15.8.06

Durante o concerto de Morrissey

O Morrissey está a tocar em Paredes de Coura. Está em Portugal. Eu estou em casa, na Madeira, a ouvir o concerto através da emissão on-line da Antena 3.

Parece que estou mesmo a ouvir-me

"MOZ MAKE ME A BABY", que é a frase que grito nos concertos de rock quando sei que ninguém está a ouvir-me (e que só não gritei ao Hooke dos New Order porque

1- não quero ter um filho com ele;
2- estava na primeira fila, ou quase, e ele ainda ouvia e levava-me a sério.)

Está calor. Em Paredes de Coura chove, também chove na "Life is a Pig Sty" do Ringleader of the Tormentors, e ouvem-se trovões enquanto ele se lamenta.

(Tal como eu me lamento. Tal como, tantas vezes, chove dentro de mim.)

É isso, o lamento quase fado do Morrissey que me abraça e me consola.

Ouvir Smiths e, por conseguinte, Morrissey é cada vez mais viajar no tempo, porque isto de ouvir música, e gostar de o fazer, obriga a estar atento ao novo

E este homem não vai propriamente para novo, já o sabemos.

o que empurra as coisas demasiado ouvidas para o fim da prateleira dos discos.

Comecei a ouvir Smiths e Morrissey tarde. Estupidamente tarde.

Lembro-me de chegar a casa de uma amigo e estar a dar Smiths a decibéis pouco recomendáveis e de ter gostado desde então.

Valeram-me os álbuns em promoção na fnhéque

- lembro-me de uma tarde no primeiro ano em que comprei, assim de seguida, três álbuns dos Smiths:

::The Queen is Dead
::The Smiths
::Strangeways, here we come -

e valeu-me este ouvido e este coração, que quase imediatamente elevaram os Smiths a banda preferida de sempre.

(Claro que agora sei que isso é uma hipérbole, mas não deixa de saber bem dizê-lo.)

Tendo esta voz que mais ninguém tem, Morrissey esgrima por entre letras muitíssimo bem conseguidas,

não, não é o maior poeta de sempre mas escreveu dos versos mais bonitos que já tive o prazer de ouvir e ler

onde deliberadamente nos mostra a realidade em tons de sarcasmo e ternura, em que raramente queremos acreditar,

I know it's over still I cling, I don't know where else I can go

e um som que desliza entre o bate-o-pé-e-dança-e-canta-comigo e o senta-te-no-puff-e-pensa-na-vida.

E foi assim que fui enfrentando e convivendo com e a cada instante e aprendendo a amar e a seduzir, a afastar-se e sofrer, a criticar o mundo com um dedo espetado, a sair à noite e a apanhar bebedeiras só de imperial; como se gostar de Smiths tivesse ensinado a viver - e ensinou.

Por isso hoje, oiço este concerto com o coração pequenino a bater depressa, porque sou outra Joana desde o dia em que os ouvi pela primeira vez,

já fui até várias Joanas desde então

mas o Morrissey nunca deixou de ser um dos meus melhores amigos.

1 comment:

Anonymous said...

E dos meus tb!