Maybe the sun will shine today
The clouds will blow away
Maybe I won't feel so afraid
I will try to understand either way
Maybe you still love me maybe you don't
Either you will or you won't
Maybe you just need some time alone
I will try to understand
Everything has its plan
Either way I'm going to stay right for you
Maybe the sun will shine today
The clouds will roll away
Maybe I won't be so afraid
I will understand
Everything has its plan either way
:)
Wilco :: Either way :: Sky Blue Sky
28.8.07
Como é bom, como é bom.
Como é bom não ter palavras para descrever nada disto, nem a minha cabeça no teu colo, nem as tuas mãos no meu cabelo, nem os nossos beijos ou sorrisos sincronizados. Como é bom estar tranquilamente a ver isto acontecer-nos de novo.
Como diz o Jeff Tweedy, happenstances have changed my plans so many times e como é bom não ter sabido nem conseguido prever nada disto, como é bom, como é bom.

i will live in you
or you will live in me
until we disappear
together in a dream
(...)
on and on and on
we'll be together yeah
on and on and on
on and on and on
we're going to try
(...)
you and i
we'll stay together yeah
you and i will try
to make it better yeah
Wilco :: Sky Blue Sky
Como diz o Jeff Tweedy, happenstances have changed my plans so many times e como é bom não ter sabido nem conseguido prever nada disto, como é bom, como é bom.
i will live in you
or you will live in me
until we disappear
together in a dream
(...)
on and on and on
we'll be together yeah
on and on and on
on and on and on
we're going to try
(...)
you and i
we'll stay together yeah
you and i will try
to make it better yeah
Wilco :: Sky Blue Sky
8.8.07
Caruncho e uma recuperação da madrugada
Às vezes penso seriamente se tenho caruncho na cabeça. Ando a mil, mesmo em férias, e o sistema não pára nunca de carburar, de apagar, de inserir - até me dá para fazer analogias com informática.
Falei dela aqui. E hoje, depois de um burguês passeio de veleiro, é esta canção que não me deixa em paz e o maldito verso "ooh are you the one i've been waiting for?", uma merda de pergunta que me tenho feito mil vezes de há uns tempos para cá, uma pergunta tão simples que imediatamente se complica quando custa ao questionado dar uma resposta como deve ser.
Às vezes penso seriamente que tenho caruncho na cabeça - mas o pior é que não estou sozinha, andamos todos cheios de caruncho. Que o nosso cérebro não se desfaça dos furos.
Falei dela aqui. E hoje, depois de um burguês passeio de veleiro, é esta canção que não me deixa em paz e o maldito verso "ooh are you the one i've been waiting for?", uma merda de pergunta que me tenho feito mil vezes de há uns tempos para cá, uma pergunta tão simples que imediatamente se complica quando custa ao questionado dar uma resposta como deve ser.
Às vezes penso seriamente que tenho caruncho na cabeça - mas o pior é que não estou sozinha, andamos todos cheios de caruncho. Que o nosso cérebro não se desfaça dos furos.
Da noite
Naquele dia de que não me lembro de ter sido dia, o dia de noite eterna, o dia inerte, escuro, cinzento e frio, eu estava só. Consigo precisar onde andavam todos os outros e eu também, amolecida em tédio de viver no sofá, com a televisão desligada. O silêncio e a falta de luz e aquele instante exacto, nem antes nem depois, em que desejei morrer para nunca mais sentir uma dor tão grande como aquela, uma dor que não passava com analgésicos, uma dor que sangrava sem pingar o chão, só os meus sonhos por terra, um por um e depois todos juntos, troçando primeiro das minhas lágrimas, depois, à medida que iam secando, juntando-se nas cordas vocais, eu afónica, depois na traqueia, eu apneica, dispneica, e aquela dor que me batia e me empurrava. A dor cada vez maior e os olhos secos, e a dor de cabeça que me encostou a um canto do corredor, eu pequena, minúscula, ocupando um espaço de nada em casa, na cidade, na Terra, um grão de pó contra as paredes vazias, e a pancada que continuava e as gargalhadas que ouvia e eu, finalmente cansada, finalmente adormecida sobre o soalho, enrolada sobre mim mesma, gélida por dentro e por fora.
Mas viva.
Mas viva.
7.8.07
FMM :: O primeiro dia no Castelo - ou um exercício de memória
Apetece-me começar este post com um cliché gigantesco, daqueles clichés que por serem tão clichés irritam, começar, por exemplo, com a frase "a memória prega-nos partidas". A memória prega-nos partidas- a memória é tão conveniente - e eu não me lembro bem de como começou a minha quarta-feira em Sines. Sei que estive na praia, com uma ansiedade maior do que o normal por começarem nesse dia concertos no espaço épico e acolhedor que é o Castelo. Também sei que o Dário e a Joana chegaram neste dia, e a Tânia e o Jorge. Lembro-me ainda que jantámos na garagem que já não é uma garagem e tem cadeiras de design - e lembro-me que na garagem bebi vinho e já cheguei etérea (ou etanólica?) ao Castelo. E lembro-me que entrei com o meu passe catita (obrigada, Vítor) naquele espaço que, apesar de não ser - e ter-se provado insuficiente para a enchente de sábado -, pareceu-me, pelo menos naqueles dias, com um lar. Que bela imagem, o Castelo de Sines como o meu lar.
Há uma certeza: Trilok Gurtu, diziam-me, tinha sido dos melhores concertos do FMM de 2006 e voltou a sê-lo este ano. Sem qualquer espécie de dúvida. Acompanhado de excelentes músicos, mas sem nunca perder o protagonismo, é capaz de fazer música e gerar ritmo de qualquer coisa que faça barulho. Um indiano que parece ter crescido no meio de Bollywood e amadurecido num qualquer clube de Nova Orleães: é obra, não sei se exclusiva, mas pelo menos peculiar. Baldes de água e vassouras e logo uma dança, uma batida contagiante e uma felicidade imensa. Estrondoso concerto, daqueles para o top 5, porque foi realmente bom e porque eu sou uma curiosa e acho que a música deve nascer de qualquer som - até do simples bater das teclas do portátil da minha mãe.
[Ora pois que se até agora não estava verdadeiramente alcoolizada, apenas algo ébria e feliz, tenho que o confessar, depois do concerto de Trilok Gurtu já estava - e bem. Aqui a memória trai-me e é por culpa, não de esquemas subterfugidios freudianos, mas sim da cerveja Super Bock que escorria dos barris como se de um riacho se tratasse.]
Acho que não assisti ao início do concerto dos Bellowhead. Acho, pois. Se assisti, desculpem lá, mas não achei grande coisa: estava mais interessada em concluir que a Lua no sábado estaria a rebentar de tão cheia (e estava, de facto). O que é facto, e não há imperial que o contradiga, é que os Bellowhead foram-me conquistando e, lá para o meio do concerto, entre uma ou outra música dignas, e não o digo como elogio, de um espectáculo Eurovisão (comparação para a qual contribuía o visual à The Hives da quantidade enorme de músicos em palco, qual Broken Social Scene da world), eu era pulos e festa e abraços e alegria. Mais um concerto que veio confirmar a minha bem provável costela bretã e mais um concerto a figurar, surpreendentemente, entre aqueles que melhores - e reparem na ironia- recordações me deixaram. De forma puramente matemática, Bellowhead = festa pela certa. Não os percam, nem que seja através de vídeos no youtube.
Falou-se de alma há alguns posts atrás. Alma, essa entidade secreta que sentimos existir mas não o conseguimos provar a quem nunca a sentiu. A alma em Sines fervilha, bem como todas as partes que fazem de nós seres humanos, e foi a alma que foi tocada durante o concerto da Oumou Sangaré, essa voz do Mali que me pôs as emoções à flor da pele - quase literalmente: o coração que batia mais depressa, as lágrimas pelo rosto abaixo, mãos dadas, abraços e beijos, a descoberta de almas gémeas e afins. Coisas boas. Oumou é soul e é afrobeat e eu não creio que haja algo mais tocante do que juntar o toque da alma com o movimento do corpo, quando é feito deste modo tão sentimental, tão cheio de entrega. Merecia a lua mais cheia (e o copo também).
Eu devia agora falar da Oki Dub Ainu Band mas assumo a minha incompetência para o all the matters dub-related: a paciência esgotou-se ao fim de duas canções e fui descansar (ou beber mais? não me lembro) para o set do António Pires (um amor de senhor com ésse grande, quase meu pai musical no que à world diz respeito - o blog é obrigatório - e com quem partilhei o tecto, a sala de fumo, cervejas e copos de vinho a todas as horas possíveis do dia, ensaios de set e muita, muita conversa - um privilégio, só vos digo) e do Gonçalo Frota. Um mimo que me levou para a cama já o Sol tinha nascido há muito.
Se a memória não me trai, foi neste dia que percebi que Sines não é só amor; Sines é o Amor a acontecer. Se a memória não me trai, pensei "como prometem os dias seguintes no Castelo e Avenida da Praia!" (ok, não pensei por estas palavras, mas vocês percebem-me.)
Continua.
P.S. Por falar em António, não percam as Gamíadas, esse poema épico sobre um grupo de 20 tresloucados amigos, eternamente apaixonados por música, que atracaram no Porto de Sines para pertencer à festa da música mais bonita do país: aqui, os primeiros actos, acoli o segundo, e infelizmente último, acto da saga.
Há uma certeza: Trilok Gurtu, diziam-me, tinha sido dos melhores concertos do FMM de 2006 e voltou a sê-lo este ano. Sem qualquer espécie de dúvida. Acompanhado de excelentes músicos, mas sem nunca perder o protagonismo, é capaz de fazer música e gerar ritmo de qualquer coisa que faça barulho. Um indiano que parece ter crescido no meio de Bollywood e amadurecido num qualquer clube de Nova Orleães: é obra, não sei se exclusiva, mas pelo menos peculiar. Baldes de água e vassouras e logo uma dança, uma batida contagiante e uma felicidade imensa. Estrondoso concerto, daqueles para o top 5, porque foi realmente bom e porque eu sou uma curiosa e acho que a música deve nascer de qualquer som - até do simples bater das teclas do portátil da minha mãe.
[Ora pois que se até agora não estava verdadeiramente alcoolizada, apenas algo ébria e feliz, tenho que o confessar, depois do concerto de Trilok Gurtu já estava - e bem. Aqui a memória trai-me e é por culpa, não de esquemas subterfugidios freudianos, mas sim da cerveja Super Bock que escorria dos barris como se de um riacho se tratasse.]
Acho que não assisti ao início do concerto dos Bellowhead. Acho, pois. Se assisti, desculpem lá, mas não achei grande coisa: estava mais interessada em concluir que a Lua no sábado estaria a rebentar de tão cheia (e estava, de facto). O que é facto, e não há imperial que o contradiga, é que os Bellowhead foram-me conquistando e, lá para o meio do concerto, entre uma ou outra música dignas, e não o digo como elogio, de um espectáculo Eurovisão (comparação para a qual contribuía o visual à The Hives da quantidade enorme de músicos em palco, qual Broken Social Scene da world), eu era pulos e festa e abraços e alegria. Mais um concerto que veio confirmar a minha bem provável costela bretã e mais um concerto a figurar, surpreendentemente, entre aqueles que melhores - e reparem na ironia- recordações me deixaram. De forma puramente matemática, Bellowhead = festa pela certa. Não os percam, nem que seja através de vídeos no youtube.
Falou-se de alma há alguns posts atrás. Alma, essa entidade secreta que sentimos existir mas não o conseguimos provar a quem nunca a sentiu. A alma em Sines fervilha, bem como todas as partes que fazem de nós seres humanos, e foi a alma que foi tocada durante o concerto da Oumou Sangaré, essa voz do Mali que me pôs as emoções à flor da pele - quase literalmente: o coração que batia mais depressa, as lágrimas pelo rosto abaixo, mãos dadas, abraços e beijos, a descoberta de almas gémeas e afins. Coisas boas. Oumou é soul e é afrobeat e eu não creio que haja algo mais tocante do que juntar o toque da alma com o movimento do corpo, quando é feito deste modo tão sentimental, tão cheio de entrega. Merecia a lua mais cheia (e o copo também).
Eu devia agora falar da Oki Dub Ainu Band mas assumo a minha incompetência para o all the matters dub-related: a paciência esgotou-se ao fim de duas canções e fui descansar (ou beber mais? não me lembro) para o set do António Pires (um amor de senhor com ésse grande, quase meu pai musical no que à world diz respeito - o blog é obrigatório - e com quem partilhei o tecto, a sala de fumo, cervejas e copos de vinho a todas as horas possíveis do dia, ensaios de set e muita, muita conversa - um privilégio, só vos digo) e do Gonçalo Frota. Um mimo que me levou para a cama já o Sol tinha nascido há muito.
Se a memória não me trai, foi neste dia que percebi que Sines não é só amor; Sines é o Amor a acontecer. Se a memória não me trai, pensei "como prometem os dias seguintes no Castelo e Avenida da Praia!" (ok, não pensei por estas palavras, mas vocês percebem-me.)
Continua.
P.S. Por falar em António, não percam as Gamíadas, esse poema épico sobre um grupo de 20 tresloucados amigos, eternamente apaixonados por música, que atracaram no Porto de Sines para pertencer à festa da música mais bonita do país: aqui, os primeiros actos, acoli o segundo, e infelizmente último, acto da saga.
1.8.07
FMM :: a segunda noite de concertos no Centro de Artes (Fast Forward >>)
Sines não são só concertos e praia, aliás, falar de Sines e só referir os concertos e a praia é como deixar a missa a metade. Sines é também aquele grupo de pessoas com quem partilhámos os roncos, os copos de cerveja - e consequente as bebedeiras -, as saladas de pimentos, os mergulhos no mar gelado, as danças e as coreografias, os jogos de matrecos, os coros e as palmas, as gargalhadas, os bons dias, os fanatismos, o polvo e os búzios, as listas de melhores e piores concertos, os croissants mistos tostados nos Galegos, os metros quadrados de areia.
A Petra, por exemplo, faz uma feijoada vegetariana que é de chorar por mais (para além das suas outras qualidades que noutra ocasião poderei realçar). Foi para bem saborear a sua feijoada que por pouco não perdemos o concerto da Lula Pena - ouvimos três canções. E que bonitas que eram! Continua a fazer a sua fusão de poesia cantada com canção falada, viajando entre o fado, a cantautoria, a bossanova, com pitadas de tudo aquilo que absorve e vai vivendo. Ouvimo-la cantar - e ela respira Lisboa - juntar versos de Culture Club a um fado triste sobre uma rosa que sou eu, sem tirar nem pôr. Mexeu tanto comigo que fumei três cigarros antes do concerto seguinte.
E que concerto,o seguinte! Jackie Mollard Acoustic Quartet numa lição de uma hora e picos sobre como transmitir emoções - um largo espectro delas - em instrumentais felizes. Um violino como deve ser - um fiddler, não on the roof mas sobre o palco em constante jogo de improviso estimulando quem o segue, acompanhado por uma contrabaixista, um saxofonista e um acordeonista diatónico - os tais seguidores. Música bretã invocando campos verdes de melancolia. E o privilégio do segundo encore no bar da SMURSS, uma jam session que só existe em Sines porque há lá vontade de ouvir e deleitar-se com música e com cultura. Foi um dos melhores concertos do Festival.
(No bar da SMURSS - sigla para, salvo erro, Sociedade Musical União Recreativa e Social Sineense, acabaram as duas noites de concertos no Centro de Artes: jogos de matrecos, vinho a rodos para aquecer e sempre, sempre, óptimas conversas e boa música.)
A Petra, por exemplo, faz uma feijoada vegetariana que é de chorar por mais (para além das suas outras qualidades que noutra ocasião poderei realçar). Foi para bem saborear a sua feijoada que por pouco não perdemos o concerto da Lula Pena - ouvimos três canções. E que bonitas que eram! Continua a fazer a sua fusão de poesia cantada com canção falada, viajando entre o fado, a cantautoria, a bossanova, com pitadas de tudo aquilo que absorve e vai vivendo. Ouvimo-la cantar - e ela respira Lisboa - juntar versos de Culture Club a um fado triste sobre uma rosa que sou eu, sem tirar nem pôr. Mexeu tanto comigo que fumei três cigarros antes do concerto seguinte.
E que concerto,o seguinte! Jackie Mollard Acoustic Quartet numa lição de uma hora e picos sobre como transmitir emoções - um largo espectro delas - em instrumentais felizes. Um violino como deve ser - um fiddler, não on the roof mas sobre o palco em constante jogo de improviso estimulando quem o segue, acompanhado por uma contrabaixista, um saxofonista e um acordeonista diatónico - os tais seguidores. Música bretã invocando campos verdes de melancolia. E o privilégio do segundo encore no bar da SMURSS, uma jam session que só existe em Sines porque há lá vontade de ouvir e deleitar-se com música e com cultura. Foi um dos melhores concertos do Festival.
(No bar da SMURSS - sigla para, salvo erro, Sociedade Musical União Recreativa e Social Sineense, acabaram as duas noites de concertos no Centro de Artes: jogos de matrecos, vinho a rodos para aquecer e sempre, sempre, óptimas conversas e boa música.)
31.7.07
FMM Sines :: o primeiro dia no Centro de Artes de Sines [ play |> ]
[Prólogo: Não sou nenhuma croma da world - já vos disse que não sou nenhuma croma de nada? - mas é nas canções que vêm da alma que me movimento bem, em termos de música. Pois na world há muitas canções que vêm da alma de quem as faz e do povo que as fez nascer e que mexem com a alma de quem as ouve. É por aí que devem ler os apontamentos sobre os concertos do FMM que conto ir postando por aqui durantes estes dias de ressaca pós-Sines.]
Marcel Kanche faz canções românticas e é francês, por isso se calhar poder-se-ia catalogar a música que faz como chanson française. Só quando ouvi a cover do Leonard Cohen durante o concerto no Centro de Artes é que percebi o que é que ele era na verdade: um Cohen francês, com as mesmas angústias nas letras, na voz, no passo dolente da banda que o acompanha.
As gémeas Gómez são as Ttukunak. Atraentes e amorosas, tocam um instrumento basco que só pode ser tocado por duas pessoas em simultâneo: a txalaparta, uma espécie de xilofone em ponto gigante, em pedra, ferro e madeira, tocado por baquetas também em madeira que mais parecem pilões de almofariz. Não há segredos ali, as combinações instrumentais são feitas em improviso e em comunhão uma gémea com a outra e a comunicação faz-se por olhares e pelo ritmo que uma à outra e o público às duas vai impondo.
Continua.
Marcel Kanche faz canções românticas e é francês, por isso se calhar poder-se-ia catalogar a música que faz como chanson française. Só quando ouvi a cover do Leonard Cohen durante o concerto no Centro de Artes é que percebi o que é que ele era na verdade: um Cohen francês, com as mesmas angústias nas letras, na voz, no passo dolente da banda que o acompanha.
As gémeas Gómez são as Ttukunak. Atraentes e amorosas, tocam um instrumento basco que só pode ser tocado por duas pessoas em simultâneo: a txalaparta, uma espécie de xilofone em ponto gigante, em pedra, ferro e madeira, tocado por baquetas também em madeira que mais parecem pilões de almofariz. Não há segredos ali, as combinações instrumentais são feitas em improviso e em comunhão uma gémea com a outra e a comunicação faz-se por olhares e pelo ritmo que uma à outra e o público às duas vai impondo.
Continua.
FMM pode ser lido como Férias Mágicas e Memoráveis
Há um ano que esperava, planeava, ansiava por Sines. Foi há um ano que lá fui, num assomo de irresponsabilidade misturado com vontade de ouvir o Toumani Diabaté e bem temperado com uma paixoneta que por lá andava e foi há um ano que, no regresso, jurei a mim mesma estar todos os dias do festival este ano.
Fiquei de férias na sexta-feira passada, dia 20. O festival começou neste dia, em Porto Côvo, mas eu ainda não estava lá. Apenas dia 23 me pus a caminho, no carro do Bruno e, diga-se, até então me sentia tão em férias como uma formiga a recolher mantimentos. Nada de férias, portanto.
Quando chegámos, depois de uma série de coisas triviais e com pouca importância (se bem que a salinha da casa da dona Fernanda, onde ficaram alguns de nós, mereça um especial destaque por tão antiquada e kitsch que era), fomos logo para a praia e só aí, só ao pisar a areia da praia de Sines, me senti verdadeiramente de férias.
E foi assim que começou umas das melhores semanas da minha vida, na praia a beber um UCAL enquanto todos bebiam cerveja, a ouvir aquele que terminaria, vários dias depois, o set dos Bailarico Sofisticado no encerramento do festival - o Bob Marley, junto a várias pessoas - uns que chamava amigos, outros com quem me tinha cruzado uma ou duas vezes, outros ainda que até então eram nem uma coisa nem outra, nem peixe nem carne.
Continua.
Fiquei de férias na sexta-feira passada, dia 20. O festival começou neste dia, em Porto Côvo, mas eu ainda não estava lá. Apenas dia 23 me pus a caminho, no carro do Bruno e, diga-se, até então me sentia tão em férias como uma formiga a recolher mantimentos. Nada de férias, portanto.
Quando chegámos, depois de uma série de coisas triviais e com pouca importância (se bem que a salinha da casa da dona Fernanda, onde ficaram alguns de nós, mereça um especial destaque por tão antiquada e kitsch que era), fomos logo para a praia e só aí, só ao pisar a areia da praia de Sines, me senti verdadeiramente de férias.
E foi assim que começou umas das melhores semanas da minha vida, na praia a beber um UCAL enquanto todos bebiam cerveja, a ouvir aquele que terminaria, vários dias depois, o set dos Bailarico Sofisticado no encerramento do festival - o Bob Marley, junto a várias pessoas - uns que chamava amigos, outros com quem me tinha cruzado uma ou duas vezes, outros ainda que até então eram nem uma coisa nem outra, nem peixe nem carne.
Continua.
O aquecimento global é um mito urbano.
Está uma carrinha daquelas Volkswagen pão de forma parada em frente ao portão da casa. Não há nada de poético nisto, é apenas uma velha carroça cuja pintura está desbotada pelo sol, apesar de estar agora na moda fazer road-trips dentro de uma coisa destas, e a casa é feia, tem um friso de azulejos castanhos, a tinta dos tapa-sóis está a descascar-se, o jardim está descuidado - as plantas que deveriam viver morrem e as intrusas e penetras sobrevivem e invadem os caminhos curtos de calçada.
Não há, portanto, nada de poético nisto. É apenas mais uma casa feia, mais um jardim desarranjado, mais um carro a cair de podre.
Está um calor de amolecer ossos. Não há uma singela brisa que sopre e quebre a moleza deste calor - há, isso sim, insectos que se deixam ficar no ar, também eles com preguiça de voar, mexendo as asas com a calma de quem não tem nada para fazer. Dentro da casa está quase tanto calor quanto lá fora, é um calor horrível, que ultrapassa a dor ou a euforia.
Sente-se, aliás, como um cheiro nauseabundo, um vazio emocional muito grande - como se o calor impedisse que se sentisse ou, simplesmente, se sobrepusesse a qualquer sentimento possível.
É neste estado apoplético que partimos dentro da velha carrinha, agradavelmente surpreendidos pela corrente de ar que entra pelas janelas da pão de forma quando a pomos em movimento.
Não há, portanto, nada de poético nisto. É apenas mais uma casa feia, mais um jardim desarranjado, mais um carro a cair de podre.
Está um calor de amolecer ossos. Não há uma singela brisa que sopre e quebre a moleza deste calor - há, isso sim, insectos que se deixam ficar no ar, também eles com preguiça de voar, mexendo as asas com a calma de quem não tem nada para fazer. Dentro da casa está quase tanto calor quanto lá fora, é um calor horrível, que ultrapassa a dor ou a euforia.
Sente-se, aliás, como um cheiro nauseabundo, um vazio emocional muito grande - como se o calor impedisse que se sentisse ou, simplesmente, se sobrepusesse a qualquer sentimento possível.
É neste estado apoplético que partimos dentro da velha carrinha, agradavelmente surpreendidos pela corrente de ar que entra pelas janelas da pão de forma quando a pomos em movimento.
16.7.07
15.7.07
Una remezcla por día te hace bailar por la noche adentro
A remix dos Justice para a Lovestoned do Justin Timberlake.
Justice, os representantes máximos do movimento French Kiss, herdeiros dos Daft Punk, que remisturam tudo o que vibra - e sinceramente gosto mais deles a remisturar do que a gravar canções em nome próprio.
Justin, se estiveres a ouvir-me, para que continuemos a gostar muito de ti, é assim que deverá soar o teu próximo álbum.
(O pior destas remixes é que invariavelmente são coisas que funcionariam muito bem à noite, num bar qualquer, sendo que a probabilidade em Portugal de um iluminado dj a passar é quase zero. Uma pena.)
P.S. Este post é um presente para o meu amigo A.C., que faz anos hoje, é um dj iluminado nas poucas vagas horas que tem e foi quem, há mais ou menos um ano, incitou-me a escrever pela primeira vez sobre música - o que, mais tarde, se veio a revelar um vício. O texto foi sobre as Cansei de Ser Sexy, quando, note-se a meu favor, ainda não havia muita gente a falar delas, e está aqui.
Justice, os representantes máximos do movimento French Kiss, herdeiros dos Daft Punk, que remisturam tudo o que vibra - e sinceramente gosto mais deles a remisturar do que a gravar canções em nome próprio.
Justin, se estiveres a ouvir-me, para que continuemos a gostar muito de ti, é assim que deverá soar o teu próximo álbum.
(O pior destas remixes é que invariavelmente são coisas que funcionariam muito bem à noite, num bar qualquer, sendo que a probabilidade em Portugal de um iluminado dj a passar é quase zero. Uma pena.)
P.S. Este post é um presente para o meu amigo A.C., que faz anos hoje, é um dj iluminado nas poucas vagas horas que tem e foi quem, há mais ou menos um ano, incitou-me a escrever pela primeira vez sobre música - o que, mais tarde, se veio a revelar um vício. O texto foi sobre as Cansei de Ser Sexy, quando, note-se a meu favor, ainda não havia muita gente a falar delas, e está aqui.
Não párem o Ronson se já ouviram isto antes (parte II)
Há que dizê-lo com franqueza: a ideia destas versões é criativa, divertida, quase insolente. Agarrar num punhado de canções ligeiras, abrilhantá-las com purpurinas (ao escrever esta palavra lembrei-me daquela odiável publicidade das "purpurinas? Vou já contar à Rita!"), trompetes e clarinetes e fazer de todas elas danças de salão animadas. A ideia podia de facto ser só criativa, divertida, quase insolente, citando-me, o que já seria imenso, mas aqui é que a porca torce o rabo - ou, como eu e os arrumadores de carros gostamos de dizer, destroce-o.
Mark Ronson não ficou só pelo nível da ideia genial, também a concretizou em grande estilo. Vejamos.
A faixa nº 3 deste disco começa com o seguinte verso
Stop me oh-oh-oh stop me
Stop me if you think that you've heard this one before,
o que é bastante irónico, tendo em conta que se trata de um disco de versões.
A verdade é que não apetece parar o Ronson nem o senhor Daniel Merriweather, que empresta a voz a esta versão. Primeiro, pela audácia e a cara de pau de se fazer uma versão soul de uma canção da maior banda de sempre. Segundo, porque a versão é, juro-vos, muito boa. Terceiro, porque a Stop me (dos The Smiths, para os silly you desatentos) é uma boa canção até se cantada em bielorrussso pelo ventríloquo que faz a voz do pato Donaltim, com percussão - castanholas, daquelas de rancho folclórico - pela Fátima Lopes e nas cordas - dos sapatos - o Nuno Eiró (arre, que pandilha assustadora!).
Não, o tal Daniel não tem a densidade vocal do Morrissey, portanto também não manifesta a mesma desilusão que o Morrissey, aquele tédio urbano-depressivo que é pensar "olha, se já ouviste esta antes manda-me calar". É que nada mudou, eu ainda te amo, apenas um pouco menos que o habitual, meu amor, e cada palavra que nos remexe visceralmente no original ainda está aqui e ainda causa cólicas.
Não, não está aqui o Johnny Marr, mas estão violinos felizes, que dão asas a uma batida energética, que entra para as estrofes, tal como entra a banda toda no original. Na Stop me de 2007 não se está tão triste quanto se está quando se ouve a Stop me dos anos 80 e, em vez da sala do melhor amigo, onde se fumam charros e se choram lágrimas de desgosto amoroso - ou de moca? nunca se saberá -, está-se numa sala revestida a veludo, onde lustres brilhantes se suspendem do tecto e toda a banda toca para a plateia mais heterógenea que existe. E todos batem o pézinho.
Não, não foi cometido nenhum pecado mortal: o Morrissey poderá mesmo gabar-se e assumir, um dia, talvez, quem sabe?, "escrevi a Stop me a pensar no safado do Ronson, sou mesmo genial, não sou?". És e esta versão, em que não cantas nem nada, é a prova viva disso. E eu, tal como tu, nunca nunca menti.
Os The Zutons não devem ser a banda mais conhecida do cimo da Terra, nem tão pouco qualquer coisa que se aproxime disso. Alguns ouvidos atentos à MTV:2 já devem ter dado conta da existência pouco notória - e muito menos, notável - de tal banda. (Confesso que têm singles engraçaditos e que nunca ouvi o disco todo, mas adiante.) Sendo assim, não creio que a Valerie seja uma canção conhecida como são a Stop me dos Smiths, a Oh my god dos Kaiser Chiefs (para a qual o Ronson convidou l'enfant terrible mais vraiment adorable Lily Allen), a Just dos Radiohead (versão que se limita a ser curiosa). A Valerie, original dos Zutons, é, no entanto, a melhor canção deste disco. De seguida, a resposta que todos procuram: porquê?
Primeiro, porque tem a Amy Winehouse. E a Amy Winehouse é, simplesmente, a cantora, a voz, a celebridade, a anglófona, a eu-tinha-curvas-e-era-boa-agora-sou-anoréctica-e-feia, a bêbeda, a escandalosa, a tudo o que vocês pensarem!, do momento. No início do outro texto disse que as canções que mais rendem no Back to Black foram produzidas pelo Mark Ronson, mas não quis tirar crédito ao resto do trabalho. A Amy é a fusão de dois conceitos que tendem a beijar-se na testa nos últimos tempos: o eclectismo da música retro (massa de que o disco Versions é feito, como terão notado ao longo desta prosa aborrecida) e um ritmo que vem do hip-hop, do funk, é novo e é bom. A sua voz possui uma cadência e um alcance de que Amy nunca abusa - e faz ela muito bem. Representa, como a Beth Ditto dos Gossip, o girl power que tendencialmente surge na música: esta necessidade de manifestar a independência, a emancipação, a força de uma mulher, sem ser exageradamente feminista. Amy é amor.
Segundo, porque a bateria é-me familiar de não sei quê (na versão ao vivo não se nota, mas na gravada lembra-me os Strokes, provavelmente porque os Zutons são uma daquelas bandas pós-Strokes que parecem reminiscentes dos Strokes, os quais por sua vez são reminiscentes dos The Cars.)
Terceiro, porque é uma canção leve e despretensiosa mas rica, como uma salada de Verão. Está lá tudo na mais perfeita das harmonias: a tal da Amy, a tal da bateria, o tal do ritmo que vem sendo regra e uma orquestra com a boca no trompete.
Quarto, porque é obrigatório dar algum crédito aos Zutons: a letra é bonita, fica no ouvido, diz "won't you come on over, stop making a fool out of me, why don't you come on over, Valerie?" e, [demasiado] pessoalmente, deu azo a mensagens de telemóvel bonitas nos últimos tempos.
Quinto, porque é quentinha como um raio de sol e revigorante como um mergulho no mar e/ ou uma caipirinha. Não se quer mais nada do Verão senão isso, não é?
(É preocupantemente difícil encontrar um vídeo da Valerie cantada pela Amy quando sóbria. Não estou a brincar.)
Mark Ronson não ficou só pelo nível da ideia genial, também a concretizou em grande estilo. Vejamos.
A faixa nº 3 deste disco começa com o seguinte verso
Stop me oh-oh-oh stop me
Stop me if you think that you've heard this one before,
o que é bastante irónico, tendo em conta que se trata de um disco de versões.
A verdade é que não apetece parar o Ronson nem o senhor Daniel Merriweather, que empresta a voz a esta versão. Primeiro, pela audácia e a cara de pau de se fazer uma versão soul de uma canção da maior banda de sempre. Segundo, porque a versão é, juro-vos, muito boa. Terceiro, porque a Stop me (dos The Smiths, para os silly you desatentos) é uma boa canção até se cantada em bielorrussso pelo ventríloquo que faz a voz do pato Donaltim, com percussão - castanholas, daquelas de rancho folclórico - pela Fátima Lopes e nas cordas - dos sapatos - o Nuno Eiró (arre, que pandilha assustadora!).
Não, o tal Daniel não tem a densidade vocal do Morrissey, portanto também não manifesta a mesma desilusão que o Morrissey, aquele tédio urbano-depressivo que é pensar "olha, se já ouviste esta antes manda-me calar". É que nada mudou, eu ainda te amo, apenas um pouco menos que o habitual, meu amor, e cada palavra que nos remexe visceralmente no original ainda está aqui e ainda causa cólicas.
Não, não está aqui o Johnny Marr, mas estão violinos felizes, que dão asas a uma batida energética, que entra para as estrofes, tal como entra a banda toda no original. Na Stop me de 2007 não se está tão triste quanto se está quando se ouve a Stop me dos anos 80 e, em vez da sala do melhor amigo, onde se fumam charros e se choram lágrimas de desgosto amoroso - ou de moca? nunca se saberá -, está-se numa sala revestida a veludo, onde lustres brilhantes se suspendem do tecto e toda a banda toca para a plateia mais heterógenea que existe. E todos batem o pézinho.
Não, não foi cometido nenhum pecado mortal: o Morrissey poderá mesmo gabar-se e assumir, um dia, talvez, quem sabe?, "escrevi a Stop me a pensar no safado do Ronson, sou mesmo genial, não sou?". És e esta versão, em que não cantas nem nada, é a prova viva disso. E eu, tal como tu, nunca nunca menti.
Os The Zutons não devem ser a banda mais conhecida do cimo da Terra, nem tão pouco qualquer coisa que se aproxime disso. Alguns ouvidos atentos à MTV:2 já devem ter dado conta da existência pouco notória - e muito menos, notável - de tal banda. (Confesso que têm singles engraçaditos e que nunca ouvi o disco todo, mas adiante.) Sendo assim, não creio que a Valerie seja uma canção conhecida como são a Stop me dos Smiths, a Oh my god dos Kaiser Chiefs (para a qual o Ronson convidou l'enfant terrible mais vraiment adorable Lily Allen), a Just dos Radiohead (versão que se limita a ser curiosa). A Valerie, original dos Zutons, é, no entanto, a melhor canção deste disco. De seguida, a resposta que todos procuram: porquê?
Primeiro, porque tem a Amy Winehouse. E a Amy Winehouse é, simplesmente, a cantora, a voz, a celebridade, a anglófona, a eu-tinha-curvas-e-era-boa-agora-sou-anoréctica-e-feia, a bêbeda, a escandalosa, a tudo o que vocês pensarem!, do momento. No início do outro texto disse que as canções que mais rendem no Back to Black foram produzidas pelo Mark Ronson, mas não quis tirar crédito ao resto do trabalho. A Amy é a fusão de dois conceitos que tendem a beijar-se na testa nos últimos tempos: o eclectismo da música retro (massa de que o disco Versions é feito, como terão notado ao longo desta prosa aborrecida) e um ritmo que vem do hip-hop, do funk, é novo e é bom. A sua voz possui uma cadência e um alcance de que Amy nunca abusa - e faz ela muito bem. Representa, como a Beth Ditto dos Gossip, o girl power que tendencialmente surge na música: esta necessidade de manifestar a independência, a emancipação, a força de uma mulher, sem ser exageradamente feminista. Amy é amor.
Segundo, porque a bateria é-me familiar de não sei quê (na versão ao vivo não se nota, mas na gravada lembra-me os Strokes, provavelmente porque os Zutons são uma daquelas bandas pós-Strokes que parecem reminiscentes dos Strokes, os quais por sua vez são reminiscentes dos The Cars.)
Terceiro, porque é uma canção leve e despretensiosa mas rica, como uma salada de Verão. Está lá tudo na mais perfeita das harmonias: a tal da Amy, a tal da bateria, o tal do ritmo que vem sendo regra e uma orquestra com a boca no trompete.
Quarto, porque é obrigatório dar algum crédito aos Zutons: a letra é bonita, fica no ouvido, diz "won't you come on over, stop making a fool out of me, why don't you come on over, Valerie?" e, [demasiado] pessoalmente, deu azo a mensagens de telemóvel bonitas nos últimos tempos.
Quinto, porque é quentinha como um raio de sol e revigorante como um mergulho no mar e/ ou uma caipirinha. Não se quer mais nada do Verão senão isso, não é?
(É preocupantemente difícil encontrar um vídeo da Valerie cantada pela Amy quando sóbria. Não estou a brincar.)
Viva!
Já é tarde nesta madrugada de sábado. A minha vida está mais próxima de mim do que nunca e chegou provavelmente a hora de agarrá-la com as duas mãos, com os dentes, talvez enlaçá-la com as pernas para ter a certeza que desta vez não a deixo escapar.
Tudo isto é um eterno lugar-comum, mas a única responsável sou eu. Afastei-me das emoções propositadamente, qual Brecht, deixei-me de me envolver, de sentir, de me afectar, no fundo: como se eu vivesse como mera espectadora da vida que estava a viver.
Aliás, assim o era: manter as devidas cordialidades, sem se revelar nem expôr - e demonstrar-se sentimentalmente indiferente a tudo aquilo que observava, eu própria fui guiada através do tabuleiro do jogo
a jogar snakes and ladders, imprevisivelmente subindo e descendo
de olhos fechados, desconfiando de cada face do dado que ditava o meu destino - uma escada? uma serpente?
A adinamia que me impedia de tomar as rédeas desapareceu e a bolha rebentou: estou eu aqui, desprotegida, finalmente.
Nada dá mais vontade de viver do que viver. Nada.
Tudo isto é um eterno lugar-comum, mas a única responsável sou eu. Afastei-me das emoções propositadamente, qual Brecht, deixei-me de me envolver, de sentir, de me afectar, no fundo: como se eu vivesse como mera espectadora da vida que estava a viver.
Aliás, assim o era: manter as devidas cordialidades, sem se revelar nem expôr - e demonstrar-se sentimentalmente indiferente a tudo aquilo que observava, eu própria fui guiada através do tabuleiro do jogo
a jogar snakes and ladders, imprevisivelmente subindo e descendo
de olhos fechados, desconfiando de cada face do dado que ditava o meu destino - uma escada? uma serpente?
A adinamia que me impedia de tomar as rédeas desapareceu e a bolha rebentou: estou eu aqui, desprotegida, finalmente.
Nada dá mais vontade de viver do que viver. Nada.
9.7.07
A Versão do Mark Ronson (ou como viajar no tempo usando a pop dos últimos anos)
Decidi actualizar o meu blogue enquanto ouvia, pela primeira vez, o álbum de versões do Mark Ronson. Para quem não sabe, o Mark Ronson é responsável pelas melhores faixas (quase todas, diga-se) do álbum maravilhoso da Amy Winehouse, Back to Black, e fez um disco só com versões soul, funk and groove de canções que, aparentemente, nada ou pouco têm a ver com esse universo. Como é a primeira vez que o oiço na íntegra (confesso que já ouvi faixas aqui e acolá e isto tem versões adoráveis de canções inesperadas - ultimamente tudo é adorável para mim, é o meu novo adjectivo favorito), não faço a mais pálida ideia do que poderá vir a sair deste post, o que não é necessariamente mau.
O disco começa com uma versão da God put a smile upon your face dos Coldplay, numa versão que não faria remexer na cova nenhum falecido da Motown. É um instrumental com uns tais de The Daptones Horns (não devem ser os Daptone Kings que acompanham a Sharon Jones, logo a pesquisa que faria pelo google sobre os senhores também vocês a podem fazer, MOVE YOUR LAZY ASSES!). Ora, começando pelo princípio: sim, Deus pôs um sorriso na tua cara. E na minha. Se bem me lembro - já vos disse que esta versão é um instrumental absolutamente groovy mas sem vocais, logo sem letra - esta canção, do segundo álbum dos Coldplay, dizia "oh when you work it out I'm worse than you" e "god gave me style and gave me grace, god put a smile upon my face". Em relação aos Coldplay, eu gosto deles - geralmente confessava isto em surdina e digo para guardarem o segredo a sete chaves, mas isso era uma mania parva. Ultimamente, tão recentemente quanto o meu uso da palavra adorável, quero lá saber de julgamentos acerca do meu gosto musical. Que'lá saber. A quem fizer comichão, coce-se, use Fenistil, ponha unguentos - é para o lado que eu durmo melhor (já agora, é o esquerdo). (Entretanto já ouvi sete vezes a canção, cinco das quais levantei-me para ir dançar para cima da cama, qual palco improvisado). Mas é por ser-me completamente cagativo que hoje vou escrever aqui que gosto de uma canção do mais lamechas-RFM-só-grandes-músicas possível. É de um moço de seu nome James Morrison e chama-se "You give me something" e, em princípio, toda a gente conhece porque até já esteve nos ecrãs das estações de metro. A canção diz qualquer coisa como "this could be something, so I might just give it a try", o que, em linhas simples, resume a minha vida nos últimos tempos - e deve ser por aí que gosto tanto do diabo da faixa. Em relação aos Coldplay, o primeiro álbum, Parachutes, é simplesmente óptimo e depois foram por aí abaixo em linha descendente. Não que X&Y seja um péssimo disco, que não é, até porque tem a Talk, cuja guitarrada foi inspirada numa faixa dos Kraftwerk, e a Fix you (*weeps* "Lights will guide you home (...) I will try...[pausa] to fix you" - se esta frase não se adequa a nenhum momento da vossa vida, meu Deus, façam um favor a vocês mesmos e apaixonem-se.). Para além disto, eu casava-me com o baixista Guy Berryman (meninas, google him para saberem de que estou eu a falar) , os Coldplay dão excelentes concertos e o Chris Martin é um frontman imparável.
Quem também é um frontman imparável - homem da frente, em português - é o Paul Smith dos Maximo Park. Tive oportunidade de vê-los pela segunda vez no Super Bock Super Rock e, longe de terem dado o melhor concerto do festival, dão um concerto energético, viciante, muito don't stop me now 'cause I'm having such a good time. A Apply some pressure está no disco do Mark Ronson, cantada pelo próprio Paul Smith: o ritmo manteve-se, adicionando-se uma secção de sopros onde antes estava uma guitarrada. Razoável.
Versão fraca, fraca é a LSF dos Kasabian, banda que, sinceramente, nunca levei muito a sério ( e ainda menos depois de vê-los ao vivo, no Sudoeste, curiosamente no mesmo dia que vi Maximo Park). A LSF aparece aqui cantada pelo vocalista dos Kasabian (não sei o nome, nem quero saber, só não tenho raiva de quem sabe). Está fraquíssima como versão (como canção já o era, apesar daquele início oto-viciante do "come on in, get on in" ou assim, o que provavelmente não ajuda). Mas o Mark Ronson também fez alguns milagres.
Dentro desses milagres está a Toxic da Britney Spears, cantada, neste disco, por um homem, com partes de rap, por outro homem, que não correspondem ao original. Pela vossa saúde vos digo, está óptima. Sou suspeita porque nunca odiei a Britney com todas as minhas forças e sempre achei esta Toxic muuuuito sexy:
With a taste of your lips I’m on a ride
You're toxic I'm slipping under
With a taste of a poison paradise
I’m addicted to you
Don’t you know that you’re toxic
And I love what you do
Don’t you know that you’re toxic.
Mesmo assim, esta versão dá dez a zero ao original: uma voz quase dorida pela toxicidade desse veneno que é um homem/ mulher viciante (raios.). O trompete no lugar certo, no momento certo, quando no original isto era um efeito digital qualquer. E há "uh-uuuh" por trás, exacerbando a dor que é este vício (raios. vezes dois). O pior desta versão é o seu efeito prático, porque em vez de fazer-nos afastar da languidez dos beijos envenenados faz-nos desejá-los ainda mais ardentemente (raios. vezes três). Óptima.
[mais versões já a seguir.]
O disco começa com uma versão da God put a smile upon your face dos Coldplay, numa versão que não faria remexer na cova nenhum falecido da Motown. É um instrumental com uns tais de The Daptones Horns (não devem ser os Daptone Kings que acompanham a Sharon Jones, logo a pesquisa que faria pelo google sobre os senhores também vocês a podem fazer, MOVE YOUR LAZY ASSES!). Ora, começando pelo princípio: sim, Deus pôs um sorriso na tua cara. E na minha. Se bem me lembro - já vos disse que esta versão é um instrumental absolutamente groovy mas sem vocais, logo sem letra - esta canção, do segundo álbum dos Coldplay, dizia "oh when you work it out I'm worse than you" e "god gave me style and gave me grace, god put a smile upon my face". Em relação aos Coldplay, eu gosto deles - geralmente confessava isto em surdina e digo para guardarem o segredo a sete chaves, mas isso era uma mania parva. Ultimamente, tão recentemente quanto o meu uso da palavra adorável, quero lá saber de julgamentos acerca do meu gosto musical. Que'lá saber. A quem fizer comichão, coce-se, use Fenistil, ponha unguentos - é para o lado que eu durmo melhor (já agora, é o esquerdo). (Entretanto já ouvi sete vezes a canção, cinco das quais levantei-me para ir dançar para cima da cama, qual palco improvisado). Mas é por ser-me completamente cagativo que hoje vou escrever aqui que gosto de uma canção do mais lamechas-RFM-só-grandes-músicas possível. É de um moço de seu nome James Morrison e chama-se "You give me something" e, em princípio, toda a gente conhece porque até já esteve nos ecrãs das estações de metro. A canção diz qualquer coisa como "this could be something, so I might just give it a try", o que, em linhas simples, resume a minha vida nos últimos tempos - e deve ser por aí que gosto tanto do diabo da faixa. Em relação aos Coldplay, o primeiro álbum, Parachutes, é simplesmente óptimo e depois foram por aí abaixo em linha descendente. Não que X&Y seja um péssimo disco, que não é, até porque tem a Talk, cuja guitarrada foi inspirada numa faixa dos Kraftwerk, e a Fix you (*weeps* "Lights will guide you home (...) I will try...[pausa] to fix you" - se esta frase não se adequa a nenhum momento da vossa vida, meu Deus, façam um favor a vocês mesmos e apaixonem-se.). Para além disto, eu casava-me com o baixista Guy Berryman (meninas, google him para saberem de que estou eu a falar) , os Coldplay dão excelentes concertos e o Chris Martin é um frontman imparável.
Quem também é um frontman imparável - homem da frente, em português - é o Paul Smith dos Maximo Park. Tive oportunidade de vê-los pela segunda vez no Super Bock Super Rock e, longe de terem dado o melhor concerto do festival, dão um concerto energético, viciante, muito don't stop me now 'cause I'm having such a good time. A Apply some pressure está no disco do Mark Ronson, cantada pelo próprio Paul Smith: o ritmo manteve-se, adicionando-se uma secção de sopros onde antes estava uma guitarrada. Razoável.
Versão fraca, fraca é a LSF dos Kasabian, banda que, sinceramente, nunca levei muito a sério ( e ainda menos depois de vê-los ao vivo, no Sudoeste, curiosamente no mesmo dia que vi Maximo Park). A LSF aparece aqui cantada pelo vocalista dos Kasabian (não sei o nome, nem quero saber, só não tenho raiva de quem sabe). Está fraquíssima como versão (como canção já o era, apesar daquele início oto-viciante do "come on in, get on in" ou assim, o que provavelmente não ajuda). Mas o Mark Ronson também fez alguns milagres.
Dentro desses milagres está a Toxic da Britney Spears, cantada, neste disco, por um homem, com partes de rap, por outro homem, que não correspondem ao original. Pela vossa saúde vos digo, está óptima. Sou suspeita porque nunca odiei a Britney com todas as minhas forças e sempre achei esta Toxic muuuuito sexy:
With a taste of your lips I’m on a ride
You're toxic I'm slipping under
With a taste of a poison paradise
I’m addicted to you
Don’t you know that you’re toxic
And I love what you do
Don’t you know that you’re toxic.
Mesmo assim, esta versão dá dez a zero ao original: uma voz quase dorida pela toxicidade desse veneno que é um homem/ mulher viciante (raios.). O trompete no lugar certo, no momento certo, quando no original isto era um efeito digital qualquer. E há "uh-uuuh" por trás, exacerbando a dor que é este vício (raios. vezes dois). O pior desta versão é o seu efeito prático, porque em vez de fazer-nos afastar da languidez dos beijos envenenados faz-nos desejá-los ainda mais ardentemente (raios. vezes três). Óptima.
[mais versões já a seguir.]
Long time, no see
Há dias remexi nas definições de cookies do meu browser (sim, eu sou old school e uso o velhinho e impraticável Internet Explorer) e isso tornou o login no Blogger impossível.
Escrita que está a justificação para esta demasiado longa ausência na frase com mais anglicismos da história deste blogue, peço-vos desculpa. Desta vez não foi nem por estar farta, nem por estar desinspirada (antes pelo contrário, estava cheia de ideias que, estupidamente, nunca cheguei a anotar), tão pouco por estar ocupada com outros afazeres. O Desumanos continua, já a seguir.
Escrita que está a justificação para esta demasiado longa ausência na frase com mais anglicismos da história deste blogue, peço-vos desculpa. Desta vez não foi nem por estar farta, nem por estar desinspirada (antes pelo contrário, estava cheia de ideias que, estupidamente, nunca cheguei a anotar), tão pouco por estar ocupada com outros afazeres. O Desumanos continua, já a seguir.
26.6.07
Meio ano dentro de um disco e dentro de uma canção III
Since I found you
I'm tearing down the walls without you
I'm getting lost in all the plans that I heard you make
About the older times
About the greater times
Oh I don't know, I don't know anyway
(...)
We're floating in the sky
And if you think that we are older now
It's just our heads are butterflies
Oh are you the one that I've been waiting for?
Electrelane :: Greater times :: No shouts no calls
20.6.07
Ó deus.
19.6.07
A arte do sample, parte II
O Kanye West ia servir de inspiração ao segundo post desta série "A arte do sample", custasse aquilo que custasse.
Mestre, como de resto todos os bons produtores de hip-hop (os nomes J. Dilla ou Madlib saltam-me à frente da vista), em ir buscar recortes da por-estes-lados-tão-amada soul antiga, fazendo renascer a canção norte-americana, o moço Kanye tem canções novas.
Se Ray Charles, Aretha Franklin, Shirley Bassey, Bette Middler ou Luther Vandross transportam-nos para o College Dropout e para o Late Registration, nas duas canções novas que ouvi as referências são completamente díspares.
Ora vejam (os nomes das canções do Kanye não estão numa cor diferente para ficar bonito, contêm links para serem ouvidas numa nova página):
Kanye West :: Young Folks
Peter, Bjorn and John :: Young Folks[Quem não assobiou isto o ano passado que atire a primeira pedra. Ou ponha o braço no ar, que sempre é menos doloroso.]
E ainda:
Kanye West :: Stronger
Daft Punk :: Harder, Better, Faster, Stronger [os Daft Punk do tempo da One more time]
Gosto destes posts, dão-me um ar deveras profissional.
Mestre, como de resto todos os bons produtores de hip-hop (os nomes J. Dilla ou Madlib saltam-me à frente da vista), em ir buscar recortes da por-estes-lados-tão-amada soul antiga, fazendo renascer a canção norte-americana, o moço Kanye tem canções novas.
Se Ray Charles, Aretha Franklin, Shirley Bassey, Bette Middler ou Luther Vandross transportam-nos para o College Dropout e para o Late Registration, nas duas canções novas que ouvi as referências são completamente díspares.
Ora vejam (os nomes das canções do Kanye não estão numa cor diferente para ficar bonito, contêm links para serem ouvidas numa nova página):
Kanye West :: Young Folks
Peter, Bjorn and John :: Young Folks[Quem não assobiou isto o ano passado que atire a primeira pedra. Ou ponha o braço no ar, que sempre é menos doloroso.]
E ainda:
Kanye West :: Stronger
Daft Punk :: Harder, Better, Faster, Stronger [os Daft Punk do tempo da One more time]
Gosto destes posts, dão-me um ar deveras profissional.
Princesa Batsie
É regra de cortesia e boa educação não deixar princesas à espera.
O princípe não conhece regras de boa educação? É que, ao chamar-me princesa, está a conferir-me direitos, que, naturalmente, reclamarei quando não vir serem respeitados.
Uma princesa a sério, como eu, não pode esperar tanto tempo: tenho viagens de abóbora marcadas, sapatos por perder em grandes escadarias, maçãs venenosas para morder, fusos para picar o dedo.
Por agora perdoo-o, mas não me deixe à espera mais tempo, despache-se que eu tenho coisas para fazer e preciso de saber se é o princípe quem me vai dar irrepetidamente o beijo que me trará do sono da morte.
E no baile dançaremos a From Brighton Beach to Santa Monica dos Clientele e cantaremos no ouvido um do outro "Autumn's coming in the air, autumn's coming for you."
O princípe não conhece regras de boa educação? É que, ao chamar-me princesa, está a conferir-me direitos, que, naturalmente, reclamarei quando não vir serem respeitados.
Uma princesa a sério, como eu, não pode esperar tanto tempo: tenho viagens de abóbora marcadas, sapatos por perder em grandes escadarias, maçãs venenosas para morder, fusos para picar o dedo.
Por agora perdoo-o, mas não me deixe à espera mais tempo, despache-se que eu tenho coisas para fazer e preciso de saber se é o princípe quem me vai dar irrepetidamente o beijo que me trará do sono da morte.
E no baile dançaremos a From Brighton Beach to Santa Monica dos Clientele e cantaremos no ouvido um do outro "Autumn's coming in the air, autumn's coming for you."
Da suavidade do cetim
Segurou entre os dedos a fita de cetim que usava à cintura, de um azul tranquilo. A outra mão, primeiro pousada na mesa, ergueu depois a tesoura que repousava ao seu lado. Aos poucos soltou o laço e puxou as pontas, e delas fez retalhos como pedaços de céu, que caíram no chão, elevando-se a cada corrente de ar.
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