12.1.07

Doismileseis

Sou uma pessoa medíocre. Não sei muito sobre arte nenhuma (espero que a medicina seja excepção, mas neste caso estou a falar de cinema, literatura, música, pintura e coisas assim). Se me pedissem para escrever um texto sobre o que quer que fosse, escrevia, no máximo, umas duas ou três linhas. Vivo dos meus cinco sentidos e de uma inteligência que se vai revelando a cada dia em pequenas coisas e que convive e coabita no mesmo ser (eu, claro, who else?) com uma parvoíce sem limites - que é o lado meu que as pessoas mais conhecem.

Dois mil e seis acabou. Gosto de escrever o ano assim, por extenso. E ainda mais se o escrever tudo pegado. Assim, vejam: doismileseis. A relatividade do tempo continua a assustar-me. Talvez me assuste cada vez mais. Ainda ontem era 2002 e eu estava a vir para Lisboa, onde tudo me parecia frio, cruel, distante, impessoal. Agora não sei se quero regressar à Madeira tão cedo. Doismileseis trouxe-me esse dilema: o regresso a casa ou a adopção de um novo lar? Lisboa é o meu lar (estupidamente cito a Fiona Apple que diz "home is where my habits have an habitat" ou o Common que canta "home is where the hatred is/ home is filled with pain" e concordo em absoluto com a primeira e com o segundo às vezes). Nesta cidade enorme (enorme em dimensões e enorme em beleza), ganhei o meu espaço. Fiz amigos, atei laços que espero nunca vir a desatar. Mas sobretudo encontrei a Joana que eu sempre quis ser e de quem sempre estive aquém (obra inacabada, óbvio). Concertos, exposições, horas dentro de livrarias e lojas de discos, horas fora de casa de olhar indefinido enquanto pombas pousam para comer migalhas do meu prato. Horas sentada no Castelo, sozinha, exactamente no sítio onde disse ao Pedro, há quase dois anos "Pedro, quero acabar.", com toda a cidade a entrar dentro de mim. Recupero todo esse trajecto com o meu carro, amigo de todas as horas. Adoro o meu carro, sabiam? Desço do castelo até à rua do Santiago Alquimista, que julgo se chamar Rua de Santiago, entro no carro e vou ouvindo rádio.

"Pe-dro-que-ro-a-ca-bar." são apenas sete sílabas, o que dá o quê? uns sete segundos. Sete segundos que me marcarão para a vida inteira. Faz dois anos em Março deste ano; entretanto o Pedro é o meu melhor amigo. Doismilecinco foi o pior ano de sempre. Lembro-me de o ano ter mudado nas luzinhas da montanha, de 2005 para 2006, e de eu ter pensado "Foda-se, finalmente!" e de ter desatado a chorar. Quatro anos é muito tempo. É tempo a mais para acabar em sete segundos.

Em doismileseis, logo ali no início, portanto há um ano, habituei-me a estar sozinha. Até porque a minha noção de sozinha mudou radicalmente: o contacto com velhas amizades voltou. O nome Joana Martins vem-me assim à cabeça, logo. Que saudades que eu tinha de estar assim com esta rapariga. Não sei se ela sabe, mas vai já passar a saber: é a minha confidente de todas as horas, de todos os segredos. Mesmo aqueles planos mais inconfessáveis são-lhe confessados. (As outras amigas que não me levem a mal, mas esta rapariga é minha irmã sem termos nenhum pai ou mãe em comum.) Está um frio do caraças e tenho os dedos gelados e só me apetece dizer-te, Joana, que quando sorris iluminas o céu pararapapa. PlantLife, babe. E bater-te aí à porta e ouvirmos o Baduizm, talvez dos melhores álbuns de sempre. E a culpa é tua, nem é da Erykah. E conversarmos com palavras e entendermo-nos porque os nossos ouvidos ouvem para além daquilo que dizemos.

Cheguei a ir ao cinema sozinha. Almocei sozinha num centro comercial, coisa que sempre achei do mais deprimente que há - e ainda o é, não é por tê-lo feito que deixou de o ser. Mas também tive muito tempo para mim, por isso doismileseis foi também o ano em que ouvi mais música. Tanta música, credo. Há cada vez menos coisas que me causem a excitação que é ouvir um álbum pela primeira vez. E os concertos, pouco mais de meia centena de concertos, amoresnovo, conslidados ou reforçados por ouvir as canções ao vivo. O que me lembra outra coisa.

Em doismileseis, troquei mais de 200 mensagens escritas com uma pessoa. Antes e durante esse período, as conversas pelo messenger, guardadas pelo histórico que foi, entretanto, desactivado, foram tantas que ocuparam quase 9 megas do meu disco - sem contar com um m~es de conversas não gravadas. Tudo com essa pessoa - do sexo masculino, como já se deve ter notado- foi especial, conhecer do nada foi especial, aproximar-se foi especial, conhecer melhor foi especial, passarmos muito tempo juntos foi especial. E importante. E intenso. Tudo aquilo que partilhámos foi consumido e foi vivido. Às vezes dá-me a sensação absurda de ter sido feliz sem mais nada durante algum tempo, por causa dele. Vimos por duas vezes o sol nascer atrás de um Hospital - provavelmente a coisa mais romântica do mundo- e, dessas duas vezes, por muitas horas que tenhamos conversado, parecia-me sempre que tanto ainda havia por dizer (ex aequo com ver os peixinhos de uma avenida da liberdade deserta às cinco da manhã e olhar-me nos olhos e o mundo parar, o tempo parar, haver silêncio à nossa volta e uma cena que durou no máximo uns segundos, parecer ter durado dias). Outra vez empurrámos o carro dele rua abaixo e essa foi provavelmente a terceira coisa mais romântica do mundo, sendo que a segunda é ir ver skaters ao skatepark, quase debaixo da Ponte Vasco da Gama. E a quarta é, suponho eu, andar de carro quando a cidade já dorme, numa segunda feira de madrugada. E podia dizer a quinta, porque à medida que vou escrevendo, vou-me lembrando de mais coisas, mas não vou fazê-lo. Mais uma vez, as coisas acabam e eu agora com a frieza de quem passou um mau bocado mas também já pode efectivamente usar o pretérito perfeito quanto a isso, vejo que sou uma menina de castelos no ar, que vou construindo e albaroando à medida que os dias passam. Aprendi uma coisa importante, e aprender aqui não é o melhor termo, reformulando: apercebi-me de uma coisa importante. Vale sempre a pena. S E M P R E. Faz parte da vida, é viver. E há sempre tantas coisas boas que ficam, por exemplo a recordação do Portugal- Holanda, de como Portugal estava a jogar para ganhar e de como eu segui o exemplo da nossa selecção e apostei num 1-0 a seguir ao jogo ter acabado. As recordações são infinitas, o prazer é infinito. A alegria de saber que não só me fizeram feliz mas também eu fiz outro alguém feliz (grande presunção a minha) é infinita. Ainda nem voltei a ler isto e já me lembrei da quinta coisa mais romântica de sempre: enviar mensagens quando já passou - e muito - da hora de dormir e ir acordando para ler a mensagem e responder. Ouvir Cibelle. A translação da Terra em volta do Sol descontinuada pelo brilho no olhar. Pelo sorriso. E agora, depois da turbulência, a paz. A tranquilidade.

Doismileseis trouxe-me o André e eu não consigo expressar por palavras o quanto gosto do meu irmão mais novo, o que nos leva de volta à primeira frase deste post e ao facto de eu ser medíocre. Tento todos os dias ser menos medíocre por causa dos meus irmãos. É por eles que todos os dias me levanto da cama e vou ao Hospital, mesmo quando a paciência para o fazer é, tipo, nula. Sei que sou um exemplo para a Frederica. Eu não gostava de ter maus exemplos para mim por isso dou mais de mim para nunca ser medíocre aos olhos dela. E sei que com o André a relação vai ser diferente, mas que sempre sempre nos unirá este amor despretensioso que é o amor por um irmão. Não sei explicar como me sinto por saber que a Frederica já conhece o Fernando Pessoa e toca guitarra como nunca ninguém na família tocou ou que o André já ergue o pescoço ou palra como gente grande.

Sei que é tarde e que não me lembro de ter desejado seja o que for para doismilesete enquanto comia as passas. Sei que em doismileseis fui feliz. Desejo que em doismilesete sejas feliz. Sim, tu.

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