ooh are you the one i've been waiting for?", uma merda de pergunta que me tenho feito mil vezes de há uns tempos para cá, uma pergunta tão simples que imediatamente se complica quando custa ao questionado dar uma resposta como deve ser.
Às vezes penso seriamente que tenho caruncho na cabeça - mas o pior é que não estou sozinha, andamos todos cheios de caruncho. Que o nosso cérebro não se desfaça dos furos.
Da noite
Naquele dia de que não me lembro de ter sido dia, o dia de noite eterna, o dia inerte, escuro, cinzento e frio, eu estava só. Consigo precisar onde andavam todos os outros e eu também, amolecida em tédio de viver no sofá, com a televisão desligada. O silêncio e a falta de luz e aquele instante exacto, nem antes nem depois, em que desejei morrer para nunca mais sentir uma dor tão grande como aquela, uma dor que não passava com analgésicos, uma dor que sangrava sem pingar o chão, só os meus sonhos por terra, um por um e depois todos juntos, troçando primeiro das minhas lágrimas, depois, à medida que iam secando, juntando-se nas cordas vocais, eu afónica, depois na traqueia, eu apneica, dispneica, e aquela dor que me batia e me empurrava. A dor cada vez maior e os olhos secos, e a dor de cabeça que me encostou a um canto do corredor, eu pequena, minúscula, ocupando um espaço de nada em casa, na cidade, na Terra, um grão de pó contra as paredes vazias, e a pancada que continuava e as gargalhadas que ouvia e eu, finalmente cansada, finalmente adormecida sobre o soalho, enrolada sobre mim mesma, gélida por dentro e por fora.
Mas viva.
Mas viva.
7.8.07
FMM :: O primeiro dia no Castelo - ou um exercício de memória
Apetece-me começar este post com um cliché gigantesco, daqueles clichés que por serem tão clichés irritam, começar, por exemplo, com a frase "a memória prega-nos partidas". A memória prega-nos partidas- a memória é tão conveniente - e eu não me lembro bem de como começou a minha quarta-feira em Sines. Sei que estive na praia, com uma ansiedade maior do que o normal por começarem nesse dia concertos no espaço épico e acolhedor que é o Castelo. Também sei que o Dário e a Joana chegaram neste dia, e a Tânia e o Jorge. Lembro-me ainda que jantámos na garagem que já não é uma garagem e tem cadeiras de design - e lembro-me que na garagem bebi vinho e já cheguei etérea (ou etanólica?) ao Castelo. E lembro-me que entrei com o meu passe catita (obrigada, Vítor) naquele espaço que, apesar de não ser - e ter-se provado insuficiente para a enchente de sábado -, pareceu-me, pelo menos naqueles dias, com um lar. Que bela imagem, o Castelo de Sines como o meu lar.
Há uma certeza: Trilok Gurtu, diziam-me, tinha sido dos melhores concertos do FMM de 2006 e voltou a sê-lo este ano. Sem qualquer espécie de dúvida. Acompanhado de excelentes músicos, mas sem nunca perder o protagonismo, é capaz de fazer música e gerar ritmo de qualquer coisa que faça barulho. Um indiano que parece ter crescido no meio de Bollywood e amadurecido num qualquer clube de Nova Orleães: é obra, não sei se exclusiva, mas pelo menos peculiar. Baldes de água e vassouras e logo uma dança, uma batida contagiante e uma felicidade imensa. Estrondoso concerto, daqueles para o top 5, porque foi realmente bom e porque eu sou uma curiosa e acho que a música deve nascer de qualquer som - até do simples bater das teclas do portátil da minha mãe.
[Ora pois que se até agora não estava verdadeiramente alcoolizada, apenas algo ébria e feliz, tenho que o confessar, depois do concerto de Trilok Gurtu já estava - e bem. Aqui a memória trai-me e é por culpa, não de esquemas subterfugidios freudianos, mas sim da cerveja Super Bock que escorria dos barris como se de um riacho se tratasse.]
Acho que não assisti ao início do concerto dos Bellowhead. Acho, pois. Se assisti, desculpem lá, mas não achei grande coisa: estava mais interessada em concluir que a Lua no sábado estaria a rebentar de tão cheia (e estava, de facto). O que é facto, e não há imperial que o contradiga, é que os Bellowhead foram-me conquistando e, lá para o meio do concerto, entre uma ou outra música dignas, e não o digo como elogio, de um espectáculo Eurovisão (comparação para a qual contribuía o visual à The Hives da quantidade enorme de músicos em palco, qual Broken Social Scene da world), eu era pulos e festa e abraços e alegria. Mais um concerto que veio confirmar a minha bem provável costela bretã e mais um concerto a figurar, surpreendentemente, entre aqueles que melhores - e reparem na ironia- recordações me deixaram. De forma puramente matemática, Bellowhead = festa pela certa. Não os percam, nem que seja através de vídeos no youtube.
Falou-se de alma há alguns posts atrás. Alma, essa entidade secreta que sentimos existir mas não o conseguimos provar a quem nunca a sentiu. A alma em Sines fervilha, bem como todas as partes que fazem de nós seres humanos, e foi a alma que foi tocada durante o concerto da Oumou Sangaré, essa voz do Mali que me pôs as emoções à flor da pele - quase literalmente: o coração que batia mais depressa, as lágrimas pelo rosto abaixo, mãos dadas, abraços e beijos, a descoberta de almas gémeas e afins. Coisas boas. Oumou é soul e é afrobeat e eu não creio que haja algo mais tocante do que juntar o toque da alma com o movimento do corpo, quando é feito deste modo tão sentimental, tão cheio de entrega. Merecia a lua mais cheia (e o copo também).
Eu devia agora falar da Oki Dub Ainu Band mas assumo a minha incompetência para o all the matters dub-related: a paciência esgotou-se ao fim de duas canções e fui descansar (ou beber mais? não me lembro) para o set do António Pires (um amor de senhor com ésse grande, quase meu pai musical no que à world diz respeito - o blog é obrigatório - e com quem partilhei o tecto, a sala de fumo, cervejas e copos de vinho a todas as horas possíveis do dia, ensaios de set e muita, muita conversa - um privilégio, só vos digo) e do Gonçalo Frota. Um mimo que me levou para a cama já o Sol tinha nascido há muito.
Se a memória não me trai, foi neste dia que percebi que Sines não é só amor; Sines é o Amor a acontecer. Se a memória não me trai, pensei "como prometem os dias seguintes no Castelo e Avenida da Praia!" (ok, não pensei por estas palavras, mas vocês percebem-me.)
Continua.
P.S. Por falar em António, não percam as Gamíadas, esse poema épico sobre um grupo de 20 tresloucados amigos, eternamente apaixonados por música, que atracaram no Porto de Sines para pertencer à festa da música mais bonita do país: aqui, os primeiros actos, acoli o segundo, e infelizmente último, acto da saga.
Há uma certeza: Trilok Gurtu, diziam-me, tinha sido dos melhores concertos do FMM de 2006 e voltou a sê-lo este ano. Sem qualquer espécie de dúvida. Acompanhado de excelentes músicos, mas sem nunca perder o protagonismo, é capaz de fazer música e gerar ritmo de qualquer coisa que faça barulho. Um indiano que parece ter crescido no meio de Bollywood e amadurecido num qualquer clube de Nova Orleães: é obra, não sei se exclusiva, mas pelo menos peculiar. Baldes de água e vassouras e logo uma dança, uma batida contagiante e uma felicidade imensa. Estrondoso concerto, daqueles para o top 5, porque foi realmente bom e porque eu sou uma curiosa e acho que a música deve nascer de qualquer som - até do simples bater das teclas do portátil da minha mãe.
[Ora pois que se até agora não estava verdadeiramente alcoolizada, apenas algo ébria e feliz, tenho que o confessar, depois do concerto de Trilok Gurtu já estava - e bem. Aqui a memória trai-me e é por culpa, não de esquemas subterfugidios freudianos, mas sim da cerveja Super Bock que escorria dos barris como se de um riacho se tratasse.]
Acho que não assisti ao início do concerto dos Bellowhead. Acho, pois. Se assisti, desculpem lá, mas não achei grande coisa: estava mais interessada em concluir que a Lua no sábado estaria a rebentar de tão cheia (e estava, de facto). O que é facto, e não há imperial que o contradiga, é que os Bellowhead foram-me conquistando e, lá para o meio do concerto, entre uma ou outra música dignas, e não o digo como elogio, de um espectáculo Eurovisão (comparação para a qual contribuía o visual à The Hives da quantidade enorme de músicos em palco, qual Broken Social Scene da world), eu era pulos e festa e abraços e alegria. Mais um concerto que veio confirmar a minha bem provável costela bretã e mais um concerto a figurar, surpreendentemente, entre aqueles que melhores - e reparem na ironia- recordações me deixaram. De forma puramente matemática, Bellowhead = festa pela certa. Não os percam, nem que seja através de vídeos no youtube.
Falou-se de alma há alguns posts atrás. Alma, essa entidade secreta que sentimos existir mas não o conseguimos provar a quem nunca a sentiu. A alma em Sines fervilha, bem como todas as partes que fazem de nós seres humanos, e foi a alma que foi tocada durante o concerto da Oumou Sangaré, essa voz do Mali que me pôs as emoções à flor da pele - quase literalmente: o coração que batia mais depressa, as lágrimas pelo rosto abaixo, mãos dadas, abraços e beijos, a descoberta de almas gémeas e afins. Coisas boas. Oumou é soul e é afrobeat e eu não creio que haja algo mais tocante do que juntar o toque da alma com o movimento do corpo, quando é feito deste modo tão sentimental, tão cheio de entrega. Merecia a lua mais cheia (e o copo também).
Eu devia agora falar da Oki Dub Ainu Band mas assumo a minha incompetência para o all the matters dub-related: a paciência esgotou-se ao fim de duas canções e fui descansar (ou beber mais? não me lembro) para o set do António Pires (um amor de senhor com ésse grande, quase meu pai musical no que à world diz respeito - o blog é obrigatório - e com quem partilhei o tecto, a sala de fumo, cervejas e copos de vinho a todas as horas possíveis do dia, ensaios de set e muita, muita conversa - um privilégio, só vos digo) e do Gonçalo Frota. Um mimo que me levou para a cama já o Sol tinha nascido há muito.
Se a memória não me trai, foi neste dia que percebi que Sines não é só amor; Sines é o Amor a acontecer. Se a memória não me trai, pensei "como prometem os dias seguintes no Castelo e Avenida da Praia!" (ok, não pensei por estas palavras, mas vocês percebem-me.)
Continua.
P.S. Por falar em António, não percam as Gamíadas, esse poema épico sobre um grupo de 20 tresloucados amigos, eternamente apaixonados por música, que atracaram no Porto de Sines para pertencer à festa da música mais bonita do país: aqui, os primeiros actos, acoli o segundo, e infelizmente último, acto da saga.
1.8.07
FMM :: a segunda noite de concertos no Centro de Artes (Fast Forward >>)
Sines não são só concertos e praia, aliás, falar de Sines e só referir os concertos e a praia é como deixar a missa a metade. Sines é também aquele grupo de pessoas com quem partilhámos os roncos, os copos de cerveja - e consequente as bebedeiras -, as saladas de pimentos, os mergulhos no mar gelado, as danças e as coreografias, os jogos de matrecos, os coros e as palmas, as gargalhadas, os bons dias, os fanatismos, o polvo e os búzios, as listas de melhores e piores concertos, os croissants mistos tostados nos Galegos, os metros quadrados de areia.
A Petra, por exemplo, faz uma feijoada vegetariana que é de chorar por mais (para além das suas outras qualidades que noutra ocasião poderei realçar). Foi para bem saborear a sua feijoada que por pouco não perdemos o concerto da Lula Pena - ouvimos três canções. E que bonitas que eram! Continua a fazer a sua fusão de poesia cantada com canção falada, viajando entre o fado, a cantautoria, a bossanova, com pitadas de tudo aquilo que absorve e vai vivendo. Ouvimo-la cantar - e ela respira Lisboa - juntar versos de Culture Club a um fado triste sobre uma rosa que sou eu, sem tirar nem pôr. Mexeu tanto comigo que fumei três cigarros antes do concerto seguinte.
E que concerto,o seguinte! Jackie Mollard Acoustic Quartet numa lição de uma hora e picos sobre como transmitir emoções - um largo espectro delas - em instrumentais felizes. Um violino como deve ser - um fiddler, não on the roof mas sobre o palco em constante jogo de improviso estimulando quem o segue, acompanhado por uma contrabaixista, um saxofonista e um acordeonista diatónico - os tais seguidores. Música bretã invocando campos verdes de melancolia. E o privilégio do segundo encore no bar da SMURSS, uma jam session que só existe em Sines porque há lá vontade de ouvir e deleitar-se com música e com cultura. Foi um dos melhores concertos do Festival.
(No bar da SMURSS - sigla para, salvo erro, Sociedade Musical União Recreativa e Social Sineense, acabaram as duas noites de concertos no Centro de Artes: jogos de matrecos, vinho a rodos para aquecer e sempre, sempre, óptimas conversas e boa música.)
A Petra, por exemplo, faz uma feijoada vegetariana que é de chorar por mais (para além das suas outras qualidades que noutra ocasião poderei realçar). Foi para bem saborear a sua feijoada que por pouco não perdemos o concerto da Lula Pena - ouvimos três canções. E que bonitas que eram! Continua a fazer a sua fusão de poesia cantada com canção falada, viajando entre o fado, a cantautoria, a bossanova, com pitadas de tudo aquilo que absorve e vai vivendo. Ouvimo-la cantar - e ela respira Lisboa - juntar versos de Culture Club a um fado triste sobre uma rosa que sou eu, sem tirar nem pôr. Mexeu tanto comigo que fumei três cigarros antes do concerto seguinte.
E que concerto,o seguinte! Jackie Mollard Acoustic Quartet numa lição de uma hora e picos sobre como transmitir emoções - um largo espectro delas - em instrumentais felizes. Um violino como deve ser - um fiddler, não on the roof mas sobre o palco em constante jogo de improviso estimulando quem o segue, acompanhado por uma contrabaixista, um saxofonista e um acordeonista diatónico - os tais seguidores. Música bretã invocando campos verdes de melancolia. E o privilégio do segundo encore no bar da SMURSS, uma jam session que só existe em Sines porque há lá vontade de ouvir e deleitar-se com música e com cultura. Foi um dos melhores concertos do Festival.
(No bar da SMURSS - sigla para, salvo erro, Sociedade Musical União Recreativa e Social Sineense, acabaram as duas noites de concertos no Centro de Artes: jogos de matrecos, vinho a rodos para aquecer e sempre, sempre, óptimas conversas e boa música.)
31.7.07
FMM Sines :: o primeiro dia no Centro de Artes de Sines [ play |> ]
[Prólogo: Não sou nenhuma croma da world - já vos disse que não sou nenhuma croma de nada? - mas é nas canções que vêm da alma que me movimento bem, em termos de música. Pois na world há muitas canções que vêm da alma de quem as faz e do povo que as fez nascer e que mexem com a alma de quem as ouve. É por aí que devem ler os apontamentos sobre os concertos do FMM que conto ir postando por aqui durantes estes dias de ressaca pós-Sines.]
Marcel Kanche faz canções românticas e é francês, por isso se calhar poder-se-ia catalogar a música que faz como chanson française. Só quando ouvi a cover do Leonard Cohen durante o concerto no Centro de Artes é que percebi o que é que ele era na verdade: um Cohen francês, com as mesmas angústias nas letras, na voz, no passo dolente da banda que o acompanha.
As gémeas Gómez são as Ttukunak. Atraentes e amorosas, tocam um instrumento basco que só pode ser tocado por duas pessoas em simultâneo: a txalaparta, uma espécie de xilofone em ponto gigante, em pedra, ferro e madeira, tocado por baquetas também em madeira que mais parecem pilões de almofariz. Não há segredos ali, as combinações instrumentais são feitas em improviso e em comunhão uma gémea com a outra e a comunicação faz-se por olhares e pelo ritmo que uma à outra e o público às duas vai impondo.
Continua.
Marcel Kanche faz canções românticas e é francês, por isso se calhar poder-se-ia catalogar a música que faz como chanson française. Só quando ouvi a cover do Leonard Cohen durante o concerto no Centro de Artes é que percebi o que é que ele era na verdade: um Cohen francês, com as mesmas angústias nas letras, na voz, no passo dolente da banda que o acompanha.
As gémeas Gómez são as Ttukunak. Atraentes e amorosas, tocam um instrumento basco que só pode ser tocado por duas pessoas em simultâneo: a txalaparta, uma espécie de xilofone em ponto gigante, em pedra, ferro e madeira, tocado por baquetas também em madeira que mais parecem pilões de almofariz. Não há segredos ali, as combinações instrumentais são feitas em improviso e em comunhão uma gémea com a outra e a comunicação faz-se por olhares e pelo ritmo que uma à outra e o público às duas vai impondo.
Continua.
FMM pode ser lido como Férias Mágicas e Memoráveis
Há um ano que esperava, planeava, ansiava por Sines. Foi há um ano que lá fui, num assomo de irresponsabilidade misturado com vontade de ouvir o Toumani Diabaté e bem temperado com uma paixoneta que por lá andava e foi há um ano que, no regresso, jurei a mim mesma estar todos os dias do festival este ano.
Fiquei de férias na sexta-feira passada, dia 20. O festival começou neste dia, em Porto Côvo, mas eu ainda não estava lá. Apenas dia 23 me pus a caminho, no carro do Bruno e, diga-se, até então me sentia tão em férias como uma formiga a recolher mantimentos. Nada de férias, portanto.
Quando chegámos, depois de uma série de coisas triviais e com pouca importância (se bem que a salinha da casa da dona Fernanda, onde ficaram alguns de nós, mereça um especial destaque por tão antiquada e kitsch que era), fomos logo para a praia e só aí, só ao pisar a areia da praia de Sines, me senti verdadeiramente de férias.
E foi assim que começou umas das melhores semanas da minha vida, na praia a beber um UCAL enquanto todos bebiam cerveja, a ouvir aquele que terminaria, vários dias depois, o set dos Bailarico Sofisticado no encerramento do festival - o Bob Marley, junto a várias pessoas - uns que chamava amigos, outros com quem me tinha cruzado uma ou duas vezes, outros ainda que até então eram nem uma coisa nem outra, nem peixe nem carne.
Continua.
Fiquei de férias na sexta-feira passada, dia 20. O festival começou neste dia, em Porto Côvo, mas eu ainda não estava lá. Apenas dia 23 me pus a caminho, no carro do Bruno e, diga-se, até então me sentia tão em férias como uma formiga a recolher mantimentos. Nada de férias, portanto.
Quando chegámos, depois de uma série de coisas triviais e com pouca importância (se bem que a salinha da casa da dona Fernanda, onde ficaram alguns de nós, mereça um especial destaque por tão antiquada e kitsch que era), fomos logo para a praia e só aí, só ao pisar a areia da praia de Sines, me senti verdadeiramente de férias.
E foi assim que começou umas das melhores semanas da minha vida, na praia a beber um UCAL enquanto todos bebiam cerveja, a ouvir aquele que terminaria, vários dias depois, o set dos Bailarico Sofisticado no encerramento do festival - o Bob Marley, junto a várias pessoas - uns que chamava amigos, outros com quem me tinha cruzado uma ou duas vezes, outros ainda que até então eram nem uma coisa nem outra, nem peixe nem carne.
Continua.
O aquecimento global é um mito urbano.
Está uma carrinha daquelas Volkswagen pão de forma parada em frente ao portão da casa. Não há nada de poético nisto, é apenas uma velha carroça cuja pintura está desbotada pelo sol, apesar de estar agora na moda fazer road-trips dentro de uma coisa destas, e a casa é feia, tem um friso de azulejos castanhos, a tinta dos tapa-sóis está a descascar-se, o jardim está descuidado - as plantas que deveriam viver morrem e as intrusas e penetras sobrevivem e invadem os caminhos curtos de calçada.
Não há, portanto, nada de poético nisto. É apenas mais uma casa feia, mais um jardim desarranjado, mais um carro a cair de podre.
Está um calor de amolecer ossos. Não há uma singela brisa que sopre e quebre a moleza deste calor - há, isso sim, insectos que se deixam ficar no ar, também eles com preguiça de voar, mexendo as asas com a calma de quem não tem nada para fazer. Dentro da casa está quase tanto calor quanto lá fora, é um calor horrível, que ultrapassa a dor ou a euforia.
Sente-se, aliás, como um cheiro nauseabundo, um vazio emocional muito grande - como se o calor impedisse que se sentisse ou, simplesmente, se sobrepusesse a qualquer sentimento possível.
É neste estado apoplético que partimos dentro da velha carrinha, agradavelmente surpreendidos pela corrente de ar que entra pelas janelas da pão de forma quando a pomos em movimento.
Não há, portanto, nada de poético nisto. É apenas mais uma casa feia, mais um jardim desarranjado, mais um carro a cair de podre.
Está um calor de amolecer ossos. Não há uma singela brisa que sopre e quebre a moleza deste calor - há, isso sim, insectos que se deixam ficar no ar, também eles com preguiça de voar, mexendo as asas com a calma de quem não tem nada para fazer. Dentro da casa está quase tanto calor quanto lá fora, é um calor horrível, que ultrapassa a dor ou a euforia.
Sente-se, aliás, como um cheiro nauseabundo, um vazio emocional muito grande - como se o calor impedisse que se sentisse ou, simplesmente, se sobrepusesse a qualquer sentimento possível.
É neste estado apoplético que partimos dentro da velha carrinha, agradavelmente surpreendidos pela corrente de ar que entra pelas janelas da pão de forma quando a pomos em movimento.
16.7.07
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