Não te consigo tirar da cabeça.
Não digas isso.
Mas não consigo, o que é que queres que faça?
Não digas isso, Joana.
Porquê?
Pára com isso.
Pára de me dar ordens.
Não o estou a fazer.
Tens saudades minhas?
O que é que achas?
Sei lá, se soubesse não te perguntava.
Pára com isso.
‘Tás-me a dar ordens outra vez.
…
Hoje estás impossível.
‘Tou nada.
Tens vontade de estar comigo?
Tenho vontade de apanhar um avião e ir a Lisboa, se é isso que queres saber.
É mais ou menos isso que quero saber, sim.
Só não sei fazer o quê.
Não?
Não, mas tu deves saber. Sabes sempre tudo.
Mas desta vez não sei. Estar comigo, suponho.
Depois apanho outro avião e voltamos a estar longe.
Não que estejas apaixonado.
O teu ouvido está melhor?
Está. Não mudes de assunto.
O que é que estar apaixonado tem a ver com isso?
Tem a ver que só custa estar longe da pessoa por quem se está apaixonado.
Não é bem assim.
Vês, não estás apaixonado.
E tu, estás?
Estamos a falar de ti.
Eu sei.
E então?
Então que gosto muito da Joana que está na Madeira.
Que Joana é essa?
És tu.
Mas eu não estou na Madeira.
Pois não.
Portanto não gostas desta Joana que está a falar contigo ao telefone.
Não, dessa Joana tenho saudades.
Hoje estás impossível.
E tu repetitiva.
Não te consigo tirar da cabeça.
Nem eu.
1.2.06
19.1.06
"If I could have a second skin, I'd probably dress up in you"
Dress up in you
"I always loved you
You always had a lot of style
I'd hate to see you on the pile
Of ‘nearly-made-it' s.
You've got the essence, dear
If I could have a second skin
I'd probably dress up in you."
Belle and Sebastian
"I always loved you
You always had a lot of style
I'd hate to see you on the pile
Of ‘nearly-made-it' s.
You've got the essence, dear
If I could have a second skin
I'd probably dress up in you."
Belle and Sebastian
18.1.06
De battre mon coeur est s'arrêté
Queria saber se um dia os cinco dedos da minha mão esquerda, num passeio onde quiseres, se entrelaçarão com os cinco dedos da tua mão direita num nó cego irreversível. Escrevo de madrugada porque sei que esta resposta não a traz nem o vento nem a lua nem a aurora, escrevo agora porque tenho esperança de te encontrar nos meus sonhos.
Parce q'un jour tu m'as dit que tu n'aime pas personne et aprés ça j'ai devenue pensative et triste.
Gosto de ti com receios porque a vida foi calcando calçadas e pátios de dor e uma vez li numa crítica musical que é o amor que traz ao mundo as angústias e os medos mas também as reflexões e as progressões, era um filósofo esse crítico musical, e eu pensei em ti quando li isso porque também li um dia que le peur de n'être pas correspondu pendant l'amour peut léser l' authenticité de cette sentiment. E eu volto a contar o número de vezes que o meu coração bateu desde que chegaste (incontáveis) e de vezes que me disseste não (que ainda nem enchem os dedos de uma mão) e quando eu não te conhecia e era um feijão de gente dizia que muitas vezes era só quando os dedinhos do corpo já não chegavam, por isso, como uso apenas o polegar, o indicador e o médio, depreendo que nos falta tanto para decidirmos o que fazer com este olhar que procura o olhar do outro. E hoje os teus olhos estavam extraordinariamente claros, pude ver o mar, o céu e um bocadinho do universo, nonobstant tout qu'on a passé j'ai envie de t'enlacer et de lire ton âme.
O francês é a língua mais romântica de todas, é cantada mas não chorada, é suspirada mas não soprada e eu encho-me de coragem para escrever coisas bonitas em francês para tas dizer ao ouvido, mas a professora teima que ainda não nos ensinou o passé composé nem o futur e por isso só podemos usar o présent de l'indicatif nas nossas redacções, mas eu teimo com ela e escrevo as nossas linhas tangentes no francês que posso e tento ser romântica e usar palavras profundas, mas tu olhas-me nos olhos e só me apetece dizer-te, como no filme,
de battre mon coeur est s'arrêté.
E estragar tudo e acrescentar pour toi.
Parce q'un jour tu m'as dit que tu n'aime pas personne et aprés ça j'ai devenue pensative et triste.
Gosto de ti com receios porque a vida foi calcando calçadas e pátios de dor e uma vez li numa crítica musical que é o amor que traz ao mundo as angústias e os medos mas também as reflexões e as progressões, era um filósofo esse crítico musical, e eu pensei em ti quando li isso porque também li um dia que le peur de n'être pas correspondu pendant l'amour peut léser l' authenticité de cette sentiment. E eu volto a contar o número de vezes que o meu coração bateu desde que chegaste (incontáveis) e de vezes que me disseste não (que ainda nem enchem os dedos de uma mão) e quando eu não te conhecia e era um feijão de gente dizia que muitas vezes era só quando os dedinhos do corpo já não chegavam, por isso, como uso apenas o polegar, o indicador e o médio, depreendo que nos falta tanto para decidirmos o que fazer com este olhar que procura o olhar do outro. E hoje os teus olhos estavam extraordinariamente claros, pude ver o mar, o céu e um bocadinho do universo, nonobstant tout qu'on a passé j'ai envie de t'enlacer et de lire ton âme.
O francês é a língua mais romântica de todas, é cantada mas não chorada, é suspirada mas não soprada e eu encho-me de coragem para escrever coisas bonitas em francês para tas dizer ao ouvido, mas a professora teima que ainda não nos ensinou o passé composé nem o futur e por isso só podemos usar o présent de l'indicatif nas nossas redacções, mas eu teimo com ela e escrevo as nossas linhas tangentes no francês que posso e tento ser romântica e usar palavras profundas, mas tu olhas-me nos olhos e só me apetece dizer-te, como no filme,
de battre mon coeur est s'arrêté.
E estragar tudo e acrescentar pour toi.
16.1.06
Sapatos vermelhos
Ao fim da tarde corria pelo prédio o aroma da chegada dos vizinhos a casa, ouviam-se chaves nas fechaduras, bater das portas, panelas e tachos na lufa-lufa do jantar, a água dos banhos das crianças corria pelos canos e de repente todo o prédio ganhava vida, os passos humanos para cá e para lá aquecendo cada andar.
Era aí que ela tirava os sapatos vermelhos, de baile,e os calçava, punha a tocar o seu bolero preferido de maneira a que todo o prédio parasse para ouvi-la e rodopiava, só, pela sala, pequenos passos para diante, outros em redor de si mesma, passos para trás e para ao lado em movimentos delicados.
Quando a música acabava, ela, exausta, tirava o disco da grafonola e guardava-o na estante; quanto aos sapatos, esses, desde que os comprara que os sentia apertados, por isso escorregavam para o armário aos últimos acordes, os pés doridos deslizavam lentamente pelo soalho até à cama onde se enroscava até ao dia seguinte.
Era aí que ela tirava os sapatos vermelhos, de baile,e os calçava, punha a tocar o seu bolero preferido de maneira a que todo o prédio parasse para ouvi-la e rodopiava, só, pela sala, pequenos passos para diante, outros em redor de si mesma, passos para trás e para ao lado em movimentos delicados.
Quando a música acabava, ela, exausta, tirava o disco da grafonola e guardava-o na estante; quanto aos sapatos, esses, desde que os comprara que os sentia apertados, por isso escorregavam para o armário aos últimos acordes, os pés doridos deslizavam lentamente pelo soalho até à cama onde se enroscava até ao dia seguinte.
"Quero é viver"
Enquanto a vontade de viver não vinha, entretinha-se a alinhar sobre a cómoda junto à cama:
- Valium e uma garrafa de vodka;
- uma corda de três metros;
- uma 0,5 carregada;
- umas sapatilhas para subir ao telhado.
Esperava pacientemente que uma razão de viver a encontrasse ali quando a única coisa que ela sempre procurara fôra uma razão para morrer.
- Valium e uma garrafa de vodka;
- uma corda de três metros;
- uma 0,5 carregada;
- umas sapatilhas para subir ao telhado.
Esperava pacientemente que uma razão de viver a encontrasse ali quando a única coisa que ela sempre procurara fôra uma razão para morrer.
12.1.06
Pequenina
Se algum dia descobrirmos que nada disto foi mais que uma passagem do tempo e que isto que vivemos foi tão ou mais irreal do que o que sentimos, espero por ti na ponte sobre o rio para as despedidas. Sei que direi coisas sem sentido, que vou provavelmente chorar e achar que não.
Tudo isto vai ter valido a pena se nesse dia me deres um abraço apertado, daqueles que duram horas que são segundos, e me prometeres que nunca hás-de desaparecer da minha vida.
Daqui à água é um salto grande e a água está fria, gelada. E as trutas vão desovar à nascente mas talvez aqui já nem haja trutas porque o rio está imundo e imunda está também a minha alma enquanto te vê partir, estás de costas para mim e eu fico cada vez mais pequenina
mais pequenina
mais pequenina
mais pequenina
até me tornar um pequeno ponto mais pequeno que o grão de areia que me ofereceste quando fomos à praia ver o mar.
Tudo isto vai ter valido a pena se nesse dia me deres um abraço apertado, daqueles que duram horas que são segundos, e me prometeres que nunca hás-de desaparecer da minha vida.
Daqui à água é um salto grande e a água está fria, gelada. E as trutas vão desovar à nascente mas talvez aqui já nem haja trutas porque o rio está imundo e imunda está também a minha alma enquanto te vê partir, estás de costas para mim e eu fico cada vez mais pequenina
mais pequenina
mais pequenina
mais pequenina
até me tornar um pequeno ponto mais pequeno que o grão de areia que me ofereceste quando fomos à praia ver o mar.
Inquietação
A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes
São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está p'ra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Ensinas-me a fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas
Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
P'ra ficar pelo caminho
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está p'ra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda.
José Mário Branco
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes
São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está p'ra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Ensinas-me a fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas
Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
P'ra ficar pelo caminho
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está p'ra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda.
José Mário Branco
10.1.06
*inserir aquele smiley vermelhinho com corações*
Fazes-me pensar em nuvens e em pássaros e em coisas esquisitas. E de repente, pois, agora mesmo, não tem coisa de cinco minutos, comecei a falar como tu, ou pelo menos como imagino que falas.
Desde que te conheci (conheço?) não ando, levito a milímetros do chão. E não tiro da cara este sorriso estúpido, mesmo quando disse ao arrumador de carros "Irra que é chato como a putaça", coisa que aliás eu nunca antes tinha dito na minha vida, eu também tinha este sorriso, que teima em ficar aqui e vai ficando. E a culpa é dele se eu for pensando em ti e sorrindo cada vez mais.
Mas tu levas-me para lugares bonitos com as tuas palavras e as coisas que me dizes sem palavras e sem gestos ou olhares, só com smileys e sinais de pontuação.
É, o pior que pode acontecer é isto mesmo. E isto já é tão bom.
Desde que te conheci (conheço?) não ando, levito a milímetros do chão. E não tiro da cara este sorriso estúpido, mesmo quando disse ao arrumador de carros "Irra que é chato como a putaça", coisa que aliás eu nunca antes tinha dito na minha vida, eu também tinha este sorriso, que teima em ficar aqui e vai ficando. E a culpa é dele se eu for pensando em ti e sorrindo cada vez mais.
Mas tu levas-me para lugares bonitos com as tuas palavras e as coisas que me dizes sem palavras e sem gestos ou olhares, só com smileys e sinais de pontuação.
É, o pior que pode acontecer é isto mesmo. E isto já é tão bom.
5.1.06
Accionar modo medo
Identidade II
Porque a Cristina é (ainda) mais problemática e complicadinha (faz lembrar aquela música dos GNR, qualquer coisa tipo "Mas com uns pós modernos nada realizados sentimo-nos complicados") e como eu honestamente estou farta deste meu alter-ego intelectualóide e constantemente deprimido, decidi mudar o meu nome para um bem mais próximo ao meu, uma vez que no dia 31 de Dezembro de 2005 nasceu uma nova pessoa.
Alguns amigos chamam-me Jonie, outros Bats (diminutivos dos meus nomes), qualquer um deles não fui eu que inventei. Mas identifico-me bastante.
Não sei se será bom para o blog mas a verdade é que a maioria das chatices de que a Cristina se queixava tende a desaparecer (a maior parte, levou-a o ano velho para, felizmente, bem longe).
A Jonie Bats é bem mais disposta, apesar de achar que há muita coisa no mundo que pode (e deve) de mudar. No mundo e nela própria.
Benvinda, Jonie Bats!
Alguns amigos chamam-me Jonie, outros Bats (diminutivos dos meus nomes), qualquer um deles não fui eu que inventei. Mas identifico-me bastante.
Não sei se será bom para o blog mas a verdade é que a maioria das chatices de que a Cristina se queixava tende a desaparecer (a maior parte, levou-a o ano velho para, felizmente, bem longe).
A Jonie Bats é bem mais disposta, apesar de achar que há muita coisa no mundo que pode (e deve) de mudar. No mundo e nela própria.
Benvinda, Jonie Bats!
2.1.06
Ano novo, vida nova
Porque 2005 foi um ano muito enjeitadinho em termos de felicidade, deixei-me de new year's resolutions por agora e vou-me dedicar a encontrar defeitos no ano que passou... Ao melhor estilo "passas das 12 badaladas":
- De repente fiquei mais só
- porque namorava há 4 anos mas já não deu mais.
- A verdade é que não me consigo afastar
- porque afinal preciso sempre de ter alguém
- e as one night stands em que me tenho envolvido
- não dão calor nem carinho
- quando me apetece apenas beber um chocolate quente
- e enroscar-me num sofá a ver um filme.
- Distanciei-me de uma grande amiga
- porque ela achou que eu queria enroscar-me no namorado dela.
- Roubaram-me o que tinha de valor no Sudoeste apesar de até ter sido divertido.
- Estou mais vazia.
Foram boas razões para me despedir com alegria do velho ano, como dizia a minha professora primária e dizer
OLÁ 2006!!! aos gritos de forma extravagante pelas ruas do Funchal.
Feliz ano novo para todos os que se lembram de passar por aqui.
17.12.05
Há Sempre Alguém
A chuva varre as janelas do teu apartamento.
A minha bagagem repousa ao abrigo do vento
E eu nem preciso de olhar para ti
Para saber o que esperas de mim.
Tu queres-me fazer cumprir
Coisas que eu não prometi.
Tu também sentes na pele o sopro da mudança,
Mas ficas sentada na sala à espera da esperança.
Aprendemos juntos a enfrentar o frio,
Embarcámos juntos no mesmo avião
E agora tu queres parar...Dormir na margem do rio.
Mas, basta-me saber que há sempre alguém a lutar contra a corrente
Para me apetecer saltar,
Ir nadar ao lado dele,
Derretendo com o olhar
Todos os muros de gelo
E não consigo descansar
Enquanto não alcanço uma nova nascente.
Dizes que não suportas ver-te sózinha ao relento
Mas tudo o que fazes é soltar o teu longo lamento
E eu vou para o meio da multidão,
Não levo a virtude nem a salvação,
Mas levo o meu calor
E uma guitarra na mão
E basta-me saber que há sempre alguém a lutar contra a corrente
Para me apetecer saltar,
Ir nadar ao lado dele,
Derretendo com o olhar
Todos os muros de gelo
E não consigo descansar
Enquanto não alcanço uma nova nascente.
E quando te voltar a apetecer seguir em frente,
Se me quiseres acompanhar,
Canta uma canção de amor,
Pinta os olhos cor de mar...
Põe no teu peito uma flor,
Traz um amigo qualquer
E vamos juntos abraçar o sol nascente.
Jorge Palma
A minha bagagem repousa ao abrigo do vento
E eu nem preciso de olhar para ti
Para saber o que esperas de mim.
Tu queres-me fazer cumprir
Coisas que eu não prometi.
Tu também sentes na pele o sopro da mudança,
Mas ficas sentada na sala à espera da esperança.
Aprendemos juntos a enfrentar o frio,
Embarcámos juntos no mesmo avião
E agora tu queres parar...Dormir na margem do rio.
Mas, basta-me saber que há sempre alguém a lutar contra a corrente
Para me apetecer saltar,
Ir nadar ao lado dele,
Derretendo com o olhar
Todos os muros de gelo
E não consigo descansar
Enquanto não alcanço uma nova nascente.
Dizes que não suportas ver-te sózinha ao relento
Mas tudo o que fazes é soltar o teu longo lamento
E eu vou para o meio da multidão,
Não levo a virtude nem a salvação,
Mas levo o meu calor
E uma guitarra na mão
E basta-me saber que há sempre alguém a lutar contra a corrente
Para me apetecer saltar,
Ir nadar ao lado dele,
Derretendo com o olhar
Todos os muros de gelo
E não consigo descansar
Enquanto não alcanço uma nova nascente.
E quando te voltar a apetecer seguir em frente,
Se me quiseres acompanhar,
Canta uma canção de amor,
Pinta os olhos cor de mar...
Põe no teu peito uma flor,
Traz um amigo qualquer
E vamos juntos abraçar o sol nascente.
Jorge Palma
8.12.05
Tempo vs Fado vs Fatalismo vs Livre Arbítrio
Tal como um vício do qual não se dissocia há muito tempo, também as imagens do que o que poderia ser não a abandonam, conduzindo-a entre as suas actividades diárias.
Às vezes vislumbra traços de felicidade.
Outras questiona-se.
A maior parte das vezes reconhece que, enquanto a vida não lhe estiver a escorrer entre os dedos, enquanto tiver a certeza que está a fazer tudo para viver, sem exigências, sem compromissos, sem mais, como disse Diderot, se o nosso destino está escrito lá em cima, então cá em baixo podemos decidir o que fazemos dele, somos juízes do curso das estrelas. Está saturada de discursos pessimistas fatalistas, de mãos a abanar "não havia mais nada que pudesse fazer" e um sorriso conformado, acompanhante obrigatório dos que desistem.
Aquela frase "O tempo é o nosso maior amigo", uma merda. Uma completa ilusão com a única finalidade de nos fazer perder cada vez mais tempo útil. O nosso maior inimigo, isso sim, e à medida que ele vai passando é que nos apercebemos disso. Não se deixem enganar. Existam. Sejam.
(A propósito, alguém quer ir ver O Fatalista de João Botelho?)
Às vezes vislumbra traços de felicidade.
Outras questiona-se.
A maior parte das vezes reconhece que, enquanto a vida não lhe estiver a escorrer entre os dedos, enquanto tiver a certeza que está a fazer tudo para viver, sem exigências, sem compromissos, sem mais, como disse Diderot, se o nosso destino está escrito lá em cima, então cá em baixo podemos decidir o que fazemos dele, somos juízes do curso das estrelas. Está saturada de discursos pessimistas fatalistas, de mãos a abanar "não havia mais nada que pudesse fazer" e um sorriso conformado, acompanhante obrigatório dos que desistem.
Aquela frase "O tempo é o nosso maior amigo", uma merda. Uma completa ilusão com a única finalidade de nos fazer perder cada vez mais tempo útil. O nosso maior inimigo, isso sim, e à medida que ele vai passando é que nos apercebemos disso. Não se deixem enganar. Existam. Sejam.
(A propósito, alguém quer ir ver O Fatalista de João Botelho?)
2.12.05
29.11.05
Fado
A porta foi fechada com estrondo, a madeira corcomida vibrou na pancada, o trinco acusou o passar do tempo e rangeu ao fechar. Mesmo na soleira da porta, encostado, estava um bêbedo, um homem nos seus setentas, bem-vestido apesar de sujo, que ainda que aparentemente inconsciente, resmungava "Viva a Junta geral!". Sacudiu-o com um pé "Vá para casa, senhor!" e ele virou-se para o outro lado e adormeceu profundamente.
Chovia.
Tirou o guarda-chuva da mala e abriu-o sobre a cabeça, mas uma rajada de vento virou-o ao contrário. "Merda." Deitou o guarda-chuva fora e foi assim, com um pequeno salto, que desceu para a rua, evitando o passeio por onde a água escorria como se tratasse de uma levada. Desceu a calçada em passos apressados, em certas pedras da estrada os sapatos não tinham aderência e escorregavam. Para chegar à igreja tinha ainda que subir uma calçada idêntica, mas agora as águas da bátega vinham estrada a baixo e não pôde evitar molhar os sapatos, os pés, a alma. "Merda."
Quando chegou, ela ainda não estava. As mãos tremiam, reconhecia a importância daquela conversa nesse dia, em que chovia, em que o bêbedo estava à porta da sua casa, em que ela perdera o eléctrico e teve que vir a pé. Afogueada, sem saber se do calor, se da ansiedade, encostou-se a uma parede abrigada de S. Pedro por um longo telhado. Respirou fundo.
Aos poucos, enquanto a chuva acalmava, os rostos e as esquinas tornavam-se perceptíveis. Pôde afastar-se da parede, pintada de cal, que lhe deixara o casaco com vestígios brancos, e ir para perto da estátua onde combinara.
Ela não chegava. Sentou-se de esplanada, pediu o inevitável café, acendeu o inevitável cigarro. Ao longe, sim, agora mais definida, uma guitarra portuguesa soava triste. Os seus lábios afastaram-se, deixaram escapar um sorriso. Sempre fora tão portuguesa, admitia, assumia a custo isso, mesmo com a sua vontade enorme de viajar, de ficar por lá, de emigrar. Gostava dos palcos pequenos das tascas onde se soltava a amargura. O fado sempre fôra o seu género de música preferido. E a sua vida acabava sempre por ser escrita de acordo com o que ouvia.
O sol vinha agora para secar as ruas e os corpos e ela, ainda sentada, dispôs-se a recebê-lo e virou-se com a cara para o sul, de onde vinham os raios com mais calor.
Ela não chegava. E ela, sentada, não queria esperar mais, então desceu. Novamente afogueada, descendo depressa, sem apreciar os edíficios que já conhecia de cor, o coração começou a bater acelerado e ela levou a palma da mão ao peito, com dor. Abrandou. Viu a luz ser reflectida dos muros, das casas e dos vidros, iluminava a rua sem vergonha de si mesmo, o sol, e aquecia-a, então tirou o sobretudo. Com o sobretudo na mão, continuou a caminhada e foi envolvida pelo Terreiro do Paço, atravessou a vastidão da Praça fria sentindo-se muito pequena, muito só, como uma semente perdida num celeiro imenso. As pessoas passavam por ela sem se perguntarem "Ela sofre?". Ela também passava por elas todas, muito auto-comiserativa, sem se ralar com a dor de cada um dos que se cruzavam com ela.
Tinha mais com que se preocupar, agora que tudo isto lhe estava a acontecer. O seu mundo desabava sobre si mesmo, que podia ela fazer senão angustiar-se consigo? Nenhum fado tinha sido escrito com pena do vizinho, era sempre de si próprio. E ela, ela assumia-o, era portuguesa e vivia como os poemas escritos ao sabor do vinho e da guitarra.
O Tejo resplandecia de claridade, via-se, lá para os lados do Ginjal, nascer um arco-íris, que parecia mais uma ponte sobre o rio, as sete cores, amarelo, laranja, vermelho, roxo, anil, azul, verde. Sentou-se no muro sobre o cais, olhava em volta e eram só homens da construção civil, tudo em obras, tudo em obras, tudo em obras.
Inspirou profundamente e deixou secar a alma molhada, o olhar fixado na outra margem, no vai-vem dos cacilheiros. Quando não tinha mais lágrimas, muito tempo depois, já era de noite, e as luzes de Natal estavam acesas atrás de si, desenhando rumos de alegria. Sentiu saudade da vida que antes tinha, no entanto sabendo que o que desejava realmente era um corpo que não se importasse de partilhar com ela o seu fado, que desejasse secar as suas lágrimas. Lembrou-se, numa tentativa bem sucedida de se animar, que não há muito tempo tinha sabido ser feliz, que tinha sabido escolher os destinatários das suas palavras, as mãos em que entrelaçava as suas, os olhos em que lia os pensamentos. Sorriu e levantou-se.
Saudade da sua família, de repente, pesando mais do que tudo, mais do que a árvore gigante que se erguia perante a cidade estupefacta, os carros, as gentes perfilando-se, eternas filas de espera, toda a vida à espera para que ela fosse sempre bem-acolhida, mas afinal sempre quiseram ultrapassá-la em tudo, "A inveja mata os sentimentos nobres que nunca chegaram a nascer".
Ela também, amizades condenadas logo à partida por estarem envenenadas de ciúmes e falsas honestidades.
Pôs as mãos nos bolsos do sobretudo, que entretanto vestira, e deixou-se ir na corrente de gente que andava sob as estrelas, sob as mangueiras de luz desenhando no ar objectos e cenas de uma felicidade imensa.
"O que não nos mata, torna-nos mais fortes", e ela ali estava viva, mais forte. Subiu até casa sem se cansar com a inclinação e a velocidade. Comprou uma dúzia de castanhas e pôs-se à janela, vendo o fim do rio ao longe, assistindo ao suceder da noite.
Já a cidade recolhia para finalmente adormecer, quando decidiu fechar a janela, sacudindo para o beiral restos das cascas. Ao longe, ela podia jurar, ouvia-se uma guitarra portuguesa que soava triste, embalando, cansada, as estrelas, as casas, o luar.
Chovia.
Tirou o guarda-chuva da mala e abriu-o sobre a cabeça, mas uma rajada de vento virou-o ao contrário. "Merda." Deitou o guarda-chuva fora e foi assim, com um pequeno salto, que desceu para a rua, evitando o passeio por onde a água escorria como se tratasse de uma levada. Desceu a calçada em passos apressados, em certas pedras da estrada os sapatos não tinham aderência e escorregavam. Para chegar à igreja tinha ainda que subir uma calçada idêntica, mas agora as águas da bátega vinham estrada a baixo e não pôde evitar molhar os sapatos, os pés, a alma. "Merda."
Quando chegou, ela ainda não estava. As mãos tremiam, reconhecia a importância daquela conversa nesse dia, em que chovia, em que o bêbedo estava à porta da sua casa, em que ela perdera o eléctrico e teve que vir a pé. Afogueada, sem saber se do calor, se da ansiedade, encostou-se a uma parede abrigada de S. Pedro por um longo telhado. Respirou fundo.
Aos poucos, enquanto a chuva acalmava, os rostos e as esquinas tornavam-se perceptíveis. Pôde afastar-se da parede, pintada de cal, que lhe deixara o casaco com vestígios brancos, e ir para perto da estátua onde combinara.
Ela não chegava. Sentou-se de esplanada, pediu o inevitável café, acendeu o inevitável cigarro. Ao longe, sim, agora mais definida, uma guitarra portuguesa soava triste. Os seus lábios afastaram-se, deixaram escapar um sorriso. Sempre fora tão portuguesa, admitia, assumia a custo isso, mesmo com a sua vontade enorme de viajar, de ficar por lá, de emigrar. Gostava dos palcos pequenos das tascas onde se soltava a amargura. O fado sempre fôra o seu género de música preferido. E a sua vida acabava sempre por ser escrita de acordo com o que ouvia.
O sol vinha agora para secar as ruas e os corpos e ela, ainda sentada, dispôs-se a recebê-lo e virou-se com a cara para o sul, de onde vinham os raios com mais calor.
Ela não chegava. E ela, sentada, não queria esperar mais, então desceu. Novamente afogueada, descendo depressa, sem apreciar os edíficios que já conhecia de cor, o coração começou a bater acelerado e ela levou a palma da mão ao peito, com dor. Abrandou. Viu a luz ser reflectida dos muros, das casas e dos vidros, iluminava a rua sem vergonha de si mesmo, o sol, e aquecia-a, então tirou o sobretudo. Com o sobretudo na mão, continuou a caminhada e foi envolvida pelo Terreiro do Paço, atravessou a vastidão da Praça fria sentindo-se muito pequena, muito só, como uma semente perdida num celeiro imenso. As pessoas passavam por ela sem se perguntarem "Ela sofre?". Ela também passava por elas todas, muito auto-comiserativa, sem se ralar com a dor de cada um dos que se cruzavam com ela.
Tinha mais com que se preocupar, agora que tudo isto lhe estava a acontecer. O seu mundo desabava sobre si mesmo, que podia ela fazer senão angustiar-se consigo? Nenhum fado tinha sido escrito com pena do vizinho, era sempre de si próprio. E ela, ela assumia-o, era portuguesa e vivia como os poemas escritos ao sabor do vinho e da guitarra.
O Tejo resplandecia de claridade, via-se, lá para os lados do Ginjal, nascer um arco-íris, que parecia mais uma ponte sobre o rio, as sete cores, amarelo, laranja, vermelho, roxo, anil, azul, verde. Sentou-se no muro sobre o cais, olhava em volta e eram só homens da construção civil, tudo em obras, tudo em obras, tudo em obras.
Inspirou profundamente e deixou secar a alma molhada, o olhar fixado na outra margem, no vai-vem dos cacilheiros. Quando não tinha mais lágrimas, muito tempo depois, já era de noite, e as luzes de Natal estavam acesas atrás de si, desenhando rumos de alegria. Sentiu saudade da vida que antes tinha, no entanto sabendo que o que desejava realmente era um corpo que não se importasse de partilhar com ela o seu fado, que desejasse secar as suas lágrimas. Lembrou-se, numa tentativa bem sucedida de se animar, que não há muito tempo tinha sabido ser feliz, que tinha sabido escolher os destinatários das suas palavras, as mãos em que entrelaçava as suas, os olhos em que lia os pensamentos. Sorriu e levantou-se.
Saudade da sua família, de repente, pesando mais do que tudo, mais do que a árvore gigante que se erguia perante a cidade estupefacta, os carros, as gentes perfilando-se, eternas filas de espera, toda a vida à espera para que ela fosse sempre bem-acolhida, mas afinal sempre quiseram ultrapassá-la em tudo, "A inveja mata os sentimentos nobres que nunca chegaram a nascer".
Ela também, amizades condenadas logo à partida por estarem envenenadas de ciúmes e falsas honestidades.
Pôs as mãos nos bolsos do sobretudo, que entretanto vestira, e deixou-se ir na corrente de gente que andava sob as estrelas, sob as mangueiras de luz desenhando no ar objectos e cenas de uma felicidade imensa.
"O que não nos mata, torna-nos mais fortes", e ela ali estava viva, mais forte. Subiu até casa sem se cansar com a inclinação e a velocidade. Comprou uma dúzia de castanhas e pôs-se à janela, vendo o fim do rio ao longe, assistindo ao suceder da noite.
Já a cidade recolhia para finalmente adormecer, quando decidiu fechar a janela, sacudindo para o beiral restos das cascas. Ao longe, ela podia jurar, ouvia-se uma guitarra portuguesa que soava triste, embalando, cansada, as estrelas, as casas, o luar.
22.11.05
Objectos detestáveis (apesar da sua utilidade)
21.11.05
TINDERSTICKS (Can we start again?)
So many times
I said that I love them
Looking over my shoulder at the door
So many times
I can't live without her
The wheel kept turning round
My feeling's changed
I went my own way
What can I say
To make you stay?
(...)
I did you wrong
But I'm sorry now
And I'll show you how
(...)
Can we start again?
So many times I said that I loved them
I'm ready now
But I'm ready now
Can we start again?
So many times
I can't live without her
The ache was more than I could bear
It's turning round
But in my dreams Can we start again?
They smother all over me I'm ready now
And I'm trying to explain Can we start again?
I said that I love them
Looking over my shoulder at the door
So many times
I can't live without her
The wheel kept turning round
My feeling's changed
I went my own way
What can I say
To make you stay?
(...)
I did you wrong
But I'm sorry now
And I'll show you how
(...)
Can we start again?
So many times I said that I loved them
I'm ready now
But I'm ready now
Can we start again?
So many times
I can't live without her
The ache was more than I could bear
It's turning round
But in my dreams Can we start again?
They smother all over me I'm ready now
And I'm trying to explain Can we start again?
14.11.05
Footprints
Se julgas que podemos ser um só, deixo as minhas marcas nos solos por onde passo para que as sigas. Não posso esperar por ti. Deixei-me ficar tempo demais e agora? agora estou livre e caminho sem saber onde acaba este trilho, dou passos pequenos na certeza do fim, cravo as minhas pegadas na lama, podes vê-las sob a tua sombra, vem, despacha-te. Quero partilhar o próximo túnel contigo, proteger-me da tempestade envolta em ti, cheia de ti, quero que escrevas comigo as páginas em branco que aí vêm. Podes vir, vem, porque estamos os dois sós com vontade de partilhar. Pressinto o teu medo, o teu zelo em arriscar tanto, mas nós não vamos para longe, podes voltar quando quiseres, sem laços nem mágoas, vem, tens tanta vida por usar, por gastar, o teu corpo vibra dentro de uma máscara fria e eu ofereço-te todos os meus pensamentos, toma, sem segredos a partir de agora, vem. Se te for suficiente isto, então segue-me, prometo que quando chegar ao lago, sento-me na margem, sem chorar, abraço as pernas para aquecer o resto do corpo e espero por ti. Vem porque o frio e a chuva teimam em não ir embora, vem porque está escuro e os dias são curtos e por onde eu vou não há luz. Vem.
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