26.2.09

Recordação #1: Crime Passional.

Agarrei numa faca e matei-o. Em linhas gerais foi o que aconteceu. Uma faca daquelas que cortam carne assada e rosbife em fatias muito finas. Às fatias podia ter ficado ele, se me apetecesse. Foi a única vez na nossa relação que achei que era eu que tinha o controlo de tudo, a vida dele nas minhas mãos, o sangue dele entre os meus dedos.

Abri a porta e matei-o, sim. Mas não contes a ninguém. Qualquer dia descobrem-no morto, deitado naquela cama onde nunca me deitei, onde sempre se deitou a outra. E vão arranjar suspeitos, vais ver. Nunca vão descobrir que fui eu. A sério.

Usei luvas. Parecia profissional. Abri a porta e matei-o. Com uma faca, já disse que foi com uma faca? Daquelas de cortar rosbife…
E a faca nem era minha, era dele, estava lá na cozinha pronta para cortar a carne para o jantar dele. Se calhar ele ia jantar com a outra. A outra ia jantar a casa dele como tantas vezes acontece.

Sabes que a cozinha fica longe do quarto? Na casa onde ele morou sozinho, o corredor maior separa a cozinha do quarto. Foi esse corredor que eu atravessei, com a faca na mão, em passos pequenos, respirando fundo. Mas não penses que estava nervosa. Não. Estava decidida.
Bati duas vezes – duas? Ou foram três? Já não me lembro e não importa. Bati na porta do quarto e ele estava de toalha enrolada na cintura, sentado na cama, a se olhar ao espelho. Já te tinha dito que ele ia tomar banho quando eu cheguei lá ao apartamento? E ele disse “Vou tomar banho, esperas por mim na sala que a gente já fala.” Foi esta a frase, sem mais nem menos. O que ele me ia dizer, eu não sei. Fui eu que lhe liguei para estar com ele. Sou sempre eu que lhe ligo. Ou ligava. Deu-me agora para pensar se ele estará mesmo morto. Bem, deve estar.

De qualquer maneira, onde é que eu ia? Pois, ele estava sentado na cama a se olhar ao espelho. Sabias que ele era narcisista? Eu não imaginava. Tanta coisa que soube dele e só soube essa no dia da morte dele. A maneira como ele se olhava ao espelho dizia tudo. Bom, eu abri a porta e ele estranhou a minha presença. Notei isso no seu olhar, como se pressentisse alguma coisa. Talvez a sombra da Morte sobre ele, a nuvem do eterno desaparecimento. A faca ia atrás de mim, entre as minhas duas mãos enluvadas. Luvas quentes para um dia de Verão como este, de sol tórrido. Eu preferia ter feito isto num dia de chuva, de relâmpagos, trovões, mas tinha que ser feito hoje. Os carros na rua, as britadeiras da obra não deixaram ouvir o primeiro grito de dor.

Ele gritou de dor nas primeiras três facadas. Depois começou a sangrar e desmaiou quando viu o sangue. Outra coisa que eu não sabia sobre ele. Faz-lhe impressão o sangue. Fazia-lhe. As primeiras três facadas foram no abdómen, do lado esquerdo, devo ter atingido o baço, o estômago. O baço sangra imenso quando é traumatizado porque está cheio de sangue lá dentro. As outras duas facadas também foram no abdómen mas mais abaixo e do lado direito. Entre as primeiras três facadas e as últimas duas eu acordei-o do desmaio. Dei-lhe umas bofetadas na cara, chamei-lhe pelo nome e ele viu-me. Tentou falar, agarrar-me, sabes? A típica cena de filme, arrependimento, dúvida. Mas só na cabeça dele. Na minha só batia uma coisa: acabar o que tinha começado.”Porque é que estás a fazer isto?” E eu sem responder, a mandá-lo calar. E ele a agarrar-me. Estava tão lívido, coitadinho, já nem forças tinha para respirar, quanto mais para parar uma pessoa que faz exercício três vezes por semana – tenho ido ao ginásio nos últimos tempos, devias vir também que aquilo é tão relaxante.

A certa altura só vi sangue à minha volta, nos lençóis, a pingar para o chão, nas almofadas, na toalha, no meu cabelo. Quase que tinha um orgasmo. Foi sexual, eu por cima dele, em domínio, a agarrá-lo e ele com aqueles olhos tristes, a olhar-me, a boca a querer mexer e a não poder, e eu a beijá-lo pela última vez, e ele a esbracejar, a espernear, a língua a querer articular mais uma palavra e a não poder. Pus a cabeça dele no meu colo, numa atitude pós-coito, ele cada vez mais calmo, mais em paz. E eu disse:”Morre, meu amor. Não lutes mais e deixa-te ir. Meu amor.” Ele começou a tossir, tossia, tossia. E eu sempre “Deixa-te ir, amor. Deixa-te ir.” Antes de ele tossir pela última vez olhou para mim e puxou-me pela mão que lhe acariciava os cabelos. E então tossiu pela última vez e eu soube que estava feito.

Já escolheste? A mim não me apetece carne, vou comer peixe assado. Já podes chamar o empregado. Bebemos vinho?

Olha, eu sei que não foi uma morte bonita, mas também há mortes piores. E tu sabes que eu fiz isto por mim. Por ele também. Este amor estava a levar-me à loucura. E foi o momento em que mais próxima me senti dele, um instante visceral. Se ele não morresse, e pára de olhar para mim com essa cara, eu ia enlouquecer apaixonada por ele e ele sem me dar bola, sempre com a outra. Porque ele fingia que gostava dela mas gostava de mim. E eu se o visse, eu se o visse, eu sempre que o via, apaixonava-me de novo. Se eu o visse para sempre, ficava para sempre apaixonada porque gostava demais dele, demais. Demais. Sentia-o junto a mim. E a sua presença estava por todo o lado, pela minha casa, pela minha cama, pela minha música, pelos meus livros, pelos meus perfumes. Eu gostava demais dele e isso tinha que acabar.

E chama o empregado se fazes favor que estou cheia de fome.

Publicado a 27 de Julho de 2004, inspirado numa letra do Adolfo Luxúria Canibal.

3 comments:

m.b.m said...

És fenomenal!

Joanie Bats said...

A menina Matilde incorre de uma coima por abuso de figura de estilo. Muito obrigada, corei :x :** (ainda assim, hoje mudaria coisas no texto, e já quase não me reconheço no ritmo do texto, mas a ideia é mesmo reler e não reescrever) *

Joanie Bats said...

Como se eu tivesse mesmo ideias. :D