15.12.09
Bateu, não bateu.
É chá de jasmim neste trópico despalmeirado, é este Inverno que não chega, nem se calcula que chegue, são peixes mortos flutuando em vapor de água, são paredes brancas vazias atravessadas de bolor e humidade, és tu que és suor sublimado e ponto final origem da semi-recta.
8.12.09
E tendo em conta que estou a 100 posts do meu mínimo anual
Estava aqui a ouvir, enquanto tentava formatar o outro texto, o álbum de Fool's Gold e é uma delícia daquelas mesmo mesmo deliciosas. Soa mesmo natural, no sentido de antónimo de "forçado". Um álbum que terá o seu lugar na minha estante. Que remédio. :>
Um dos grandes momentos do ano foi claramente ouvir isto #1
O Francisco diz que fazer listas de final do ano é mesmo coisa de geek das internetes sem vida social aprazível e com isto arrumou imediatamente setenta por cento dos meus amigos, pelo menos aqueles com quem partilhei horas-todas-somadas-dias de concertos, dj sets e imperiais repetidas à conversa a falar sobre a última grande descoberta, o mais recente disco do ano, a melhor malha de sempre, etc.
Devo dizer que o primeiro ano de ordenados não foi bem aquilo que estava à espera: talvez a forretice tivesse a ver, afinal, com forretice por si só e não mesada parca (e -bem - gasta em bilhetes para os ditos concertos). Contava comprar um disco por dia e despachar assim a minha colecção discográfica, tornando-a razoável ao final de um ano e gigante ao final de dois ou três. Descobri que não é assim que as coisas funcionam, o que, por outro lado, só me dá mais prazer ainda: não se compram discos pelo seu número, mas pelo seu valor. E sim, podia ter comprado LPs por 30 euros, podia, pois, mas não era a mesma coisa *juro por Deus que não houve aqui nenhum trocadilho idiota com aquelas publicidades da Zon*que comprar LPs por 8 e saber que tinha feito uma compra do carai. E sim, podia ter comprado montes de discos de que gostei maisoumenos e ter o inevitável gozo de os ter ali na estante, mas nunca mais os pôr a rodar. A verdade é que, mais ou menos euros na conta a prazo, oiço música da mesmíssima maneira. Pior, tornei-me mais exigente, mais e mais.
No meio do ecletismo, das pancadas com duração mínima de três semanas, e do ai, agora só oiço música da Etiópia ou de equivalentes países com fome e seca, ai agora voltei aos esquisitinhos de Brooklyn, ai eventualmente agora só quero ouvir música com mais de quarenta anos, algures a meio disso, vai-se lá saber como, tornei-me mais facilmente aborrecível. Há música hoje em dia que me dá sono, é altamente soporífera na ausência de temor, de risco, de novidade. Outra que é, única e exclusivamente, gente a fazer barulho por barulho. Barulho arrojado, mas ainda assim barulho. Bocejo nisso tudo. O bom nisso tudo é que já sou eu que me surpreendo a mim mesma "oh diabo, pensei que fosse mesmo gostar disto e afinal estou a apanhar seca" ou precisamente o inverso (substituindo "gostar" por "odiar" e "apanhar seca" por "achar brutal" ou expressão equitativa).
Isto vinha a propósito de alguma coisa que agora já não me lembro, mas, tendo em conta que comecei a escrever o texto a ouvir Fool's Gold, sou rapariga para acreditar que tenha tudo nascido nestes instantes dourados da Surprise Hotel. Talvez tenha vindo cá chamar-lhe uma das canções do ano, é provável, porque o é. Fool's Gold são o exemplo perfeito de que não basta ser engraçadinho para fundir, para criar, é preciso ser genuíno. E esta merda, personificada logo na primeira faixa do álbum, é a melhor canção africana não-africana do ano. Assim uma espécie de sashimi de espada preto com banana, mas que correu bem. Muitíssimo bem.
Não há muito para dizer. Friso de guitarrada repetitiva, daquela que se dança arrastando o corpo, xadrez de vozes de palavras pouco perceptíveis, e ritmo incansável. Uma coisa que dita assim parece assustadora, bem sei. Quando a malta se arma em africana, ui, fujo logo. Não é caso disso.
Surprise Hotel é brilhante. É difícil batê-la, mesmo eles próprios, e provavelmente não o conseguem. Mas todo o álbum é uma lente de filtros vários por onde passou muita (mas mesmo muita) da grande música que já ouvi na vida e o resultado final é tenebrosamente fresco e acolhedor. Sem vácuos.
Grandes Fool's Gold. Grandes, pá, enormes.
15.11.09
But once there was summer and you
Portanto, é claramente Outono e chove. Chove a cântaros e mal se ouve o disco que toca pelo barulho da borrasca nas janelas fechadas e o gotejo do beiral para o chão do pátio. A janela fechada, não fosse a sala inundar, e uma penumbra miliar como se as persianas estivessem corridas, pontos ténues de luz entrecortados de humidade sufocante. É, portanto, Outono e chove e é Domingo e escrevo. Circular. É agora, portanto, que chove e que é Outono, que oiço outra vez Scott Walker e tenho a certeza que acabou.
Posso hoje, que chove e é Outono e já passou, imaginar que não chovia nem fazia frio e que toda eu era calor metafórico nem que seja por alegria incandescente e reciclável, nem que seja por tamborilar coração e se derreterem sistemas circulatórios. Recriar sol e brechas de tempo onde dois dias de alegria naquele Janeiro tomam o lugar de dois anos de inferno e Inverno e migração. Não sei onde encasquetar-te a ti ou aos outros que vieram depois ou durante, por tua causa, tomar-me de relâmpago e ventania, mulher por um dia, Madalena, Maria, por todos os outros, por semanas, choro e higiene obsessiva. A lista, meu Deus, a lista, mas sobretudo tu, terreno e gélido e nós, ou eu e tu e todos eles, em calor artificial, incubando ilusões palpáveis por segundos para depois puf, nada, vácuo. E como doía o vazio, ou as frases transparentes, de partida e adeus, de regresso e perdão inócuo.
Posso hoje, que chove e é Outono, desculpar-te, não; com a sua licença, posso desculpar-me e perder o medo, obrigada por tudo, adeus e até um dia.
25.8.09
Colombia, tierra querida
Cumbia cumbia cumbia e há corpos como copos em brindes Saúde! Tchim-tchim! e de novo cumbia cumbia cumbia anca para aqui anca para cá e jogarmos a cintura em rodopio de ondas e outra vez cumbia cumbia cumbia e isto parecer-nos um disco riscado, tentar de novo, tentar só mais uma vez depois das éne que tentámos.
Cumbia cumbia cumbia e, sem dançar, meter o pé, dar por si submerso. Olha o mau exemplo que és, agora que tens idade e juízo para saber dançar, andas aí às voltas, olha o exemplo que dás cumbia cumbia cumbia, este disco riscou que isto na canção repete mas não repete assim tanto. Do outro lado da rua há quem nos espreite pela janela enquanto se finge estender roupa, regar sardinheiras, esfregar vidraças com jornais que, Deus nos valha, são de ontem, senão chega ele e pergunta pela Bola e a Bola já lá foi mas as janelas estão transparentes de tão limpas, nem se as vê e quem nos vier espreitar dá logo uma matracada com o vidro na testa, ou a testa no vidro, é como se lhe aprouver, que é para aprender a não se meter na vida dos outros, quanto mais dos outros que moram do outro lado da rua e é por tua causa e por causa dele que tens os amigos cheios de medo que não se metem em apuros de amor quando te vêem nesta cumbia vai fazer agora um rol de tempo.
Não é que a gente se esconda, que é Verão e dança-se cumbia cumbia cumbia cumbia, que o disco riscou e isto é a paga pelo capricho de comprar este disco por um preço absurdo, raios parta o disco mais o vendedor que isto está cheio de estalos e o homem que não se cala cumbia cumbia cumbia, que o disco está riscado, só pode, é a paga.
Cumbia cumbia cumbia, cumbia de Colombia e pronto, já passou o risco com um salto, resta saber se também saltamos que me doem os tornozelos dos saltos e das quedas e me arrefecem os dedos, resta saber se já aprendeste, olha o exemplo que dás ao ter medo, és homem ou rato, e agora shiu, brindemos, dancemos, mãos aqui e olhos fechados, não pensemos nisso agora, cruzemos os dedos para que a canção dure mais do que aquilo durou sempre cumbia cumbia cumbia, cumbia de Colombia.
24.8.09
Areia, parte 1.
(Breves regressos para ganhar força)
Staff Benda Bilili :: Avramandole
Benda Bilili significa "olha para além das aparências". Também podia significar "o disco de dança por excelência do ano". O resto não importa (podem ver o que é "o resto" em todos os textos sobre a banda, habitualmente logo ao primeiro parágrafo. Por cá: festa da boa e Sines para o ano*!)
(*Tornar a mentira verdade é possível se a repetirmos com veemência.)
Staff Benda Bilili :: Avramandole
Benda Bilili significa "olha para além das aparências". Também podia significar "o disco de dança por excelência do ano". O resto não importa (podem ver o que é "o resto" em todos os textos sobre a banda, habitualmente logo ao primeiro parágrafo. Por cá: festa da boa e Sines para o ano*!)
(*Tornar a mentira verdade é possível se a repetirmos com veemência.)
20.8.09
Interrompemos a emissão para vos dar conta que
O Mac é o computador mais inteligente do mundo.
Alt + . = …
Acabou-se isso de andar a premir três vezes o ponto final. A C A B O U - S E.
Alt + . = …
Acabou-se isso de andar a premir três vezes o ponto final. A C A B O U - S E.
26.5.09
When Joanna left me, May became December.
Por favor: apaga a luz quando fechares a porta.
Scott Walker :: When Joanna loved me
Scott Walker :: When Joanna loved me
Ainda a perdes; agarra-a bem.
Há uma imagem algo vaga de duas pessoas correndo, uma ao lado da outra, respirando ruidosamente, ofegantes e afogueadas, de punhos fechados e passos simétricos e alinhados. Do outro lado do passeio, um casal arruma o saco do bebé na parte de trás do carrinho; ele olha para um dos corredores, adivinha-lhe o corpo esguio, os músculos esbatendo as curvas, é uma mulher e não desvia o olhar. Hoje não vai olhar assim nenhuma vez para a mãe do seu filho, embora reconheça naquela criança cada traço que o fez gostar dela da primeira vez que se viram tão igual à mãe tão perfeito.
Os dois retomam a marcha e ele empurra o carrito pelo passeio, desenha-se um sorriso em tubo de ensaio e o coração até se lhe enche de alegria quando levanta a roca de borracha do chão não deita ao chão senão perde o brinquedo! e ele adivinha o braço da mulher nas suas costas, é carregado e ansioso, aquele toque e ele suspira aliviando aquele peso com a ideia de que é o braço atlético da corredora que o abraça.
Há um sobressalto do carrinho que lhes estuca a marcha e, do outro lado onde passaram há pouco os corredores em grande velocidade, apoia-se um casal em bengalas, com o braço que está livre cruzado junto à cintura. Ele abraça a mulher sem olhá-la. Prevê-se naquela imagem; nunca correrá.
Equador
Enquanto o sono não chega como trapos andrajando-te a marcha, se fosses um pássaro de asas azul-cobalto livre na floresta da Tijuca, poderias cantar as canções que nunca esquecerias mesmo que amanhã eu te deixasse por outros solos. Sabes que me vou mas não te deixo nunca, estarei nestes troncos como seiva nutrindo, serei o âmbar que fossiliza as tuas recordações cristalizando-as de amarelo-Vénus. Se me deixares tu primeiro, persigo-te o vôo até Fez onde me doerá a vista pela tua ausência presença nas tinturarias anil. Doem-me os ossos ocos na antecipação.
24.5.09
I.
Sentou-se à beira da cama no seu quarto e estragou o aprumo em linhas rectas do edredão estendido. Um edredão uma vez branco agora amarelado, com relevos de losangos e hexágonos como uma bola de futebol. Como se fosse robotizado, pegou na sua mão direita e alisou as pregas do seu peso, o edredão novamente liso estendia-se agora até às duas almofadas de baínhas rendilhadas, altas, simétricas. À frente dele, um toucador com gavetas, um espelho onde evitava ver-se reflectido. Não precisava, já se sabia de cor. Àquela hora da madrugada (em que o sol ainda não nascera mas a noite já não estava cerrada), sabia que a directa lhe cavara olheiras negras e fundas sob os olhos, o álcool lhe secara os lábios, que empalideceram gretados e o cansaço o emagrecera. Garante sempre a si mesmo que não voltará a repetir noites destas - define-as assim "noites destas", por não saber distinguir esta de outras, por não saber discriminar isto daquilo, as duas das cinco da manhã. Sabe de um jantar em casa de um amigo, sabe de umas bebidas, sabe do sabor doce dos lábios de uma mulher (primeiro nos seus, depois no seu sexo, numa casa de banho enquanto ela lho chupava), sabe de ter voltado a olhar para ela quando ela subiu pelo seu corpo acima, levantando os joelhos do chão mijado e de como lhe veio o vómito à garganta, sabe só mais ou menos do táxi que o levou a casa.
Deixa cair o telemóvel no chão e o silêncio é tal que parece um tiro surdo. Deita-se com medo, treme, espera uns largos minutos. Apercebe-se que não foi desta que morreu e soergue-se. Há algo de extremamente asqueroso nisto tudo, vómito, sémen, o seu suor, que ignora propositadamente. Volta a fitar o telemóvel muito concentrado, tenta escrever uma sms. Primeiro não consegue abrir o separador "Criar mensagem nova", depois quando finalmente abre não sabe o que ia a escrever. Continua com o telemóvel na mão e descalça-se, a sola dos sapatos pegajosa. Lembra-se "Cheguei a casa. bjs" com muitos números e éles pelo meio porque não acerta nas teclas. Agora esqueceu-se do destinatário. Perde a paciência, manda o telemóvel para o chão.
Silêncio, outra vez. Já não se voltou a assustar com o barulho da queda. Puxa uma almofada e espalha-se na cama na perpendicular, os pés para o lado da janela, à esquerda. Já amanhece.
Antes de adormecer vem-lhe à cabeça que bebeu whisky. Ainda fecha os olhos com força mas não lhe ocorre mais nada. Subitamente, um novo silêncio, mais vazio, mole, caramelizado.
20.4.09
TEN mandatory things you MUST do in Lisbon
Um dia, o Independent pedir-me-á um artigo sobre coisas a fazer em Lisboa para ter uma full Lisbon experience. Cá está ele, em estreia absoluta e inaugural (coisa fantástica uma estreia que é também um momento inaugural) para os meus leitores.
Na hora da despedida, publicam-se aqui sugestões para se sentir um verdadeiro alfacinha na sua estada na metrópole. Serão 10, mesmo que à sétima não se sugiram coisas alternativas/ free spirit/ fashion forward/ laugh-wise. É bem-dispostinho à humor Time Out, está bem? Pronto, aqui vamos nós. (Será uma ideia por post, para acalmarem aí os cavalinhos.)
1. Seja galada pelo Nuno Lopes.
Pode parecer estranho a nossa primeira sugestão ser esta, mas se for rapariga e morar em Lisboa, primeiro não sei porque raio está a ler este artigo; segundo sabe de certeza que é inevitável em algum ponto da sua vida ter sido galada pelo Nuno Lopes. O Nuno Lopes não faz cantada nem manda piropo à trolha, não. O Nuno Lopes não vem dançar corpo a corpo (OK também pode vir dançar se se cruzarem no Lux, mas provavelmente ele estará demasiado ocupado a encher a vista com t o d a s as raparigas que estão na pista para mexer o corpo em ritmo síncrono com o seu - aliás, por aqui desconfia-se que Nuno Lopes apenas desenvolva a actividade profissional de dj para poder ver meninas a dançar - nada contra, atenção.) O Nuno Lopes passou estes anos da sua vida a desenvolver, em paralelo com uma fulgurante carreira na representação e na noite, a actividade de olheiro. É com essa intenção que Nuno Lopes sai à rua, a de olhar. Esta sua capacidade está de tal forma trabalhada que o olhar de Nuno Lopes enquanto galante é um misto de Jack Nicholson no Shining com Jean-Paul Belmondo no À bout de souffle, uma certa dose de loucura com muita ternura envolvida. Nuno Lopes é um olhador de profissão, dê-se-lhe o mérito que merece após tanto trabalho.
Na hora da despedida, publicam-se aqui sugestões para se sentir um verdadeiro alfacinha na sua estada na metrópole. Serão 10, mesmo que à sétima não se sugiram coisas alternativas/ free spirit/ fashion forward/ laugh-wise. É bem-dispostinho à humor Time Out, está bem? Pronto, aqui vamos nós. (Será uma ideia por post, para acalmarem aí os cavalinhos.)
1. Seja galada pelo Nuno Lopes.
Pode parecer estranho a nossa primeira sugestão ser esta, mas se for rapariga e morar em Lisboa, primeiro não sei porque raio está a ler este artigo; segundo sabe de certeza que é inevitável em algum ponto da sua vida ter sido galada pelo Nuno Lopes. O Nuno Lopes não faz cantada nem manda piropo à trolha, não. O Nuno Lopes não vem dançar corpo a corpo (OK também pode vir dançar se se cruzarem no Lux, mas provavelmente ele estará demasiado ocupado a encher a vista com t o d a s as raparigas que estão na pista para mexer o corpo em ritmo síncrono com o seu - aliás, por aqui desconfia-se que Nuno Lopes apenas desenvolva a actividade profissional de dj para poder ver meninas a dançar - nada contra, atenção.) O Nuno Lopes passou estes anos da sua vida a desenvolver, em paralelo com uma fulgurante carreira na representação e na noite, a actividade de olheiro. É com essa intenção que Nuno Lopes sai à rua, a de olhar. Esta sua capacidade está de tal forma trabalhada que o olhar de Nuno Lopes enquanto galante é um misto de Jack Nicholson no Shining com Jean-Paul Belmondo no À bout de souffle, uma certa dose de loucura com muita ternura envolvida. Nuno Lopes é um olhador de profissão, dê-se-lhe o mérito que merece após tanto trabalho.
Para ser galada por Nuno Lopes, não é muito difícil; deve:
Se é de Lisboa e frequenta o eixo Bica - Noobai - Lux, o Nuno Lopes já a conhece de vista. Esse é um dos méritos de Nuno Lopes nesta difícil actividade de olheiro, a memória fotográfica. Se é o seu caso, já foi galada por Nuno Lopes e pode parar de ler aqui.
Se não é de Lisboa, antes de mais nada seja bem-vinda a esta belíssima cidade. Cuidado com os túneis de acesso ao Metro, melhor: não os frequente de todo, corre o risco de se cruzar com carochos e ser assaltada. Em relação a Nuno Lopes, tem a desvantagem de ele nunca ter visto a sua cara. Não se alarme, temos um truque: adicione-o no Facebook, que ele aceita. Junte muitas fotos ao seu perfil, fotos interessantes, você em Berlim, junto à Vitória de Samotrácia - legenda "Asas do desejo", você em Trafalgar Square "Punk is not dead"/ "London calling"/ ou assim, coisas indie e cheias de referências pop-intelectuais. Nuno Lopes vai fazer uso da sua memória fotográfica e decorar o seu rosto. Entretanto, em Lisboa, passe a frequentar o eixo Bica (a qualquer hora do dia)/ Noobai (pela tarde)/ Lux (de madrugada). Vai seguramente cruzar-se com Nuno Lopes, logo esteja no seu melhor. Se for no Noobai, Nuno Lopes estará a ler, portanto faça uso de uma referência antiga ao seu trabalho (pelo amor de Deus, não use expressões d'O Chato), pode falar do Agostinho dos Riscos ou do 'chraaam do C.R.E.D.O., mas seja discreta. Não se esqueça que Nuno Lopes está ali para olhar, isto é, volta e meia levanta a cabeça do livro e olha em volta. Mais tarde ou mais cedo ele reparará em si. Deixe que a sua face ruboresça. Veja Nuno Lopes ficar instantaneamente interessado em si. Saia depressa antes que ele parta para a acção.
Se não é de Lisboa, antes de mais nada seja bem-vinda a esta belíssima cidade. Cuidado com os túneis de acesso ao Metro, melhor: não os frequente de todo, corre o risco de se cruzar com carochos e ser assaltada. Em relação a Nuno Lopes, tem a desvantagem de ele nunca ter visto a sua cara. Não se alarme, temos um truque: adicione-o no Facebook, que ele aceita. Junte muitas fotos ao seu perfil, fotos interessantes, você em Berlim, junto à Vitória de Samotrácia - legenda "Asas do desejo", você em Trafalgar Square "Punk is not dead"/ "London calling"/ ou assim, coisas indie e cheias de referências pop-intelectuais. Nuno Lopes vai fazer uso da sua memória fotográfica e decorar o seu rosto. Entretanto, em Lisboa, passe a frequentar o eixo Bica (a qualquer hora do dia)/ Noobai (pela tarde)/ Lux (de madrugada). Vai seguramente cruzar-se com Nuno Lopes, logo esteja no seu melhor. Se for no Noobai, Nuno Lopes estará a ler, portanto faça uso de uma referência antiga ao seu trabalho (pelo amor de Deus, não use expressões d'O Chato), pode falar do Agostinho dos Riscos ou do 'chraaam do C.R.E.D.O., mas seja discreta. Não se esqueça que Nuno Lopes está ali para olhar, isto é, volta e meia levanta a cabeça do livro e olha em volta. Mais tarde ou mais cedo ele reparará em si. Deixe que a sua face ruboresça. Veja Nuno Lopes ficar instantaneamente interessado em si. Saia depressa antes que ele parta para a acção.
14.4.09
Uma questão de fé. (Faith/Void)
Guardei uma imagem mental da Isabel na cabeça. É mais que uma, aliás, mas não mais que duas ou três; como fotografias, instantes breves e triviais mas que me ilustram aquilo que ela era. Num, ela está sorridente a apanhar o cabelo no alto da cabeça. Não está sorridente, está mais do que isso; sorri com a cara toda enquanto conta a manhã com o Zé a jogar básquete no campo do adro da igreja de S. José, em Coimbra, claro. Noutra serve-me Coca-Cola enquanto me diz, a mim e à Jenny, outra vez sorrindo com a cara toda, os olhos, os malares, o pescoço, todos rendidos naquele sorriso, que a ressaca cura-se com Coca-cola (e temos juntas lhe dado razão desde então). Ainda noutra, mostra-me a casa nova, arredores de Coimbra, uma zona cheia de terras alagadas e cegonhas, e o jardim, completamente florido, cheio de cores, vibrante, à sua imagem. Aqui e acolá consigo me lembrar de outras frases, das vezes que foi à Madeira, coisas assim, mas estas três imagens ninguém mas tira, polaroids de momentos de nada que me acompanham desde que nos despedimos.
Era uma pessoa demasiado especial para ser facilmente esquecida. Demasiado especial para ser levada assim, em poucos meses de luta. Às vezes acredito mesmo nisso da Isabel estar bem mais resolvida na vida do que qualquer um de nós, como disse a Ru este fim de semana "espiritualmente mais evoluída" do que nós - não tenho dúvidas. Egoisticamente, isso consola-me. Qualquer outro ficaria por aí a penar, a resolver tudo o que não resolveu na vida terrena, assombrando a vida de outros e os próprios espaços que ocupava, ela não; ela pode ficar tranquilamente a observar-nos, feita anjo da guarda que sempre fôra em corpo. Imagino-me a mim morta, com tanto para dizer e fazer ainda. Sou um ser tão imperfeito e, por culpa minha, nada do que me pertence é meu. Parece que passamos pela vida mortos, que estúpidos.
Não sei lidar com a morte como perda senão como falha. O meu curso não mo ensinou nem a vida, no final de contas. Pela primeira vez tive que enfrentar que não mais hei-de encontrar-me com uma pessoa que me é querida. Cruzar assim normalmente, se é que me entendem. A Isabel estará por aí? Ler-me-á este post? Não sei. Recentemente deixei de acreditar nas minhas crenças e parei de duvidar dos meus disbeliefs. Está tudo ao contrário neste mundo terrível. Se ao menos todos aprendêssemos a viver em linhas direitas, não sei. Não sei lidar com a vida como ganho senão como construção.
Este Deus que me suportava as dores e as alegrias fez-me pouco sentido nos últimos tempos, que espécie de ser grandioso - egoísta por sinal - rouba uma mãe ao seu filho, uma filha aos seus pais, uma mulher necessária ao mundo que dela precisa? É injusto, eu sei, alguém tem de morrer, enquanto por minuto nascem milhares de crianças, mas porquê? Devia aqui caber sempre mais um. E que tipo de oração é esta que faz parar um coração enquanto batem outros milhares? Na Igreja falam-nos do poder da fé, no poder do Ser omnisciente e omnipresente que a todos ajuda - a Isabel era religiosa, católica praticante, uma mulher cheia de fé - também a admirava por isso; porque não lhe pôs Deus a mão por baixo? Como é que é possível nestes anos todos ter acreditado que Ele mudava o curso das coisas se Nele acreditássemos?
Ainda O vejo nas pequenas coisas, embora com alguma dificuldade, renova-se-me a fé quando recebo o Sol na cara, quando choro emocionada, quando amo alguém sem mais nada, quando o roseiral da campa da Isabel desabrocha em flores do mais belo rosa pálido que já vi. Mas não O noto muito capaz de grandes milagres. Não agora, não aqui.
Ironicamente acabo o post e o Bill Callahan canta "It's time to put God away". A Ele voltaremos. Haja fé, pelo menos nisso.
Era uma pessoa demasiado especial para ser facilmente esquecida. Demasiado especial para ser levada assim, em poucos meses de luta. Às vezes acredito mesmo nisso da Isabel estar bem mais resolvida na vida do que qualquer um de nós, como disse a Ru este fim de semana "espiritualmente mais evoluída" do que nós - não tenho dúvidas. Egoisticamente, isso consola-me. Qualquer outro ficaria por aí a penar, a resolver tudo o que não resolveu na vida terrena, assombrando a vida de outros e os próprios espaços que ocupava, ela não; ela pode ficar tranquilamente a observar-nos, feita anjo da guarda que sempre fôra em corpo. Imagino-me a mim morta, com tanto para dizer e fazer ainda. Sou um ser tão imperfeito e, por culpa minha, nada do que me pertence é meu. Parece que passamos pela vida mortos, que estúpidos.
Não sei lidar com a morte como perda senão como falha. O meu curso não mo ensinou nem a vida, no final de contas. Pela primeira vez tive que enfrentar que não mais hei-de encontrar-me com uma pessoa que me é querida. Cruzar assim normalmente, se é que me entendem. A Isabel estará por aí? Ler-me-á este post? Não sei. Recentemente deixei de acreditar nas minhas crenças e parei de duvidar dos meus disbeliefs. Está tudo ao contrário neste mundo terrível. Se ao menos todos aprendêssemos a viver em linhas direitas, não sei. Não sei lidar com a vida como ganho senão como construção.
Este Deus que me suportava as dores e as alegrias fez-me pouco sentido nos últimos tempos, que espécie de ser grandioso - egoísta por sinal - rouba uma mãe ao seu filho, uma filha aos seus pais, uma mulher necessária ao mundo que dela precisa? É injusto, eu sei, alguém tem de morrer, enquanto por minuto nascem milhares de crianças, mas porquê? Devia aqui caber sempre mais um. E que tipo de oração é esta que faz parar um coração enquanto batem outros milhares? Na Igreja falam-nos do poder da fé, no poder do Ser omnisciente e omnipresente que a todos ajuda - a Isabel era religiosa, católica praticante, uma mulher cheia de fé - também a admirava por isso; porque não lhe pôs Deus a mão por baixo? Como é que é possível nestes anos todos ter acreditado que Ele mudava o curso das coisas se Nele acreditássemos?
Ainda O vejo nas pequenas coisas, embora com alguma dificuldade, renova-se-me a fé quando recebo o Sol na cara, quando choro emocionada, quando amo alguém sem mais nada, quando o roseiral da campa da Isabel desabrocha em flores do mais belo rosa pálido que já vi. Mas não O noto muito capaz de grandes milagres. Não agora, não aqui.
Ironicamente acabo o post e o Bill Callahan canta "It's time to put God away". A Ele voltaremos. Haja fé, pelo menos nisso.
Subscribe to:
Posts (Atom)