31.1.07

"Eu hoje sinto nos ossos que o tempo está a mudar"

Que o que era, deixará de o ser.

Que o que nunca o foi, talvez o seja agora.

Currently listening to: Andrew Bird | Armchair Apocrypha

30.1.07

Raio de remistura viciante

Só podia dar boa cena...

Os Hot Chip remisturaram a Rehab, da Amy Winehouse, e fizeram um óptimo trabalho, na minha modesta opinião.

A voz continua com a sua adorável cadência, mas há uma espécie de palminhas e uma secção de sopros... Groovy.

A ouvir aqui, gente.

(E dancem pá, não fiquem aí parados.)

29.1.07

O que é que acabei de escrever?

Cala-te e foge. Não confesses o crime que não cometeste. Não ofereças o teu corpo, tens que ter um preço: deixa que te chamem de puta, mas não deixes que ignorem a tua luta. Quem só vê a puta, não merece ver mais nada. Cala-te e foge.

Deixa que te arranjem um nome, um defeito, um palavrão. Já sabes como é que eles são: prontos para arranjar etiquetas, catálogos de futilidades e tretas, enchem as ruas com o que não interessa, enchem os olhos com fogo de vista, essa é que é essa.

E agora fala-se do sim e do não, mas não encontro causas nobres: onde é que elas estão?

23.1.07

E a música?

Em 2004, um ano antes do Desumanos ter sido criado, JP Simões e Sérgio Costa juntaram um Quinteto - que afinal ao vivo era um sexteto - e apelidaram-no de Tati. Escreveram um disco chamado Exílio que me inspirou a escrever muitos textos, não só aqui, como no extinto Crime Passional. Canções que constroem cenários, que esboçam histórias a giz, que guiam os meus dedos através do teclado.

Em 2007, JP Simões, depois dos Belle Chase Hotel e dos Quinteto Tati, lançou um álbum a solo chamado 1970. Ontem ouvi a apresentação do álbum na FNAC e logo me apeteceu ter direito a um concerto à séria, com os coros que preenchem o disco de uma forma especial. As canções de 1970 são, de forma nada supreendente, lindas. A influência é nitidamente buarquiana ( a palavra não deve existir) mas a vivência é portuguesa - e há a Inquietação, do José Mário Branco, cuja letra foi aqui publicada a propósito, já há um ano - desta versão do JP.

Os textos de Parabéns foram todos escritos ao som deste disco. Oiçam-no.

Quinze coisas que poderiam fazer nos quinze minutos que gastam a ler o Desumanos:

1. Ver, pelo menos, cinco sketches dos Monty Phyton.
2. Fazer uma tosta, comê-la e limpar a tostadeira (por causa do queijo derretido).
3. Ouvir as faixas Retrospectiva de um amor profundo e 16/12/95 do Pratica(mente) e ter atenção absoluta à letra.
4. Aspirar uma divisória da vossa casa, ou duas ou três, ou mesmo a casa toda (dependendo do tamanho da casa).
5. Pôr um disco do Marvin Gaye a tocar e deixar a criatividade apontar o caminho para o sexo.
6. Dar uma rapidinha (ou uma queca a sério, caso sofram/o vosso namorado sofra de ejaculação precoce).
7. Ver três intervalos publicitários seguidos dos três canais generalistas principais (a 2: não conta para o caso porque só passa publicidade institucional).
8. Fazer a massa para um pão-de-ló (mais dez minutos e teriam o pão-de-ló no forno).
9. Pegar no carro e ir ver o mar, se o trânsito estiver de feição.
10.Ler os "Castelos" d' A Mensagem do Pessoa.
11.Ler uma página de um livro e mesmo assim não a perceberem e terem que a reler (se isto nunca vos aconteceu, lamento, andam a ler os livros errados).
12.Namorar.
13.Telefonar a uma amiga que não vêem há duas semanas (mais tempo do que isto sem se verem resultará numa conversa maior que quinze minutos).
14. Beber uma bica e ler as letras gordas do jornal.
15. Não fazer absolutamente nada e pensar na morte da bezerra.

Por isto tudo, e muito mais, aos que cá vêm o meu

muito obrigado.

Parabéns, Desumanos.

É o teu segundo aniversário.

Obrigada por guardares dentro de ti aquilo que sou.

Obrigada por me deixares ser mais ainda por tua causa.

Obrigada por todos os espaços em branco que me obrigaste a preencher.

Obrigada por me ouvires.

Obrigada por teres sido a minha tábua de flutuação quando estava atolada em pântano viscoso.

Obrigada pelos discos que ouviste, pelas letras que cantaste.

Obrigada por seres mais do que um blogue, obrigada por seres eu e eu ser tu e tu assim o permitires.

Obrigada por todas as vezes em que limpaste as lágrimas derramadas de dentro de mim.

Obrigada pela tua paciência quando não tenho nada para te dizer.

Obrigada pelos textos em que deixaste, propositadamente, que a realidade a ficção fossem uma e uma só identidade, fusão terapêutica de chá, sorrisos e choro.

Obrigada por quando me fizeste rir.

Obrigada por me aturares as esquisitices, as manias, as insónias.

Obrigada por te deixares adormecer e obrigada por nunca teres morrido, mesmo nas vezes que tentei matar-te, assassina impiedosa.

Obrigada por acolheres textos feios, mal-escritos, desdenhosos.

Obrigada por reconheceres quando estou demasiado feliz para falar de desgraças.

Obrigada por ainda me deixares sonhar.

Obrigada por cada sílaba, cada palavra, cada frase, cada post.

Ainda és tu quem se mantém mais ou menos o mesmo, dois anos depois. Eu já não sou a mesma e também a ti o devo. Obrigada.

Parabéns ao Desumanos.

Um piano toca dolente e enche a tarde, ao longe. As chaves - um molho enorme, com chaves de todos os formatos - está a um canto da entrada, talvez deixadas cair por alguém que entrou à pressa.

Há um bilhete sobre a mesinha da sala, a única mesa de todo o apartamento. Vazio.

Segura o bilhete entre os lábios, já em miúda a mãe lhe dizia que aquilo era pouco higiénico mas criara essa mania. Habituara-se a fazer tudo ao mesmo tempo, jantar enquanto estudava, ver televisão enquanto fazia a depilação, falar ao telefone enquanto se arranjava. Sempre com o bilhete nos lábios, e ainda sem o ler, abre as cortinas e as persianas dos grandes janelões da sala. Já não precisa de acender a luz, porque o sol ocupa o espaço deixado livre pela ausência dos móveis. Ilumina o grande armário dos discos, onde vinis alinham-se com cds em estantes oblíquas. Decide ouvir música antes de seja o que for. Antes de pousar a mala, a pasta com a papelada do escritório, o saco do supermercado.

Levantou o braço do gira-discos ainda antes de escolher o que queria ouvir. Apetecia-lhe ouvir qualquer coisa onde se sobrepusesse o trompete. Apetecia-lhe dançar para que a felicidade que sentia inundasse aquelas paredes vazias, como se de quadros de Magritte se tratasse.

Ceci n'est pas une pipe. C'est seulement joie de vivre.

Já ouve Donald Byrd enquanto pousa tudo o que havia para pousar. Finalmente o bilhete passa para as suas mãos.

Volto logo. Logo. O mais rápido que puder. Está um dia lindo, parecia que ia chover e começou o sol a brilhar desta maneira, viste? Fui buscar coisas a casa. Trago jantar. Ou vamos jantar fora. Ou ficamos por casa na cama. Ia escrever "a comer-nos" mas achei demasiado porco. Vais guardar este bilhete? "O primeiro bilhete que ele me deixou na nossa casa nova"? Se soubesses o quanto te amo. Já temos gás e internet. Quero-te encontrar a dançar. Ou dentro de um banho. Prometo juntar-me a ti, independemente do que estiveres a fazer quando eu chegar. Mesmo que estejas a lavar os dentes. Temos internet, já disse? Eu amo-te muito. Até já, num já que são horas que serão séculos.

Guardou o papel no bolso e agora rodopia pela sala. Há pó que se eleva com os seus passos. Sabe que é delicada e que dança bem, sobretudo agora que ninguém a vê. Os olhos estão abertos porque pôs-se a imaginar cada canto daquela sala com os móveis e as fotografias que deseja trazer. Gradualmente deixa de ser ela quem dança, uma força que se move para além dela mas que não a força a nada. Tem que arrumar alguns dos caixotes que lhe ocupam aquele lado da - ou melhor, pensa imediatamente, os caixotes que lhe ocupam a zona do escritório. É talvez a última dança que fará sozinha naquela sala vazia. Amanhã chegará um sofá, uma estante, as molduras de fotografias.

Fecha os olhos e sente nos seus lábios as bocas de quem já beijou. O rosto abre-se em alegria. Agora beija quem sempre quis beijar. Como se já o conhecesse do útero e tivesse que ter andado à procura cá fora. Contorce-se de prazer, o trompete sobe, sob ele há batida funk, quente. Sob ele há uma viagem.

Empilha dois caixotes diante da janela e vai mudar de disco. Escolhe o Chico Buarque, escolhe o Brasil como ponto de partida. Senta-se nos caixotes e aproveita aquele final de tarde absurdo. Absurdo de tão bonito. O céu estende-se na potencialidade infinita de ser feliz. Aqui, agora.

19.1.07

Scoop

Pela primeira vez, saí do cinema desconsolada depois de ver um filme do Woody Allen. Eu que até agora tinha gostado de todos os filmes dele, mesmo aqueles apelidados de "lixo cinematográfico".

A história merecia mais, o Hugh Jackman merecia mais, a Scarlett Johansson talvez não mereça tanto.

Mas vão ver, em termos de gargalhadas descomprometidas, o filme é um sucesso - e é do Woody Allen, só não é uma obra-prima. Falta-lhe um twist qualquer no enredo. Falta sarcasmo aos acontecimentos. Falta aquele humor negro, que o Match Point teve (o anel que podia cair no rio ou no chão, tal como a bola num jogo de ténis.) Não há ali nada disso. Há até uma história bem clara, demasiado clara, arriscaria mesmo a usar o termo previsível.



Sempre são duas horinhas bem passadas no cinema - e na companhia dele.



Peço-vos que reparem na cana do nariz deste senhor. Rectilínea, afilada, ligiramente inclinada para baixo (cada uma gosta do que gosta, a mim são narizes, que hei-de fazer?). O nariz mais perfeito que tive oportunidade de observar. A cara, magra, que se desdobra em rugas expressivas quando sorri, a testa grande, imediatamente cima de uns olhos sinceramente castanhos e vivaços. E é o Hugh Jackman que faz com que a melhor cena do filme seja exactamente a melhor cena do filme - para não falar do efeito de pólos, ainda por cima verdes, no meu coração fraquito:

Três canções para ter uma filha chamada Madalena

Uma. Madalena, Elis Regina

Duas. Magdalena, dEUS

Três. Magdalina's dance, Bert Jansch

18.1.07

16.1.07

Crítica televisiva a um programa defunto

Os pés levaram-me para o sofá e os dedos, encostados à borracha dos botões do comando, levaram-me até à RTP Memória, onde estava a ser transmitido o Parabéns, com Herman José.

Há várias considerações a tecer quando se vê o Parabéns com Herman José (nunca tinham reparado que o nome é assim mesmo? é para isso que aqui estou). Uma delas é francamente óbvia: o Herman José nesta altura não era loiro. E afinal nesta altura também já não tinha assim tanta piada quanto isso - recordo-me que o humor voltou aos programas do Herman com as rábulas da Maria Rueff no Herman'98, não com o próprio Herman. O Parabéns com Herman José era, já nesta altura, um chorrilho de amizades e de queridas e queridos e de grandes amigos para todo o lado. Talvez com menos pompa do que o actual Herman SIC (programa que não assisto há coisa de dois anos e meio ou mesmo mais), mas ainda assim uma chatice.

A roupa das criaturas que aparecem no programa é digna de nota. O Parabéns com Herman José é dos anos noventa, meodeos. Eu já estava minimamente acordada para a vida nesta década e não me lembro de n i n g u é m na minha família se vestir assim - God forbid! No jogo das idades, em que os dois concorrentes seleccionados para jogar com o Herman escolhem aniversariantes do público, uma miúda tinha a minha idade actual - 22 anos, para os poucos que não sabem - e eu dava-lhe, na boa, 30 anos ou mais. Ou mais. Que ar tão pesadão. Que coisa é aquela de vestir um tailleur cinzento escuro para ir a um programa de televisão de entretenimento? Se ainda fosse falar sobre microeconomia, aceitava-se o ar - literalmente - cinzentão. Agora ali há dados que rebolam sobre as cabeças do público, chaves com cores berrantes em que só uma abre o cofre do banco Fonsecas e Burnay (que é feito do banco Fonsecas e Burnay, anyway?), há a Ana Bola e o Vítor de Sousa para o momento humorístico da noite. E no programa que assisti (apenas parcialmente, confesso), o aniversariante VIP era o Artur Albarran. (E a mulher por quem estava apaixonado na altura - e casado, acho - não era a Lisa que alegadamente levou pancada, para verem como o mundo dá voltas.) Não é programa para alguém ir vestido daquela maneira. Adiante.

Claro que assistir a este programa, Parabéns com Herman José, deixou-me um pouco nostálgica. Os meus sábados à noite em miúda eram exactamente a ver aquilo: a aguardar ansiosamente que acabasse o Telejornal, depois de comer creme de ervilhas e ovo estrelado com arroz, em casa da minha avó - para que começasse o Parabéns com Herman José. Eu vibrava com aquilo. Sonhava com o dia em que eu pudesse participar para ir ali, na semana do dia 18 de Novembro, pôr as mãos naqueles dados que me pareciam tão fofinhos. (Ainda hoje quando vejo dados grandes, daqueles de esponja para as crianças brincarem, agarro-me a eles com convicção e faço-os rolar com um rufar de tambores - Joana, the human beatbox - , tal como no Parabéns com Herman José.) Escolhia as cores das chaves com fervor para abrir o tal cofre do banco Fonsecas e Burnay, que continha setecentos e cinquenta mil escudos, os presentes com pistas muito idênticas - mas em que os pequenos detalhes distinguiam um micro-ondas de um simples púcaro. E havia a banda. E eu gostava daquilo tudo e lembro-me que toda a gente lá em casa via aquele programa comigo.

Bem vistas as coisas, faz falta um programa assim à actual televisão-floribella-morangos-related. Apesar de tudo, a entrevista com o Albarran estava a aborrecer-me desliguei a televisão. Já há muito tempo que não via tanto tempo de televisão de seguida, ainda assim.

Ó não! Mais um vídeo do youtube!



Chad VanGaalen | Flower Gardens

Skelliconnection, o álbum do Chad VanGaalen, está nas menções honrosas porque não mereceu entrar no top 30. Não deixa, no entanto, de ser um óptimo álbum, com canções como esta com que vos presenteio hoje - e que me levantou da cama em muitos dias de sono; a Sing me to sleep - que, ao contrário da anterior, adormeceu-me em noites de insónia; e outras pequenas surpresas, como a See thru skin e a Red Hot Drops.

O vídeo aqui oferecido foi animado e realizado pelo próprio Chad.

(já agora, esta é a belíssima capa do álbum:
)

14.1.07

Neko Case & M. Ward | To go home



Esta é a versão ao vivo da canção do M. Ward "To go home", que consta no Post war (álbum que figura no lugar 24 - e lembrem-se que a partir do 12 a lista é, em termos de classificação, pouco/nada consistente- da lista atrás publicada). A Neko Case (responsável por um senhor álbum, no número 2 da referida lista) canta o coro desta canção, convidada pelo M. Ward. A versão ao vivo não é a melhor (do vídeo, então nem se fala, não se vê ninguém, talvez só o cabelo vermelho da Neko).

De qualquer maneira, fica aqui o apelo: um festival com a Neko Case, o M. Ward, o Jens Lekman - por acaso acho que me esqueci que o "Ooh you're so silent Jens!" é de 2006 - e o Tom Waits. A coisa compunha-se, não era?

Vale o que vale, mas aqui está ela: lista pessoal dos melhores álbuns de 2006

Aqui temos os meus campeões mensais de audições nos primeiros 12 lugares. Os restantes foi seguindo um sábio conselho: tentar não colocar consecutivamente géneros musicais ou editoras iguais. É, talvez, a lista mais injusta e parva de todo o sempre, mas aqui está ela, para o bem e para o mal.

1. Ali Farka Touré - Savane
2. Neko Case - Fox Confessor Brings the Flood
3. Cibelle - The Shine of Dried Electric Leaves
4. Carlos Bica & Azul$Believer
5. Bert Jansch - The Black Swan
6. Howe Gelb - ’sno angel like you
7. Beach House - Beach House
8. Lupe Fiasco - Food & Liquor
9. Beirut - Gulag Orkestra
10. Cat Power - The Greatest
11. Kode 9 & the Spaceape - Memories of the Future
12. Liars - Drum's Not Dead
13. Toumani Diabaté Symmetric Orchestra - Boulevard de l’independance
14. Sam the Kid - Pratica(mente)
15. Yo la tengo - I am not afraid of you and I will beat your ass
16. Tom Waits - Orphans
17. Buraka Som Sistema - From Buraka to the World
18. Gaiteiros de Lisboa - Sátiro
19. Grizzly Bear - Yellow House
20.Lisa Germano - In the maybe world
21. Spanky wilson & Quantic Soul Orchestra - I’m Thankful
22. Chico Buarque - Carioca
24. M Ward - Post-War
25. Marisa Monte - Universo ao Meu Redor
26.Tv on the Radio - Return to the Cookie Mountain
27. Ty - Closer
28. Phoenix - It’s never been like that
29. Clipse - Hell hath no fury
30. Dead Combo - Quando a alma não é pequena – volume 2

Menções honrosas (saíram do top 30 porque eu à custa de números repetido tinha já 35 discos): - Nino Moschella, The Fix
- Sparklehorse, I dreamt of light years in the belly of a mountain
- Boards of Canada, Trans Canada Highway
- Spank Rock, Yoyoyo
- Chad VanGallen, Skelliconnection

12.1.07

Doismileseis

Sou uma pessoa medíocre. Não sei muito sobre arte nenhuma (espero que a medicina seja excepção, mas neste caso estou a falar de cinema, literatura, música, pintura e coisas assim). Se me pedissem para escrever um texto sobre o que quer que fosse, escrevia, no máximo, umas duas ou três linhas. Vivo dos meus cinco sentidos e de uma inteligência que se vai revelando a cada dia em pequenas coisas e que convive e coabita no mesmo ser (eu, claro, who else?) com uma parvoíce sem limites - que é o lado meu que as pessoas mais conhecem.

Dois mil e seis acabou. Gosto de escrever o ano assim, por extenso. E ainda mais se o escrever tudo pegado. Assim, vejam: doismileseis. A relatividade do tempo continua a assustar-me. Talvez me assuste cada vez mais. Ainda ontem era 2002 e eu estava a vir para Lisboa, onde tudo me parecia frio, cruel, distante, impessoal. Agora não sei se quero regressar à Madeira tão cedo. Doismileseis trouxe-me esse dilema: o regresso a casa ou a adopção de um novo lar? Lisboa é o meu lar (estupidamente cito a Fiona Apple que diz "home is where my habits have an habitat" ou o Common que canta "home is where the hatred is/ home is filled with pain" e concordo em absoluto com a primeira e com o segundo às vezes). Nesta cidade enorme (enorme em dimensões e enorme em beleza), ganhei o meu espaço. Fiz amigos, atei laços que espero nunca vir a desatar. Mas sobretudo encontrei a Joana que eu sempre quis ser e de quem sempre estive aquém (obra inacabada, óbvio). Concertos, exposições, horas dentro de livrarias e lojas de discos, horas fora de casa de olhar indefinido enquanto pombas pousam para comer migalhas do meu prato. Horas sentada no Castelo, sozinha, exactamente no sítio onde disse ao Pedro, há quase dois anos "Pedro, quero acabar.", com toda a cidade a entrar dentro de mim. Recupero todo esse trajecto com o meu carro, amigo de todas as horas. Adoro o meu carro, sabiam? Desço do castelo até à rua do Santiago Alquimista, que julgo se chamar Rua de Santiago, entro no carro e vou ouvindo rádio.

"Pe-dro-que-ro-a-ca-bar." são apenas sete sílabas, o que dá o quê? uns sete segundos. Sete segundos que me marcarão para a vida inteira. Faz dois anos em Março deste ano; entretanto o Pedro é o meu melhor amigo. Doismilecinco foi o pior ano de sempre. Lembro-me de o ano ter mudado nas luzinhas da montanha, de 2005 para 2006, e de eu ter pensado "Foda-se, finalmente!" e de ter desatado a chorar. Quatro anos é muito tempo. É tempo a mais para acabar em sete segundos.

Em doismileseis, logo ali no início, portanto há um ano, habituei-me a estar sozinha. Até porque a minha noção de sozinha mudou radicalmente: o contacto com velhas amizades voltou. O nome Joana Martins vem-me assim à cabeça, logo. Que saudades que eu tinha de estar assim com esta rapariga. Não sei se ela sabe, mas vai já passar a saber: é a minha confidente de todas as horas, de todos os segredos. Mesmo aqueles planos mais inconfessáveis são-lhe confessados. (As outras amigas que não me levem a mal, mas esta rapariga é minha irmã sem termos nenhum pai ou mãe em comum.) Está um frio do caraças e tenho os dedos gelados e só me apetece dizer-te, Joana, que quando sorris iluminas o céu pararapapa. PlantLife, babe. E bater-te aí à porta e ouvirmos o Baduizm, talvez dos melhores álbuns de sempre. E a culpa é tua, nem é da Erykah. E conversarmos com palavras e entendermo-nos porque os nossos ouvidos ouvem para além daquilo que dizemos.

Cheguei a ir ao cinema sozinha. Almocei sozinha num centro comercial, coisa que sempre achei do mais deprimente que há - e ainda o é, não é por tê-lo feito que deixou de o ser. Mas também tive muito tempo para mim, por isso doismileseis foi também o ano em que ouvi mais música. Tanta música, credo. Há cada vez menos coisas que me causem a excitação que é ouvir um álbum pela primeira vez. E os concertos, pouco mais de meia centena de concertos, amoresnovo, conslidados ou reforçados por ouvir as canções ao vivo. O que me lembra outra coisa.

Em doismileseis, troquei mais de 200 mensagens escritas com uma pessoa. Antes e durante esse período, as conversas pelo messenger, guardadas pelo histórico que foi, entretanto, desactivado, foram tantas que ocuparam quase 9 megas do meu disco - sem contar com um m~es de conversas não gravadas. Tudo com essa pessoa - do sexo masculino, como já se deve ter notado- foi especial, conhecer do nada foi especial, aproximar-se foi especial, conhecer melhor foi especial, passarmos muito tempo juntos foi especial. E importante. E intenso. Tudo aquilo que partilhámos foi consumido e foi vivido. Às vezes dá-me a sensação absurda de ter sido feliz sem mais nada durante algum tempo, por causa dele. Vimos por duas vezes o sol nascer atrás de um Hospital - provavelmente a coisa mais romântica do mundo- e, dessas duas vezes, por muitas horas que tenhamos conversado, parecia-me sempre que tanto ainda havia por dizer (ex aequo com ver os peixinhos de uma avenida da liberdade deserta às cinco da manhã e olhar-me nos olhos e o mundo parar, o tempo parar, haver silêncio à nossa volta e uma cena que durou no máximo uns segundos, parecer ter durado dias). Outra vez empurrámos o carro dele rua abaixo e essa foi provavelmente a terceira coisa mais romântica do mundo, sendo que a segunda é ir ver skaters ao skatepark, quase debaixo da Ponte Vasco da Gama. E a quarta é, suponho eu, andar de carro quando a cidade já dorme, numa segunda feira de madrugada. E podia dizer a quinta, porque à medida que vou escrevendo, vou-me lembrando de mais coisas, mas não vou fazê-lo. Mais uma vez, as coisas acabam e eu agora com a frieza de quem passou um mau bocado mas também já pode efectivamente usar o pretérito perfeito quanto a isso, vejo que sou uma menina de castelos no ar, que vou construindo e albaroando à medida que os dias passam. Aprendi uma coisa importante, e aprender aqui não é o melhor termo, reformulando: apercebi-me de uma coisa importante. Vale sempre a pena. S E M P R E. Faz parte da vida, é viver. E há sempre tantas coisas boas que ficam, por exemplo a recordação do Portugal- Holanda, de como Portugal estava a jogar para ganhar e de como eu segui o exemplo da nossa selecção e apostei num 1-0 a seguir ao jogo ter acabado. As recordações são infinitas, o prazer é infinito. A alegria de saber que não só me fizeram feliz mas também eu fiz outro alguém feliz (grande presunção a minha) é infinita. Ainda nem voltei a ler isto e já me lembrei da quinta coisa mais romântica de sempre: enviar mensagens quando já passou - e muito - da hora de dormir e ir acordando para ler a mensagem e responder. Ouvir Cibelle. A translação da Terra em volta do Sol descontinuada pelo brilho no olhar. Pelo sorriso. E agora, depois da turbulência, a paz. A tranquilidade.

Doismileseis trouxe-me o André e eu não consigo expressar por palavras o quanto gosto do meu irmão mais novo, o que nos leva de volta à primeira frase deste post e ao facto de eu ser medíocre. Tento todos os dias ser menos medíocre por causa dos meus irmãos. É por eles que todos os dias me levanto da cama e vou ao Hospital, mesmo quando a paciência para o fazer é, tipo, nula. Sei que sou um exemplo para a Frederica. Eu não gostava de ter maus exemplos para mim por isso dou mais de mim para nunca ser medíocre aos olhos dela. E sei que com o André a relação vai ser diferente, mas que sempre sempre nos unirá este amor despretensioso que é o amor por um irmão. Não sei explicar como me sinto por saber que a Frederica já conhece o Fernando Pessoa e toca guitarra como nunca ninguém na família tocou ou que o André já ergue o pescoço ou palra como gente grande.

Sei que é tarde e que não me lembro de ter desejado seja o que for para doismilesete enquanto comia as passas. Sei que em doismileseis fui feliz. Desejo que em doismilesete sejas feliz. Sim, tu.

11.1.07

Frase do dia

"Ouvi dizer que és gay, mas

CAGAY!"

[nota pessoal nº 1] Concertos de 2006 (editado a negrito)

Para reflexão e escolha do meu top5:

Kings of Convenience, Aula Magna, 29.04.06

Roger Waters (+ Carlos Santana (oh nausea oh nausea here i come) + Rui Veloso), Rock in Rio, 02.06.06

Stuart Staples, Santiago Alquimista, 03.06.06

Franz Ferdinand + dEUS + Editors (+ The Cult) + Legendary Tiger Man, SBSR, 07.06.06

Josh Rouse, Aula Magna, 23.06.06

Buraka Som Sistema, Clube Mercado, 23.06.06 (não me enganei, foi no mesmo dia)

Cesária Évora, Torre de Belém, 18.07.06

Bonga + Cheikh Lô (o Kenny G das camisas foleiras ou assim :D), África Festival, Torre de Belém, 06.07.06


Belle and Sebastian, Coliseu dos Recreios, 17.06.06

The Strokes + Isobel Campbell + Howe Gelb + Los Hermanos (+ She wants revenge (SWR=vómitos) + Dirty Pretty Things - idem), Lisboa Soundz, 22.07.06

Gaiteiros de Lisboa+ Rabih- Abou Khalil & Joachim Kuhn + Toumani Diabaté & Symmetric Orchestra + Alamaailman Vasarat, FMM Sines, 27.06.06

Buraka Som Sistema (+ dj set Diplo), Lux, 14.09.06

Tchakaré Kanyembe + Cacique' 97, Clube Mercado, 22.09.06

Rocky Marsiano e as suas Pyramid Sessions, Gulbenkian, 23.09.06

Liars, Clube Lua, 26.09.06

Sir Richard Bishop + Mestre Galissá, ZDB, 04.10.06

Nuno Prata, FNAC Colombo, 07.10.06

Comets on Fire + Caveira, ZDB, 13.10.06

Lula Pena, ZDB, 14.10.06

Final Fantasy, Clube Lua, 15.10.06

Azevedo Silva, FNAC Colombo, 18.10.2006 (e o meu nome na Agenda FNAC por ter escrito um texto que não aparece por lá, é classe!)

Bonde do Rolé + Buraka Som Sistema (SEM PETTY!!!), Clube Mercado, 21.10.06

Carlos Bica & Azul, FNAC Chiado, 23.10.06 (a P Beat neste concerto!)

An Pierlé & White Velvet (meu rico dinheirinho, sinceramente...)+ Wraygunn, Santiago Alquimista, 03.11.06

Chico Buarque, Coliseu dos Recreios, 06.11.06

Jahcoozi + Kalaf & Lil' John, 25.11.06

Spanky Wilson & Quantic Soul Orchestra, Casino de Lisboa, 27.11.12

Who Made Who, Clube Mercado, 30.11.06

Lisa Germano, Santiago Alquimista, 2.12.2006

Yo La Tengo, Aula Magna, 03.12.06

Cat Power, Aula Magna, 04.12.06

TY + Steinski (+ Daz i kue), Roots & Routes, 08.12.06

Kode9 & The Spaceape + Boxcutter + Mwëslee (+ seenistra meets salivah), Roots & Routes, 09.12.06

Koop, Casino Lisboa, 11.12.06


Mesmo assim consegui perder muita coisa que gostava de ver/ ter visto - alguns deles tornam-se projectos adiados para 2007:

Kanye West, Oeiras (&%$#$%&%#)
Cool Hipnoise (tanto no Casino como no Maxime em Junho)
Deerhoof, Lux
ESG, Lux
DJ Shadow, Lux
Tony Allen + Sean Kuti ( e demais cambada) nos restantes dias do FMM em Sines
Tora Tora Big Band, algures em Lisboa nalguma das datas (perdi todas!)
Antibalas Afrobeat Orchestra, Castelo de Montemor-o-Velho
Morrissey + Broken Social Scene + !!! + Bloc Party ( e mais coisas que agora não me ocorrem), Paredes de Coura
Cibelle + Seu Jorge, Festival Sudoeste
Fennezs, Cinema S. Jorge
Lambchop, Aula Magna (esta é bem estúpida, não vou - é amanhã - porque o meu MB desmagnetizou)
Vicious 5, algures no país ou mesmo na Europa
Red Bull Popular Soundclash nos Santos - este ano com os Buraka (para o ano os Santos serão na Bica e não em Alfama)
Old Jerusalem, ZDB
Sparklehorse, Festival para Gente Sentada
Camera Obscura, TAGV Coimbra
erro!
Dazkarieh
Garoto

Para quem vai ficar em Lisboa, é ter em atenção a agenda da novíssima Music Box (apostada em ser um novo centro de novidades musicais da capital) e que em Dezembro, depois de ter acolhido o Roots & Routes, vai receber Questlove (dos The Roots), Sagas e Twism, Bunnyranch e mais umas coisas que podem conferir aqui.
O Clube Mercado tem uma noite dia 21 de Dezembro com Buraka Som Sistema + Petty que eu não perderia só para poder recordar dos meus melhores momentos de 2006. Outras coisas também a ouvir e ver, como Vicious 5 (yup, não vou vê-los de novo), no blogue do Mercado.

Por falar em dia 21 de Dezembro, ficam todos convidados para a noite The Kids are United no LEFT - da responsabilidade do JG, do Dário e do Gonçalo Sciencia. Ao que parece também não devem perder os Bailarico Sofisticado (que passam discos no Lounge dia 22) e no Left na passagem de ano (fica feita a publicidade, Bruno!).

Espero que tenham gostado deste momento agenda na imprensa especializada tanto quanto eu. Às vezes dá-me para isto. Se a minha mãe ler este post, perguntar-me-á "mas não tens mais nada p'ra fazer?", ao que eu, calmamente, lhe responderei "não, mamã, por acaso até não tenho". E como não tenho, enfim. Vocês leram.

A secção "Falta ver" desapareceu porque já chegamos a 2007.

7.1.07

Enough is enough

Há uma ténue linha que separa a cegueira da persverança. Quando finalmente dói, foi ultrapassada. Na cegueira não há dignidade nem clareza. Não há dignidade.

Há uma sucessão de acontecimentos e há uma pessoa no meio de tudo isto. Como que impávida e serena. Como se isso fosse possível. Alguém que perde tudo o que importa e, no entanto, está bem.

Quando se perde alguém - e não estou a falar de uma criança se desencontrar da mãe no supermercado, há uma boa parte de nós que se vai ou esvai. Não há serenidade: há, sim, a necessidade de tentar mais uma vez. E outra. E ainda mais uma. As prioridades são redefinidas constantemente, mutação óbvia de cometas e estrelas que não se auto-limita. Por isso, perde-se parte de nós e, como se isso não bastasse, todos os outros detalhes quotidianos, parte de rotinas estudadas ao longo de anos e testadas até atingir a perfeição, simplesmente acabam. É quando tudo isto acaba que chega a incapacidade de ver. De olhar para além de.

Um dia, deitamo-nos. Já sabemos há muito tempo que é um mito aquilo de as lágrimas secarem - quando há vontade de chorar, há lágrimas, ponto final. E aquele dia é mais um igual a tantos outros, depois de mil sorrisos e ainda mais gargalhadas, sentes-te cansado e choras. Não estás cansado porque o dia foi duro no trabalho ou porque estiveste a correr durante duas horas, não. Choras porque estás saturado. Deitas-te.
Em teu redor um túmulo, estás decidido a finalmente morrer mas não estás morto. Naquele caixão cabe a tua vida até então, olhas em redor e vês os teus amigos, um por um, e os teus familiares, todos te acenam e sorriem. Cabem as frases que disseste e as respostas que ouviste. Há espaço para os livros que leste e as músicas que ouviste. Restam cantinhos que preenches com sabores, com imagens, com sorrisos e beijos.

Mas há uma frase que subitamente retumba nas paredes frias do teu túmulo. Uma frase estúpida a que nunca deras importância alguma, mas que hoje, ao repeti-la enquanto vagueia pelo teu túmulo, airosa, soa-te diferente no seu significado.

Tu que estavas deitado sob a terra, tu que tinhas perdido toda a dignidade que almejaras e atingiras, tu que passavas em revista os teus anos para poderes descansar de olhos fechados. E desistir deixa imediatamente de fazer sentido, porque aquela frase dirige-te algures por entre a compreensão e o entendimento. É uma frase crua e sobretudo cruel, que te fere como punhais, que é afiada e cortante como se fosse filha de uma fieira de dentes de tubarão. E ao memso tempo, espicaça-te e sentes-te outro.

Olhas à volta e vês o teu túmulo - e pensar que tu pegaras na pá há um ano e começaras a cavá-lo sozinho- e isso faz-te ter vontade de escapar, qual The Bride no Kill Bill, daquela horrível caixa que te encerra, a ti e aos teus sonhos. E escapas.

"Já chega, pensas, enough is enough."

4.1.07

The sweetest little song

You go your way.
I'll go your way too.

Leonard Cohen