Creio que falar, hoje em dia, está absolutamente sobrevalorizado. Toda a gente tem uma opinião a dar, toda a gente tem sempre algo a dizer sobre alguma coisa, qualquer coisa, tudo. Algo a acrescentar mesmo quando tudo já foi dito antes por outras pessoas. O mundo não é uma coisa nova, já cá está há milhões de anos e, mesmo assim, quem vive nele e sobre ele, julga que pode mandar bitaites sobre tudo.
Falar, hoje em dia, está sobrevalorizado. Repito-o porque tenho a certeza disto.
"Já falaram?". Merda para esta pergunta. Que se foda esta pergunta. Quero lá saber. Eu não quero saber se já falámos, eu não preciso de falar porque eu já sei. Não preciso de ouvir aquilo que já sei e que já sei porque o mundo gira há muito mais tempo (mas mesmo muito mais) do que aquele que por cá ando. O que me acontece já aconteceu a outras pessoas antes, está a acontecer a muita gente agora e vai acontecer a muita gente depois de mim.
Falar está completamente sobrevalorizado. Para que preciso de ouvir outra vez o que já sei. Ou, pior, muito pior, para quê falar se me vão mentir? Ou então vão me baralhar porque se vão contradizer, vão usar palavras diferentes para encher chouriços de frases, parágrafos, discursos vazios que nada dizem, para quê ouvi-los mais uma vez? Para além do mais, tenho muito medo daquilo que poderia ouvir. A sério. Mais vale viver sem palavras, sem essas verdades absolutas que se dizem quando se abre a boca.
Há tanto para dizer sem palavras. Ouvir para além da voz, perceber-se num olhar, num abraço, num sorriso, no desespero de um telefonema. Nesse sentido, já ouvi tudo o que tenho de ouvir.
As pessoas andam demasiado taxativas: ou se fez ou não se fez, ou se disse ou não se disse, ou se quis ou se foi embora. Para quê?
Quem me pergunta se já falámos (a mesma porra repetida durante um ano inteiro, é que cansa, caramba!) nunca parou para pensar. Porque, se o fizesse, saberia - olharia para nós, aqueles que deviam falar - sem precisar que eu o dissesse. Toda a gente já o sabe. Eu já o sei.
Saber é completamente diferente de assumir. Como um cancro. A pessoa sabe que tem um cancro, sabe o que é um cancro - um monte de células estúpidas que, um dia, por não terem mais nada para fazer e por assim estar inscrito no seu código genético, desatam a multiplicar-se, sabe quem tem de fazer tratamentos (tirar cirurgicamente um cancro, radiação, químicos), sabe que, se não se tratar, ou se já for tarde demais, o cancro estará metastizado - esse monte de células estúpido decidiu emigrar e fixar-se noutros sítios do corpo. Sabe que pode ficar mal. Sabe que pode morrer. Sabe, mas não precisa necessariamente de o assumir. Nem essa pessoa nem quem a rodeia, contornando a situação com "vais ficar bem" ou "vai resultar".
Ao mesmo tempo, não assumir é diferente de estar em negação. Porque a negação implica estar dormente, a verdade rolar sobre nós como se alisasse alcatrão e não nos afectar. Negar não é fingir que não sabe. Negar é não só fingir que não sabe mas também fingir que está tudo óptimo, nunca se esteve melhor, ó para mim tão feliz. Não assumir é, simplesmente, ainda não ter desistido. É saber que há mais, muito mais, do que aquilo que falam.
Vejamos o que poderia acontecer se tivéssemos, como toda a gente quer, falado - vejamos a coisa de uma forma generalista. Eu ouviria o que queria ouvir, independentemente daquilo que tivesse ouvido, mas o que me seria dito seria também dito de forma a contornar um monte de perguntas. Perguntas que eu nunca faria porque estaria mais do que satisfeita com o que estaria a ouvir.
Por favor, párem de me perguntar se já falámos. Não falámos - falámos uma vez, e de que me serviu? - nem vamos falar.
Era criar uma coima para quem falasse quando não há nada para dizer. Era ver este mundo em silêncio. Como ia saber bem!
Learn to say the same thing
What defeats people is a double confession.
One time they will confess one thing, on the next they will confess something else.
Talk to them, they will say:
Learn to say the same thing
Let us hope fast to saying the same thing.
Never give up, no never give up
If you're looking for something easy then you might as well give it up.*
* Cat Power "Say"
24.11.07
19.10.07
A Baixa, tão cheia de luz e de pedintes romenas
É tão relativo o que e quanto se quer. Uma moeda, um tecto, uns sapatos, um livro, uma viagem, um avião particular, uma ida à Lua.
Hoje, 16 de Outubro, é o Dia Mundial da Nutrição mas na Baixa parecia o Dia Mundial da Pobreza. Fico sempre triste e incomoda-me - não o pedido desesperado, mas saber que há pessoas em condições tão precárias, mas sou de uma hipocrisia atroz. Hipócrita, é como me sinto.
Hoje, 16 de Outubro, é o Dia Mundial da Nutrição mas na Baixa parecia o Dia Mundial da Pobreza. Fico sempre triste e incomoda-me - não o pedido desesperado, mas saber que há pessoas em condições tão precárias, mas sou de uma hipocrisia atroz. Hipócrita, é como me sinto.
O grande mistério das refeições pré-congeladas do Metro.
É só isso, é para mim um grande mistério. Aquela máquina, com um vidro através do qual se vê uma espécie de distribuidor, ou dispensador, as fotografias de esparguete à bolonhesa com péssimo aspecto, o fundo azul piscina, o slogan "Leve a sua refeição num minuto" ou "O seu jantar no Metro": é tudo para mim demasiado confuso e incógnito.
Como Ofélia terá uma dia escrito a Fernando
Gostava de escrever-te uma carta. Manuscrita, na caligrafia mais bonita que conseguisse fazer, em papel pardo, para pintar com aguarela umas flores nos cantos ou fazer um friso no cabeçalho.
Penso nisso - em como começaria essa carta (o coloquial "Olá, como estás?", o afectuoso "Querido indivíduo" ou o directo "Indivíduo" seguido de uma vírgula e de uma mudança de parágrafo e, aqui, substituir indivíduo pelo teu nome, cada letra desenhada com a caneta a forçar a folha, sem rasgar). Penso nisso e penso em como começar isto (seja lá o que isto for).
Penso nisso - em como começaria essa carta (o coloquial "Olá, como estás?", o afectuoso "Querido indivíduo" ou o directo "Indivíduo" seguido de uma vírgula e de uma mudança de parágrafo e, aqui, substituir indivíduo pelo teu nome, cada letra desenhada com a caneta a forçar a folha, sem rasgar). Penso nisso e penso em como começar isto (seja lá o que isto for).
É bom conhecer-te - e é bom quando te dás a conhecer. Da mesma maneira, sabe bem ouvir as tuas confissões, os teus receios, as tuas dúvidas, as tuas crises de auto-estima, mesmo que não faças por mas contar: eu topo-as, eu leio em cada palavra tua a verdade por trás escondida. Conheço-te melhor do que toda a gente que julga conhecer-te. Sei que não tem sido fácil. Que a vida abandonou-te demasiadas vezes para que acredites nela - ou melhor, que a morte desatou demasiados laços e agora não te apetece encontrar novas fitas. Que, por vezes, olhas à volta e estás só tu, só, por tua culpa - e nesses dias, sentes-te a pior pessoa do mundo, tão nojento quanto uma barata (e, ainda assim, não sobreviverias a um ataque nuclear). Que tens medo de não estar à altura daquilo que te propões - e, provavelmente por isso, não te propões a nada.
15.10.07
Auto-biografia
Às vezes, nas pequenas coisas, regresso à infância, a uma era em que o mundo era uma ilha, uma praia, uma família e se estava tão bem assim.
Ali, mais nada era preciso: nem o amor por um outro, nem a superação cultural, nem a necessidade de valorização (própria e pelos outros), nem o sexo. Podia ser ingenuidade, por si só – não conhecer mais nada significava não querer mais nada e o mar limítrofe daquele rectângulo isolado ser suficiente para aquilo que se conhecia. Os carrinhos de choque no Natal, o fogo de artifício no fim do ano, os disfarces no Carnaval, as flores e os passeios ao Parque de Santa Catarina na Primavera, a praia, o mar e Ponta Delgada no Verão. Os primos que iam e vinham, cruzando o mar de avião para passar as férias, os tios afastados que vinham por longas temporadas, que eu nunca reconhecia como tais (e de quem, durante os anos de distância, acabava por me esquecer), as férias de quinze dias num país a nove horas de distância.
Nunca ninguém tentou esconder-me nada, muito pelo contrário: empurraram-me para a estante da minha mãe desde cedo e eu li. Li muito, de luz quase apagada, o corpo quase a fazer o pino, os braços a doer por estarem a agarrar o livro, li em todo o lado, a qualquer hora, e li de tudo. Escolhi ler muito livro horrível na vida (que eu própria arranjava, raramente eram da estante da minha mãe), e até gostava por contarem uma bela história de amor lamechas e piegas e estúpida, sobretudo estúpida. Tem graça pensar nisto assim porque, à distância, todos os livros que me custaram mais a ler quando era miúda (O Principezinho, Papalagui, Robinson Crusoé, os livros do Dickens, por exemplo), são os livros que agora me trazem uma saudade enorme e uma imensa vontade de redescobri-los. Por volta dos dez anos, ou lá o que foi, li A Tulipa Negra do Dumas e A Volta ao Mundo em 80 Dias do Júlio Verne e comecei a ler outros livros deles, e dizia, quase inocentemente – nunca se é inocente em nada, nem aos dez anos – que eram os meus escritores favoritos. E, a partir daí, reconheço-o, comecei a ler a sério, mais por vontade de ser uma melhor leitora do que pelo livro em si. Ou, por outra, lia mais pelo prazer de ler do que pela fruição do livro.
No fundo, sempre quis imaginar. Criar um mundo e outro dentro do meu mundo, criar uma ilha sobre a minha ilha. Conceber um espaço que fosse para além do mar que rodeava os quatro pontos cardeais. Ser mais do que um ilhéu em contínuo contentamento com o que estava diante dos seus olhos. Talvez por isso tenha crescido e me tornado tão complicada, tão preocupada com as minudências da vida que quase que não me consigo encantar com o que vejo.
Mas não, é provavelmente errado pensar isso de mim. Nada me faz mais feliz do que as pequenas coisas da vida, aquelas que me fazem regressar a essa infância. Essas pequenas coisas que vejo, todos os dias, e que me lembram sempre que sou eu mas, na essência, sou eu e o mundo inteiro dentro de mim, pronto a implodir e a precipitar em instantes.
Raramente me satisfaço com a satisfação e nunca consegui ser feliz no contentamento. Por isso tantas vezes escrevi que a minha felicidade é um momento, breve, frágil, perene - quanto mais o agarro, menos o possuo.
É como se nem todos os seres humanos tivessem vindo à Terra para serem felizes, e com isso lido eu muito bem.
Ali, mais nada era preciso: nem o amor por um outro, nem a superação cultural, nem a necessidade de valorização (própria e pelos outros), nem o sexo. Podia ser ingenuidade, por si só – não conhecer mais nada significava não querer mais nada e o mar limítrofe daquele rectângulo isolado ser suficiente para aquilo que se conhecia. Os carrinhos de choque no Natal, o fogo de artifício no fim do ano, os disfarces no Carnaval, as flores e os passeios ao Parque de Santa Catarina na Primavera, a praia, o mar e Ponta Delgada no Verão. Os primos que iam e vinham, cruzando o mar de avião para passar as férias, os tios afastados que vinham por longas temporadas, que eu nunca reconhecia como tais (e de quem, durante os anos de distância, acabava por me esquecer), as férias de quinze dias num país a nove horas de distância.
Nunca ninguém tentou esconder-me nada, muito pelo contrário: empurraram-me para a estante da minha mãe desde cedo e eu li. Li muito, de luz quase apagada, o corpo quase a fazer o pino, os braços a doer por estarem a agarrar o livro, li em todo o lado, a qualquer hora, e li de tudo. Escolhi ler muito livro horrível na vida (que eu própria arranjava, raramente eram da estante da minha mãe), e até gostava por contarem uma bela história de amor lamechas e piegas e estúpida, sobretudo estúpida. Tem graça pensar nisto assim porque, à distância, todos os livros que me custaram mais a ler quando era miúda (O Principezinho, Papalagui, Robinson Crusoé, os livros do Dickens, por exemplo), são os livros que agora me trazem uma saudade enorme e uma imensa vontade de redescobri-los. Por volta dos dez anos, ou lá o que foi, li A Tulipa Negra do Dumas e A Volta ao Mundo em 80 Dias do Júlio Verne e comecei a ler outros livros deles, e dizia, quase inocentemente – nunca se é inocente em nada, nem aos dez anos – que eram os meus escritores favoritos. E, a partir daí, reconheço-o, comecei a ler a sério, mais por vontade de ser uma melhor leitora do que pelo livro em si. Ou, por outra, lia mais pelo prazer de ler do que pela fruição do livro.
No fundo, sempre quis imaginar. Criar um mundo e outro dentro do meu mundo, criar uma ilha sobre a minha ilha. Conceber um espaço que fosse para além do mar que rodeava os quatro pontos cardeais. Ser mais do que um ilhéu em contínuo contentamento com o que estava diante dos seus olhos. Talvez por isso tenha crescido e me tornado tão complicada, tão preocupada com as minudências da vida que quase que não me consigo encantar com o que vejo.
Mas não, é provavelmente errado pensar isso de mim. Nada me faz mais feliz do que as pequenas coisas da vida, aquelas que me fazem regressar a essa infância. Essas pequenas coisas que vejo, todos os dias, e que me lembram sempre que sou eu mas, na essência, sou eu e o mundo inteiro dentro de mim, pronto a implodir e a precipitar em instantes.
Raramente me satisfaço com a satisfação e nunca consegui ser feliz no contentamento. Por isso tantas vezes escrevi que a minha felicidade é um momento, breve, frágil, perene - quanto mais o agarro, menos o possuo.
É como se nem todos os seres humanos tivessem vindo à Terra para serem felizes, e com isso lido eu muito bem.
1.10.07
Sapos
No Outono lembro-me de apanhar sapos (pequenos como besouros) junto às fontes e aos bebedouros. O primo António, miúdo catita de ideias rápidas e sorriso expressivo, ficava sempre muito desiludido porque os tais anfíbios tinham um ar mais ternurento do que nojento e ele não conseguia assustar-nos com os bicharocos. Ainda assim, meninas como éramos, soltávamos gritinhos de excitação, enquanto chapinhávamos nas poças lodacentas para tentar apanhá-los.
E como pulavam, os estuporezinhos, olhando-nos de lado como a desafiar-nos.
Apanhávamo-los com copos, roubados à sucapa da cozinha, e acabávamos a caça - num sentido figurativo, pois obviamente soltávamos as pobres criaturas quando nos chamavam para o lanche, hora oficial para o fim das brincadeiras na fazenda - com as calças ou collants tornadas castanhas pelo menos até ao joelho e os bibes enlameados, os sapos em copos virados ao contrário, alinhados no muro que separava o casario da quinta ao lado
com terrenos a perder de vista e os telhados da casa grande entre a copa das árvores
e depois - como se ganhássemos asco repentino àquela pele lisa e húmida ou aos olhos esbugalhados dos sapos - jogávamos ao par ou ímpar para decidir quem soltava os sapos na levada.
Uma vez, em que estavam oito sapos à espera da liberdade, fiquei eu responsável por os soltar. Tudo correra bem até ao sétimo sapo, quando o último
e eu que estava com a cabeça distraída, com a cabeça no chocolate quente e no pão-de-ló que me esperava sobre a toalha aos quadrados da mesa da cozinha, e que, por cada sapo que soltava, pensava o quanto preferia estar a ouvir os gritos da mãe enquanto nos encontrava, a mim e aos meus irmãos, naquela figura, que todos os dias se repetia - como a gritaria, os castigos, os banhos antes de lanchar (quando a fome era mais que muita)
quando o último sapo, assustado, dá um salto pequeno e cai-me no pé e depois salta-me para a saia e para o bibe, e todos fugindo em crescente berreiro, os mais novos choravam - sem eu perceber bem se pelo sapo atarantado se pelo meu infortúnio - e as mães saíram, pensando que algum de nós já devia ter que ir ao hospital.
A minha mãe encontrou-me sem roupa, com os olhos dos primos postos em mim, apenas de cuecas, meias e botins, e o meu corpo esguio, com os mamilos que os miúdos nunca tinham visto antes, escorrendo água e o diabo do sapo saltando sobre o bibe.
Nunca dantes o percebera, só agora o percebi, porque é que nessa noite não lanchei com a família toda nem jantei nem fui mais apanhar sapos para o poço da fazenda.
Um corpo de criança quer-se plano como uma folha de videira e o meu, nessa tarde, mostrava claramente que deixava de o ser.
Como disse a minha avó, quando lá foi a costureira dias depois "a gente nem dá por elas, mas quando vai ver estão feitas mulheres". Juro que pensei que ela estava a falar na minha prima que se ia casar.
E como pulavam, os estuporezinhos, olhando-nos de lado como a desafiar-nos.
Apanhávamo-los com copos, roubados à sucapa da cozinha, e acabávamos a caça - num sentido figurativo, pois obviamente soltávamos as pobres criaturas quando nos chamavam para o lanche, hora oficial para o fim das brincadeiras na fazenda - com as calças ou collants tornadas castanhas pelo menos até ao joelho e os bibes enlameados, os sapos em copos virados ao contrário, alinhados no muro que separava o casario da quinta ao lado
com terrenos a perder de vista e os telhados da casa grande entre a copa das árvores
e depois - como se ganhássemos asco repentino àquela pele lisa e húmida ou aos olhos esbugalhados dos sapos - jogávamos ao par ou ímpar para decidir quem soltava os sapos na levada.
Uma vez, em que estavam oito sapos à espera da liberdade, fiquei eu responsável por os soltar. Tudo correra bem até ao sétimo sapo, quando o último
e eu que estava com a cabeça distraída, com a cabeça no chocolate quente e no pão-de-ló que me esperava sobre a toalha aos quadrados da mesa da cozinha, e que, por cada sapo que soltava, pensava o quanto preferia estar a ouvir os gritos da mãe enquanto nos encontrava, a mim e aos meus irmãos, naquela figura, que todos os dias se repetia - como a gritaria, os castigos, os banhos antes de lanchar (quando a fome era mais que muita)
quando o último sapo, assustado, dá um salto pequeno e cai-me no pé e depois salta-me para a saia e para o bibe, e todos fugindo em crescente berreiro, os mais novos choravam - sem eu perceber bem se pelo sapo atarantado se pelo meu infortúnio - e as mães saíram, pensando que algum de nós já devia ter que ir ao hospital.
A minha mãe encontrou-me sem roupa, com os olhos dos primos postos em mim, apenas de cuecas, meias e botins, e o meu corpo esguio, com os mamilos que os miúdos nunca tinham visto antes, escorrendo água e o diabo do sapo saltando sobre o bibe.
Nunca dantes o percebera, só agora o percebi, porque é que nessa noite não lanchei com a família toda nem jantei nem fui mais apanhar sapos para o poço da fazenda.
Um corpo de criança quer-se plano como uma folha de videira e o meu, nessa tarde, mostrava claramente que deixava de o ser.
Como disse a minha avó, quando lá foi a costureira dias depois "a gente nem dá por elas, mas quando vai ver estão feitas mulheres". Juro que pensei que ela estava a falar na minha prima que se ia casar.
23.9.07
Cinquenta cêntimos vs Oeste
Que eu gosto do Kanye West é uma fava contada, portanto é com alegria que recebo a notícia das vendas do Graduation terem sido maiores do que as do Curtis, álbum do gajo-que-foi-baleado-nove-vezes-e-sobreviveu. Polémicas (e necessidade de protagonismo) à parte, ambos têm mais em comum do que a cor da pele e a secção da loja de discos onde se encontram os seus álbuns.
Não consigo deixar de fazer-vos notar que "I'm tired of using technology, won't you come sit on top of me", versos de AYO Technology, um dos singles que 50 Cent lançou, e em que partilha o papel principal com o Justin Timberlake, e "I need you to hurry up now 'cause I can't wait much longer", do single Stronger, do Kanye, têm em comum a temática - autoritarismo e desejo sexual, mas partilham também oportunismo. 50 aproveitou-se do Justin Timberlake, cantor pop de quem tem sido permitido gostar e comprar disco (o que o deve, não só ao seu falsete, mas também a Timbaland - ó-ó, devo falar de oportunismo outra vez?). Kanye aproveitou a onda French Kiss, com os Justice a pôrem o nome Daft Punk na boca do mundo mesmo que estes nem tenham lançado nada de novo - ok, a ver se me faço compreender agora: os Daft Punk não precisam que ninguém fale neles, bastou-lhes fazerem discos memoráveis e terem um dos melhores vídeos de sempre (Around the World, do Gondry) para jamais serem olvidados, mas já os Justice precisam de ter um nome como os Daft Punk por trás para que alguém fale neles (hm, e um bom vídeo também). Stronger sampla a Harder, better, faster, stronger, num ano em que anda toda a gente com saudades dos Daft Punk, e segue, criteriosa e detalhadamente, a linha estética gaulesa da Ed Banger.
Nada de novo, portanto. O Graduation é um disco bom, apenas bom. O Curtis não ouvi, mas aposto que é pior.
Não consigo deixar de fazer-vos notar que "I'm tired of using technology, won't you come sit on top of me", versos de AYO Technology, um dos singles que 50 Cent lançou, e em que partilha o papel principal com o Justin Timberlake, e "I need you to hurry up now 'cause I can't wait much longer", do single Stronger, do Kanye, têm em comum a temática - autoritarismo e desejo sexual, mas partilham também oportunismo. 50 aproveitou-se do Justin Timberlake, cantor pop de quem tem sido permitido gostar e comprar disco (o que o deve, não só ao seu falsete, mas também a Timbaland - ó-ó, devo falar de oportunismo outra vez?). Kanye aproveitou a onda French Kiss, com os Justice a pôrem o nome Daft Punk na boca do mundo mesmo que estes nem tenham lançado nada de novo - ok, a ver se me faço compreender agora: os Daft Punk não precisam que ninguém fale neles, bastou-lhes fazerem discos memoráveis e terem um dos melhores vídeos de sempre (Around the World, do Gondry) para jamais serem olvidados, mas já os Justice precisam de ter um nome como os Daft Punk por trás para que alguém fale neles (hm, e um bom vídeo também). Stronger sampla a Harder, better, faster, stronger, num ano em que anda toda a gente com saudades dos Daft Punk, e segue, criteriosa e detalhadamente, a linha estética gaulesa da Ed Banger.
Nada de novo, portanto. O Graduation é um disco bom, apenas bom. O Curtis não ouvi, mas aposto que é pior.
[Lisbowood]
Poderia começar: Imagino um filme em transe e por trás música trance, luzes, efeitos de luzes e fumos, o corpo descontrolado num corredor onde pessoas, homens e mulheres, mulheres e mulheres, homens e homens se beijam. Beijos molhados à la Shortbus, beijos com o corpo todo - as mãos, as víseceras, os pénis e clítoris, roupas que caem pelo chão, uma por uma, peça a peça, depressa.
Poucas expressões me irritam tanto como à la. Acabei de usá-la, bem sei. É um estrangeirismo incomodativo: ó sim, a crítica de estrangeirismos que passa metade da vida a falar em francês, inglês ou castelhano. Não posso criticar ninguém porque eu própria faço tudo aquilo que me irrita. E continuo a criticar, o que é surpreendente.
VOltando ao filme. Afinal não passa música trance, mas passa Von Südenfed na discoteca de paredes sujas. A rapariga que circula - um autêntico lugar-comum, numa má trip, aliás, numa péssima trip, a miúda de franja e cabelo castanho claro, cortado a direito nos ombros, o corpo ossudo e longilíneo - dá encontrões aos casais encostados à parede (alguns nem casais são, são grupos de três ou quatro pessoas, de afectos misturados). Falta-lhe nitidamente alguém - como se tivesse alimentado o corpo e faltasse alimentar o espírito. Um rapaz agarra-a, tem grande parte dos dentes podres mas uns olhos extremamente profundos e tenta beijá-la. Ela nem o vê nem o sente imediatamente, quando o faz, só a boca está ao alcance do olhar - os dentes negros, a halitose, os buracos pela falta de peças dentárias. Ela contrai-se num espasmo - primeiro pensa-se que é a dançar, como que a provocá-lo, depois não, é um espasmo emético, um vómito biliar, de dentro de si para o chão [agora ainda mais] imundo, para logo ser pisado por pés e espalhar-se pelo pavimento, em pegadas progressivamente mais finas, até se diluir com o visco que cobre a alcatifa.
Poderia começar assim, e continuar, com um olho nos últimos filmes que vi, e os dedos no últimos livros que li. Os ouvidos certamente presos às Tromatic Reflexxions, que me fazem pensar em sub-woofers e na necessidade imperiosa de ter, em Lisboa, um sistema de som decente, onde se oiça cada som, cada vibração, para que as paredes dancem, estalem e caiam objectos ao chão e toda a casa me persiga e, em vez de uma discoteca suja, onde há suor e droga a mais, por onde passeio o corpo e abano os membros - também eu longilínea e ossuda, embora sem franja e com o cabelo escadeado. A casa cada vez mais estreita contraindo-se em meu redor, para logo asfixiar-me em tinta branca e betão armado. A casa impecavelmente limpa, arrumada, numa organização sem par em qualquer outra área da minha vida - o resto é sempre o caos, com as ideias por arrumar, os amores por perceber, os laços por atar.
Os posts grandes onde alinho ideias que só fazem sentido agora - as ideias, boas ou más, só aparecem uma vez. Também é assim com tudo o resto: a vida é uma metáfora de si mesma; o simbolismo dos exemplos são sentidos práticos de factos acontecidos ou por acontecer. Uma má trip - ou um mau dia, se é que eles existem. Tromatic Reflexxions: faz-me sorrir, parece que hoje tudo encaixa, tudo se encadeia. Finalmente. Não há coisas más, nem acontecimentos maus nem más trips, nem nada. Há lugares traumáticos (lugares, num sentido lato, de tive este momento, estive ali, com tal pessoa, a fazer tal coisa) e lugares agradáveis, a que- nem que seja com a memória - queremos voltar.
Poderia acabar: ela deitou-se, ou caíu, e acabou por adormecer (ou ficar inconsciente). Foi um final feliz.
Poucas expressões me irritam tanto como à la. Acabei de usá-la, bem sei. É um estrangeirismo incomodativo: ó sim, a crítica de estrangeirismos que passa metade da vida a falar em francês, inglês ou castelhano. Não posso criticar ninguém porque eu própria faço tudo aquilo que me irrita. E continuo a criticar, o que é surpreendente.
VOltando ao filme. Afinal não passa música trance, mas passa Von Südenfed na discoteca de paredes sujas. A rapariga que circula - um autêntico lugar-comum, numa má trip, aliás, numa péssima trip, a miúda de franja e cabelo castanho claro, cortado a direito nos ombros, o corpo ossudo e longilíneo - dá encontrões aos casais encostados à parede (alguns nem casais são, são grupos de três ou quatro pessoas, de afectos misturados). Falta-lhe nitidamente alguém - como se tivesse alimentado o corpo e faltasse alimentar o espírito. Um rapaz agarra-a, tem grande parte dos dentes podres mas uns olhos extremamente profundos e tenta beijá-la. Ela nem o vê nem o sente imediatamente, quando o faz, só a boca está ao alcance do olhar - os dentes negros, a halitose, os buracos pela falta de peças dentárias. Ela contrai-se num espasmo - primeiro pensa-se que é a dançar, como que a provocá-lo, depois não, é um espasmo emético, um vómito biliar, de dentro de si para o chão [agora ainda mais] imundo, para logo ser pisado por pés e espalhar-se pelo pavimento, em pegadas progressivamente mais finas, até se diluir com o visco que cobre a alcatifa.
Poderia começar assim, e continuar, com um olho nos últimos filmes que vi, e os dedos no últimos livros que li. Os ouvidos certamente presos às Tromatic Reflexxions, que me fazem pensar em sub-woofers e na necessidade imperiosa de ter, em Lisboa, um sistema de som decente, onde se oiça cada som, cada vibração, para que as paredes dancem, estalem e caiam objectos ao chão e toda a casa me persiga e, em vez de uma discoteca suja, onde há suor e droga a mais, por onde passeio o corpo e abano os membros - também eu longilínea e ossuda, embora sem franja e com o cabelo escadeado. A casa cada vez mais estreita contraindo-se em meu redor, para logo asfixiar-me em tinta branca e betão armado. A casa impecavelmente limpa, arrumada, numa organização sem par em qualquer outra área da minha vida - o resto é sempre o caos, com as ideias por arrumar, os amores por perceber, os laços por atar.
Os posts grandes onde alinho ideias que só fazem sentido agora - as ideias, boas ou más, só aparecem uma vez. Também é assim com tudo o resto: a vida é uma metáfora de si mesma; o simbolismo dos exemplos são sentidos práticos de factos acontecidos ou por acontecer. Uma má trip - ou um mau dia, se é que eles existem. Tromatic Reflexxions: faz-me sorrir, parece que hoje tudo encaixa, tudo se encadeia. Finalmente. Não há coisas más, nem acontecimentos maus nem más trips, nem nada. Há lugares traumáticos (lugares, num sentido lato, de tive este momento, estive ali, com tal pessoa, a fazer tal coisa) e lugares agradáveis, a que- nem que seja com a memória - queremos voltar.
Poderia acabar: ela deitou-se, ou caíu, e acabou por adormecer (ou ficar inconsciente). Foi um final feliz.
6.9.07
A roupa da Kate Moss
Este Verão andei completamente desligada do computador (uma benção, digo eu), mas sempre que vinha ver os mails tinha um mail da Topshop, porque estou inscrita na mailing list. A Topshop é uma cadeia de lojas inglesa, com lojas por muito lado excepto Portugal e com colecções do melhor que existe - roupas com carisma, distintas e cheias de estilo.
Como era a minha correspondente virtual mais assídua, acho que posso considerar a Topshop a minha melhor amiga virtual de Agosto de 2007. Entretanto, chegou a colecção da Kate Moss para o frio que se avizinha - honestamente, e pondo de parte o que ela usa no nariz, a Kate Moss é uma czar dos trapinhos.
A ver aqui!!!
Quem me dera: o cachecol às riscas, o vestido azul, a camisola às riscas rosa e preta com remates cinzento.
E saibam que o meu apreciado cinzento é a cor da estação.
P.S. Desumanos goes Vogue.
Como era a minha correspondente virtual mais assídua, acho que posso considerar a Topshop a minha melhor amiga virtual de Agosto de 2007. Entretanto, chegou a colecção da Kate Moss para o frio que se avizinha - honestamente, e pondo de parte o que ela usa no nariz, a Kate Moss é uma czar dos trapinhos.
A ver aqui!!!
Quem me dera: o cachecol às riscas, o vestido azul, a camisola às riscas rosa e preta com remates cinzento.
E saibam que o meu apreciado cinzento é a cor da estação.
P.S. Desumanos goes Vogue.
28.8.07
Quizás (ou uma conversa numa canção)
Maybe the sun will shine today
The clouds will blow away
Maybe I won't feel so afraid
I will try to understand either way
Maybe you still love me maybe you don't
Either you will or you won't
Maybe you just need some time alone
I will try to understand
Everything has its plan
Either way I'm going to stay right for you
Maybe the sun will shine today
The clouds will roll away
Maybe I won't be so afraid
I will understand
Everything has its plan either way
:)
Wilco :: Either way :: Sky Blue Sky
The clouds will blow away
Maybe I won't feel so afraid
I will try to understand either way
Maybe you still love me maybe you don't
Either you will or you won't
Maybe you just need some time alone
I will try to understand
Everything has its plan
Either way I'm going to stay right for you
Maybe the sun will shine today
The clouds will roll away
Maybe I won't be so afraid
I will understand
Everything has its plan either way
:)
Wilco :: Either way :: Sky Blue Sky
Como é bom, como é bom.
Como é bom não ter palavras para descrever nada disto, nem a minha cabeça no teu colo, nem as tuas mãos no meu cabelo, nem os nossos beijos ou sorrisos sincronizados. Como é bom estar tranquilamente a ver isto acontecer-nos de novo.
Como diz o Jeff Tweedy, happenstances have changed my plans so many times e como é bom não ter sabido nem conseguido prever nada disto, como é bom, como é bom.

i will live in you
or you will live in me
until we disappear
together in a dream
(...)
on and on and on
we'll be together yeah
on and on and on
on and on and on
we're going to try
(...)
you and i
we'll stay together yeah
you and i will try
to make it better yeah
Wilco :: Sky Blue Sky
Como diz o Jeff Tweedy, happenstances have changed my plans so many times e como é bom não ter sabido nem conseguido prever nada disto, como é bom, como é bom.
i will live in you
or you will live in me
until we disappear
together in a dream
(...)
on and on and on
we'll be together yeah
on and on and on
on and on and on
we're going to try
(...)
you and i
we'll stay together yeah
you and i will try
to make it better yeah
Wilco :: Sky Blue Sky
8.8.07
Caruncho e uma recuperação da madrugada
Às vezes penso seriamente se tenho caruncho na cabeça. Ando a mil, mesmo em férias, e o sistema não pára nunca de carburar, de apagar, de inserir - até me dá para fazer analogias com informática.
Falei dela aqui. E hoje, depois de um burguês passeio de veleiro, é esta canção que não me deixa em paz e o maldito verso "ooh are you the one i've been waiting for?", uma merda de pergunta que me tenho feito mil vezes de há uns tempos para cá, uma pergunta tão simples que imediatamente se complica quando custa ao questionado dar uma resposta como deve ser.
Às vezes penso seriamente que tenho caruncho na cabeça - mas o pior é que não estou sozinha, andamos todos cheios de caruncho. Que o nosso cérebro não se desfaça dos furos.
Falei dela aqui. E hoje, depois de um burguês passeio de veleiro, é esta canção que não me deixa em paz e o maldito verso "ooh are you the one i've been waiting for?", uma merda de pergunta que me tenho feito mil vezes de há uns tempos para cá, uma pergunta tão simples que imediatamente se complica quando custa ao questionado dar uma resposta como deve ser.
Às vezes penso seriamente que tenho caruncho na cabeça - mas o pior é que não estou sozinha, andamos todos cheios de caruncho. Que o nosso cérebro não se desfaça dos furos.
Da noite
Naquele dia de que não me lembro de ter sido dia, o dia de noite eterna, o dia inerte, escuro, cinzento e frio, eu estava só. Consigo precisar onde andavam todos os outros e eu também, amolecida em tédio de viver no sofá, com a televisão desligada. O silêncio e a falta de luz e aquele instante exacto, nem antes nem depois, em que desejei morrer para nunca mais sentir uma dor tão grande como aquela, uma dor que não passava com analgésicos, uma dor que sangrava sem pingar o chão, só os meus sonhos por terra, um por um e depois todos juntos, troçando primeiro das minhas lágrimas, depois, à medida que iam secando, juntando-se nas cordas vocais, eu afónica, depois na traqueia, eu apneica, dispneica, e aquela dor que me batia e me empurrava. A dor cada vez maior e os olhos secos, e a dor de cabeça que me encostou a um canto do corredor, eu pequena, minúscula, ocupando um espaço de nada em casa, na cidade, na Terra, um grão de pó contra as paredes vazias, e a pancada que continuava e as gargalhadas que ouvia e eu, finalmente cansada, finalmente adormecida sobre o soalho, enrolada sobre mim mesma, gélida por dentro e por fora.
Mas viva.
Mas viva.
7.8.07
FMM :: O primeiro dia no Castelo - ou um exercício de memória
Apetece-me começar este post com um cliché gigantesco, daqueles clichés que por serem tão clichés irritam, começar, por exemplo, com a frase "a memória prega-nos partidas". A memória prega-nos partidas- a memória é tão conveniente - e eu não me lembro bem de como começou a minha quarta-feira em Sines. Sei que estive na praia, com uma ansiedade maior do que o normal por começarem nesse dia concertos no espaço épico e acolhedor que é o Castelo. Também sei que o Dário e a Joana chegaram neste dia, e a Tânia e o Jorge. Lembro-me ainda que jantámos na garagem que já não é uma garagem e tem cadeiras de design - e lembro-me que na garagem bebi vinho e já cheguei etérea (ou etanólica?) ao Castelo. E lembro-me que entrei com o meu passe catita (obrigada, Vítor) naquele espaço que, apesar de não ser - e ter-se provado insuficiente para a enchente de sábado -, pareceu-me, pelo menos naqueles dias, com um lar. Que bela imagem, o Castelo de Sines como o meu lar.
Há uma certeza: Trilok Gurtu, diziam-me, tinha sido dos melhores concertos do FMM de 2006 e voltou a sê-lo este ano. Sem qualquer espécie de dúvida. Acompanhado de excelentes músicos, mas sem nunca perder o protagonismo, é capaz de fazer música e gerar ritmo de qualquer coisa que faça barulho. Um indiano que parece ter crescido no meio de Bollywood e amadurecido num qualquer clube de Nova Orleães: é obra, não sei se exclusiva, mas pelo menos peculiar. Baldes de água e vassouras e logo uma dança, uma batida contagiante e uma felicidade imensa. Estrondoso concerto, daqueles para o top 5, porque foi realmente bom e porque eu sou uma curiosa e acho que a música deve nascer de qualquer som - até do simples bater das teclas do portátil da minha mãe.
[Ora pois que se até agora não estava verdadeiramente alcoolizada, apenas algo ébria e feliz, tenho que o confessar, depois do concerto de Trilok Gurtu já estava - e bem. Aqui a memória trai-me e é por culpa, não de esquemas subterfugidios freudianos, mas sim da cerveja Super Bock que escorria dos barris como se de um riacho se tratasse.]
Acho que não assisti ao início do concerto dos Bellowhead. Acho, pois. Se assisti, desculpem lá, mas não achei grande coisa: estava mais interessada em concluir que a Lua no sábado estaria a rebentar de tão cheia (e estava, de facto). O que é facto, e não há imperial que o contradiga, é que os Bellowhead foram-me conquistando e, lá para o meio do concerto, entre uma ou outra música dignas, e não o digo como elogio, de um espectáculo Eurovisão (comparação para a qual contribuía o visual à The Hives da quantidade enorme de músicos em palco, qual Broken Social Scene da world), eu era pulos e festa e abraços e alegria. Mais um concerto que veio confirmar a minha bem provável costela bretã e mais um concerto a figurar, surpreendentemente, entre aqueles que melhores - e reparem na ironia- recordações me deixaram. De forma puramente matemática, Bellowhead = festa pela certa. Não os percam, nem que seja através de vídeos no youtube.
Falou-se de alma há alguns posts atrás. Alma, essa entidade secreta que sentimos existir mas não o conseguimos provar a quem nunca a sentiu. A alma em Sines fervilha, bem como todas as partes que fazem de nós seres humanos, e foi a alma que foi tocada durante o concerto da Oumou Sangaré, essa voz do Mali que me pôs as emoções à flor da pele - quase literalmente: o coração que batia mais depressa, as lágrimas pelo rosto abaixo, mãos dadas, abraços e beijos, a descoberta de almas gémeas e afins. Coisas boas. Oumou é soul e é afrobeat e eu não creio que haja algo mais tocante do que juntar o toque da alma com o movimento do corpo, quando é feito deste modo tão sentimental, tão cheio de entrega. Merecia a lua mais cheia (e o copo também).
Eu devia agora falar da Oki Dub Ainu Band mas assumo a minha incompetência para o all the matters dub-related: a paciência esgotou-se ao fim de duas canções e fui descansar (ou beber mais? não me lembro) para o set do António Pires (um amor de senhor com ésse grande, quase meu pai musical no que à world diz respeito - o blog é obrigatório - e com quem partilhei o tecto, a sala de fumo, cervejas e copos de vinho a todas as horas possíveis do dia, ensaios de set e muita, muita conversa - um privilégio, só vos digo) e do Gonçalo Frota. Um mimo que me levou para a cama já o Sol tinha nascido há muito.
Se a memória não me trai, foi neste dia que percebi que Sines não é só amor; Sines é o Amor a acontecer. Se a memória não me trai, pensei "como prometem os dias seguintes no Castelo e Avenida da Praia!" (ok, não pensei por estas palavras, mas vocês percebem-me.)
Continua.
P.S. Por falar em António, não percam as Gamíadas, esse poema épico sobre um grupo de 20 tresloucados amigos, eternamente apaixonados por música, que atracaram no Porto de Sines para pertencer à festa da música mais bonita do país: aqui, os primeiros actos, acoli o segundo, e infelizmente último, acto da saga.
Há uma certeza: Trilok Gurtu, diziam-me, tinha sido dos melhores concertos do FMM de 2006 e voltou a sê-lo este ano. Sem qualquer espécie de dúvida. Acompanhado de excelentes músicos, mas sem nunca perder o protagonismo, é capaz de fazer música e gerar ritmo de qualquer coisa que faça barulho. Um indiano que parece ter crescido no meio de Bollywood e amadurecido num qualquer clube de Nova Orleães: é obra, não sei se exclusiva, mas pelo menos peculiar. Baldes de água e vassouras e logo uma dança, uma batida contagiante e uma felicidade imensa. Estrondoso concerto, daqueles para o top 5, porque foi realmente bom e porque eu sou uma curiosa e acho que a música deve nascer de qualquer som - até do simples bater das teclas do portátil da minha mãe.
[Ora pois que se até agora não estava verdadeiramente alcoolizada, apenas algo ébria e feliz, tenho que o confessar, depois do concerto de Trilok Gurtu já estava - e bem. Aqui a memória trai-me e é por culpa, não de esquemas subterfugidios freudianos, mas sim da cerveja Super Bock que escorria dos barris como se de um riacho se tratasse.]
Acho que não assisti ao início do concerto dos Bellowhead. Acho, pois. Se assisti, desculpem lá, mas não achei grande coisa: estava mais interessada em concluir que a Lua no sábado estaria a rebentar de tão cheia (e estava, de facto). O que é facto, e não há imperial que o contradiga, é que os Bellowhead foram-me conquistando e, lá para o meio do concerto, entre uma ou outra música dignas, e não o digo como elogio, de um espectáculo Eurovisão (comparação para a qual contribuía o visual à The Hives da quantidade enorme de músicos em palco, qual Broken Social Scene da world), eu era pulos e festa e abraços e alegria. Mais um concerto que veio confirmar a minha bem provável costela bretã e mais um concerto a figurar, surpreendentemente, entre aqueles que melhores - e reparem na ironia- recordações me deixaram. De forma puramente matemática, Bellowhead = festa pela certa. Não os percam, nem que seja através de vídeos no youtube.
Falou-se de alma há alguns posts atrás. Alma, essa entidade secreta que sentimos existir mas não o conseguimos provar a quem nunca a sentiu. A alma em Sines fervilha, bem como todas as partes que fazem de nós seres humanos, e foi a alma que foi tocada durante o concerto da Oumou Sangaré, essa voz do Mali que me pôs as emoções à flor da pele - quase literalmente: o coração que batia mais depressa, as lágrimas pelo rosto abaixo, mãos dadas, abraços e beijos, a descoberta de almas gémeas e afins. Coisas boas. Oumou é soul e é afrobeat e eu não creio que haja algo mais tocante do que juntar o toque da alma com o movimento do corpo, quando é feito deste modo tão sentimental, tão cheio de entrega. Merecia a lua mais cheia (e o copo também).
Eu devia agora falar da Oki Dub Ainu Band mas assumo a minha incompetência para o all the matters dub-related: a paciência esgotou-se ao fim de duas canções e fui descansar (ou beber mais? não me lembro) para o set do António Pires (um amor de senhor com ésse grande, quase meu pai musical no que à world diz respeito - o blog é obrigatório - e com quem partilhei o tecto, a sala de fumo, cervejas e copos de vinho a todas as horas possíveis do dia, ensaios de set e muita, muita conversa - um privilégio, só vos digo) e do Gonçalo Frota. Um mimo que me levou para a cama já o Sol tinha nascido há muito.
Se a memória não me trai, foi neste dia que percebi que Sines não é só amor; Sines é o Amor a acontecer. Se a memória não me trai, pensei "como prometem os dias seguintes no Castelo e Avenida da Praia!" (ok, não pensei por estas palavras, mas vocês percebem-me.)
Continua.
P.S. Por falar em António, não percam as Gamíadas, esse poema épico sobre um grupo de 20 tresloucados amigos, eternamente apaixonados por música, que atracaram no Porto de Sines para pertencer à festa da música mais bonita do país: aqui, os primeiros actos, acoli o segundo, e infelizmente último, acto da saga.
1.8.07
FMM :: a segunda noite de concertos no Centro de Artes (Fast Forward >>)
Sines não são só concertos e praia, aliás, falar de Sines e só referir os concertos e a praia é como deixar a missa a metade. Sines é também aquele grupo de pessoas com quem partilhámos os roncos, os copos de cerveja - e consequente as bebedeiras -, as saladas de pimentos, os mergulhos no mar gelado, as danças e as coreografias, os jogos de matrecos, os coros e as palmas, as gargalhadas, os bons dias, os fanatismos, o polvo e os búzios, as listas de melhores e piores concertos, os croissants mistos tostados nos Galegos, os metros quadrados de areia.
A Petra, por exemplo, faz uma feijoada vegetariana que é de chorar por mais (para além das suas outras qualidades que noutra ocasião poderei realçar). Foi para bem saborear a sua feijoada que por pouco não perdemos o concerto da Lula Pena - ouvimos três canções. E que bonitas que eram! Continua a fazer a sua fusão de poesia cantada com canção falada, viajando entre o fado, a cantautoria, a bossanova, com pitadas de tudo aquilo que absorve e vai vivendo. Ouvimo-la cantar - e ela respira Lisboa - juntar versos de Culture Club a um fado triste sobre uma rosa que sou eu, sem tirar nem pôr. Mexeu tanto comigo que fumei três cigarros antes do concerto seguinte.
E que concerto,o seguinte! Jackie Mollard Acoustic Quartet numa lição de uma hora e picos sobre como transmitir emoções - um largo espectro delas - em instrumentais felizes. Um violino como deve ser - um fiddler, não on the roof mas sobre o palco em constante jogo de improviso estimulando quem o segue, acompanhado por uma contrabaixista, um saxofonista e um acordeonista diatónico - os tais seguidores. Música bretã invocando campos verdes de melancolia. E o privilégio do segundo encore no bar da SMURSS, uma jam session que só existe em Sines porque há lá vontade de ouvir e deleitar-se com música e com cultura. Foi um dos melhores concertos do Festival.
(No bar da SMURSS - sigla para, salvo erro, Sociedade Musical União Recreativa e Social Sineense, acabaram as duas noites de concertos no Centro de Artes: jogos de matrecos, vinho a rodos para aquecer e sempre, sempre, óptimas conversas e boa música.)
A Petra, por exemplo, faz uma feijoada vegetariana que é de chorar por mais (para além das suas outras qualidades que noutra ocasião poderei realçar). Foi para bem saborear a sua feijoada que por pouco não perdemos o concerto da Lula Pena - ouvimos três canções. E que bonitas que eram! Continua a fazer a sua fusão de poesia cantada com canção falada, viajando entre o fado, a cantautoria, a bossanova, com pitadas de tudo aquilo que absorve e vai vivendo. Ouvimo-la cantar - e ela respira Lisboa - juntar versos de Culture Club a um fado triste sobre uma rosa que sou eu, sem tirar nem pôr. Mexeu tanto comigo que fumei três cigarros antes do concerto seguinte.
E que concerto,o seguinte! Jackie Mollard Acoustic Quartet numa lição de uma hora e picos sobre como transmitir emoções - um largo espectro delas - em instrumentais felizes. Um violino como deve ser - um fiddler, não on the roof mas sobre o palco em constante jogo de improviso estimulando quem o segue, acompanhado por uma contrabaixista, um saxofonista e um acordeonista diatónico - os tais seguidores. Música bretã invocando campos verdes de melancolia. E o privilégio do segundo encore no bar da SMURSS, uma jam session que só existe em Sines porque há lá vontade de ouvir e deleitar-se com música e com cultura. Foi um dos melhores concertos do Festival.
(No bar da SMURSS - sigla para, salvo erro, Sociedade Musical União Recreativa e Social Sineense, acabaram as duas noites de concertos no Centro de Artes: jogos de matrecos, vinho a rodos para aquecer e sempre, sempre, óptimas conversas e boa música.)
31.7.07
FMM Sines :: o primeiro dia no Centro de Artes de Sines [ play |> ]
[Prólogo: Não sou nenhuma croma da world - já vos disse que não sou nenhuma croma de nada? - mas é nas canções que vêm da alma que me movimento bem, em termos de música. Pois na world há muitas canções que vêm da alma de quem as faz e do povo que as fez nascer e que mexem com a alma de quem as ouve. É por aí que devem ler os apontamentos sobre os concertos do FMM que conto ir postando por aqui durantes estes dias de ressaca pós-Sines.]
Marcel Kanche faz canções românticas e é francês, por isso se calhar poder-se-ia catalogar a música que faz como chanson française. Só quando ouvi a cover do Leonard Cohen durante o concerto no Centro de Artes é que percebi o que é que ele era na verdade: um Cohen francês, com as mesmas angústias nas letras, na voz, no passo dolente da banda que o acompanha.
As gémeas Gómez são as Ttukunak. Atraentes e amorosas, tocam um instrumento basco que só pode ser tocado por duas pessoas em simultâneo: a txalaparta, uma espécie de xilofone em ponto gigante, em pedra, ferro e madeira, tocado por baquetas também em madeira que mais parecem pilões de almofariz. Não há segredos ali, as combinações instrumentais são feitas em improviso e em comunhão uma gémea com a outra e a comunicação faz-se por olhares e pelo ritmo que uma à outra e o público às duas vai impondo.
Continua.
Marcel Kanche faz canções românticas e é francês, por isso se calhar poder-se-ia catalogar a música que faz como chanson française. Só quando ouvi a cover do Leonard Cohen durante o concerto no Centro de Artes é que percebi o que é que ele era na verdade: um Cohen francês, com as mesmas angústias nas letras, na voz, no passo dolente da banda que o acompanha.
As gémeas Gómez são as Ttukunak. Atraentes e amorosas, tocam um instrumento basco que só pode ser tocado por duas pessoas em simultâneo: a txalaparta, uma espécie de xilofone em ponto gigante, em pedra, ferro e madeira, tocado por baquetas também em madeira que mais parecem pilões de almofariz. Não há segredos ali, as combinações instrumentais são feitas em improviso e em comunhão uma gémea com a outra e a comunicação faz-se por olhares e pelo ritmo que uma à outra e o público às duas vai impondo.
Continua.
FMM pode ser lido como Férias Mágicas e Memoráveis
Há um ano que esperava, planeava, ansiava por Sines. Foi há um ano que lá fui, num assomo de irresponsabilidade misturado com vontade de ouvir o Toumani Diabaté e bem temperado com uma paixoneta que por lá andava e foi há um ano que, no regresso, jurei a mim mesma estar todos os dias do festival este ano.
Fiquei de férias na sexta-feira passada, dia 20. O festival começou neste dia, em Porto Côvo, mas eu ainda não estava lá. Apenas dia 23 me pus a caminho, no carro do Bruno e, diga-se, até então me sentia tão em férias como uma formiga a recolher mantimentos. Nada de férias, portanto.
Quando chegámos, depois de uma série de coisas triviais e com pouca importância (se bem que a salinha da casa da dona Fernanda, onde ficaram alguns de nós, mereça um especial destaque por tão antiquada e kitsch que era), fomos logo para a praia e só aí, só ao pisar a areia da praia de Sines, me senti verdadeiramente de férias.
E foi assim que começou umas das melhores semanas da minha vida, na praia a beber um UCAL enquanto todos bebiam cerveja, a ouvir aquele que terminaria, vários dias depois, o set dos Bailarico Sofisticado no encerramento do festival - o Bob Marley, junto a várias pessoas - uns que chamava amigos, outros com quem me tinha cruzado uma ou duas vezes, outros ainda que até então eram nem uma coisa nem outra, nem peixe nem carne.
Continua.
Fiquei de férias na sexta-feira passada, dia 20. O festival começou neste dia, em Porto Côvo, mas eu ainda não estava lá. Apenas dia 23 me pus a caminho, no carro do Bruno e, diga-se, até então me sentia tão em férias como uma formiga a recolher mantimentos. Nada de férias, portanto.
Quando chegámos, depois de uma série de coisas triviais e com pouca importância (se bem que a salinha da casa da dona Fernanda, onde ficaram alguns de nós, mereça um especial destaque por tão antiquada e kitsch que era), fomos logo para a praia e só aí, só ao pisar a areia da praia de Sines, me senti verdadeiramente de férias.
E foi assim que começou umas das melhores semanas da minha vida, na praia a beber um UCAL enquanto todos bebiam cerveja, a ouvir aquele que terminaria, vários dias depois, o set dos Bailarico Sofisticado no encerramento do festival - o Bob Marley, junto a várias pessoas - uns que chamava amigos, outros com quem me tinha cruzado uma ou duas vezes, outros ainda que até então eram nem uma coisa nem outra, nem peixe nem carne.
Continua.
O aquecimento global é um mito urbano.
Está uma carrinha daquelas Volkswagen pão de forma parada em frente ao portão da casa. Não há nada de poético nisto, é apenas uma velha carroça cuja pintura está desbotada pelo sol, apesar de estar agora na moda fazer road-trips dentro de uma coisa destas, e a casa é feia, tem um friso de azulejos castanhos, a tinta dos tapa-sóis está a descascar-se, o jardim está descuidado - as plantas que deveriam viver morrem e as intrusas e penetras sobrevivem e invadem os caminhos curtos de calçada.
Não há, portanto, nada de poético nisto. É apenas mais uma casa feia, mais um jardim desarranjado, mais um carro a cair de podre.
Está um calor de amolecer ossos. Não há uma singela brisa que sopre e quebre a moleza deste calor - há, isso sim, insectos que se deixam ficar no ar, também eles com preguiça de voar, mexendo as asas com a calma de quem não tem nada para fazer. Dentro da casa está quase tanto calor quanto lá fora, é um calor horrível, que ultrapassa a dor ou a euforia.
Sente-se, aliás, como um cheiro nauseabundo, um vazio emocional muito grande - como se o calor impedisse que se sentisse ou, simplesmente, se sobrepusesse a qualquer sentimento possível.
É neste estado apoplético que partimos dentro da velha carrinha, agradavelmente surpreendidos pela corrente de ar que entra pelas janelas da pão de forma quando a pomos em movimento.
Não há, portanto, nada de poético nisto. É apenas mais uma casa feia, mais um jardim desarranjado, mais um carro a cair de podre.
Está um calor de amolecer ossos. Não há uma singela brisa que sopre e quebre a moleza deste calor - há, isso sim, insectos que se deixam ficar no ar, também eles com preguiça de voar, mexendo as asas com a calma de quem não tem nada para fazer. Dentro da casa está quase tanto calor quanto lá fora, é um calor horrível, que ultrapassa a dor ou a euforia.
Sente-se, aliás, como um cheiro nauseabundo, um vazio emocional muito grande - como se o calor impedisse que se sentisse ou, simplesmente, se sobrepusesse a qualquer sentimento possível.
É neste estado apoplético que partimos dentro da velha carrinha, agradavelmente surpreendidos pela corrente de ar que entra pelas janelas da pão de forma quando a pomos em movimento.
16.7.07
15.7.07
Una remezcla por día te hace bailar por la noche adentro
A remix dos Justice para a Lovestoned do Justin Timberlake.
Justice, os representantes máximos do movimento French Kiss, herdeiros dos Daft Punk, que remisturam tudo o que vibra - e sinceramente gosto mais deles a remisturar do que a gravar canções em nome próprio.
Justin, se estiveres a ouvir-me, para que continuemos a gostar muito de ti, é assim que deverá soar o teu próximo álbum.
(O pior destas remixes é que invariavelmente são coisas que funcionariam muito bem à noite, num bar qualquer, sendo que a probabilidade em Portugal de um iluminado dj a passar é quase zero. Uma pena.)
P.S. Este post é um presente para o meu amigo A.C., que faz anos hoje, é um dj iluminado nas poucas vagas horas que tem e foi quem, há mais ou menos um ano, incitou-me a escrever pela primeira vez sobre música - o que, mais tarde, se veio a revelar um vício. O texto foi sobre as Cansei de Ser Sexy, quando, note-se a meu favor, ainda não havia muita gente a falar delas, e está aqui.
Justice, os representantes máximos do movimento French Kiss, herdeiros dos Daft Punk, que remisturam tudo o que vibra - e sinceramente gosto mais deles a remisturar do que a gravar canções em nome próprio.
Justin, se estiveres a ouvir-me, para que continuemos a gostar muito de ti, é assim que deverá soar o teu próximo álbum.
(O pior destas remixes é que invariavelmente são coisas que funcionariam muito bem à noite, num bar qualquer, sendo que a probabilidade em Portugal de um iluminado dj a passar é quase zero. Uma pena.)
P.S. Este post é um presente para o meu amigo A.C., que faz anos hoje, é um dj iluminado nas poucas vagas horas que tem e foi quem, há mais ou menos um ano, incitou-me a escrever pela primeira vez sobre música - o que, mais tarde, se veio a revelar um vício. O texto foi sobre as Cansei de Ser Sexy, quando, note-se a meu favor, ainda não havia muita gente a falar delas, e está aqui.
Não párem o Ronson se já ouviram isto antes (parte II)
Há que dizê-lo com franqueza: a ideia destas versões é criativa, divertida, quase insolente. Agarrar num punhado de canções ligeiras, abrilhantá-las com purpurinas (ao escrever esta palavra lembrei-me daquela odiável publicidade das "purpurinas? Vou já contar à Rita!"), trompetes e clarinetes e fazer de todas elas danças de salão animadas. A ideia podia de facto ser só criativa, divertida, quase insolente, citando-me, o que já seria imenso, mas aqui é que a porca torce o rabo - ou, como eu e os arrumadores de carros gostamos de dizer, destroce-o.
Mark Ronson não ficou só pelo nível da ideia genial, também a concretizou em grande estilo. Vejamos.
A faixa nº 3 deste disco começa com o seguinte verso
Stop me oh-oh-oh stop me
Stop me if you think that you've heard this one before,
o que é bastante irónico, tendo em conta que se trata de um disco de versões.
A verdade é que não apetece parar o Ronson nem o senhor Daniel Merriweather, que empresta a voz a esta versão. Primeiro, pela audácia e a cara de pau de se fazer uma versão soul de uma canção da maior banda de sempre. Segundo, porque a versão é, juro-vos, muito boa. Terceiro, porque a Stop me (dos The Smiths, para os silly you desatentos) é uma boa canção até se cantada em bielorrussso pelo ventríloquo que faz a voz do pato Donaltim, com percussão - castanholas, daquelas de rancho folclórico - pela Fátima Lopes e nas cordas - dos sapatos - o Nuno Eiró (arre, que pandilha assustadora!).
Não, o tal Daniel não tem a densidade vocal do Morrissey, portanto também não manifesta a mesma desilusão que o Morrissey, aquele tédio urbano-depressivo que é pensar "olha, se já ouviste esta antes manda-me calar". É que nada mudou, eu ainda te amo, apenas um pouco menos que o habitual, meu amor, e cada palavra que nos remexe visceralmente no original ainda está aqui e ainda causa cólicas.
Não, não está aqui o Johnny Marr, mas estão violinos felizes, que dão asas a uma batida energética, que entra para as estrofes, tal como entra a banda toda no original. Na Stop me de 2007 não se está tão triste quanto se está quando se ouve a Stop me dos anos 80 e, em vez da sala do melhor amigo, onde se fumam charros e se choram lágrimas de desgosto amoroso - ou de moca? nunca se saberá -, está-se numa sala revestida a veludo, onde lustres brilhantes se suspendem do tecto e toda a banda toca para a plateia mais heterógenea que existe. E todos batem o pézinho.
Não, não foi cometido nenhum pecado mortal: o Morrissey poderá mesmo gabar-se e assumir, um dia, talvez, quem sabe?, "escrevi a Stop me a pensar no safado do Ronson, sou mesmo genial, não sou?". És e esta versão, em que não cantas nem nada, é a prova viva disso. E eu, tal como tu, nunca nunca menti.
Os The Zutons não devem ser a banda mais conhecida do cimo da Terra, nem tão pouco qualquer coisa que se aproxime disso. Alguns ouvidos atentos à MTV:2 já devem ter dado conta da existência pouco notória - e muito menos, notável - de tal banda. (Confesso que têm singles engraçaditos e que nunca ouvi o disco todo, mas adiante.) Sendo assim, não creio que a Valerie seja uma canção conhecida como são a Stop me dos Smiths, a Oh my god dos Kaiser Chiefs (para a qual o Ronson convidou l'enfant terrible mais vraiment adorable Lily Allen), a Just dos Radiohead (versão que se limita a ser curiosa). A Valerie, original dos Zutons, é, no entanto, a melhor canção deste disco. De seguida, a resposta que todos procuram: porquê?
Primeiro, porque tem a Amy Winehouse. E a Amy Winehouse é, simplesmente, a cantora, a voz, a celebridade, a anglófona, a eu-tinha-curvas-e-era-boa-agora-sou-anoréctica-e-feia, a bêbeda, a escandalosa, a tudo o que vocês pensarem!, do momento. No início do outro texto disse que as canções que mais rendem no Back to Black foram produzidas pelo Mark Ronson, mas não quis tirar crédito ao resto do trabalho. A Amy é a fusão de dois conceitos que tendem a beijar-se na testa nos últimos tempos: o eclectismo da música retro (massa de que o disco Versions é feito, como terão notado ao longo desta prosa aborrecida) e um ritmo que vem do hip-hop, do funk, é novo e é bom. A sua voz possui uma cadência e um alcance de que Amy nunca abusa - e faz ela muito bem. Representa, como a Beth Ditto dos Gossip, o girl power que tendencialmente surge na música: esta necessidade de manifestar a independência, a emancipação, a força de uma mulher, sem ser exageradamente feminista. Amy é amor.
Segundo, porque a bateria é-me familiar de não sei quê (na versão ao vivo não se nota, mas na gravada lembra-me os Strokes, provavelmente porque os Zutons são uma daquelas bandas pós-Strokes que parecem reminiscentes dos Strokes, os quais por sua vez são reminiscentes dos The Cars.)
Terceiro, porque é uma canção leve e despretensiosa mas rica, como uma salada de Verão. Está lá tudo na mais perfeita das harmonias: a tal da Amy, a tal da bateria, o tal do ritmo que vem sendo regra e uma orquestra com a boca no trompete.
Quarto, porque é obrigatório dar algum crédito aos Zutons: a letra é bonita, fica no ouvido, diz "won't you come on over, stop making a fool out of me, why don't you come on over, Valerie?" e, [demasiado] pessoalmente, deu azo a mensagens de telemóvel bonitas nos últimos tempos.
Quinto, porque é quentinha como um raio de sol e revigorante como um mergulho no mar e/ ou uma caipirinha. Não se quer mais nada do Verão senão isso, não é?
(É preocupantemente difícil encontrar um vídeo da Valerie cantada pela Amy quando sóbria. Não estou a brincar.)
Mark Ronson não ficou só pelo nível da ideia genial, também a concretizou em grande estilo. Vejamos.
A faixa nº 3 deste disco começa com o seguinte verso
Stop me oh-oh-oh stop me
Stop me if you think that you've heard this one before,
o que é bastante irónico, tendo em conta que se trata de um disco de versões.
A verdade é que não apetece parar o Ronson nem o senhor Daniel Merriweather, que empresta a voz a esta versão. Primeiro, pela audácia e a cara de pau de se fazer uma versão soul de uma canção da maior banda de sempre. Segundo, porque a versão é, juro-vos, muito boa. Terceiro, porque a Stop me (dos The Smiths, para os silly you desatentos) é uma boa canção até se cantada em bielorrussso pelo ventríloquo que faz a voz do pato Donaltim, com percussão - castanholas, daquelas de rancho folclórico - pela Fátima Lopes e nas cordas - dos sapatos - o Nuno Eiró (arre, que pandilha assustadora!).
Não, o tal Daniel não tem a densidade vocal do Morrissey, portanto também não manifesta a mesma desilusão que o Morrissey, aquele tédio urbano-depressivo que é pensar "olha, se já ouviste esta antes manda-me calar". É que nada mudou, eu ainda te amo, apenas um pouco menos que o habitual, meu amor, e cada palavra que nos remexe visceralmente no original ainda está aqui e ainda causa cólicas.
Não, não está aqui o Johnny Marr, mas estão violinos felizes, que dão asas a uma batida energética, que entra para as estrofes, tal como entra a banda toda no original. Na Stop me de 2007 não se está tão triste quanto se está quando se ouve a Stop me dos anos 80 e, em vez da sala do melhor amigo, onde se fumam charros e se choram lágrimas de desgosto amoroso - ou de moca? nunca se saberá -, está-se numa sala revestida a veludo, onde lustres brilhantes se suspendem do tecto e toda a banda toca para a plateia mais heterógenea que existe. E todos batem o pézinho.
Não, não foi cometido nenhum pecado mortal: o Morrissey poderá mesmo gabar-se e assumir, um dia, talvez, quem sabe?, "escrevi a Stop me a pensar no safado do Ronson, sou mesmo genial, não sou?". És e esta versão, em que não cantas nem nada, é a prova viva disso. E eu, tal como tu, nunca nunca menti.
Os The Zutons não devem ser a banda mais conhecida do cimo da Terra, nem tão pouco qualquer coisa que se aproxime disso. Alguns ouvidos atentos à MTV:2 já devem ter dado conta da existência pouco notória - e muito menos, notável - de tal banda. (Confesso que têm singles engraçaditos e que nunca ouvi o disco todo, mas adiante.) Sendo assim, não creio que a Valerie seja uma canção conhecida como são a Stop me dos Smiths, a Oh my god dos Kaiser Chiefs (para a qual o Ronson convidou l'enfant terrible mais vraiment adorable Lily Allen), a Just dos Radiohead (versão que se limita a ser curiosa). A Valerie, original dos Zutons, é, no entanto, a melhor canção deste disco. De seguida, a resposta que todos procuram: porquê?
Primeiro, porque tem a Amy Winehouse. E a Amy Winehouse é, simplesmente, a cantora, a voz, a celebridade, a anglófona, a eu-tinha-curvas-e-era-boa-agora-sou-anoréctica-e-feia, a bêbeda, a escandalosa, a tudo o que vocês pensarem!, do momento. No início do outro texto disse que as canções que mais rendem no Back to Black foram produzidas pelo Mark Ronson, mas não quis tirar crédito ao resto do trabalho. A Amy é a fusão de dois conceitos que tendem a beijar-se na testa nos últimos tempos: o eclectismo da música retro (massa de que o disco Versions é feito, como terão notado ao longo desta prosa aborrecida) e um ritmo que vem do hip-hop, do funk, é novo e é bom. A sua voz possui uma cadência e um alcance de que Amy nunca abusa - e faz ela muito bem. Representa, como a Beth Ditto dos Gossip, o girl power que tendencialmente surge na música: esta necessidade de manifestar a independência, a emancipação, a força de uma mulher, sem ser exageradamente feminista. Amy é amor.
Segundo, porque a bateria é-me familiar de não sei quê (na versão ao vivo não se nota, mas na gravada lembra-me os Strokes, provavelmente porque os Zutons são uma daquelas bandas pós-Strokes que parecem reminiscentes dos Strokes, os quais por sua vez são reminiscentes dos The Cars.)
Terceiro, porque é uma canção leve e despretensiosa mas rica, como uma salada de Verão. Está lá tudo na mais perfeita das harmonias: a tal da Amy, a tal da bateria, o tal do ritmo que vem sendo regra e uma orquestra com a boca no trompete.
Quarto, porque é obrigatório dar algum crédito aos Zutons: a letra é bonita, fica no ouvido, diz "won't you come on over, stop making a fool out of me, why don't you come on over, Valerie?" e, [demasiado] pessoalmente, deu azo a mensagens de telemóvel bonitas nos últimos tempos.
Quinto, porque é quentinha como um raio de sol e revigorante como um mergulho no mar e/ ou uma caipirinha. Não se quer mais nada do Verão senão isso, não é?
(É preocupantemente difícil encontrar um vídeo da Valerie cantada pela Amy quando sóbria. Não estou a brincar.)
Viva!
Já é tarde nesta madrugada de sábado. A minha vida está mais próxima de mim do que nunca e chegou provavelmente a hora de agarrá-la com as duas mãos, com os dentes, talvez enlaçá-la com as pernas para ter a certeza que desta vez não a deixo escapar.
Tudo isto é um eterno lugar-comum, mas a única responsável sou eu. Afastei-me das emoções propositadamente, qual Brecht, deixei-me de me envolver, de sentir, de me afectar, no fundo: como se eu vivesse como mera espectadora da vida que estava a viver.
Aliás, assim o era: manter as devidas cordialidades, sem se revelar nem expôr - e demonstrar-se sentimentalmente indiferente a tudo aquilo que observava, eu própria fui guiada através do tabuleiro do jogo
a jogar snakes and ladders, imprevisivelmente subindo e descendo
de olhos fechados, desconfiando de cada face do dado que ditava o meu destino - uma escada? uma serpente?
A adinamia que me impedia de tomar as rédeas desapareceu e a bolha rebentou: estou eu aqui, desprotegida, finalmente.
Nada dá mais vontade de viver do que viver. Nada.
Tudo isto é um eterno lugar-comum, mas a única responsável sou eu. Afastei-me das emoções propositadamente, qual Brecht, deixei-me de me envolver, de sentir, de me afectar, no fundo: como se eu vivesse como mera espectadora da vida que estava a viver.
Aliás, assim o era: manter as devidas cordialidades, sem se revelar nem expôr - e demonstrar-se sentimentalmente indiferente a tudo aquilo que observava, eu própria fui guiada através do tabuleiro do jogo
a jogar snakes and ladders, imprevisivelmente subindo e descendo
de olhos fechados, desconfiando de cada face do dado que ditava o meu destino - uma escada? uma serpente?
A adinamia que me impedia de tomar as rédeas desapareceu e a bolha rebentou: estou eu aqui, desprotegida, finalmente.
Nada dá mais vontade de viver do que viver. Nada.
9.7.07
A Versão do Mark Ronson (ou como viajar no tempo usando a pop dos últimos anos)
Decidi actualizar o meu blogue enquanto ouvia, pela primeira vez, o álbum de versões do Mark Ronson. Para quem não sabe, o Mark Ronson é responsável pelas melhores faixas (quase todas, diga-se) do álbum maravilhoso da Amy Winehouse, Back to Black, e fez um disco só com versões soul, funk and groove de canções que, aparentemente, nada ou pouco têm a ver com esse universo. Como é a primeira vez que o oiço na íntegra (confesso que já ouvi faixas aqui e acolá e isto tem versões adoráveis de canções inesperadas - ultimamente tudo é adorável para mim, é o meu novo adjectivo favorito), não faço a mais pálida ideia do que poderá vir a sair deste post, o que não é necessariamente mau.
O disco começa com uma versão da God put a smile upon your face dos Coldplay, numa versão que não faria remexer na cova nenhum falecido da Motown. É um instrumental com uns tais de The Daptones Horns (não devem ser os Daptone Kings que acompanham a Sharon Jones, logo a pesquisa que faria pelo google sobre os senhores também vocês a podem fazer, MOVE YOUR LAZY ASSES!). Ora, começando pelo princípio: sim, Deus pôs um sorriso na tua cara. E na minha. Se bem me lembro - já vos disse que esta versão é um instrumental absolutamente groovy mas sem vocais, logo sem letra - esta canção, do segundo álbum dos Coldplay, dizia "oh when you work it out I'm worse than you" e "god gave me style and gave me grace, god put a smile upon my face". Em relação aos Coldplay, eu gosto deles - geralmente confessava isto em surdina e digo para guardarem o segredo a sete chaves, mas isso era uma mania parva. Ultimamente, tão recentemente quanto o meu uso da palavra adorável, quero lá saber de julgamentos acerca do meu gosto musical. Que'lá saber. A quem fizer comichão, coce-se, use Fenistil, ponha unguentos - é para o lado que eu durmo melhor (já agora, é o esquerdo). (Entretanto já ouvi sete vezes a canção, cinco das quais levantei-me para ir dançar para cima da cama, qual palco improvisado). Mas é por ser-me completamente cagativo que hoje vou escrever aqui que gosto de uma canção do mais lamechas-RFM-só-grandes-músicas possível. É de um moço de seu nome James Morrison e chama-se "You give me something" e, em princípio, toda a gente conhece porque até já esteve nos ecrãs das estações de metro. A canção diz qualquer coisa como "this could be something, so I might just give it a try", o que, em linhas simples, resume a minha vida nos últimos tempos - e deve ser por aí que gosto tanto do diabo da faixa. Em relação aos Coldplay, o primeiro álbum, Parachutes, é simplesmente óptimo e depois foram por aí abaixo em linha descendente. Não que X&Y seja um péssimo disco, que não é, até porque tem a Talk, cuja guitarrada foi inspirada numa faixa dos Kraftwerk, e a Fix you (*weeps* "Lights will guide you home (...) I will try...[pausa] to fix you" - se esta frase não se adequa a nenhum momento da vossa vida, meu Deus, façam um favor a vocês mesmos e apaixonem-se.). Para além disto, eu casava-me com o baixista Guy Berryman (meninas, google him para saberem de que estou eu a falar) , os Coldplay dão excelentes concertos e o Chris Martin é um frontman imparável.
Quem também é um frontman imparável - homem da frente, em português - é o Paul Smith dos Maximo Park. Tive oportunidade de vê-los pela segunda vez no Super Bock Super Rock e, longe de terem dado o melhor concerto do festival, dão um concerto energético, viciante, muito don't stop me now 'cause I'm having such a good time. A Apply some pressure está no disco do Mark Ronson, cantada pelo próprio Paul Smith: o ritmo manteve-se, adicionando-se uma secção de sopros onde antes estava uma guitarrada. Razoável.
Versão fraca, fraca é a LSF dos Kasabian, banda que, sinceramente, nunca levei muito a sério ( e ainda menos depois de vê-los ao vivo, no Sudoeste, curiosamente no mesmo dia que vi Maximo Park). A LSF aparece aqui cantada pelo vocalista dos Kasabian (não sei o nome, nem quero saber, só não tenho raiva de quem sabe). Está fraquíssima como versão (como canção já o era, apesar daquele início oto-viciante do "come on in, get on in" ou assim, o que provavelmente não ajuda). Mas o Mark Ronson também fez alguns milagres.
Dentro desses milagres está a Toxic da Britney Spears, cantada, neste disco, por um homem, com partes de rap, por outro homem, que não correspondem ao original. Pela vossa saúde vos digo, está óptima. Sou suspeita porque nunca odiei a Britney com todas as minhas forças e sempre achei esta Toxic muuuuito sexy:
With a taste of your lips I’m on a ride
You're toxic I'm slipping under
With a taste of a poison paradise
I’m addicted to you
Don’t you know that you’re toxic
And I love what you do
Don’t you know that you’re toxic.
Mesmo assim, esta versão dá dez a zero ao original: uma voz quase dorida pela toxicidade desse veneno que é um homem/ mulher viciante (raios.). O trompete no lugar certo, no momento certo, quando no original isto era um efeito digital qualquer. E há "uh-uuuh" por trás, exacerbando a dor que é este vício (raios. vezes dois). O pior desta versão é o seu efeito prático, porque em vez de fazer-nos afastar da languidez dos beijos envenenados faz-nos desejá-los ainda mais ardentemente (raios. vezes três). Óptima.
[mais versões já a seguir.]
O disco começa com uma versão da God put a smile upon your face dos Coldplay, numa versão que não faria remexer na cova nenhum falecido da Motown. É um instrumental com uns tais de The Daptones Horns (não devem ser os Daptone Kings que acompanham a Sharon Jones, logo a pesquisa que faria pelo google sobre os senhores também vocês a podem fazer, MOVE YOUR LAZY ASSES!). Ora, começando pelo princípio: sim, Deus pôs um sorriso na tua cara. E na minha. Se bem me lembro - já vos disse que esta versão é um instrumental absolutamente groovy mas sem vocais, logo sem letra - esta canção, do segundo álbum dos Coldplay, dizia "oh when you work it out I'm worse than you" e "god gave me style and gave me grace, god put a smile upon my face". Em relação aos Coldplay, eu gosto deles - geralmente confessava isto em surdina e digo para guardarem o segredo a sete chaves, mas isso era uma mania parva. Ultimamente, tão recentemente quanto o meu uso da palavra adorável, quero lá saber de julgamentos acerca do meu gosto musical. Que'lá saber. A quem fizer comichão, coce-se, use Fenistil, ponha unguentos - é para o lado que eu durmo melhor (já agora, é o esquerdo). (Entretanto já ouvi sete vezes a canção, cinco das quais levantei-me para ir dançar para cima da cama, qual palco improvisado). Mas é por ser-me completamente cagativo que hoje vou escrever aqui que gosto de uma canção do mais lamechas-RFM-só-grandes-músicas possível. É de um moço de seu nome James Morrison e chama-se "You give me something" e, em princípio, toda a gente conhece porque até já esteve nos ecrãs das estações de metro. A canção diz qualquer coisa como "this could be something, so I might just give it a try", o que, em linhas simples, resume a minha vida nos últimos tempos - e deve ser por aí que gosto tanto do diabo da faixa. Em relação aos Coldplay, o primeiro álbum, Parachutes, é simplesmente óptimo e depois foram por aí abaixo em linha descendente. Não que X&Y seja um péssimo disco, que não é, até porque tem a Talk, cuja guitarrada foi inspirada numa faixa dos Kraftwerk, e a Fix you (*weeps* "Lights will guide you home (...) I will try...[pausa] to fix you" - se esta frase não se adequa a nenhum momento da vossa vida, meu Deus, façam um favor a vocês mesmos e apaixonem-se.). Para além disto, eu casava-me com o baixista Guy Berryman (meninas, google him para saberem de que estou eu a falar) , os Coldplay dão excelentes concertos e o Chris Martin é um frontman imparável.
Quem também é um frontman imparável - homem da frente, em português - é o Paul Smith dos Maximo Park. Tive oportunidade de vê-los pela segunda vez no Super Bock Super Rock e, longe de terem dado o melhor concerto do festival, dão um concerto energético, viciante, muito don't stop me now 'cause I'm having such a good time. A Apply some pressure está no disco do Mark Ronson, cantada pelo próprio Paul Smith: o ritmo manteve-se, adicionando-se uma secção de sopros onde antes estava uma guitarrada. Razoável.
Versão fraca, fraca é a LSF dos Kasabian, banda que, sinceramente, nunca levei muito a sério ( e ainda menos depois de vê-los ao vivo, no Sudoeste, curiosamente no mesmo dia que vi Maximo Park). A LSF aparece aqui cantada pelo vocalista dos Kasabian (não sei o nome, nem quero saber, só não tenho raiva de quem sabe). Está fraquíssima como versão (como canção já o era, apesar daquele início oto-viciante do "come on in, get on in" ou assim, o que provavelmente não ajuda). Mas o Mark Ronson também fez alguns milagres.
Dentro desses milagres está a Toxic da Britney Spears, cantada, neste disco, por um homem, com partes de rap, por outro homem, que não correspondem ao original. Pela vossa saúde vos digo, está óptima. Sou suspeita porque nunca odiei a Britney com todas as minhas forças e sempre achei esta Toxic muuuuito sexy:
With a taste of your lips I’m on a ride
You're toxic I'm slipping under
With a taste of a poison paradise
I’m addicted to you
Don’t you know that you’re toxic
And I love what you do
Don’t you know that you’re toxic.
Mesmo assim, esta versão dá dez a zero ao original: uma voz quase dorida pela toxicidade desse veneno que é um homem/ mulher viciante (raios.). O trompete no lugar certo, no momento certo, quando no original isto era um efeito digital qualquer. E há "uh-uuuh" por trás, exacerbando a dor que é este vício (raios. vezes dois). O pior desta versão é o seu efeito prático, porque em vez de fazer-nos afastar da languidez dos beijos envenenados faz-nos desejá-los ainda mais ardentemente (raios. vezes três). Óptima.
[mais versões já a seguir.]
Long time, no see
Há dias remexi nas definições de cookies do meu browser (sim, eu sou old school e uso o velhinho e impraticável Internet Explorer) e isso tornou o login no Blogger impossível.
Escrita que está a justificação para esta demasiado longa ausência na frase com mais anglicismos da história deste blogue, peço-vos desculpa. Desta vez não foi nem por estar farta, nem por estar desinspirada (antes pelo contrário, estava cheia de ideias que, estupidamente, nunca cheguei a anotar), tão pouco por estar ocupada com outros afazeres. O Desumanos continua, já a seguir.
Escrita que está a justificação para esta demasiado longa ausência na frase com mais anglicismos da história deste blogue, peço-vos desculpa. Desta vez não foi nem por estar farta, nem por estar desinspirada (antes pelo contrário, estava cheia de ideias que, estupidamente, nunca cheguei a anotar), tão pouco por estar ocupada com outros afazeres. O Desumanos continua, já a seguir.
26.6.07
Meio ano dentro de um disco e dentro de uma canção III
Since I found you
I'm tearing down the walls without you
I'm getting lost in all the plans that I heard you make
About the older times
About the greater times
Oh I don't know, I don't know anyway
(...)
We're floating in the sky
And if you think that we are older now
It's just our heads are butterflies
Oh are you the one that I've been waiting for?
Electrelane :: Greater times :: No shouts no calls
20.6.07
Ó deus.
19.6.07
A arte do sample, parte II
O Kanye West ia servir de inspiração ao segundo post desta série "A arte do sample", custasse aquilo que custasse.
Mestre, como de resto todos os bons produtores de hip-hop (os nomes J. Dilla ou Madlib saltam-me à frente da vista), em ir buscar recortes da por-estes-lados-tão-amada soul antiga, fazendo renascer a canção norte-americana, o moço Kanye tem canções novas.
Se Ray Charles, Aretha Franklin, Shirley Bassey, Bette Middler ou Luther Vandross transportam-nos para o College Dropout e para o Late Registration, nas duas canções novas que ouvi as referências são completamente díspares.
Ora vejam (os nomes das canções do Kanye não estão numa cor diferente para ficar bonito, contêm links para serem ouvidas numa nova página):
Kanye West :: Young Folks
Peter, Bjorn and John :: Young Folks[Quem não assobiou isto o ano passado que atire a primeira pedra. Ou ponha o braço no ar, que sempre é menos doloroso.]
E ainda:
Kanye West :: Stronger
Daft Punk :: Harder, Better, Faster, Stronger [os Daft Punk do tempo da One more time]
Gosto destes posts, dão-me um ar deveras profissional.
Mestre, como de resto todos os bons produtores de hip-hop (os nomes J. Dilla ou Madlib saltam-me à frente da vista), em ir buscar recortes da por-estes-lados-tão-amada soul antiga, fazendo renascer a canção norte-americana, o moço Kanye tem canções novas.
Se Ray Charles, Aretha Franklin, Shirley Bassey, Bette Middler ou Luther Vandross transportam-nos para o College Dropout e para o Late Registration, nas duas canções novas que ouvi as referências são completamente díspares.
Ora vejam (os nomes das canções do Kanye não estão numa cor diferente para ficar bonito, contêm links para serem ouvidas numa nova página):
Kanye West :: Young Folks
Peter, Bjorn and John :: Young Folks[Quem não assobiou isto o ano passado que atire a primeira pedra. Ou ponha o braço no ar, que sempre é menos doloroso.]
E ainda:
Kanye West :: Stronger
Daft Punk :: Harder, Better, Faster, Stronger [os Daft Punk do tempo da One more time]
Gosto destes posts, dão-me um ar deveras profissional.
Princesa Batsie
É regra de cortesia e boa educação não deixar princesas à espera.
O princípe não conhece regras de boa educação? É que, ao chamar-me princesa, está a conferir-me direitos, que, naturalmente, reclamarei quando não vir serem respeitados.
Uma princesa a sério, como eu, não pode esperar tanto tempo: tenho viagens de abóbora marcadas, sapatos por perder em grandes escadarias, maçãs venenosas para morder, fusos para picar o dedo.
Por agora perdoo-o, mas não me deixe à espera mais tempo, despache-se que eu tenho coisas para fazer e preciso de saber se é o princípe quem me vai dar irrepetidamente o beijo que me trará do sono da morte.
E no baile dançaremos a From Brighton Beach to Santa Monica dos Clientele e cantaremos no ouvido um do outro "Autumn's coming in the air, autumn's coming for you."
O princípe não conhece regras de boa educação? É que, ao chamar-me princesa, está a conferir-me direitos, que, naturalmente, reclamarei quando não vir serem respeitados.
Uma princesa a sério, como eu, não pode esperar tanto tempo: tenho viagens de abóbora marcadas, sapatos por perder em grandes escadarias, maçãs venenosas para morder, fusos para picar o dedo.
Por agora perdoo-o, mas não me deixe à espera mais tempo, despache-se que eu tenho coisas para fazer e preciso de saber se é o princípe quem me vai dar irrepetidamente o beijo que me trará do sono da morte.
E no baile dançaremos a From Brighton Beach to Santa Monica dos Clientele e cantaremos no ouvido um do outro "Autumn's coming in the air, autumn's coming for you."
Da suavidade do cetim
Segurou entre os dedos a fita de cetim que usava à cintura, de um azul tranquilo. A outra mão, primeiro pousada na mesa, ergueu depois a tesoura que repousava ao seu lado. Aos poucos soltou o laço e puxou as pontas, e delas fez retalhos como pedaços de céu, que caíram no chão, elevando-se a cada corrente de ar.
11.6.07
A arte do sample, parte I
Billy Squier :: The big beat
Não há coincidências:
Dizzee Rascal :: Fix up, look sharp
É por isso que gosto de hip-hop, de Go!Team, de Avalanches, de cortes e colagens. Renovar, reciclar, recuperar. Adorar.
(Se houver vídeos no youtube para outras canções sampladas por gente d'agora, haverá parte II, III, X, XX, XIV, L, D, MMDIX and so on.)
10.6.07
5.6.07
Sete factos para um Atlas de Batalhas
Facto 1. Tenho o rádio-despertador sintonizado na Radar, por isso todas as manhãs acordo com a voz e as escolhas musicais da Inês Menezes.
Facto 1, alínea a. Note-se que eu preciso de uma fanfarra para despertar como deve ser.
Facto 2. Escusado será dizer que oiço também a Radar no carro - e a Oxigénio.
Facto 3. Escusado será ainda dizer que sei a programação das duas estações de cor e salteado e chamo os locutores e o pessoal dos noticiários pelos nomes, como se os conhecesse há muito.
Facto 4. Há um espaço na Radar chamado Grafonola, em que um artista (na maior parte das vezes relacionado com música), nacional ou internacional, escolhe a música que mais tem ouvido ou a preferida de todos os tempos ou a que lhe der na cabeça. Essa música passa depois de uma breve introdução feita pelo artista que a escolheu.
Facto 5. Hoje foi dia dos Low escolherem - e escolheram muito bem.
Facto 6. Hoje, pouco depois das 8 e 10, eu estava ainda de olhos fechados e ensonada, e tive o melhor despertar/ acordar de sempre - e não, não foi com passarinhos nem com beijinhos na cara nem com o pequeno almoço na cama. Foi com a escolha dos Low.
Facto 7. Já chega de factos, vamos ao bom gosto dos Low (e a uma canção do Mirrored, um disco de 2007 de que gosto cada vez mais):
Battles :: Atlas
(Atenção ao vídeo, que é cataclísmico de tão bom.)
Edit: o vídeo está incompleto, porque a canção tem 7 minutos e 7 segundos - 7, um dos números da perfeição, portanto fica a gravação do concerto no Primavera - diz quem lá esteve que foi um dos melhores concertos. Imagino.
Facto 1, alínea a. Note-se que eu preciso de uma fanfarra para despertar como deve ser.
Facto 2. Escusado será dizer que oiço também a Radar no carro - e a Oxigénio.
Facto 3. Escusado será ainda dizer que sei a programação das duas estações de cor e salteado e chamo os locutores e o pessoal dos noticiários pelos nomes, como se os conhecesse há muito.
Facto 4. Há um espaço na Radar chamado Grafonola, em que um artista (na maior parte das vezes relacionado com música), nacional ou internacional, escolhe a música que mais tem ouvido ou a preferida de todos os tempos ou a que lhe der na cabeça. Essa música passa depois de uma breve introdução feita pelo artista que a escolheu.
Facto 5. Hoje foi dia dos Low escolherem - e escolheram muito bem.
Facto 6. Hoje, pouco depois das 8 e 10, eu estava ainda de olhos fechados e ensonada, e tive o melhor despertar/ acordar de sempre - e não, não foi com passarinhos nem com beijinhos na cara nem com o pequeno almoço na cama. Foi com a escolha dos Low.
Facto 7. Já chega de factos, vamos ao bom gosto dos Low (e a uma canção do Mirrored, um disco de 2007 de que gosto cada vez mais):
Battles :: Atlas
(Atenção ao vídeo, que é cataclísmico de tão bom.)
Edit: o vídeo está incompleto, porque a canção tem 7 minutos e 7 segundos - 7, um dos números da perfeição, portanto fica a gravação do concerto no Primavera - diz quem lá esteve que foi um dos melhores concertos. Imagino.
2.6.07
A antítese mora aqui
Disse-me o Pedro que eu costumo reparar em homens que têm ar de quem está sempre pronto a viajar de mochila às costas. Achei-lhe graça e, em retrospectiva, é verdade, são esses que me chamam à atenção. Depois falámos em narizes compridos e rectilíneos, muito italianos. Em peles brancas, que escaldam - e bronzeiam pouco - ao sol. Em lábios finos, abertos num sorriso que ocupa todo o rosto. Em famílias grandes, com histórias complexas; em casas grandes, na terra dos avós, onde se mexe na terra e se dá milho a galinhas.
És provavelmente a antítese de tudo isto; perdoa-me por confessar que só reparei em ti porque me beijaste.
És provavelmente a antítese de tudo isto; perdoa-me por confessar que só reparei em ti porque me beijaste.
Até já gosto de techno. [banda sonora para a Jenny saltar à corda]
Ultimamente anda tudo a falar de techno. Não sei porquê - nem percebo o suficiente para apontar teorias - mas a verdade é que na mailing list da FLUR , entre os três discos mais vendidos, contavam-se dois de techno (Pantha du Prince e The Field) - sendo o outro de remisturas do Lindstrom.
(Não que uma mailing list seja reflexo de seja o que for, muito menos de uma nova moda - para não usar a palavra hype -, mas é uma boa forma de ver como, numa loja com uma oferta tão variada e com uma clientela eclética e de gosto sofisticado, anda tudo a comprar discos de techno. A própria Pitchfork já vai falando, aqui e ali, de techno - e é uma webzine indie.)
Eu própria torcia o nariz ao techno. Achava que era aquilo que o meu primo que mora comigo ouvia - e fazia a minha casa se tornar uma loja em franchise da Bershka, em que ninguém se entendia, se ouvia ou se fazia perceber. Ainda hoje não sei bem o aquilo que ele ouve é techno, porque continuo sem conseguir perceber qual é o gozo daquilo, que nem me lembra música.
A verdade é que, pelos vistos, eu gosto de techno. Não que ande aí doida à caça de novidades, mas a pessoa que é pessoa tem informadores e olheiros - e não é que detudo aquilo que me mostram, eu vou, mais ou menos dependendo do caso, gostando? Pior, viciei-me numa música do Pantha du Prince e todos os dias venho ao myspace dele ouvir a Saturn Strobe.
Mas há mais coisas boas, Gui Boratto, Matthew Dear/ Audion, The Field, Efdemin.
Eu gostei muito do disco do Matthew Dear e do que ouvi de The Field. Eu não percebo mesmo nada disto, mas devo dizer que foi uma surpresa haver canções - com estrutura para tal - na música techno. Sempre a aprender: no fundo, a palavra techno deixou de me assustar.
(Não que uma mailing list seja reflexo de seja o que for, muito menos de uma nova moda - para não usar a palavra hype -, mas é uma boa forma de ver como, numa loja com uma oferta tão variada e com uma clientela eclética e de gosto sofisticado, anda tudo a comprar discos de techno. A própria Pitchfork já vai falando, aqui e ali, de techno - e é uma webzine indie.)
Eu própria torcia o nariz ao techno. Achava que era aquilo que o meu primo que mora comigo ouvia - e fazia a minha casa se tornar uma loja em franchise da Bershka, em que ninguém se entendia, se ouvia ou se fazia perceber. Ainda hoje não sei bem o aquilo que ele ouve é techno, porque continuo sem conseguir perceber qual é o gozo daquilo, que nem me lembra música.
A verdade é que, pelos vistos, eu gosto de techno. Não que ande aí doida à caça de novidades, mas a pessoa que é pessoa tem informadores e olheiros - e não é que detudo aquilo que me mostram, eu vou, mais ou menos dependendo do caso, gostando? Pior, viciei-me numa música do Pantha du Prince e todos os dias venho ao myspace dele ouvir a Saturn Strobe.
Mas há mais coisas boas, Gui Boratto, Matthew Dear/ Audion, The Field, Efdemin.
Eu gostei muito do disco do Matthew Dear e do que ouvi de The Field. Eu não percebo mesmo nada disto, mas devo dizer que foi uma surpresa haver canções - com estrutura para tal - na música techno. Sempre a aprender: no fundo, a palavra techno deixou de me assustar.
29.5.07
[ ]
Apetece-me escrever qualquer coisa mas única coisa que neste momento me está a sair bem é este meu talento natural para carregar na tecla space. Assim sendo:
Deixo-vos um vídeo, para não acharem que visitar-me foi tempo totalmente perdido:
Flipbook ao som do Jonathan Richman!
Deixo-vos um vídeo, para não acharem que visitar-me foi tempo totalmente perdido:
Flipbook ao som do Jonathan Richman!
27.5.07
Give me the truth and nothing but the truth.
Do you miss me, when I go?
Honey I love you and that's all you need to know.
Well then: what is love?
Love is an object kept in an empty box.
How can something be in an empty box?
Well well well well,
Give me another shot
Of that truth truth truth
Truth serum.
(...)
People people: there's a lesson here plain to see.
There's no truth in you,
There's no truth in me.
The truth is between.
Smog :: Truth serum :: Supper
Definir Indefinições
Já não sei, já não sei. Já não sei quem sou e o que faço aqui. Que nome é este que me identifica
Joana
J o a n a
J
O
A
N
A?
Eu ou letras que juntas fazem-me ser quem sou? Que importa?
Que importa ser se quando sou tudo se perde, tudo se desconjunta? De que me serve a autenticidade, a genuinidade? Qual é a diferença entre ser genuíno e ser autêntico? Existe? Ao escrever genuíno e autêntico, estou a ser redundante? E na vida, sou redundante?
Perco-me por querer demais ou por querer mais? Perco-me ou encontro-me? Sou mais eu ou mostro o rosto escondido?
Porque raio escrevo sobre isto quando sei que amanhã, depois de uma noite bem dormida, provavelmente estou mais tranquila e menos idiota?
Quem é esta aqui sentada ao teclado? Onde estou eu? Olho para mim antes: leio os textos que escrevi no Crime ou em folhas espalhadas pela minha casa, vejo os discos que comprei há três anos. E três anos mudaram-me tanto. É como se eu tivesse sido já tantas pessoas numa só vida: uma espécie de gato com múltiplas hipóteses para viver, seja isso bom ou mau. Quanto mais se vive, mais se erra. Quanto mais se vive, mais se têm momentos de ignorante felicidade.
Joana, chill. Mas eu estou calma. A vida é que parece um ângulo de 360º e eu não, que tantas vezes sou obtusa, aguda ou recta.
Onde estou eu? Que lugar é este aqui? Porque é que em três anos, sem mudar de casa ou de cidade, passei a habitar um espaço maior na Terra? E porque é que não consigo lidar com isso?
E as reticiências porque raio me irritam tanto? Tanto quanto as indefinições, os status post-mortem, as vidas pós-vidas, os raios que os partam.
Ocupo o meu espaço solenemente. Aguardo.
Joana
J o a n a
J
O
A
N
A?
Eu ou letras que juntas fazem-me ser quem sou? Que importa?
Que importa ser se quando sou tudo se perde, tudo se desconjunta? De que me serve a autenticidade, a genuinidade? Qual é a diferença entre ser genuíno e ser autêntico? Existe? Ao escrever genuíno e autêntico, estou a ser redundante? E na vida, sou redundante?
Perco-me por querer demais ou por querer mais? Perco-me ou encontro-me? Sou mais eu ou mostro o rosto escondido?
Porque raio escrevo sobre isto quando sei que amanhã, depois de uma noite bem dormida, provavelmente estou mais tranquila e menos idiota?
Quem é esta aqui sentada ao teclado? Onde estou eu? Olho para mim antes: leio os textos que escrevi no Crime ou em folhas espalhadas pela minha casa, vejo os discos que comprei há três anos. E três anos mudaram-me tanto. É como se eu tivesse sido já tantas pessoas numa só vida: uma espécie de gato com múltiplas hipóteses para viver, seja isso bom ou mau. Quanto mais se vive, mais se erra. Quanto mais se vive, mais se têm momentos de ignorante felicidade.
Joana, chill. Mas eu estou calma. A vida é que parece um ângulo de 360º e eu não, que tantas vezes sou obtusa, aguda ou recta.
Onde estou eu? Que lugar é este aqui? Porque é que em três anos, sem mudar de casa ou de cidade, passei a habitar um espaço maior na Terra? E porque é que não consigo lidar com isso?
E as reticiências porque raio me irritam tanto? Tanto quanto as indefinições, os status post-mortem, as vidas pós-vidas, os raios que os partam.
Ocupo o meu espaço solenemente. Aguardo.
26.5.07
Energia potencial
"So bury me in wood
And I will splinter.
Bury me in stone
And I will quake.
Bury me in water
And I will geiser.
Bury me in fire
And I’m gonna phoenix."
Smog :: Say valley maker
And I will splinter.
Bury me in stone
And I will quake.
Bury me in water
And I will geiser.
Bury me in fire
And I’m gonna phoenix."
Smog :: Say valley maker
24.5.07
A abertura precoce da silly season
Não tenho tempo para coisas sérias.
Estou cansada de repetir esta frase, a toda a gente.
Não li esse livro
ou
Não vi esse filme
ou
Não soube dessa notícia.
Desculpo-me com um sorriso envergonhado
Ando sem tempo para coisas sérias, sabes, desculpa.
Oiço música porque levo-a a sério, claro que levo; mas ao mesmo tempo está aqui ao meu lado, em vez de estar à minha frente - não se insurge contra mim, mas por mim. Vou lendo a matéria para os exames. A vida vai passando por mim e eu por ela, tranquilamente.
Isto porque ando sem tempo.
...
Ando sem pachorra, quero eu dizer. E ando sem paciência para posts sérios. Só me saem parvoíces (vide post anterior). Na verdade, só me apetecem parvoíces.
E sorrisos parvos. E gelados lambuzados. E a minha mão na tua. E salmão com vinagre balsâmico. E mensagens inesperadas, imprevisíveis e queridas. E ouvir o melhor disco do ano esta semana. Ou o melhor disco de sempre esta semana. E dizer "é enorme". E coscuvilhar a vida das LA-celebs no cobrasnake. E dizer "boa cena". E os teus lábios nos meus. E deitar-me tarde. E raios de sol na cara e os olhos franzidos - todos os músculos da face contraídos - por causa da luminosidade. E sorrisos parvos.
Olha, apetece-me ser leve. Estupidamente leve para poder levantar vôo sem me cansar. Abrir os braços e
*zzzuuuuuuuuuuup*
É o que me apetece. De coisas sérias está o inferno cheio - o provérbio não é assim, mas também é assim que me apetece.
Estou cansada de repetir esta frase, a toda a gente.
Não li esse livro
ou
Não vi esse filme
ou
Não soube dessa notícia.
Desculpo-me com um sorriso envergonhado
Ando sem tempo para coisas sérias, sabes, desculpa.
Oiço música porque levo-a a sério, claro que levo; mas ao mesmo tempo está aqui ao meu lado, em vez de estar à minha frente - não se insurge contra mim, mas por mim. Vou lendo a matéria para os exames. A vida vai passando por mim e eu por ela, tranquilamente.
Isto porque ando sem tempo.
...
Ando sem pachorra, quero eu dizer. E ando sem paciência para posts sérios. Só me saem parvoíces (vide post anterior). Na verdade, só me apetecem parvoíces.
E sorrisos parvos. E gelados lambuzados. E a minha mão na tua. E salmão com vinagre balsâmico. E mensagens inesperadas, imprevisíveis e queridas. E ouvir o melhor disco do ano esta semana. Ou o melhor disco de sempre esta semana. E dizer "é enorme". E coscuvilhar a vida das LA-celebs no cobrasnake. E dizer "boa cena". E os teus lábios nos meus. E deitar-me tarde. E raios de sol na cara e os olhos franzidos - todos os músculos da face contraídos - por causa da luminosidade. E sorrisos parvos.
Olha, apetece-me ser leve. Estupidamente leve para poder levantar vôo sem me cansar. Abrir os braços e
*zzzuuuuuuuuuuup*
É o que me apetece. De coisas sérias está o inferno cheio - o provérbio não é assim, mas também é assim que me apetece.
23.5.07
Pelo sim pelo não, vou guardar estes versos
Pelo sim pelo não, vou guardar estes versos
Podem não ser nada de especial mas já são um começo!
eu sou a jaybee e só falo do que vi!
se és menino rico e estás sempre descontente caga nisso boy,
serás p'ra sempre dependente
o que importa n'é o que tens nem o que te foi dado,
o que importa na vida é o que foi alcançado
cada queda que tu dás, pelas decisões más
eu só falo do que vejo, pá isso eu não invejo
METE-TE NA LINHA
METE-TE NA LINHA
METE-TE NA LINHA
METE-TE NA LINHA BOY
é jaybee
e falo de improviso
nao vim pelos sorrisos
nem p'los paninhos quentes
a minha rima é critica e independente
o poder da palavra é de critico
de observador
os manos valete e sam nisso são ácido cloridrico e amor
METE-TE NA LINHA
METE-TE NA LINHA
METE-TE NA LINHA
METE-TE NA LINHA BOY
Podem não ser nada de especial mas já são um começo!
eu sou a jaybee e só falo do que vi!
se és menino rico e estás sempre descontente caga nisso boy,
serás p'ra sempre dependente
o que importa n'é o que tens nem o que te foi dado,
o que importa na vida é o que foi alcançado
cada queda que tu dás, pelas decisões más
eu só falo do que vejo, pá isso eu não invejo
METE-TE NA LINHA
METE-TE NA LINHA
METE-TE NA LINHA
METE-TE NA LINHA BOY
é jaybee
e falo de improviso
nao vim pelos sorrisos
nem p'los paninhos quentes
a minha rima é critica e independente
o poder da palavra é de critico
de observador
os manos valete e sam nisso são ácido cloridrico e amor
METE-TE NA LINHA
METE-TE NA LINHA
METE-TE NA LINHA
METE-TE NA LINHA BOY
15.5.07
Um álbum de Clássicos criados no novo século
Os Ratatat são dois. Um chama-se Mike Stroud e outro Evan Mast. O primeiro toca guitarra, o segundo manuseia o sintetizador, faz beats e produz as canções. Dito assim, não parece nada de novo - vêm-me à cabeça os Postal Service, cujo Give Up recuperei nos últimos tempos (e, note-se, soou tão bem como da primeira vez) . Talvez não o seja: nem novo nem original, mas mesmo assim consiga ser uma lufada de ar fresco.
O processo, já se vê, é simples: um toca guitarra e o outro pega nos acordes da guitarra e, com o sintetizador, faz canções. (Há um par de amigos meus que faz o mesmo e também de lá saem belas canções.) O que é refrescante nos Ratatat é o resultado final, que sem se prender a nenhuma época específica (aqui e ali, os setentas, além, os sessentas, acolá os oitentas) consegue, mesmo assim, fazer parte destas décadas todas. Não se pense que esse era o objectivo; em lado algum se vislumbra a cópia descarada ou o plágio desavergonhado, não. Classics, o álbum de 2006, é um (muito bom) álbum de 2006 em 2006. Daqueles álbuns que absorveram as influências todas que quiseram absorver para deles sair algo que não tendo a ver com elas, reflecte-as. Canções que já são clássicos ainda antes de soarem datadas.

O espírito é quase festivo, mas numa festa contida, rés-vés a melancolia e a introspecção. Sejam felizes, mas não ingénuos. Sabem quando, após uns copos a mais, nos encostamos à parede do bar e só nos apetece pensar na vida, apesar da música estar boa e de termos amigos ao nosso pé? (Mãe, se me estás a ler, isto só aconteceu umas vezes.) Tenho a certeza que, depois de ouvirem este disco, quando se encostarem à parede e fecharem os olhos, é uma canção dos Ratatat que vai ser a banda sonora das vossas reflexões. Não pensem demasiado, no entanto. Bebam mais uma cerveja, que deve estar bem fresca.
Ratatat :: Gettysburg (a faixa que mais gostei do álbum, ao vivo no Guggenheim de Nova Iorque - sim, leram bem, os Ratatat foram a primeira banda de sempre a actuar no Guggenheim. Impressive.)
O processo, já se vê, é simples: um toca guitarra e o outro pega nos acordes da guitarra e, com o sintetizador, faz canções. (Há um par de amigos meus que faz o mesmo e também de lá saem belas canções.) O que é refrescante nos Ratatat é o resultado final, que sem se prender a nenhuma época específica (aqui e ali, os setentas, além, os sessentas, acolá os oitentas) consegue, mesmo assim, fazer parte destas décadas todas. Não se pense que esse era o objectivo; em lado algum se vislumbra a cópia descarada ou o plágio desavergonhado, não. Classics, o álbum de 2006, é um (muito bom) álbum de 2006 em 2006. Daqueles álbuns que absorveram as influências todas que quiseram absorver para deles sair algo que não tendo a ver com elas, reflecte-as. Canções que já são clássicos ainda antes de soarem datadas.
O espírito é quase festivo, mas numa festa contida, rés-vés a melancolia e a introspecção. Sejam felizes, mas não ingénuos. Sabem quando, após uns copos a mais, nos encostamos à parede do bar e só nos apetece pensar na vida, apesar da música estar boa e de termos amigos ao nosso pé? (Mãe, se me estás a ler, isto só aconteceu umas vezes.) Tenho a certeza que, depois de ouvirem este disco, quando se encostarem à parede e fecharem os olhos, é uma canção dos Ratatat que vai ser a banda sonora das vossas reflexões. Não pensem demasiado, no entanto. Bebam mais uma cerveja, que deve estar bem fresca.
Ratatat :: Gettysburg (a faixa que mais gostei do álbum, ao vivo no Guggenheim de Nova Iorque - sim, leram bem, os Ratatat foram a primeira banda de sempre a actuar no Guggenheim. Impressive.)
8.5.07
Alguns meses dentro de um disco e dentro de uma canção II
"I wanna hurry home to you
put on a slow, dumb show for you
and crack you up
so you can put a blue ribbon on my brain
god I’m very, very frightening
I’ll overdo it
You know I dreamed about you
for twenty-nine years before I saw you
You know I dreamed about you
I missed you for
for twenty-nine years"
The National :: Slow show :: Boxer
put on a slow, dumb show for you
and crack you up
so you can put a blue ribbon on my brain
god I’m very, very frightening
I’ll overdo it
You know I dreamed about you
for twenty-nine years before I saw you
You know I dreamed about you
I missed you for
for twenty-nine years"
The National :: Slow show :: Boxer
Alguns meses dentro de um disco e dentro de uma canção I
"It was not the intention
But we let it all go
Well it messed up the function
And sure fucked up the flow
I hardly have people that I needed to know
'Cuz you're the people that I wanted to know
All this scrambling 'round
Huntin' high and then low
Lookin' for a face, love
Or somewhere to go
I hardly have places that I need to go
'Cuz you’re the places that I wanted to go
Yeah you're the places that we wanted to go
Yeah you're the places that we wanted to go"
People as places as people :: Modest Mouse :: We were dead before the ship even sank
[ I don't need to look any further. *]
But we let it all go
Well it messed up the function
And sure fucked up the flow
I hardly have people that I needed to know
'Cuz you're the people that I wanted to know
All this scrambling 'round
Huntin' high and then low
Lookin' for a face, love
Or somewhere to go
I hardly have places that I need to go
'Cuz you’re the places that I wanted to go
Yeah you're the places that we wanted to go
Yeah you're the places that we wanted to go"
People as places as people :: Modest Mouse :: We were dead before the ship even sank
[ I don't need to look any further. *]
5.5.07
Coração metálico* que dá pontapés em esquinas de móveis
Parece fazer pouco sentido beber um sumo de laranja natural e misturá-lo com beterraba, mas a mistura é boa, garanto-vos: a minha avó faz um bolo de chocolate com um creme de queijo fresco que fica divinal e também sempre me soou demasiado estranho.
No que toca à cozinha, o importante é não misturar alhos com bogalhos e torcer o pepino em pequeno. Não sei porque me deu para citar provérbios populares a esta hora da madrugada - e antes de ir dormir o sono dos justos, ou o dos injustos, ou dos injustiçados, um sono qualquer -, não sei tanta coisa e ainda assim faço-a.
No que toca à minha vida, farto-me de errar - e quem não erra? Erro atrás de erro (mas não o João Palma), cabeçada atrás de cabeçada. Por acaso em relação ao erro, gosto da metáfora do pontapé na esquina do móvel (a melhor maneira de descobrir móveis em corredores escuros é pontapeá-los). Já muita gente partiu dedos dos pés assim e não é coisa que, a não ser que se seja estupidamente parvo, se faça de propósito. Já cabeçadas na parede umas atrás de outras não creio que sejam erros, mas sim burrices.
Os próprios erros, se exaustivamente repetidos, são também eles burrices. Não julgo, e olhando em retrospectiva, que sejam erros - e, por conseguinte, burrices - propositados e conscientes. Nisto da vida e do erro sistemático, o material está viciado, tal como o dado que pesa mais na face oposta à face "seis" (que é a "um", acho).
A própria matemática tenta simplificar a vida, mas as contas aritméticas sucedem-se umas atrás de outras e a calculadora humana perde-se entre somas e perdas e divisões (multiplicações são raras, infelizmente). Deveria haver um exercício no exame de Bioestatística:
Suponha que J. errou já por três vezes ao avaliar e julgar uma pessoa. Partindo do pressuposto que conhece 10 pessoas por mês, calcule:
a) a quantidade de vezes que poderá ir jantar fora.
b) a probabilidade de se desiludir com 7 em cada 10 pessoas.
c) a probabilidadde de se enganar no julgamento dessas pessoas, sabendo que o número de pessoas que a desiludem é significativamente maior que o número de pessoas que acabam por surpreendê-la.
d) a probabilidade de ser iludida ou mesmo ludibriada por todas elas.
Já não é a primeira vez que leio numa canção que há uma sensação falsa de felicidade até a hora em que se desliga a luz e se fica a sós, de olhos e ouvidos nos próprios pensamentos. É aí - e sempre aí, invariavelmente - que me apercebo que isto de ser feliz é mais frágil do que a própria fragilidade. A felicidade é como uma teia de aranha, construímo-la a pulso e basta uma criança armada em chica-esperta para destruir o trabalho de meses.
Estou à defesa e não me sinto bem. Pareço um cavaleiro da Idade Média, iluminada por archotes (e a dar pontapés em móveis como se não houvesse amanhã porque a luz do archote é mínima), vestida e armada da cabeça aos pés com a cota de malha, o escudo, a lança, o capacete, a espada. Devia usar a espada muito mais vezes - para cortar a cabeça aos que me chateassem a minha, para trespassar o peito àqueles que fizessem o meu estalar. Estou à guarda de um castelo, nem sei o que guardo, nem sei quem me mandou aqui ficar. E o pior é que o que guardo nem é provavelmente nada de especial, é só um coração pequenino que bate muito depressa, um coração apertado numa caixa feia dentro de um quarto enorme.
A Cat Power está a dizer-me que se eu estiver à procura de coisas fáceis, é melhor desistir. As coisas difíceis dão pica, são intrigantes e desafiam-nos até à medula, instigam os reflexos e as respostas rápidas corticais. Eu tenho medo das coisas, sejam elas fáceis ou difíceis. É como se até então tivesse perdido o chão cedo demais. Não consigo assumir dentro de mim nada, mas quero que o façam por mim e não o fazem.
Não sei em quem acreditar, se naqueles que dizem que somos capazes de dar voltas à vida, se naqueles que dizem que dá-nos a vida a volta a nós. Os erros são tantos que se atropelam uns aos outros, já nem fazem fila para acontecerem. Eu atravesso a nado as dúvidas e os medos, quase me afogando a cada inspiração.
Oiço os pragmáticos dizerem que a vida dá voltas de 180º, que num instante estamos aqui e depois estamos no nosso antípoda se assim o quisermos. Eu nunca fui céptica, mas dizem-me os meus dedos dos pés,, doridos e cheios de hematomas, que a minha vida está sempre a dar voltas de 360º. Parece mudar, parece, parece, mas depois fica ali, como na Roda da Sorte, quase quase quase no milhão de não sei que moeda e acaba por calhar no prémio de valor mais pequeno. Comigo, nem dinheiro recebo; só estas nódoas negras nos pés e uma vontade de receber um abraço que nunca vem.
*Pergunta-me ainda a Cat Power que raio escondo eu no meu coração metálico; depois, empertigada - deve ter bebido demasiado hoje, ela - diz-me que o meu coração metálico não vale nada. E não vale mesmo, não sei porque o guardo tanto. Não sei, ó Chan, o que estou a tentar provar escondendo escondendo escondendo. Mas isso que dizes é verdade, eu estava cega e depois vi-o, agora quanto a isso de me ter encontrado, já tenho as minhas dúvidas. E sim, sou egoísta, mas também sou sempre verdadeira e estou encerrada numa triste triste canção.
No que toca à cozinha, o importante é não misturar alhos com bogalhos e torcer o pepino em pequeno. Não sei porque me deu para citar provérbios populares a esta hora da madrugada - e antes de ir dormir o sono dos justos, ou o dos injustos, ou dos injustiçados, um sono qualquer -, não sei tanta coisa e ainda assim faço-a.
No que toca à minha vida, farto-me de errar - e quem não erra? Erro atrás de erro (mas não o João Palma), cabeçada atrás de cabeçada. Por acaso em relação ao erro, gosto da metáfora do pontapé na esquina do móvel (a melhor maneira de descobrir móveis em corredores escuros é pontapeá-los). Já muita gente partiu dedos dos pés assim e não é coisa que, a não ser que se seja estupidamente parvo, se faça de propósito. Já cabeçadas na parede umas atrás de outras não creio que sejam erros, mas sim burrices.
Os próprios erros, se exaustivamente repetidos, são também eles burrices. Não julgo, e olhando em retrospectiva, que sejam erros - e, por conseguinte, burrices - propositados e conscientes. Nisto da vida e do erro sistemático, o material está viciado, tal como o dado que pesa mais na face oposta à face "seis" (que é a "um", acho).
A própria matemática tenta simplificar a vida, mas as contas aritméticas sucedem-se umas atrás de outras e a calculadora humana perde-se entre somas e perdas e divisões (multiplicações são raras, infelizmente). Deveria haver um exercício no exame de Bioestatística:
Suponha que J. errou já por três vezes ao avaliar e julgar uma pessoa. Partindo do pressuposto que conhece 10 pessoas por mês, calcule:
a) a quantidade de vezes que poderá ir jantar fora.
b) a probabilidade de se desiludir com 7 em cada 10 pessoas.
c) a probabilidadde de se enganar no julgamento dessas pessoas, sabendo que o número de pessoas que a desiludem é significativamente maior que o número de pessoas que acabam por surpreendê-la.
d) a probabilidade de ser iludida ou mesmo ludibriada por todas elas.
Já não é a primeira vez que leio numa canção que há uma sensação falsa de felicidade até a hora em que se desliga a luz e se fica a sós, de olhos e ouvidos nos próprios pensamentos. É aí - e sempre aí, invariavelmente - que me apercebo que isto de ser feliz é mais frágil do que a própria fragilidade. A felicidade é como uma teia de aranha, construímo-la a pulso e basta uma criança armada em chica-esperta para destruir o trabalho de meses.
Estou à defesa e não me sinto bem. Pareço um cavaleiro da Idade Média, iluminada por archotes (e a dar pontapés em móveis como se não houvesse amanhã porque a luz do archote é mínima), vestida e armada da cabeça aos pés com a cota de malha, o escudo, a lança, o capacete, a espada. Devia usar a espada muito mais vezes - para cortar a cabeça aos que me chateassem a minha, para trespassar o peito àqueles que fizessem o meu estalar. Estou à guarda de um castelo, nem sei o que guardo, nem sei quem me mandou aqui ficar. E o pior é que o que guardo nem é provavelmente nada de especial, é só um coração pequenino que bate muito depressa, um coração apertado numa caixa feia dentro de um quarto enorme.
A Cat Power está a dizer-me que se eu estiver à procura de coisas fáceis, é melhor desistir. As coisas difíceis dão pica, são intrigantes e desafiam-nos até à medula, instigam os reflexos e as respostas rápidas corticais. Eu tenho medo das coisas, sejam elas fáceis ou difíceis. É como se até então tivesse perdido o chão cedo demais. Não consigo assumir dentro de mim nada, mas quero que o façam por mim e não o fazem.
Não sei em quem acreditar, se naqueles que dizem que somos capazes de dar voltas à vida, se naqueles que dizem que dá-nos a vida a volta a nós. Os erros são tantos que se atropelam uns aos outros, já nem fazem fila para acontecerem. Eu atravesso a nado as dúvidas e os medos, quase me afogando a cada inspiração.
Oiço os pragmáticos dizerem que a vida dá voltas de 180º, que num instante estamos aqui e depois estamos no nosso antípoda se assim o quisermos. Eu nunca fui céptica, mas dizem-me os meus dedos dos pés,, doridos e cheios de hematomas, que a minha vida está sempre a dar voltas de 360º. Parece mudar, parece, parece, mas depois fica ali, como na Roda da Sorte, quase quase quase no milhão de não sei que moeda e acaba por calhar no prémio de valor mais pequeno. Comigo, nem dinheiro recebo; só estas nódoas negras nos pés e uma vontade de receber um abraço que nunca vem.
*Pergunta-me ainda a Cat Power que raio escondo eu no meu coração metálico; depois, empertigada - deve ter bebido demasiado hoje, ela - diz-me que o meu coração metálico não vale nada. E não vale mesmo, não sei porque o guardo tanto. Não sei, ó Chan, o que estou a tentar provar escondendo escondendo escondendo. Mas isso que dizes é verdade, eu estava cega e depois vi-o, agora quanto a isso de me ter encontrado, já tenho as minhas dúvidas. E sim, sou egoísta, mas também sou sempre verdadeira e estou encerrada numa triste triste canção.
30.4.07
Dizem que o açúcar faz mal.
Há lugares que são nossos para sempre, mesmo que a eles nunca regressemos. Quatro paredes de história desconhecida, um tecto bolorento, um soalho que estala no vazio. Penso
fui feliz ali
e fui, e sou-o agora porque penso nisso e volto a sê-lo. Eventualmente poderias ripostar comigo - nunca concordámos em coisas insignificantes - e dizeres-me que quando fechei a porta, o momento acabara-se, a energia esgotara-se e o que é já era. Mas na rua ainda demos a mão e na viagem de eléctrico - o 28, sempre, acima e abaixo por toda a cidade que interessa - lembro-me que encostei a minha têmpora direita
oh por favor, senhoras à janela
ao teu ombro esquerdo e que me afagaste a cabeça e eu vi, e não mo podes negar, que olhaste para mim e derreteste-te em doçura perante o meu cansaço e a minha cara franzida do sol.
Não sei porque te fez Deus tão doce.
Como os caramelos que a minha bisavó Julieta dava aos Domingos, sempre antes de ir para casa e lhe dar um beijinho na bochecha. A avó Julieta era grande e morreu já velha. Velhinha. Às vezes quero lembrar-me dela e não sou capaz e fico muito triste comigo porque sei que gostava muito dela. Ela era grande mas agora que cresci, julgo que não era maior do que eu e eu é que era pequena demais para o tamanho dela. Lembro-me que fazia bolinhos na frigideira, bifinhos de vaca que picavam na língua e eu adorava e bolos, muito bolos, bolos de tudo e mais alguma coisa. Não me lembro de ela me pegar ao colo nem de conversar comigo, ou talvez me lembre, se me esforçar. Uma vez deu-me um cabritinho acabado de nascer para o colo e passou-me o biberão.
Tens de o deixar quente
E eu não vi a minha avó fria nem me despedi dela nem a vi morrer. Num domingo fomos jantar a casa dela e eu comi os bolinhos na frigideira, os bifinhos, os bolos e ela deu-me caramelos e Galak Buttons antes de me ir embora. Angustia-me não me recordar se a beijei nesse dia ou se estava simplesmente entretida a comer os Galak Buttons ou aqueles chocolates com molho por dentro que vinham dentro de pratas coloridas. Quero tanto que a memória me leve para esse dia e me mostre o beijo que lhe dei.
Porque na manhã seguinte atendi o telefone e a minha avó, nora da minha bisavó Julieta, disse-me
Passa o telefone à mamã porque a avó Julieta está no Hospital.
E eu estava com um conjunto Benetton, camisola amarela e saia rosa choque e fui trocar porque estava triste, bem mais triste que o amarelo e o rosa da roupa Benetton. Não voltei a ver a minha avó, que morreu no hospital e eu não fui ao seu funeral.
Mas a casa dela será sempre a casa dela e sempre que vamos lá e juntamo-nos todos - os filhos, os netos, os bisnetos e os maridos e mulheres desta gente toda - é ainda
Vamos a casa da avó Julieta
que dizemos.
Portanto, amor, há lkugares que são para sempre nossos e aquele quarto será sempre nosso e aquelas paredes que nos viram amarmo-nos sem e agoras ou entãos encarcerão para sempre aquilo que existiu.
Tal como o meu coração guardou a tua doçura. Não sei mesmo porque te fez Deus tão doce.
fui feliz ali
e fui, e sou-o agora porque penso nisso e volto a sê-lo. Eventualmente poderias ripostar comigo - nunca concordámos em coisas insignificantes - e dizeres-me que quando fechei a porta, o momento acabara-se, a energia esgotara-se e o que é já era. Mas na rua ainda demos a mão e na viagem de eléctrico - o 28, sempre, acima e abaixo por toda a cidade que interessa - lembro-me que encostei a minha têmpora direita
oh por favor, senhoras à janela
ao teu ombro esquerdo e que me afagaste a cabeça e eu vi, e não mo podes negar, que olhaste para mim e derreteste-te em doçura perante o meu cansaço e a minha cara franzida do sol.
Não sei porque te fez Deus tão doce.
Como os caramelos que a minha bisavó Julieta dava aos Domingos, sempre antes de ir para casa e lhe dar um beijinho na bochecha. A avó Julieta era grande e morreu já velha. Velhinha. Às vezes quero lembrar-me dela e não sou capaz e fico muito triste comigo porque sei que gostava muito dela. Ela era grande mas agora que cresci, julgo que não era maior do que eu e eu é que era pequena demais para o tamanho dela. Lembro-me que fazia bolinhos na frigideira, bifinhos de vaca que picavam na língua e eu adorava e bolos, muito bolos, bolos de tudo e mais alguma coisa. Não me lembro de ela me pegar ao colo nem de conversar comigo, ou talvez me lembre, se me esforçar. Uma vez deu-me um cabritinho acabado de nascer para o colo e passou-me o biberão.
Tens de o deixar quente
E eu não vi a minha avó fria nem me despedi dela nem a vi morrer. Num domingo fomos jantar a casa dela e eu comi os bolinhos na frigideira, os bifinhos, os bolos e ela deu-me caramelos e Galak Buttons antes de me ir embora. Angustia-me não me recordar se a beijei nesse dia ou se estava simplesmente entretida a comer os Galak Buttons ou aqueles chocolates com molho por dentro que vinham dentro de pratas coloridas. Quero tanto que a memória me leve para esse dia e me mostre o beijo que lhe dei.
Porque na manhã seguinte atendi o telefone e a minha avó, nora da minha bisavó Julieta, disse-me
Passa o telefone à mamã porque a avó Julieta está no Hospital.
E eu estava com um conjunto Benetton, camisola amarela e saia rosa choque e fui trocar porque estava triste, bem mais triste que o amarelo e o rosa da roupa Benetton. Não voltei a ver a minha avó, que morreu no hospital e eu não fui ao seu funeral.
Mas a casa dela será sempre a casa dela e sempre que vamos lá e juntamo-nos todos - os filhos, os netos, os bisnetos e os maridos e mulheres desta gente toda - é ainda
Vamos a casa da avó Julieta
que dizemos.
Portanto, amor, há lkugares que são para sempre nossos e aquele quarto será sempre nosso e aquelas paredes que nos viram amarmo-nos sem e agoras ou entãos encarcerão para sempre aquilo que existiu.
Tal como o meu coração guardou a tua doçura. Não sei mesmo porque te fez Deus tão doce.
26.4.07
D de dado
D de Dário, D de dia, D de David Bowie, D de dinâmica, D de diarreia, D de disco, D de David Lynch, D de diabrura, D de directo, D de Diesel, D de diferente.
[Só para mais um post com título começado pela letra D.]
[Só para mais um post com título começado pela letra D.]
Definições
Às vezes é como se me segurassem na tripa e ma revirassem e apertassem a mucosa entre os dedos como se a quisessem perfurar. Outras vezes é bom.
25.4.07
Da liberdade
De vos poder mostrar o que quero mostrar, de nos podermos expôr apenas e só o quanto nos quisermos expôr, de podermos partilhar aquilo que queremos partilhar, de podermos viver de acordo com aquilo que somos.
Do sentido da solidariedade - e não da caridade. Do sentido da justiça - e não do conformismo.
Da igualdade nos valores, nas decisões, nas oportunidades, nos juízos. Do direito à diferença.
Da liberdade.
Do sentido da solidariedade - e não da caridade. Do sentido da justiça - e não do conformismo.
Da igualdade nos valores, nas decisões, nas oportunidades, nos juízos. Do direito à diferença.
Da liberdade.
22.4.07
Dois ENORMES álbuns
Esta sala está cheia de destroços de mim; tantos e tão dispersos que já não sei quem é esta que se levanta pela manhã para ir para o trabalho. Fiz de mim uma jarra partida - e agora estou pela sala toda, pelos tacos de soalho, pelo sofá, pela mesinha do café.
Olho para mim ali atrás como que a partir de um retrovisor de um carro e assim não oiço o que tocam as estações de rádio dos outros carros, não sou eu agora como naquele tempo: fugida, ferida, fingida. E o era porque me doíam os ossos da pancada, doía-me a alma da queda vertiginosa, doía-me ser eu, porque não gostava do que era. Eu como objecto, elemento pura e simplesmente decorativo. Ser meramente acéfalo sem opinião nem vontade, que absorvia as vontades dos outros - ou do outro - e fazia delas sua bandeira.
Era como se eu não pudesse ser feliz ou, mesmo podendo, não quisesse porque não o merecia.
E por isso arranjei mil vestes em seda e brocados em cores garridas e com elas cobri o corpo nu, julgando erradamente que assim não me expunha - quando era exactamente o contrário, quanto mais mostrava as várias camadas, mais se via que aquelas camadas não eram a minha pele nem nunca o seriam.
Não se é - e este é é o verbo ser na sua forma mais abstracta - sem escolha, sem desfrute, sem mágoa. E antes de ser feliz e exigi-lo a si próprio e aos outros, há que ser - e sê-lo com orgulho.
Olho para mim ali atrás como que a partir de um retrovisor de um carro e assim não oiço o que tocam as estações de rádio dos outros carros, não sou eu agora como naquele tempo: fugida, ferida, fingida. E o era porque me doíam os ossos da pancada, doía-me a alma da queda vertiginosa, doía-me ser eu, porque não gostava do que era. Eu como objecto, elemento pura e simplesmente decorativo. Ser meramente acéfalo sem opinião nem vontade, que absorvia as vontades dos outros - ou do outro - e fazia delas sua bandeira.
Era como se eu não pudesse ser feliz ou, mesmo podendo, não quisesse porque não o merecia.
E por isso arranjei mil vestes em seda e brocados em cores garridas e com elas cobri o corpo nu, julgando erradamente que assim não me expunha - quando era exactamente o contrário, quanto mais mostrava as várias camadas, mais se via que aquelas camadas não eram a minha pele nem nunca o seriam.
Não se é - e este é é o verbo ser na sua forma mais abstracta - sem escolha, sem desfrute, sem mágoa. E antes de ser feliz e exigi-lo a si próprio e aos outros, há que ser - e sê-lo com orgulho.
Mmmmm
Há qualquer coisa especial nisto de chegar a casa a cheirar a ti. De te ter beijado a noite toda, sem vergonha na cara nem nos lábios. Tenho o coração a vaguear na expectativa de quem serás tu que me agarras com força, e que me aqueces o corpo todo com um olhar, e que me dás dentadas no pescoço porque és completamente parvo.
Não sei se estás a pensar em mim agora, mas eu estou a pensar em ti, por isso boa noite e dorme bem.
(E tens tanta falta de jeito para karaoke, és quase tão mau quanto eu.)
Não sei se estás a pensar em mim agora, mas eu estou a pensar em ti, por isso boa noite e dorme bem.
(E tens tanta falta de jeito para karaoke, és quase tão mau quanto eu.)
21.4.07
Casamento
Gostava de te pedir em casamento para que ficasses a olhar para mim com essa cara entre o terror, o descrédito e o gozo. Que me respondesses não e depois ríssemos juntos. Ou então que fugisses de mim a sete pés e me achasses doida. Ou me dissesses, peremptoriamente
eu nunca me hei-de casar
para depois eu poder pedir-te em casamento mesmo quando só quisesse comer um gelado.
Pedir-te-ia em casamento vezes sem conta, hoje, amanhã e daqui a um mês, e, se ainda estivéssemos juntos daqui a um ano, também o faria. Pedir-te-ia em casamento no metro, na praia, num miradouro, num restaurante, na cama ou na cozinha. Pedir-te ia em casamento de pé, sentada, deitada, de joelhos ou a fazer o pino.
É que eu também não quero casar contigo, sabes?
Gostava de te pedir em casamento porque seria a minha maneira atabalhoada de te dizer que gosto de ti.
eu nunca me hei-de casar
para depois eu poder pedir-te em casamento mesmo quando só quisesse comer um gelado.
Pedir-te-ia em casamento vezes sem conta, hoje, amanhã e daqui a um mês, e, se ainda estivéssemos juntos daqui a um ano, também o faria. Pedir-te-ia em casamento no metro, na praia, num miradouro, num restaurante, na cama ou na cozinha. Pedir-te ia em casamento de pé, sentada, deitada, de joelhos ou a fazer o pino.
É que eu também não quero casar contigo, sabes?
Gostava de te pedir em casamento porque seria a minha maneira atabalhoada de te dizer que gosto de ti.
All i wanna do is love you
Hoje soube que esta canção foi a última que o Curtis Mayfield gravou antes da sua morte em 1999.
Bran van 3000 feat. Curtis Mayfield :: Astounded
Curiosamente, foi esta canção que me fez ir descobrir o Curtis. (*) Hoje recordo-a. É uma canção boa para se ouvir em dias de coração aberto e sol na cara. E não o são sempre, senhor Curtis? Onde quer que esteja, obrigada mais uma vez. Descanse em paz.
(*) Faz-me lembrar o Grace do Jeff Buckley, que também só fui ouvir quando ele morreu. Silly me.
Nota: só mesmo eu para fazer um post póstumo com 8 anos de atraso.
Bran van 3000 feat. Curtis Mayfield :: Astounded
Curiosamente, foi esta canção que me fez ir descobrir o Curtis. (*) Hoje recordo-a. É uma canção boa para se ouvir em dias de coração aberto e sol na cara. E não o são sempre, senhor Curtis? Onde quer que esteja, obrigada mais uma vez. Descanse em paz.
(*) Faz-me lembrar o Grace do Jeff Buckley, que também só fui ouvir quando ele morreu. Silly me.
Nota: só mesmo eu para fazer um post póstumo com 8 anos de atraso.
17.4.07
Obra de Santa Engrácia é finalmente inaugurada
Em rodapé: "O Túnel do Marquês foi finalmente inugurado. A cerimónia decorreu durante a noite. Não foram servidos comes, mas bebes sim. A já tão esperada passagem de meios de transporte veio confirmar a perfeita suavidade do alcatrão. Não se encontrou nenhuma carruagem do Metro a obstruir a passagem."
Um típico caso de amor à primeira vista
Literalmente. Estava na secção de hip-hop de uma determinada multinacional que começa com F, acaba com C e no meio tem NA e a capa deste disco chamou-me à atenção. Meia hora depois, lá regressei com este amigo, mostrei-lhe a capa e ele disse que era a minha cara. "É tipo 4Hero e Plantlife, não gostas?". Gosto, pois, muito muito. Siga ouvir.
Adoro-o desde que o comecei a ouvir. Hip hop cítrico, melódico, harmonioso, refrescante. Um cubo de gelo (dos bons) neste calor primaveril inusitado.
Ao especial cuidado da mana Joana, que vai adorar, e dos demais leitores.
Amor em pacotinhos de açúcar, that's what it is.

Strange Fruit Project :: The Healing (myspace aqui)
P.S. Muito, mas mesmo muito cuidado com a faixa com a Erykah Badu.
P.P.S. E com a faixa Special, com uma moçoila chama Thesis (tese, em português).
Adoro-o desde que o comecei a ouvir. Hip hop cítrico, melódico, harmonioso, refrescante. Um cubo de gelo (dos bons) neste calor primaveril inusitado.
Ao especial cuidado da mana Joana, que vai adorar, e dos demais leitores.
Amor em pacotinhos de açúcar, that's what it is.
Strange Fruit Project :: The Healing (myspace aqui)
P.S. Muito, mas mesmo muito cuidado com a faixa com a Erykah Badu.
P.P.S. E com a faixa Special, com uma moçoila chama Thesis (tese, em português).
WARNING! You're entering the addictive area.
Há canções que nos entram pelo corpo como se fizessem parte de nós. Por mais que as ouçamos não parecem essas vezes nunca ser suficientes. Ouvimos, ouvimos, voltamos a ouvir, comemos um iogurte a ouvir, ouvimos, ouvimos de novo.
Não admira que a música soul se chame soul. Entranha-se pelos poros, pelos tegumentos, pelos músculos, pelos órgãos. Se há alma, a alma é isto: algo de tal forma intrincado a nós que a única coisa que sabemos sobre isso é que nos pertence para sempre. Mais resistente que o tempo e que o espaço, a nossa alma.
E a canção Beggin':: Frankie Valli and the Four Seasons.
(Clicar no nome da canção para seguir o link que vos levará a conhecer um vestígio de alma sob a forma de notas de música e palavras bonitas.)
Não admira que a música soul se chame soul. Entranha-se pelos poros, pelos tegumentos, pelos músculos, pelos órgãos. Se há alma, a alma é isto: algo de tal forma intrincado a nós que a única coisa que sabemos sobre isso é que nos pertence para sempre. Mais resistente que o tempo e que o espaço, a nossa alma.
E a canção Beggin':: Frankie Valli and the Four Seasons.
(Clicar no nome da canção para seguir o link que vos levará a conhecer um vestígio de alma sob a forma de notas de música e palavras bonitas.)
13.4.07
Maybe he got the wrong counterclockwise
He said "No more loud music".
dEUS :: Theme from Turnpike
(Nada de novo, só o Tom Barman mais a sua gente. Devo sonhar de tempos a tempos com os dEUS porque acordo a cantar uma canção deles. Hoje foi esta. Como não tinha o disco cá na Madeira, fui procurar o vídeo no bendito youtube. Estraaaaaaanho.)
12.4.07
"I have weird memories of you."
Sonhei contigo. No sonho estavas inseguro - é-lo sempre, mas desta vez um pouco mais que o normal. Disseste-me que não estavas bem e ficaste a olhar-me intensamente, daquela maneira como só tu olhas, como sempre olhaste, os olhos doces de cão abandonado, o cinzento da íris perdido no nada e pousado no nunca. Não sorrias e eu estranhei.
Estavam mais pessoas, que conversavam comigo. Ignoravam-te ali no plâteau dos sonhos, mas não é suposto ninguém estranhar nada por ali. Aliás poderíamos ter voado juntos para um ponto distante e indeterminado que ninguém desconfiaria da veracidade do nosso vôo.
Perguntaste-me se podias ficar por ali comigo, eu respondi que sim, algo indiferente, e continuei a conversar com as outras pessoas que por lá estavam. Passaste grande parte do sonho a olhar-me furtivamente, como se não fosse tua intenção que eu reparasse. Falhaste, bom, pelo menos ali no sonho, e eu reparei.
Por isso não sei se quando me levantei da cadeira se estava só a provocar-te para que me seguisses, se tinha mesmo que ir embora para outro sonho qualquer. Sei que, já longe da vista das pessoas que estavam comigo antes de chegares, me beijaste as pálpebras superiores, a ponta do nariz, o queixo, me pediste desculpa e me beijaste a boca com mais vontade do que nunca.
Acordei depressa, com medo de voltar a magoar-me.
"I have weird memories of you" ou at least I have something to cling to.
Estavam mais pessoas, que conversavam comigo. Ignoravam-te ali no plâteau dos sonhos, mas não é suposto ninguém estranhar nada por ali. Aliás poderíamos ter voado juntos para um ponto distante e indeterminado que ninguém desconfiaria da veracidade do nosso vôo.
Perguntaste-me se podias ficar por ali comigo, eu respondi que sim, algo indiferente, e continuei a conversar com as outras pessoas que por lá estavam. Passaste grande parte do sonho a olhar-me furtivamente, como se não fosse tua intenção que eu reparasse. Falhaste, bom, pelo menos ali no sonho, e eu reparei.
Por isso não sei se quando me levantei da cadeira se estava só a provocar-te para que me seguisses, se tinha mesmo que ir embora para outro sonho qualquer. Sei que, já longe da vista das pessoas que estavam comigo antes de chegares, me beijaste as pálpebras superiores, a ponta do nariz, o queixo, me pediste desculpa e me beijaste a boca com mais vontade do que nunca.
Acordei depressa, com medo de voltar a magoar-me.
"I have weird memories of you" ou at least I have something to cling to.
11.4.07
A propósito d' "Os Grandes Portugueses" e da grande palhaçada que foi a vitória de Salazar
Não ia sequer tocar no assunto por aqui até ler, este fim de semana, a opinião mais acertada que jáli sobre isso. É do historiador José Mattoso (recomendo a leitura de toda a entrevista na Única, revista do Expresso, dia 06.04.07). Citando:
"[o resultado] Revela a perpetuação da mediocridade. Salazar surge como uma espécie de Messias, uma personagem capaz de resolver os problemas. Não nos sentíamos bem, não era isto que esperávamos da democracia. Precisamos de um chefe novo, então escolhemos um messias. É a mesma reacção que tivemos durante o período filipino com a figura de D. Sebastião. Hoje as pessoas projectam no Estado Novo questões como segurança, estabilidade ou a resolução dos seus problemas, e encontram na figura de Salazar a salvação."
Fez-me lembrar o Pessoa e aquela que, das obras portuguesas que conheço , é aquela que melhor transmite o "ser português" - a Mensagem, claro, onde o Messias, o Encoberto, o D. Sebastião, nomes diferentes para a mesma personagem, para a mesma esperança, é profusamente referido.
Portugal vai estar continuamente à espera do seu Salvador e, enquanto ele não chega - nunca chegará -, estará enterrado no lodo onde, a pouco e pouco, vai submergindo até que já nada reste.
[Tenho dias em que sou mais patriótica que o Viriato Lusitano, outros assim, pessimista.]
Talvez isto também ajude a explicar o sucesso do Alberto João Jardim na minha ilha. Ele surge como o Salvador, o responsável maior pela autonomia madeirense, o grande promotor e fundador da "Madeira Nova" - a região "livre" (este "livre" dá azo a mais um post), tranquila (onde não se viveu a conturbada época pós- 25 de Abril como no Continente), próspera.
Os madeirenses têm o seu Messias no poder, porque hão-de eles escolher qualquer outro para o seu lugar?
"[o resultado] Revela a perpetuação da mediocridade. Salazar surge como uma espécie de Messias, uma personagem capaz de resolver os problemas. Não nos sentíamos bem, não era isto que esperávamos da democracia. Precisamos de um chefe novo, então escolhemos um messias. É a mesma reacção que tivemos durante o período filipino com a figura de D. Sebastião. Hoje as pessoas projectam no Estado Novo questões como segurança, estabilidade ou a resolução dos seus problemas, e encontram na figura de Salazar a salvação."
Fez-me lembrar o Pessoa e aquela que, das obras portuguesas que conheço , é aquela que melhor transmite o "ser português" - a Mensagem, claro, onde o Messias, o Encoberto, o D. Sebastião, nomes diferentes para a mesma personagem, para a mesma esperança, é profusamente referido.
Portugal vai estar continuamente à espera do seu Salvador e, enquanto ele não chega - nunca chegará -, estará enterrado no lodo onde, a pouco e pouco, vai submergindo até que já nada reste.
[Tenho dias em que sou mais patriótica que o Viriato Lusitano, outros assim, pessimista.]
Talvez isto também ajude a explicar o sucesso do Alberto João Jardim na minha ilha. Ele surge como o Salvador, o responsável maior pela autonomia madeirense, o grande promotor e fundador da "Madeira Nova" - a região "livre" (este "livre" dá azo a mais um post), tranquila (onde não se viveu a conturbada época pós- 25 de Abril como no Continente), próspera.
Os madeirenses têm o seu Messias no poder, porque hão-de eles escolher qualquer outro para o seu lugar?
8.4.07
Kimiko Yoshida :: “Tudo o que não seja eu”, mas sejamos todos nós
O corpo de Kimiko não é lascivo nem causa arrepios de prazer. É uma mulher de largos ossos, cujas mamas não resistiram aos efeitos do tempo e da gravidade. O rosto, porém, é harmonioso, com lábios carnudos, olhos finamente delineados, traços estereotipicamente japoneses. A primeira vista de olhos sobre a exposição, arrumada em dois andares, um deles disposto em mezzanine sobre o outro, é difuso e divide-se entre a atracção e a repulsa – a vontade, confesso, foi de ignorar a sobrecarga de retratos e seguir para a sala seguinte.
Mas há algo neles que nos prende. Mais que prender, envolve-nos: à segunda vista de olhos, estamos irremediavelmente atraídos por aquelas imagens aparentemente iguais, de mulheres parecidas (irmãs?), cujo rosto, pescoço e decote (por vezes seios) estão pintados de preto ou de branco contra um fundo respectivamente preto ou branco. O visitante desprevenido, que desconhece a arte com que acaba de se deparar – eu -, aproxima-se e lê as legendas, também elas muito parecidas umas com as outras “The Bride of ...” ou “The ... Bride”. A curiosidade aguça o espírito e o espírito aguça a curiosidade, e o corpo senta-se confortavelmente para que a curiosidade seja minimamente satisfeita com o vídeo The Birth of a Geisha: a própria Kimiko desnudada a usar um pincel largo para daí a uns minutos, muita tinta branca e algum batôn vermelho depois, tornar-se quase irreconhecível como geisha.
Não há vontade explícita de nos sentirmos desconfortáveis mas também não se procura oferecer conforto. O rosto, que é sempre da mesma pessoa – da própria Kimiko - torna-se menos importante naquela sucessão de fotos e o destaque vai para os acessórios e as máscaras, sempre diferentes entre eles, sempre com algo em comum: a sua utilização identifica a noiva que é encarnada na imagem. E há acessórios dos quatro cantos do mundo, aliás, houvesse mais cantos do mundo e eles também estariam ali representados. Representados não, vividos. Kimiko não está apenas a mostrar aquelas noivas, está a encarná-las. A própria di-lo: “chamam ao meu trabalho auto-retratos, mas a arte é encarnação e eu estou a encarnar personagens, não sou eu nos retratos que faço” (transcrição não literal de uma sua citação). Para além dos países, encontramos Kimiko usando máscaras que são idiossincrasias do nosso tempo, Mao Tsé- Tung, Picatchu, Mickey, também eles se transformam em noivas ou são, no mínimo, noivos. E há também uma sequência que é, pelo menos, alusiva ao Japão em que são usados andrajos, em oposição ao corpo nú ou tapado por uma burka que víramos até então, e o fundo é colorido. O fundo é também colorido na noiva que é a Estátua da Liberdade – é encarnado. Volta a ser negro na recordação/ homenagem a Picasso – na noiva que é Toureira e na noiva de Guernica, angustiada sob uma lâmpada negra (existirá luz negra?) e fotografada de perfil.
Ser praticamente abalroada pela crueza daquelas noivas, tão díspares e ainda assim tão unidas pelo propósito de um suposto matrimónio, fez-me questionar qual o verdadeiro peso de uma cultura, de uma identidade, de uma nação, questões para as quais não obtive respostas imediatas; não pude, no entanto, deixar de reconhecer-me em cada uma daquelas noivas, apesar de não constar do catálogo uma “The Portuguese Bride”, ali estamos, nós mulheres, nós humanidade, unidas pela agitação, pelo medo, pela repressão, pela juvenilidade, pela alegria, pela serenidade, pela graça, pelo amor.
A verdadeira intenção de Kimiko? Desconheço-a. A noiva, ou melhor, a Noiva é Kimiko e deixa de o ser para mostrar, com toques de humor e ironia e com uma enorme sensibilidade, que pode ser geisha ou negra, pode ser oprimida ou livre, pode ser antiga ou contemporânea, pode viver na guerra ou na paz. Uma noiva pode mesmo ser um homem. Feminismo ou feminilidade?
Os dois: um nunca sobreviverá sem o outro.
Kimiko Yoshida, no Centro de Arte Moderna Casa das Mudas (Calheta, Madeira):
“TUDO O QUE NÃO SEJA EU” [a solo show - retrospective exhibition] - de 16. Mar a 26. Ago de 2007
[Texto escrito a pedido do Entrelinhas.]
Mas há algo neles que nos prende. Mais que prender, envolve-nos: à segunda vista de olhos, estamos irremediavelmente atraídos por aquelas imagens aparentemente iguais, de mulheres parecidas (irmãs?), cujo rosto, pescoço e decote (por vezes seios) estão pintados de preto ou de branco contra um fundo respectivamente preto ou branco. O visitante desprevenido, que desconhece a arte com que acaba de se deparar – eu -, aproxima-se e lê as legendas, também elas muito parecidas umas com as outras “The Bride of ...” ou “The ... Bride”. A curiosidade aguça o espírito e o espírito aguça a curiosidade, e o corpo senta-se confortavelmente para que a curiosidade seja minimamente satisfeita com o vídeo The Birth of a Geisha: a própria Kimiko desnudada a usar um pincel largo para daí a uns minutos, muita tinta branca e algum batôn vermelho depois, tornar-se quase irreconhecível como geisha.
Não há vontade explícita de nos sentirmos desconfortáveis mas também não se procura oferecer conforto. O rosto, que é sempre da mesma pessoa – da própria Kimiko - torna-se menos importante naquela sucessão de fotos e o destaque vai para os acessórios e as máscaras, sempre diferentes entre eles, sempre com algo em comum: a sua utilização identifica a noiva que é encarnada na imagem. E há acessórios dos quatro cantos do mundo, aliás, houvesse mais cantos do mundo e eles também estariam ali representados. Representados não, vividos. Kimiko não está apenas a mostrar aquelas noivas, está a encarná-las. A própria di-lo: “chamam ao meu trabalho auto-retratos, mas a arte é encarnação e eu estou a encarnar personagens, não sou eu nos retratos que faço” (transcrição não literal de uma sua citação). Para além dos países, encontramos Kimiko usando máscaras que são idiossincrasias do nosso tempo, Mao Tsé- Tung, Picatchu, Mickey, também eles se transformam em noivas ou são, no mínimo, noivos. E há também uma sequência que é, pelo menos, alusiva ao Japão em que são usados andrajos, em oposição ao corpo nú ou tapado por uma burka que víramos até então, e o fundo é colorido. O fundo é também colorido na noiva que é a Estátua da Liberdade – é encarnado. Volta a ser negro na recordação/ homenagem a Picasso – na noiva que é Toureira e na noiva de Guernica, angustiada sob uma lâmpada negra (existirá luz negra?) e fotografada de perfil.
Ser praticamente abalroada pela crueza daquelas noivas, tão díspares e ainda assim tão unidas pelo propósito de um suposto matrimónio, fez-me questionar qual o verdadeiro peso de uma cultura, de uma identidade, de uma nação, questões para as quais não obtive respostas imediatas; não pude, no entanto, deixar de reconhecer-me em cada uma daquelas noivas, apesar de não constar do catálogo uma “The Portuguese Bride”, ali estamos, nós mulheres, nós humanidade, unidas pela agitação, pelo medo, pela repressão, pela juvenilidade, pela alegria, pela serenidade, pela graça, pelo amor.
A verdadeira intenção de Kimiko? Desconheço-a. A noiva, ou melhor, a Noiva é Kimiko e deixa de o ser para mostrar, com toques de humor e ironia e com uma enorme sensibilidade, que pode ser geisha ou negra, pode ser oprimida ou livre, pode ser antiga ou contemporânea, pode viver na guerra ou na paz. Uma noiva pode mesmo ser um homem. Feminismo ou feminilidade?
Os dois: um nunca sobreviverá sem o outro.
Kimiko Yoshida, no Centro de Arte Moderna Casa das Mudas (Calheta, Madeira):
“TUDO O QUE NÃO SEJA EU” [a solo show - retrospective exhibition] - de 16. Mar a 26. Ago de 2007
[Texto escrito a pedido do Entrelinhas.]
2.4.07
Someone great
Não sei porque é que gosto tanto do O.C. : a música (lembro-me bem do episódio da primeira época em que dava a Float On dos Modest Mouse quando a Marissa estava em casa da Theresa, a banda preferida do Seth Cohen serem os Death Cab for Cutie, os Beastie Boys terem escolhido lançar o Ch-Check it out no episódio passado em Las Vegas, entre tantas outras bandas e tantas outras canções), a Mischa Barton, por ser a desequilibrada de quem se é incapaz de não se sentir ternura e por ser tão incrivelmente bonita e por usar roupas Marc Jacobs e clutches da Chanel como mais nenhuma miúda nascida em '87 (ou mesmo antes), o Seth Cohen, a personagem mais namorado perfeito da história da televisão com as suas parvoíces, o sarcasmo doce, a maneira esquisita de enrolar as palavras, o interesse desmesurado em BD e vela, o cavalinho de plástico, a indiezice, as camisolas às riscas.Não faço ideia porque gosto tanto do O.C. quando a verdade é que gosto, que vejo (e revejo) com todo o prazer os episódios em que a trama se adensa e o drama se intens[ific]a, e os momentos violentos são descontraídos por piadas, algum humor negro ("It's too early for that, even for a Cohen") e trocadilhos com palavras.
A Marissa morreu no último episódio da terceira época, nos braços do homem da vida dela, o Ryan. Na quarta época, agora a ser transmitida na Fox (long live Fox!), as personagens Ryan, Julie e Summer (sobretudo) aprendem a melhor forma para lidar com o luto pela perda de: a mulher da vida dele, a filha e a melhor amiga de sempre, respectivamente. Enquanto isso, na vida real, os produtores tiveram que aprender a melhor forma para lidar com o insucesso televisivo de um O.C. sem Marissa: encurtaram a série para 16 episódios, em vez dos tradicionais 25 ou 26. Ou isso ou o formato esgotou-se, hipótese com grande probabilidade de ser a correcta.
O episódio de hoje contou com a Black Swan do Thom Yorke e foi isso que me motivou a vir aqui, a esta hora da madrugada, escrever sobre o O.C.. The Eraser é o segundo melhor disco de 2006 em 2007 (o primeiro foi o Be He Me dos Annuals, cujo texto está prometido e surgirá em breve). O ano passado não tive paciência herética de ir ouvir a voz arrastada do Camões inglês, mas quando ouvi a Analyse nos créditos finais do The Prestige (é uma coisa muito dvd-like dizer créditos finais e é pior ainda escrevê-lo), percebi que aquele ficheiro zip ia servir para alguma coisa. Belíssimo álbum.
A Summer hoje confessou que, por ter que lidar com a morte da Marissa, não estava a conseguir amar o Seth. Já ouvi desculpas piores, portanto acredito nela: ela tem que lidar com aquilo sozinha. Ela perdeu a pessoa que está com ela desde criança e, provavelmente, quando a Marissa morreu a Summer perdeu parte de si. E com isso de perder parte de si estou eu familiarizada.
Ter que se levantar e erguer imediatamente quando nos cortaram os pés e nos partiram os joelhos é impossível. Não há ses, é realmente impossível e não acontece. O processo é mais longo do que isso e exige manter-se deitada, enrolada sobre si mesma, durante o tempo que levar o crescimento de novos pés e a consolidação das peças dos joelhos. Quando os membros estão finalmente recompostos, ter que pôr-se de pé e voltar a andar são reaquisições igualmente morosas e sacrificantes. Nesta fase, a fragilidade é tal que qualquer movimento brusco, impensado ou imprevisto nos faz regressar exactamente ao ponto inicial. Tudo isto leva o seu tempo e envolve muito medo. Um medo aterrador que surge a qualquer momento, perante qualquer situação. Um medo incapacitante, o mesmo que, mais tarde, impede que se salte e se mergulhe e faz com que se viva na obscuridade, no receio de voltar a perder os pés (em última análise, voltar a perder as asas).
O medo co-habita com a saudade. Não sei qual deles é mais nociceptivo para as vísceras. Para vos ser sincera, não tenho a certeza se isto de olhar à volta e perceber que pessoa X estaria completamente enquadrada em determinado contexto era realmente saudade, se era apenas teimosia. E como doeu a teimosia! Como doeu andar por Lisboa a dar com a cabeça nas paredes por cada burrice que cometia, completamente centrada em mim própria. Em mim e na minha estupidez.
What are the options when someone great is gone?
As opções não são opções. Não há opções de qualquer espécie, porque só há uma saída, diametralmente oposta à espiral de medo/saudade/teimosia/angústia em que se entrou. A saída é exactamente sair pela porta em que se entrou (e isto colocado desta forma parece a coisa mais óbvia e simples do mundo, mais-epá-és-burra-por-não-te-teres-afastado-antes). Só que essa saída é um desmame, é gradual e vai acontecendo. Um dia damos por nós e puf! fez-se o Chocapic e somos nós outra vez, mas com uma grande, uma enorme cicatriz no ventrículo esquerdo.
When someone great is gone. We're safe for the moment. Saved for the moment.
O James Murphy é genial e o Sound of Silver é melhor que o anterior e é melhor que aquela yeah yeah yeah yeah (a melhor música do disco ausente do alinhamento desse disco de sempre). E discos dos LCD fazem falta a todos os anos, sobretudo os ímpares (só porque me apetece, espero que compreendam, ainda estou um pouco zonza da espiral de onde saí).
2007 já é um bom ano porque existe o Sound of Silver, a Someone great, a Get innocuous e a All my friends. Tornou-se ainda melhor (ia falar disto noutro post, mas que se lixe, já que vou lançada aqui vai) porque o Johnny Marr juntou-se aos Modest Mouse para o We were dead before the ship even sank, o novo álbum dos MM. Eu explico: o guitarrista responsável pela forma como soavam os Smiths (e a prova disso é o Morrissey nunca ter soado da mesma forma a solo)- e, sem receios porque até na rádio já o disse, os Smiths são a minha banda sobre todas as bandas - juntou-se a uma das minhas bandas indie preferidas.
O Rodrigo (outro feliz com a contratação da época pelos MM) disse que já ninguém vê o O.C. em 2007. Nunca percebi porque gosto tanto do O.C., mas na verdade passa por lá tudo o que gosto. Até lá estou eu, se bem que disfarçada. E eu gosto muito de mim, como já deu para ver.
A Marissa morreu no último episódio da terceira época, nos braços do homem da vida dela, o Ryan. Na quarta época, agora a ser transmitida na Fox (long live Fox!), as personagens Ryan, Julie e Summer (sobretudo) aprendem a melhor forma para lidar com o luto pela perda de: a mulher da vida dele, a filha e a melhor amiga de sempre, respectivamente. Enquanto isso, na vida real, os produtores tiveram que aprender a melhor forma para lidar com o insucesso televisivo de um O.C. sem Marissa: encurtaram a série para 16 episódios, em vez dos tradicionais 25 ou 26. Ou isso ou o formato esgotou-se, hipótese com grande probabilidade de ser a correcta.
O episódio de hoje contou com a Black Swan do Thom Yorke e foi isso que me motivou a vir aqui, a esta hora da madrugada, escrever sobre o O.C.. The Eraser é o segundo melhor disco de 2006 em 2007 (o primeiro foi o Be He Me dos Annuals, cujo texto está prometido e surgirá em breve). O ano passado não tive paciência herética de ir ouvir a voz arrastada do Camões inglês, mas quando ouvi a Analyse nos créditos finais do The Prestige (é uma coisa muito dvd-like dizer créditos finais e é pior ainda escrevê-lo), percebi que aquele ficheiro zip ia servir para alguma coisa. Belíssimo álbum.
A Summer hoje confessou que, por ter que lidar com a morte da Marissa, não estava a conseguir amar o Seth. Já ouvi desculpas piores, portanto acredito nela: ela tem que lidar com aquilo sozinha. Ela perdeu a pessoa que está com ela desde criança e, provavelmente, quando a Marissa morreu a Summer perdeu parte de si. E com isso de perder parte de si estou eu familiarizada.
Ter que se levantar e erguer imediatamente quando nos cortaram os pés e nos partiram os joelhos é impossível. Não há ses, é realmente impossível e não acontece. O processo é mais longo do que isso e exige manter-se deitada, enrolada sobre si mesma, durante o tempo que levar o crescimento de novos pés e a consolidação das peças dos joelhos. Quando os membros estão finalmente recompostos, ter que pôr-se de pé e voltar a andar são reaquisições igualmente morosas e sacrificantes. Nesta fase, a fragilidade é tal que qualquer movimento brusco, impensado ou imprevisto nos faz regressar exactamente ao ponto inicial. Tudo isto leva o seu tempo e envolve muito medo. Um medo aterrador que surge a qualquer momento, perante qualquer situação. Um medo incapacitante, o mesmo que, mais tarde, impede que se salte e se mergulhe e faz com que se viva na obscuridade, no receio de voltar a perder os pés (em última análise, voltar a perder as asas).
O medo co-habita com a saudade. Não sei qual deles é mais nociceptivo para as vísceras. Para vos ser sincera, não tenho a certeza se isto de olhar à volta e perceber que pessoa X estaria completamente enquadrada em determinado contexto era realmente saudade, se era apenas teimosia. E como doeu a teimosia! Como doeu andar por Lisboa a dar com a cabeça nas paredes por cada burrice que cometia, completamente centrada em mim própria. Em mim e na minha estupidez.
What are the options when someone great is gone?
As opções não são opções. Não há opções de qualquer espécie, porque só há uma saída, diametralmente oposta à espiral de medo/saudade/teimosia/angústia em que se entrou. A saída é exactamente sair pela porta em que se entrou (e isto colocado desta forma parece a coisa mais óbvia e simples do mundo, mais-epá-és-burra-por-não-te-teres-afastado-antes). Só que essa saída é um desmame, é gradual e vai acontecendo. Um dia damos por nós e puf! fez-se o Chocapic e somos nós outra vez, mas com uma grande, uma enorme cicatriz no ventrículo esquerdo.
When someone great is gone. We're safe for the moment. Saved for the moment.
O James Murphy é genial e o Sound of Silver é melhor que o anterior e é melhor que aquela yeah yeah yeah yeah (a melhor música do disco ausente do alinhamento desse disco de sempre). E discos dos LCD fazem falta a todos os anos, sobretudo os ímpares (só porque me apetece, espero que compreendam, ainda estou um pouco zonza da espiral de onde saí).
2007 já é um bom ano porque existe o Sound of Silver, a Someone great, a Get innocuous e a All my friends. Tornou-se ainda melhor (ia falar disto noutro post, mas que se lixe, já que vou lançada aqui vai) porque o Johnny Marr juntou-se aos Modest Mouse para o We were dead before the ship even sank, o novo álbum dos MM. Eu explico: o guitarrista responsável pela forma como soavam os Smiths (e a prova disso é o Morrissey nunca ter soado da mesma forma a solo)- e, sem receios porque até na rádio já o disse, os Smiths são a minha banda sobre todas as bandas - juntou-se a uma das minhas bandas indie preferidas.
O Rodrigo (outro feliz com a contratação da época pelos MM) disse que já ninguém vê o O.C. em 2007. Nunca percebi porque gosto tanto do O.C., mas na verdade passa por lá tudo o que gosto. Até lá estou eu, se bem que disfarçada. E eu gosto muito de mim, como já deu para ver.
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